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Terremoto no México pode afetar eleição de 2018

SÓ PODE SER PUBLICADO COM ASSINATURA SYLVIA COLOMBO BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A força foi parecida. No dia 19 de setembro de 1985, um terremoto de magnitude 8 fez a terra tremer e deixou um grande rastro de destruição, especialmente na capital política e econômica do país, a Cidade do México. Entre 5.000 e 30 mil pessoas morreram (não há um levantamento mais exato), enquanto 3.000 edifícios foram seriamente danificados, e outros 800, totalmente destruídos. Tudo isso apenas alguns meses antes de o país sediar uma Copa do Mundo. "O terremoto de 1985 foi um drama vivido de forma nacional e internacional, um trauma com sequelas até hoje", disse à Folha o ex-Secretário de Relações Exteriores do país Jorge Castañeda. No último dia 8, outro terremoto, desta vez de magnitude 8,2, voltou a sacudir o chão sob os pés dos mexicanos. Desta vez, porém, o epicentro estava longe da capital e afetou áreas mais pobres e predominantemente rurais. Em vez de Copa do Mundo, o México vive agora um já tenso momento pré-eleitoral: em julho de 2018, será eleito o sucessor de Enrique Peña Nieto (o país veta reeleição). "Os dois terremotos ocorreram quando o PRI (Partido Revolucionário Institucional) estava no poder, mas as circunstâncias são diferentes. Em 1985, houve uma imensa desmoralização do então mandatário, Miguel de la Madrid (1982-88), que demorou a responder à tragédia, tentou diminuir o número de mortos e causou uma sensação de vazio que levou a sociedade civil a tomar as primeiras medidas para resgatar as vítimas", diz o cientista político Jean François Prud'Homme, do Colegio de Mexico. "Agora, Peña Nieto se encontra tão envolvido com outros problemas --como o aumento do número de homicídios e os escândalos de corrupção envolvendo funcionários da alta cúpula governamental-- que o terremoto, dependendo de como o presidente lidar com o problema, pode servir para resgatar algo de sua popularidade", completa o acadêmico. Segundo pesquisa do Pew Research Center (leia abaixo), a aprovação a Peña Nieto está em 28%, e o nível de insatisfação dos mexicanos com seu governo, em 85%. "Peña Nieto não viajou à zona do terremoto por causa das vítimas, e sim para que o país inteiro o veja em ação", diz Castañeda. ESQUERDA FORTALECIDA Segundo os analistas ouvidos, as duas situações têm algo em comum: o fortalecimento da esquerda. "Em 1985, o PRI ficou tão desmoralizado que teve de cometer fraudes cada vez mais evidentes para continuar vencendo eleições", diz o analista Alejandro Hope, do Wilson Center (EUA). "Isso fez com que um setor mais à esquerda deixasse o partido e fundasse o PRD [Partido da Revolução Democrática], sob a liderança de Cuauhtémoc Cárdenas", continua Hope. "Nas eleições de 1988, houve várias acusações de fraude, Cárdenas se proclamou vencedor, mas o PRI acabou sendo vitorioso oficialmente, com Carlos Salinas de Gortari. O PRI, então, não deixou o governo, mas sofreu um abalo que permaneceria até de fato ser derrotado [em 2000]." Agora, o cenário pré-eleitoral se encontra mais fragmentado. O PRI ainda não tem candidato e hesita entre alguns membros da cúpula de Peña Nieto, como o secretário da Fazenda, José Antonio Meade, ou o secretário de governo, Miguel Ángel Osorio Chong. Já o direitista PAN está dividido entre a ala tradicional do partido, que quer a candidatura da mulher do ex-presidente Felipe Calderón (2006-12), Margarita Zavala, e a ala jovem, representada pelo ex-líder da Câmara de Deputados, Ricardo Anaya. "A única certeza por ora é que Andrés Manuel López Obrador, que já estava adiante na corrida eleitoral, ganhará ainda mais votos nessas áreas mais pobres, onde ele já dominava", avalia Castañeda. "São regiões que nunca tiveram voz política, talvez a tragédia faça com que votem com mais firmeza, e esse voto deve favorecer López Obrador", afirma Hope. O veterano esquerdista, conhecido como AMLO (sigla com suas iniciais), já foi derrotado em 2006 e em 2012, e fundou sua própria força política, o Morena (Movimento de Regeneração Nacional), que vem liderando as pesquisas com seis a oito pontos de diferença, dependendo dos candidatos que o PRI e o PAN que apresentarem.
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