Era uma vez...

Uma costura entre a literatura e a moda

Renata Maia é estudiosa dos figurinos da vida real e de como os autores retratam seus personagens na literatura.
O Canto da Bicharada tem ilustração de Renata Maia.
Renata Maia é estudiosa dos figurinos da vida real e de como os autores retratam seus personagens na literatura.
Renata Maia é estudiosa dos figurinos da vida real e de como os autores retratam seus personagens na literatura. (Foto: Arquivo Pessoal)
O Canto da Bicharada tem ilustração de Renata Maia.
O Canto da Bicharada tem ilustração de Renata Maia. (Foto: Divulgação)

As roupas como expressão individual, mastambém como retrato de um tempo na História

 

Era uma vez... uma princesa que, querendo ir ao baile, foi tocada com a varinha de condão de sua fada madrinha e suas roupas foram transformadas em trajes de brocado de ouro e prata incrustados de pedrarias. Ela também ganhou um par de sapatinhos de vidro, os mais lindos do mundo.

Essa é a história de Cinderela, mas o vestuário e os acessórios dos contos de fadas poderiam descrever ricamente também Branca de Neve, a Bela Adormecida, Rapunzel ou Elsa e Anna.

Os trajes, além de enriquecer as histórias, revelam muito mais: apontam a influência do cenário econômico, social e político do período em que foram contadas e escritas. Assim, como acontece nos dias de hoje, a moda já expressava nas histórias infantis os hábitos e os costumes do momento.

A consultora de imagem e personal stylist Renata Maia é desde muito jovem uma observadora atenta dos figurinos da vida real e ainda de como os autores retratam seus personagens. “Quanto mais estudava sobre literatura, mais a ‘moda literária’ chamava minha atenção”, diz ela.

Renata é também especialista em contação de histórias, artista visual e escultora. Se dedica à pesquisa e à produção de conteúdo na área de ilustração em Literatura Infantil. Seu trabalho nos leva a entender o quanto a roupa se relaciona com a expressão individual de cada pessoa e com um tempo na História.

 

TD – Como começou seu interesse pela moda nas histórias infantis?

RM – Acredito que aconteceu naturalmente. Eu sempre gostei de moda, sempre fui muito observadora do comportamento e do modo como as pessoas se vestiam. Durante a faculdade eu ficava no terminal urbano e enquanto esperava pelo ônibus olhava as pessoas que passavam: a senhorinha com a alça da bolsa pendurada no pescoço porque era mais seguro de não ser assaltada; o menino com o agasalho da escola amarrado na cintura e a manga arrastando no chão, entretido em algo que o colega mostrava no celular; o motorista com óculos espelhado. E sempre assistia à séries e filmes somente por causa do figurino. Certa vez meu irmão me questionou por que estava vendo determinado filme e eu respondi que gostava de ver o figurino e a maneira como as pessoas se portavam. Quando fiz a especialização em Literatura Infantil, não foi diferente. Meu olhar sempre esteve atento ao vestuário dos personagens e à forma como os autores os representavam. Quanto mais estudava sobre literatura – e depois ao me tornar consultora de imagem –, mais a “moda literária” (se dá pra dizer assim) chamava minha atenção. Foi aí que comecei a relacionar as coisas, fazer os links e estudar com o foco voltado para os trajes dos personagens.

TD – O que o modo de vestir revela a respeito dos personagens da história?

RM – A roupa tem em si uma questão muito simbólica. Relaciona-se antes com a expressão individual de cada pessoa e, então, com a necessidade de proteção do corpo. Os címbrios, povos germânicos, andavam nus sobre a neve; e os fueguinos, da Patagônia, ao receberem cobertores vermelhos dados por Darwin em uma visita à região, cortaram os cobertores em tiras para transformá-las em adornos. Portanto, uma vestimenta pode dizer muito sobre um personagem, pode revelar seus interesses, caráter e até mesmo conceitos e ideias que o envolvam. Em “Barbazul” de Anabella López, a autora comenta que pesquisou elementos, cores e texturas para compor as indumentárias dos personagens. O intuito foi de transmitir uma ideia, um conceito sobre o personagem que ultrapassava as questões materiais da própria roupa. “O Casaco de Pupa” de Elena Ferrándiz é outro livro que aborda de maneira sensível e poética a questão da roupa como construção do eu, como expressão de nossas ações, reações e sentimentos desde a tenra idade. A roupa manifesta nossa percepção de mundo e como nos relacionamos com o outro e com nós mesmos.

TD – Os cenários econômico, social, político e cultural de uma época também são manifestados por meio das vestimentas narradas?

RM – As vestimentas estão muito atreladas ao seu contexto histórico. Basta pensarmos na época dos reis e rainhas, como a corte de Luís XIV, ou ainda nas roupas hippies dos anos 60. A produção têxtil sempre foi influenciada pelos aspectos culturais e que envolvem os cenários econômico, social e político de seu tempo. No século XV, por exemplo, somente a nobreza podia vestir vermelho e determinados tecidos e modelagens. Quem ousasse vestir a cor ou tecido/modelagem incompatível com seu nível social era punido. E alguns governos, como a Prússia e a França, fizeram com que as forças armadas de seus países usassem uniformes tingidos de uma determinada cor com o intuito de salvar sua produção nacional de pigmentos naturais. Assim, as vestimentas sempre estiveram intimamente ligadas aos acontecimentos do período em que vigoravam. E a indumentária das narrativas, assim como na vida real, está em acordo com a época em que essas narrativas se situam: se for na Idade Medieval as vestimentas narradas serão referentes a essa época; se a história acontece no século XXI a indumentária será desse século. Essa é uma forma de tornar a narrativa verossímil e localizá-la em seu espaço/tempo. Falando de literatura infantil, os textos têm cada vez mais tratado de assuntos atuais e urgentes. Como a cultura afro retratada nas princesas da autora Rachel Isadora, e o rompimento da barragem em Mariana ocorrido em 2015 e retratado no livro “Um dia, um rio” de Leo Cunha e André Neves. O autor Ian Falconer retrata, de forma primorosa, a contemporaneidade em seu livro “Olívia não quer ser princesa” ao tratar da moda e seus desdobramentos como o consumismo e a massificação.

TD – Quais exemplos, de que histórias, você poderia destacar?

RM – Há muitos livros que poderiam ser citados, mas vou destacar alguns.

Olívia não quer ser princesa – Ian Falconer – Nesse livro o autor apresenta um grande dilema da personagem Olívia que é querer manter sua individualidade diante da massificação da moda. Ao perceber que toda roupa de princesa é igual, Olívia inicia uma série de questionamentos sobre a individualidade e a identidade, apresentando inclusive personalidades como Channel (uma das mais importantes estilistas de moda do século XX) e Martha Graham (bailarina que revolucionou a dança moderna), além das indumentárias de princesas da Índia, Tailândia, África e China contrapondo a ideia consolidada no imaginário coletivo da “princesa-fada” vestida de cor de rosa.

Roupa de brincar – Eliandro Rocha e Elma – Nesse texto os autores trabalham com a roupa como a expressão da alma. Quando a colorida e divertida Tia Lúcia se depara com a morte do esposo, suas roupas se tornam pretas e tristes. Mas a sobrinha traz de volta a alegria e “resgata a alma” de tia Lúcia pintando desenhos coloridos sobre suas roupas pretas.

Menina amarrotada – Aline Abreu – A roupa é a expressão de quem nós somos e de como nos sentimos. E tanto no livro “Roupa de Brincar” como em “Menina amarrotada” o enredo trata do estado de espírito expressado pelas roupas. A autora conta que quando foi ilustrar desenhou em um papel amassado, mas o título do livro é “Menina amarrotada” e não amassada. Essa imagem do “amarrotado” faz referência à roupa e transmite a ideia de tristeza. Quando nos sentimos assim podemos ficar com uma aparência desleixada, revelando o nosso estado de espírito como no caso da personagem do livro que sentia a falta do pai.

TD – Qual a importância de se descrever uma roupa em um enredo? Essa descrição estimula a imaginação do leitor?

RM – A importância da descrição da roupa dependerá da intenção do texto. Sendo o texto verbal, essa descrição poderá auxiliar no entendimento da intenção do personagem em determinada circunstância, de seu caráter, da impressão causada a seus conviveres, da época em que o personagem vive, do entendimento de determinada situação, do ambiente em que está inserido. Porém, isso pode ocorrer também no texto imagético. Com a diferença de que na imagem, apesar de ser um texto “aberto” – em que a interpretação é mais livre do que no texto verbal – os elementos da roupa, no caso, já são dados como cor, forma, textura e outros detalhes. A descrição verbal é, na minha opinião, mais impulsionadora da imaginação que a descrição imagética quando pensamos no sentido de descrição – justamente pelo fato de que na imagem muitos elementos já estão dados. Quando descrevo verbalmente, posso dizer: “a blusa que ela vestia era azul” e o leitor irá imaginar o modelo de blusa e o tom de azul que quiser; mas quando mostro a imagem eu limito essas possibilidades. Entretanto, a imagem permite uma leitura mais “aberta” do enredo, dando muito espaço para a contribuição do leitor na narrativa. Isso não quer dizer que a descrição verbal é melhor ou pior que a imagética, quer dizer apenas que são diferentes e trazem estímulos diferentes à imaginação. Quando bem trabalhadas ambas as linguagens são poderosas para impulsionar o imaginário de qualquer leitor.

TD – As joias, o tipo de tecido, de linhas bordadas ou de contas usadas, por exemplo, ajudam em que medida a dar “visibilidade” ao traje?

RM – Depende. Claro que a descrição verbal do traje pode ajudar na construção imagética do personagem, quando este já não é representado por uma imagem. Mas quando o autor situa o ambiente, por exemplo um escritório ou uma vila de pescadores, ele pode, só pelo local, proporcionar elementos suficientes para a identificação do personagem. Até porque já relacionamos determinados ambientes a certos indivíduos e como se vestem. E quando o personagem não pertence ou não está vestido de acordo com determinado ambiente, aí sim, o autor acaba por descrever seus trajes. Em relação à “visibilidade” enquanto visualização da peça pelo leitor, isso dependerá de cada indivíduo e de seu repertório imagético. Algumas pessoas têm mais facilidade para “ver” o que é dito, outras nem tanto. Em qualquer uma das situações os detalhes descritos podem auxiliar nessa visualização. Entretanto, se a descrição for detalhada demais o que pode ocorrer é que não haverá espaço necessário para que o leitor crie a imagem mentalmente.

TD – As descrições dos trajes nos contos de fadas abrangiam igualmente personagens femininos e masculinos?

RM – Acredito que mais que a descrição, ao longo da história podemos ver a supervaloração da vestimenta feminina, em relação à masculina, sempre relacionado a um ideal de beleza que toda mulher deve alcançar para ser feliz ou bem-sucedida. No século XVIII, a vestimenta masculina era muito mais elaborada que a feminina. Houve ainda um período em que o vermelho/rosa eram cores utilizadas para os meninos porque representavam força e vigor, enquanto o azul, referente ao manto da virgem Maria, seria a cor das meninas, o que demonstra o quanto os conceitos foram modificados. Com o tempo, a vestimenta masculina foi ficando cada vez mais austera e sóbria; e cuidados excessivos com a imagem masculina não eram bem-vistos, pois o homem deveria se preocupar apenas com seu trabalho. Portanto, mesmo que haja uma descrição mais detalhada de um traje masculino ela sempre está atrelada ao poder ou à falta dele (como a roupa dos heróis). Normalmente, não nos atemos a esses conceitos por uma crença coletiva de que o traje masculino não é tão importante. Não que os homens não sintam a cobrança de sua aparência diante de determinadas situações, mas para a mulher, essa cobrança é proporcionalmente superior e a vestimenta feminina está sempre em julgamento até hoje.

TD – É possível dizer que as roupas ajudam a contar a história?

RM – Sim. A indumentária enriquece a história e pode, inclusive, ser personagem da narrativa. Em “O cachecol que sempre ficava mais comprido” de Klaus-Peter Wolf, Bettina Göschi e Maria Blazejovsky, o acessório de vestuário é o personagem que gera toda a problemática da narrativa; ainda que ele seja usado como metáfora. No conto “O sol e o vento” de Julia Alba e Taline Schubach, a disputa dos dois fenômenos naturais se dá em torno de um casaco. Quem conseguir fazer o dono do traje tirá-lo primeiro é o vencedor. Sem o casaco a história não faria sentido. Em “Bárbaro” de Renato Moriconi, a indumentária é fundamental, pois o texto é totalmente imagético. O autor relata que usou o clichê do que se entende por bárbaro com o propósito de comunicar rapidamente a mensagem sem margem para dúvidas – a fim de não prejudicar a narrativa. Se ele houvesse seguido à risca a indumentária de um verdadeiro bárbaro poderia correr o risco dos leitores não reconhecerem o personagem como tal. Portanto, foi fundamental que as roupas expressassem claramente quem ele era. No caso, um bárbaro.

TD – Suas pesquisas se voltaram mais aos contos de fadas?

RM – Minha pesquisa é voltada para a literatura infantil como um todo e não apenas aos contos de fadas, pois o objetivo é verificar como o vestuário, nas histórias infantis, transmite conceitos e ideias de um determinado personagem ou época. É possível verificar que os conceitos de moda construídos ao longo do tempo impactam a criança, apesar de sempre ter sido negligenciada em diferentes áreas, inclusive na moda. Os contos de fada, por exemplo, trazem a imagem da princesa do século XVIII, quando as mulheres são em sua grande maioria brancas e usam vestidos enormes. Até hoje essas referências são bastante fortes no imaginário infantil. Lembro do relato de uma professora que ao apresentar o livro “Rapunzel”, de Rachel Isadora, enfrentou forte resistência das crianças para aceitarem a princesa com características diferentes das “clássicas” mostradas na grande maioria dos livros infantis e nos filmes disneyanos. Atualmente podemos encontrar recursos para romper esses padrões, não apenas na literatura, mas no cinema e em diversos outros segmentos, respeitando a diversidade, as diferenças de corpos e a forma de se expressar de cada um. E como consultora, acredito que a consultoria de imagem é um desses recursos, uma poderosa ferramenta para desconstruir esses conceitos tão arraigados e resgatar o autorrespeito e a valorização da individualidade.

TD – Na sua opinião, a rica descrição de personagens a partir dos trajes ainda acontece atualmente pela narrativa verbal? Ou hoje essa descrição fica mais ao encargo da narrativa visual?

RM – Acredito que isso depende muito do estilo de escrita do autor. Entretanto, com os recursos tecnológicos que temos hoje, a narrativa visual ganhou grande destaque nas produções literárias, especialmente na literatura infantil. Isso acaba, naturalmente, por eliminar muito da descrição nas narrativas verbais. Não faz sentido dizer que um vestido é verde ao lado de uma ilustração do vestido verde, isso seria redundante e empobreceria a narrativa. Em “Rosalva, mãos de fada” de Celso Sisto e André Neves, há uma descrição verbal dos bordados e peças feitas por Rosalva, mas ainda assim é uma “descrição aberta” por assim dizer, que dá muito espaço para a imaginação do leitor e para o complemento das imagens de André Neves. Jutta Bauer em “O anjo da guarda do avô” revela a barbárie do regime nazista no traje de Samuel, amigo do avô na infância, e que traz em seu casaco a estrela de Davi amarela – obrigatória nas roupas dos judeus. A conclusão é que a descrição das vestimentas, seja verbal ou visual, deve ser o suficiente para auxiliar na compreensão do personagem e seu contexto, mas dando margem para o imaginário do leitor.

TD – Se de um lado a literatura nos chama a atenção para a moda, o caminho inverso também é realidade, eventualmente. O estilista Ronaldo Fraga já levou os escritores João Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade para as passarelas. Como você avalia isso?

RM – A literatura e a moda são áreas que se inter-relacionam. Especialmente se levarmos em consideração que a moda não está apenas no vestuário, mas se apresenta em tudo que é produzido pelo homem e consequentemente em sua história. Os desfiles de Ronaldo Fraga comprovam que moda e literatura tratam de narrativas, de construção de um enredo, de uma história. Ambas lidam com o tempo e, por isso, devem carregar a contemporaneidade em suas construções. Um exemplo de quanto isso é esperado é o desfile Outono-Inverno 2020-2021 da Dior, que trouxe a temática da mitologia grega com modelos brancas, magras e submissas – o que causou sérias críticas porque não condiz com o tempo em que vivemos e os conceitos sobre a mulher da atualidade. Já a literatura de Guimarães Rosa e Drummond são atemporais e conversam com a contemporaneidade – e foi um dos motivos da escolha para o tema dos desfiles, como colocado pelo próprio Ronaldo Fraga. 

 

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*Fonte de pesquisa para temas e entrevistas: Instituto Fatum.