História de fim de ano

Seu Carlos, 85 anos, terá um Réveillon solitário na Rodoviária de Curitiba

Carlos Cunha \u201cmora\u201d h\u00e1 cerca de dois meses na rodovi\u00e1ria de Curitiba
Carlos Cunha \u201cmora\u201d h\u00e1 cerca de dois meses na rodovi\u00e1ria de Curitiba (Foto: Franklin de Freitas)

As vezes, é difícil dizer se é a ficção que imita a realidade ou se a realidade imita a ficção.

Há cerca de 15 anos, fez sucesso nas telonas o filme 'O Terminal', que conta a história de Viktor Navorski (interpretado por Tom Hanks), habitante do fictício país de Krakozhia. Enquanto viajava para os Estados Unidos, seu país sofre um golpe e o passaporte de Viktor perde validade, o que o obriga a viver por meses num aeroporto.

Hoje, a Rodoviária de Curitiba conta há alguns meses com uma “versão brasileira” de Viktor Navorski. Trata-se de Carlos Cunha, conhecido como o Seu Carlos, um senhor de 85 anos que há pelo menos dois meses vive no terminal rodoviário. A Fundação de Ação Social (FAS), a Guarda Municipal e até mesmo policiais militares já o abordaram e ofereceram acolhimento, mas ele rejeita e diz que não quer sair do local.

Procurado pela equipe de reportagem, Seu Carlos conversou ontem com o Bem Paraná. Geralmente arredio, segundo relatos de funcionários da FAS e da Rodoviária, ele foi simpático com a equipe e contou um pouco sobre sua vida.

“Minha história não vale a pena de ser contada. Errou, tem de pagar”, disse. Questionado se estava ali pagando por seus erros, ele confirmou, sem entrar em maiores detalhes. “Já tive casa de três, quatro quartos no Maracanã (Rio de Janeiro). Agora estou aqui, pagando pelos meus erros.”

Segundo Lúcia Muniz, funcionária de uma lanchonete na rodoviária e amiga de Seu Carlos, os “erros” ao qual o idoso se refere é ter largado tudo, se desfeito de todas as propriedades que tinha, após a morte do irmão e da esposa. Antes, ele trabalhava como garçom no Rio de Janeiro, onde nasceu e tinha uma vida tranquila.

“A mãe e o pai dele faleceram quando ele ainda era jovem. Em 1982, ele perdeu o irmão, que era o último familiar mais próximo que lhe restava. Em 1996, foi vez da esposa falecer. Então ele ficou desnorteado, vendeu tudo que tinha e se mudou para Portugal. Quando voltou, não tinha mais nada e desde então vive na rua”, conta Lúcia, que desde outubro ajuda Seu Carlos e o faz companhia diariamente – embora relate que já tinha o visto antes vivendo no local.

Com as mãos bastante machucadas após lutar para evitar que roubassem o carrinho da rodoviária em que carrega uma mala com os pertences que lhe restaram, Carlos conta que não pretende deixar a rodoviária. Segundo a FAS, ele chegou em Curitiba em março deste ano, vindo do Rio de Janeiro, onde vivia em situação de rua há pelo menos 10 anos. Chegou a ganhar passagem para São Paulo, onde alegava ter familiares, mas em maio voltou para a capital paranaense, que ele conta ser a cidade de que mais gosta. 

“Já viajei muito, até internacional, mas gosto mesmo é daqui e não pretendo mais ir embora”, diz ele, comentando ainda que “o pessoal daqui é educado e acolhedor.”

Desde sua chegada em Curitiba, a FAS relata já ter atendido o idoso 36 vezes, sendo 10 pela Equipe de Abordagem e 10 pela Casa da Acolhida e do Regresso, além de atendimentos em Centros Pop. Como ele rejeita ir para um abrigo, vai ficando na rodoviária, que já é sua casa e, no que depender dele, também o seu “último lugar”.

“Se eu pudesse fazer um último pedido, era morrer nesse banco”, afirma.