
Os sebos de Curitiba, assim como quase todos os segmentos do comércio, viram as vendas despencarem com a pandemia do novo coronavírus. E depois de serem obrigados a se reinventar para não ‘morrer’, apelando para as vendas online nos períodos mais críticos da pandemia, a boa notícia é que o setor finalmente está alcançando alguma estabilidade, com as lojas de livros usados voltando a ter uma movimentação que recorda os tempos de normalidade na capital paranaense.
Para quem é ou já foi ‘rato de sebo’, uma caminhada pela região central da capital paranaense ajuda a dar uma dimensão dos impactos que a crise sanitária trouxe para o setor. “Alguns sebos fecharam, outros trocaram de dono pela questão financeira ou mudaram de ponto por causa do aluguel. Foi tudo decorrente da pandemia”, comenta Marina Barboza da Silva, gerente do Sebo Novo, relatando que as vendas (mesmo pela internet) caíram bastante em 2020 e 2021 e demoraram para voltar a crescer.
“Em Curitiba, diminuiu bastante o número de sebos”, constata ainda Simone Campos de Oliveira, gerente comercial do Sebo Kapricho, afirmando que as vendas pela internet foram o que ajudou a salvar muitas empresas. “Se fosse para depender da venda das lojas [físicas, durante o auge da pandemia], não saberíamos o que fazer. Nós tivemos a sorte de estar preparados para esse momento, para a gente foi uma salvação”, complementa ainda e
Depois da tormenta…
Depois da tempestade vem a bonança. Ou pelo menos a calmaria. É que depois de enfrentar momentos turbulentos nos últimos anos, finalmente o mercado de livros usados registra uma retomada. No Sebo Kapricho, por exemplo, as vendas online seguem melhores que as vendas na loja, que voltaram a crescer mais recentemente.
“Temos site próprio e estamos em todas as plataformas que vendem livro hoje. Isso foi um facilitador, ajudou a segurar as pontas para as vendas da loja, que voltaram a acontecer agora. Agora que as pessoas estão querendo mais sair, não tendo tanto medo, o movimento na loja começou a melhorar”, diz Simone de Oliveira, comentando ainda que a venda de figurinhas da Copa do Mundo 2022 tem ajudado nessa retomada. “As figurinhas agitam demais as coisas. As pessoas vêm pegar pacotinho, já visitam a loja e isso dá uma animada. Não é raro, inclusive, alguém vir comprar figurinha e já acabar levando algum livro”, relata.
Já Marina Barboza explica que logo no comecinho deste ano foi possível sentir um aumento na demanda, com a volta das aulas. As férias de junho, no entanto, não tiveram a mesma venda de sempre. “Ano que vem esperamos que seja a mesma coisa. As vendas estão retornando ao normal e esperamos que no ano que vem tenhamos um movimento bom no meio do ano, férias escolares”.
‘Os livros não vão sair de moda e o sebo é onde se encontra a história’
Desde o surgimento dos primeiros leitores digitais, há mais de uma década, existe uma discussão sobre a possibilidade dos livros físicos virem a acabar – e, consequentemente, de sebos e livrarias deixarem de existir na forma como os conhecemos hoje. Aos adeptos dessa tese apocalíptica, contudo, Marina Barboza tem uma resposta enfática: “Os livros não vão sair de moda, e isso faz muita diferença. E o sebo é onde se encontra a história, até porque há muitos livros que já não se encontra mais em livrarias”, afirma a gerente do Sebo Novo.
A ênfase dela se reflete ainda na confiança de Simone de Oliveira acerca do futuro. “Estamos confiantes. O movimento tem aumentado, o material tem chegado. É um acervo sempre em mudança. Se você vir aqui adqui 15 dias já vai ter mudado muito. Temos muita esperança de vida longa”, afirma a gerente comercial do Sebo Kapricho, explicando ainda que, para um sebo, é muito difícil ter apenas uma loja virtual, sem uma loja física.
“O problema em ter a loja só online é a questão do material. Com a loja física, o material está sempre entrando. Tendo só a loja online, não sei até que ponto vai aumentar esse acervo. As portas são onde chegam material, pelo menos aqui pra gente é o carro-chefe, o que mais faz girar o acervo”, aponta.
RÁPIDA:
Livros ainda são o carro-chefe
Em sebo é possível encontrar de tudo. Figurinhas de Copa do Mundo, brinquedos e itens colecionáveis, CDs, DVDs, discos de vinil (LPs)… Mas os livros ainda são o carro-chefe, afirma Simone de Oliveira. “Tem muita procura por CD, DVD, disco, mas o livro é imbatível. O que mais procuram é literatura, romance romântico mesmo, romance policial… Gibi também sai muito, o pessoal gosta demais e o pessoal está sempre fazendo garimpo. Mangá também é uma coisa incrível, teve um boom na procura”, comenta ela, comemorando ainda que o público das lojas de livros usados está se renovando. “Tem de tudo, desde recém-nascido até clientes com 90 anos. Tem criança que vem com os pais, que já estão mostrando para ela o caminho da leitura, e temos muitos clientes de 90 anos. Tenho um cliente que me liga, eu preparo a sacolinha dela, que já não tem condições de vir aqui, e o filho passa para pegar o pedido dela, trocar livros”, relata.
História
Por que sebo?
Por que as lojas de livros usados são chamadas de sebos? Em Portugal, por exemplo, esses lugares recebem um nome bem diferente: livraria alfarrabista. Mas a verdade é que não existe uma resposta exata para explicar o nome que se popularizou pelo Brasil.
As versões para essa história são duas: uma diz que antigamente as pessoas liam à luz de velas que, quando derretidas, engorduravam os livros. A outra, mais simples e mais aceita, aponta que o termo teria surgido como uma brincadeira por causa da ideia de que livros muito manuseados ficam com gordura, sujos.
No Brasil, inclusive, Eurico Bradão Jr., herdeiro do Sebo Bradão, criado no Recife há mais de 60 anos, é um dos defensores da segunda versão, afirmando ainda que o primeiro livreiro no país a usar o termo “sebo” foi seu pai e que os estrangeiros o chamavam de “Mr. Sebo”, porque achavam que esse era realmente seu nome.