Crise hídrica

RMC precisa de ao menos três ‘chuvaradas’ por mês para evitar rodízio ainda mais radical

O conjunto das quatro barragens que abastecem a RMC estava com nível de apenas 29%, ontem
O conjunto das quatro barragens que abastecem a RMC estava com nível de apenas 29%, ontem (Foto: Franklin de Freitas)

Há quem diga que a primeira coisa que a chuva apaga é a memória da seca. Numa situação como a que se encontra Curitiba e região metropolitana, contudo, é difícil desviar a atenção para a estiagem e os seus impactos. Até mesmo porque a chuva dos últimos dias na região representou pouco, muito pouco, em termos de amenizar a gravidade da crise hídrica que há mais de ano aflige o Paraná e especialmente a RMC.

Conforme a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), o consumo mensal de água na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) equivale a chuvas de 100 milímetros. Ao longo do mês de setembro, no entanto, o índice pluviométrico na capital paranaense foi de apenas 30 mm (sendo que a média histórica para o mês é de 124 mm). Considerando, ainda que entre o domingo (27) e o final da tarde de segunda-feira (28) foram um total de 27,4 mm de chuva na cidade, temos que seria necessário três ou quatro ‘chuvaradas’ iguais por mês, no mínimo, para garantir a manutenção do nível dos reservatórios e o abastecimento de água como está hoje, evitando a adoção de medidas mais drásticas até o retorno regular das chuvas.

“Estávamos com 36 dias praticamente sem chuva em Curitiba. Setembro era um mês que devia chover em torno de 130 mm, então não choveu um quarto do que deveria e ainda foi tudo concentrado. Seria melhor se tivesse chovido 10 milímetros três dias seguidos do que 30 mm em um dia”, afirma o diretor de Meio Ambiente e Ação Social da Sanepar, Julio Gonchorosky, ressaltando ainda que toda chuva é “bem vinda”, mas que a ocorrência mais recente pouco muda o quadro crítico que a RMC enfrenta.

“Por outro lado, a situação é tão difícil que se essa chuva elevar em 1% o nível do reservatório ou então se por alguns dias o nível do reservatório não baixar, já ficaremos felizes. Toda chuva é bem vinda, mas não muda nada do quadro”, complementa.

Ainda segundo Gonchorosky, a esperança é que no mês de outubro, quando costuma chover entre 120 e 130 mm, registre-se um índice pluviométrico equivalente a pelo menos 80% do esperado. Do contrário, há uma tendência do nível dos reservatórios que abastecem a RMC, ontem em 29%, recuar para 25%, o que inauguraria uma nova fase na crise hídrica. Por outro lado, o nível considerado bom seria de 60% e com a ocorrência normal de chuvas.

“Se outubro for seco também, há uma tendência do nível dos reservatórios cair a 25% e nós precisarmos ter o rodízio tipo ‘D’. Hoje estamos no ‘C’, com 36 por 36. No tipo ‘D’, vamos passar para um sistema de 48 por 24”, diz o diretor da Sanepar, apontando que, caso o nível dos reservatórios baixe ainda mais, os moradores de Curitiba e região poderão ter de se virar um dia com água e outros dois dias sem abastecimento.

A crise hídrica começou ainda em junho do ano passado e se acentuou a partir de março deste ano, quando o racionamento por meio do rodízio no abastecimento teve início na Grande Curitiba. O déficit de chuva desde o ano passado já era de mais de 600 mm no início deste mês.

“A perspectiva é que a seca não melhore tão cedo. Se espera pelo menos mais alguns meses com seca. Algumas medidas provavelmente serão tomadas quanto a isso”, complementa ainda o meteorologista Rodrigo Lins, do Simepar, informando também que as chuvas no ano estão 43% abaixo do esperado (a expectativa era de um índice pluviométrico de 1.041 milímetros entre janeiro e setembro, mas até aqui houve precipitação de apenas 597 mm).

Boletim contabiliza 1.450 afetados pelas chuvas

Boletim da Defesa Civil de Curitiba na tarde de ontem trazia um total de 1.450 pessoas afetadas pelas chuvas com ventos que atingiram a cidade entre a noite de domingo e ontem. No acumulado do período, foram 154 solicitações para retirada de árvores e galhos grandes que caíram (pode haver mais de um pedido para cada endereço), além de 209 registros de entrega de lona para locais que sofreram com destelhamentos.

A região norte da cidade concentrou a maior parte das ocorrências, com destaque para 27 bairros mais afetados: Santa Cândida, Boa Vista, Abranches, Barreirinha, Bairro Alto, Cajuru, Centro, Portão, Boqueirão, Pinheirinho, CIC, Bacacheri, Atuba, Uberaba, Pilarzinho, Guabirotuba, Batel, Ahu, São Lourenço, Juvevê, Cabral, Jardim Social, Cachoeira, Capão Raso, Capão da Imbuia, Santo Inácio e Tingui. Hoje, a previsão é de tempo encoberto, mas sem chuva.

Água

Alternativa

Depois da captação de água em cavas de Fazenda Rio Grande e de uma Pedreira em Campo Magro e da transposição do Rio Pequeno, a Sanepar anunciou que na próxima semana, no dia 6 (terça-feira), deve entrar em operação a transposição do Rio Miringuava Mirim, que vai levar 170 litros por segundo para o Rio Miringuava, passando por 2,7 quilômetros de tubulação.

A medida deve ajudar principalm,ente bairros da região Sul de Curitiba, como o Tatuquara, e municípios metropolitanos como Fazenda Rio Grande e São José dos Pinhais, que hoje não contam com abastecimento de água por meio de represas (a Barragem Miringuava, que suprirá essa lacuna, deve ficar pronta no começo do próximo ano).

“Vamos anunciar algumas obras maiores, estamos trabalhando e a próxima de maior volume será a transposição do duto da refinaria da Repar [em Araucária]”, disse Julio Gonchorosky, diretor de Meio Ambiente e Ação Social da Sanepar.