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Marcos Juliano Ofenbock demonstra o esporte que criou; na outra imagem, emote vendido pelo game Fortnite (Fotos: Franklin de Freitas e Reprodução/YouTube)

Uma marca nascida em Curitiba está envolvida numa briga judicial contra uma empresa bilionária, que é uma das maiores produtoras do mundo dos games. Trata-se da marca Futsac, criado pelo empreendedor curitibano Marcos Juliano Ofenbock, que trava uma disputa contra a Epig Games, produtora responsável pelo jogo Fortnite. A ação, uma disputa sobre marcas que tramita no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), no Rio de Janeiro, ameaça a existência da Futsac, afirma Ofenbock (que é também o pesquisador que descobriu a história do Pirata Zulmiro).

O imbróglio, relata o empreendedor curitibano, teve início em julho de 2020. Na ocasião, amigos e conhecidos de Ofenbock que já sabiam sobre seu trabalho com a marca Futsac e o Futebol de Saco, começaram a entrar em contato o parabenizando por uma suposta parceria com o jogo Fortnite. É que o jogo da Epic Games, embora seja gratuito, oferece diversos itens cosméticos que podem ser comprados com dinheiro real. E um dos itens que começou a ser vendido naquela ocasião era um emote (um gesto ou animação para o avatar do jogo) chamado justamente Futsac, vendido por 200 V-Bucks (moeda do jogo, que em reais seria o equivalente, hoje, a R$ 6,40, considerando que 1.000 V-Bucks são vendidas por R$ 31,99).

“Meus amigos começaram a mandar ‘porra, Marcos! Mandou bem, cara. Licenciou o teu esporte com o Fortnite’. E eu ‘como que licenciei? Não aconteceu nada’ e os caras ‘tá bombando aqui, estão lançando na loja’. Fui ver, e os caras lançaram um item que era vendido por 200 V-Bucks, o equivalente a um dólar na época. Lançaram com o nome Futsac, igual minha marca”, relata Ofenbock.

Futebol de saco e a marca Futsac

O Futsac, afirma o empreendedor, foi um termo criado por ele próprio em 2002 e que mais tarde virou uma marca, inclusive com a concessão de patente pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) em 2017. Sua criação se deu com o intuito de Ofenbock explorar o esporte que havia desenvolvido no Brasil, especialmente em Curitiba e no Paraná: o Futebol de Saco.

O jogo é uma mistura de futebol, futevôlei e tênis, praticada em quadra com rede e criada a partir da experiência que o curitibano teve em 1998, na Austrália, com um outro esporte, o footbag. Foi reconhecido oficialmente pelo Ministério do Esporte em 2014, sendo ainda declarado o primeiro esporte curitibano e paranaense pela Câmara Municipal de Curitiba (CMC) e pelo Governo do Paraná, em 2016.

“Fiz intercâmbio na Austrália e um colega de quarto, que era da Nova Zelândia, me apresentou o footbag. Ele tirou um saquinho pequenininho, menor que as nossas bolinhas atuais, e ficou chutando. Achei um tesão aquilo e trouxe para cá. Só que lá fora a pessoa joga sozinha, batendo a bolinha. Eu comecei a jogar em círculo e brincar com outras pessoas, até que em 2007, 2008, comecei a pensar numa versão mais competitiva. Começamos a pegar uma rede com panos e ficávamos brincando, eu e o meu irmão, no final do dia, numa época em que eu tinha um restaurante no Centro.”

A partir dessa procura por uma forma mais competitiva de se brincar com a bolinha de saco acabou surgindo o Futebol de Saco como esporte, uma modalidade que hoje reúne cerca de 200 praticantes em todo o Brasil e conta até mesmo com uma confederação brasileira própria.

E Ofenbock, para poder explorar comercialmente a sua criação esportiva, criou a marca Futsac, através da qual comercializa as bolinhas oficiais do esporte, que pesam cerca de 50 gramas e são recheadas por um material elástico chamado suplex, com um acabamento em crochê.

Impacto social e ambiental através de um esporte e uma marca 100% curitibanos

Para confeccionar as bolinhas de futsac, Ofenbock começou a utilizar material reciclável. Segundo ele, cada bolinha produzida equivale a uma garrafa pet reciclada. Além disso, também fechou uma parceria com a Associação Curitibana de Crochê, que no seu auge teve cerca de 167 mulheres de baixa rende produzindo as bolas de Futsac – e sendo pagas por isso, num trabalho que garantia um importante complemento de renda a diversas famílias. Com o advento da pandemia, no entanto, a demanda acabou caindo, ao ponto de até recentemente haver cerca de 10 mulheres trabalhando na confecção das bolinhas. Uma produção, contudo, que acabou sendo paralisada por conta da disputa judicial coma Epic Games.

“O Futsac, no ano passado, estava prestes a bombar de novo. Um investidor, que já tinha investido no Pirata Zulmiro, viu o projeto e disse que queria investir no negócio. Só que daí veio a ação da Epic Games e travou tudo”, lamenta o empreendedor.

A disputa judicial entre Futsac e Epic Games

Desde julho de 2020, o emote (ou gesto) do Futsac foi comercializado em pelo menos 29 vezes dentro do game Fortnite, a última delas em outubro de 2023. E a empresa bilionária do mundo dos games foi notificada sobre o uso indevido da marca curitibana em junho de 2021, tendo comercializado, segundo Ofenbock, a sua marca Futsac de maneira irregular em 18 ocasiões depois dessa primeira notificação.

Ao buscar uma resposta e, talvez, algum tipo de reparação por parte da gigante produtora, recebeu como resposta da Epic Games que Futsac era uma modalidade esportiva criada em algum momento da década de 1970, nos Estados Unidos, com o nome de futebol de saco. Como se trataria, então, de um termo de uso comum, uma expressão descritiva amplamente utilizada e que, portanto, não poderia ser apropriada de forma exclusiva, alega a empresa estadunidense.

Só que além de recusar um acordo, a dona do Fortnite foi além: entrou com uma ação contra a marca Futsac, para tentar invalidar os registros da mesma no INPI. Liminarmente, a Justiça Federal do Rio de Janeiro chegou a derrubar os registros da marca, uma decisão que acabou revertida mais tarde, após uma primeira audiência sobre o caso. O processo envolvendo a disputa pela marca Futsac, no entanto, segue correndo.

“E nós quisemos agora tornar público isso, mostrar o que está acontecendo para a opinião pública julgar”, finaliza Ofenbock.