Sala de Aula

Tapar o sol com a peneira

Um Juiz da Suprema Corte americana já disse: “a luz do sol é o melhor detergente”. E seria surpreendente, não fosse o esperado, que muitos políticos apelem para todos os expedientes lícitos e, principalmente ilícitos, para obliterar tal recurso de aclaramento. Poderíamos até supor que não haver interesse em limpeza, em clareza, em nada que ponha em foco seus desmandos e maracutaias; mas infelizmente não é apenas suposição, em muitos casos é a pura verdade.

A vida empresarial brasileira, salvo as honrosas exceções de praxe, resvala neste despenhadeiro. Queixas são atribuídas  a “inimigos”, críticas não são ouvidas, sugestões as vezes preciosas são desprezadas pois só aquilo que o dirigente pensa e faz tem valor. Funcionários devem ser meros cumpridores de ordens, autonomia deve ser zero, aparentemente a desconfiança é generalizada; e então aprendem rápido que não fazer nada é a melhor forma de não errar, tornando-se exímios na arte de “tapar o sol com peneira”, uma das metáforas usuais em nosso idioma, que tem interpretações levemente distintas conforme o contexto em que é utilizada, mas que conhecemos desde crianças, e por isso de certa forma dominamos as nuances de seus significados. Ela significa desde tomar providências inúteis, esconder algo que inevitavelmente se revelará, dispender esforços que serão vãos, tentar iludir aos demais, até mentir sobre algo que não se deseja ser a verdade, ou seja, tentativas de negar o inegável como sinônimo de autoengano, e algumas pequenas variações em torno desse tema.

Isso é comum em nossa vida comunitária, pois embora saibamos a verdade sobre nós mesmos em privado, reconhecer publicamente alguns erros e tropeços não é simples, e temos tido aulas disso com nossos políticos e dirigentes.

É mais fácil crer que um remédio miraculoso nos livrará dos tormentos de uma pandemia, mesmo que seja para tratar doenças nem assemelhadas à que nos aflige, mesmo que seja recomendado por psicopatas sem a menor formação médica, mesmo que seja defendido por notórios áulicos profissionais – que aliás lucram com isso, apesar das mortes provocadas – mesmo que testes científicos provem o contrário. O que é a ciência diante da vontade do soberano?

Vamos assumindo opiniões que reforçam nossas teses iniciais, não vendo nada além do que desejamos enxergar, vamos nos omitindo de ações transformadoras, apesar de, desde Galileu Galilei sabermos que “a verdade é filha do tempo e não da autoridade, mas a dúvida é o começo da sabedoria”.

O pensamento único parece substituir cada vez mais a reflexão e o debate de ideias. Sabemos que o domínio da verdade não pertence a ninguém, nem a nós mesmos, mas que a ponderação em torno dos fatos e o bom senso podem nos aproximar dela tanto quanto possível; embora seja mais cômodo “empacar” como mulas dialéticas naquilo que tem aparência de verdade, e até na verdade que seja mais conveniente às ideologias de momento e aos grandes negócios de sempre. 

Tal teimosia pode ser quase inócua em questões corriqueiras, simples “birras” a ocupar o espaço da razão. Mas quando é prática costumeira de detentores de poder, cujas decisões e atitudes influem na vida e no comportamento de milhões de pessoas, torna-se algo criminoso e até genocida.

No conto infantil uma criança berrou que o rei estava nu, contrariando o próprio monarca que se dizia muito bem vestido e, principalmente, toda a população que assistia boquiaberta ao despropósito da nudez real e tentava se convencer de que não estava acontecendo o que, afinal, acontecia.

Nossos autoproclamados reis e nobres estão totalmente despidos, sabem perfeitamente disso e que sua nudez mais do que escandalosa é hedionda, mas é conveniente ao seu propósito.

Precisamos retornar à valorização da educação, gentileza e conhecimento como modelo de vida.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.