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Livro

“Violência no Brasil é violência mesmo!”

O inferno que é viver em um presídio brasileiro não é nenhuma notícia nova para quem  esteve atrás das grades ou acompanha os lançamentos literários e cinematográficos nacionais dos últimos anos – vários foram os títulos nos dois suportes que se debruçaram e sobre esta cruel e amarga realidade.  Agora, esse (sub) mundo ganhou um olhar estrangeiro, do alemão Rodger Klingler, autor de Memórias do Submundo – Um Alemão Desde ao Inverno no Rio de Janeiro, da editora Best Seller. Klingler tem feito pessoalmente um “corpo a corpo” telefônico com a imprensa nacional, direto de sua terra natal, já que em uma tentativa de entrada no País para os trâmites do lançamento, há dois anos, foi barrado. Anos antes, no entanto, por Curitiba, entrou sem problemas, na única volta que fez ao país, onde passou 4 anos preso por porte de meio quilo de cocaína, apreendida numa tentativa de embarcar para a Alemanha, no início da década de 80. “Há três anos fiz um pedido para MInistro da Justiça e não tive respostas. Talvez agora, com a atenção ao livro, isso  facilite. Já cumpri minha pena, gostaria muito de poder voltar ao Brasil e não tive mais nenhum problema com a polícia”, garante.
Nas 380 páginas,  Klingler não se esquiva de tratar das questões que o levaram por este caminho e trata abertamente sem hipocrisia de temas delicados, como o consumo de drogas nas prisões, relações com  travestis, funcionários e ações policiais. Não há lamentos, nem o coitadismo de se dizer enganado e injustiçado. Ao contrário, suas palavras deixam claro que foi o fascínio de um jovem por um país que lhe despertava o gosto pela aventura e o desejo de ganhar dinheiro, as razões  que o levaram a este underground. Dos 19 aos 23 anos.

Há coisa um mês, ele ligou da Alemanha  para contar dessa empreitada e combinar o envio do livro. Passado um início de desconfiança, ficou a suspeita de que o interlocutor do outro lado do mundo tinha uma boa história, que valia uma reportagem. Confesso que comecei a ler o livro ainda certa de que seria “só” isso, uma boa história, sem contudo, a certeza de que o livro traria em si algum valor literário. E tem. E também potencial para cinema, como ele sonha. O estímulo para  o livro veio de uma das pessoas importantes que encontrou, o professor Arthur, que dava aulas no presídio. Klingler não queria uma biografia como estreia e na Alemanha  publicou Das Leben der Anderen ( A Vida dos Demais), em 2005.  Esta sua segunda obra, no entanto, não despertou o interesse das editoras conterrâneas. Ele diz que está ás voltas com o livro há uma década, mas o escreveu em 4 meses. “É uma história que não se esquece, tava toda na minha cabeça. Mas escrita, mesmo,  foi em  4 meses. Foi uma dureza começar  lembrar porque também é algo que não se quer lembrar”, diz.
Olhando hoje o período de prisão, ele confessa que foi definitivo para sua vida. “Parece loucura, mas foi o melhor que poderia acontecer. Senão ia acontecer mais tarde e seria pior. Assim, pode saber que não vou cair numa loucura dessas novamente”, avalia.  Klingler  está informado sobre a bibliografia disponível no Brasil sobre o assunto e não se intimida em afirmar que seu livro é melhor que o que deu origem ao filme Meu Nome não É Johnny, sobre a história de um jovem carioca classe média que virou traficante.  “Depois que assinei contrato com a Record fui ler sobre e estou convencido que o  que diferencia o meu livro é o ponto de vista das coisas. Como estrangeiro quero chamar a atenção para as condições dos presidiários brasileiros, que são desumanas, e o Brasil não merece isso”
Nas páginas escritas, nota-se um nada de rancor, nem tem espaço para arrependimentos. Claro que eles aconteceram, mas o olhar dele é de carinho, não julga nem presos, nem policiais. Nem vem com falso moralismo dos abatidos. Vê o que de bom havia mesmo nos piores momentos, nas chamadas “lumbras”, as invasões pela PM nos presídios, quando tudo era destrúido.  “Sempre procuro me apoiar na cabeça do outro para entender. Imagine um funcionário que ganha uma mixaria que não sustenta nem a família e é obrigado a fazer algo que não deveria fazer. Sabe, as coisas são assim, é lógico. E sempre fui bem tratado, por funcionários. Quando a PM entra numa lombra,  é um caso a parte, eles nem sabem o que tem lá, atiram em qualquer coisa que se mexa.  Do ponto de vista da polícia brasileira fazer assim é certo, porque violência no Brasil, é violência mesmo. Isso na Alemanha não conhecíamos. Se você assalta um banco, a polícia jamais vai atirar para matar, atira para ferir. No Brasil, atiram para matar”. Foi num desses “encontros” sombrios que ele viveu um dos momentos mais incríveis, quando o professor Arthur enfrentou um PM em defesa da escola. “Foi um momento de definição, nunca vou esquecer. Entra um policial negão, muito grande e partiu para cima. E esse Arthur, uma pessoa pequena, se pos na frente, cresceu a voz dele a ponto de não o reconhecer.  Só podia ser outra pessoa dentro dele que o fez gritar para o policial e o fazer parar. E realmente aquele policia tirou o chapéu para ele; pediu desculpas. Foi assim, esse professor mostrou que a força maior é amor”, lembra ele que há 3 anos perdeu contato com o professor, mas espera que a filha dele entre em contato, com a repercussão do livro. Outra expectativa é que sua história vá para o cinema. “Tenho o roteiro prontinho. Estou esperando um brasileiro ou brasileira, que faça isso. Não entendo porque até agora ninguém se manifestou. Acho que não conhecem o livro”.

Um momento absolutamente marcante no livro é a chegada de  Rodger Klingler no  presídio Lemos de Brito,  com Nelson, o preso que ao questionar o que ele, um alemão,  sabia do Brasil definiu explicou o país a partir do samba. “No tempo da escravidão as pessoas era tratadas como animais, punham-se ferros em  seus pés para que só pudessem dar passos muito pequenos.  (...) mesmo a noite não lhe tiravam os grilhões.  (...) apesar disso eram pessoas alegres (...) e dançavam do jeito que era possível – com os grilhões em volta do tornozelo. Você já olhou atentamente como é que se dança samba?”.  Talvez o encontro com pessoas com este olhar tenha ajudado a alimentar seu amor pelo Brasil, evitando que a decepção virasse ódio.
Os momentos cinematográficos vão alem. Como o encontro com o delegado que ainda tinha restos da cocaína pura apreendida nas narinas. E apenas metade do quilo que tentava levar para a Alemanha  estava nos autos. Ele tinha um plano detalhado, que foi barrado no aeroporto  naquele período de festas, do começo dos anos 80. O joven esteve no país anos antes e se encantou; tomou a decisão de voltar com dinheiro para comprar, direto na fonte, seu passaporte para uma vida boa. O plano era vender o quilo, bem mais caro do que pagou, em sua terra. “Inicialmente foi uma aventura. Vivia em outro mundo, eram outros costumes. O Brasil não tava ainda em destaque como hoje, que é uma força econômica”, situa.

Mesmo com a desventura, e toda violência, recebeu mais atenção do pessoal daqui do que de sua terra. As visitas do representante do consulado alemão não foram alentadoras, muito ao contrário. “Para eles eu  estava sujando a imagem da Alemanha. Por causa do Alois, meu amigo holandês, é que recebi a visita da Unicef por ser estrangeiro”, comenta.  Este foi outro personagem importante, que até o bancou numa fuga que não deu certo. Com ele perdeu contato  há 5 anos e acha que pode estar preso novamente.  O outro dos nomes fortes dessa história,é o Nelson, que tomou as rédeas e acabou com a própria vida, ainda na prisão.
Rodger é muito seguro na conversa. Quer voltar ao Brasil e não teme represálias.  “Foi exatamente o que aconteceu. Vinte anos se passaram, assumi meu erro e paguei minha conta. Quero ser um exemplo para que outras pessoas não incorram no mesmo erro. Fui muito sincero”.



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