
“A verdadeira viagem da descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. A frase é do escritor francês Marcel Proust, mas bem que poderia ser da Dr. Grace Augustine, personagem interpretada por Sigourney Weaver em Avatar. A aventura idealizada por James Cameron que levou nada menos de doze anos para sair do papel e se transformar em realidade surge não apenas como um marco tecnológico na história do cinema, mas conquista o seu espaço entre as grandes produções deste novo século.
Cameron era um simples motorista de caminhão quando na década de 70 um sonho ousado de outro visionário mudou a sua trajetória para sempre. Ao entrar num cinema e assistir Star Wars: Episódio 4 – Uma Nova Esperança decidiu que a ficção científica e aqueles mundos imaginários fariam parte de sua vida. Dali em diante, a admiração virou obsessão e o cinema transformou-se na ferramenta para dar vida a sucessos como Aliens – O Resgate, O Exterminador do Futuro, O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, O Segredo do Abismo, True Lies e a maior bilheteria da história do cinema – Titanic.
Com um currículo como esse o diretor bem que poderia se aposentar tendo a certeza de que seu nome estaria inscrito para sempre na história do cinema. No entanto, Cameron optou pelo caminho menos óbvio e mais ousado: decidiu reescrever essa história e apontar o caminho para o que virá na próxima década. Assim nasceu o mundo de Avatar, uma produção tão grandiosa quanto o seu astronômico orçamento que, segundo especulações, pode ter chegado à marca de US$ 400 milhões.
Nada disso faria sentido se Avatar fosse apenas um show pirotécnico de efeitos especiais com uma história vazia e sem conteúdo. Por mais que o currículo de Cameron apontasse para mais uma produção de qualidade – afinal regularidade é uma das marcas de sua carreira – muitos torceram o nariz e imaginaram que a nova produção seria apenas um palco para uma exibição de imagens computadorizadas de alta qualidade projetadas a esmo em três dimensões numa tela gigantesca.
Como aquele sonho mais desejado, Avatar representa a realização máxima do diretor. Aos 55 anos, Cameron pode comemorar o resultado de sua obsessão pela invenção de novas tecnologias que tornassem possível as filmagens à maneira como idealizou. E pode se consagrar não só como o rei do cinema desta década, mas como Deus do seu próprio mundo, o planeta Pandora onde toda a ação do filme se desenvolve.
Em Avatar acompanhamos a trajetória de Jake Sully (Sam Worthington), um cabo do exército portador de deficiência motora, que com a morte do irmão é convidado a assumir o seu lugar em uma missão de exploração no planeta Pandora. Com uma atmosfera hostil à respiração do ser humano, para que seja possível locomover-se nesse ambiente os humanos criam os avatares, um híbrido de terráqueos com na’vis – os habitantes do planeta – controlados por projeção de consciência. Com uma vida dupla, Jake ganha a missão de se infiltrar aos na’vis e aprender a sua cultura de forma a dar informações ao exército para que possa explorar um rico minério localizado em uma área sagrada para esta população.
Sua incursão em meio aos nativos acaba se transformando em uma jornada de redenção. A simplicidade da história é apenas um tímido alicerce para dar vazão a algumas metáforas e ideais do diretor. Se por um lado a invasão do planeta se assemelha a colonização do Oeste americano, ou mesmo da nossa América, com a apropriação indevida de território e o massacre cultural ocorrido com os indígenas séculos atrás, da mesma forma a forma como os na’vis vêem e interagem com a natureza levanta uma séria mensagem de reflexão acerca do que nós mesmos estamos fazendo com o nosso planeta, sem nos darmos conta de onde estão as nossas próprias riquezas.
Ironicamente a imersão na história que a produção de Cameron nos proporciona faz com que nós, humanos, vejamos o mundo pelos olhos dos nativos. E é olhando “de fora” o problema, ou do ponto de vista deles, que percebemos os nossos próprios erros de conduta e a maneira obsessiva e doentia de dar continuidade a uma exploração desenfreada dos nossos próprios recursos naturais. É como se estivéssemos vivenciando de maneira mais intensa um filme como A Missão, onde o choque cultural e os valores díspares ficam tão evidentes e nos colocam envergonhados diante do que valorizamos.
De maneira inteligente, Avatar cria um mundo de Pandora com beleza exuberante. Pandora é uma floresta biofluorescente, com plantas multicoloridas com brilho de néon e um aspecto que, além de saltar aos olhos, parece exalar vida a cada quadro. Tal qual a riqueza da nossa floresta isso é colocado em segundo plano diante da possibilidade de riquezas fáceis vislumbrada pelos seres humanos.
Com elementos de computação gráfica capazes de colocar qualquer outra grande produção de joelhos perante o seu reinado, Avatar apresenta personagens em CGI extremamente bem concebidos e verossímeis. Não fosse dessa maneira, seria doloroso e forçado fazer com que o espectador se colocasse ao lado do povo Na’vi. Porém, ao contrário, a experiência é saborosa de tal forma que, mesmo após a projeção, torna-se quase que irresistível a vontade de voltar para aquele mundo onde tudo parece perfeito e harmônico.
Com uma projeção de pouco mais de duas horas e meia em momento algum, mesmo no início onde a história se desenvolve em um ritmo menos acelerado, Avatar se torna cansativo, monótono ou recai em elementos redundantes. A história apresenta arcos narrativos muito bem definidos e segue uma linearidade acessível ao grande público e satisfatória para os mais exigentes, culminando com uma cena de batalha nos trinta minutos finais de deixar qualquer um simplesmente sem fôlego.
Aliás, esta última meia hora é memorável não só imageticamente como de maneira simbólica. A destruição do principal e mais imponente patrimônio Na’vi com um bombardeio justificado pela premissa obtusa de que “o terror deve ser combatido com o terror” serve não somente como uma crítica a política belicista adotada de longa data pelo governo norte-americano como também nos remete ao fatídico 11 de setembro, com a queda do World Trade Center num atentado em Nova York.
À sua maneira Cameron reúne em Avatar um apanhado de elementos que já foram abordados isoladamente em diversas outras produções e reúne-os em uma perfeita alegoria de transformação do ser humano graças ao resgate de suas origens e a contemplação de sua essência. Chega a ser poético pensar que a revolução do cinema anunciada por Avatar, assim como o efeito 3D, esteja nos nossos próprios olhos. A resposta está na maneira como vemos o mundo – ou como poderíamos vê-lo se outras riquezas fúteis não insistissem em nos cegar.
Avatar conquista com méritos um lugar cativo na história do cinema como a melhor produção de 2009 e, sem sombra de dúvidas, um dos cinco mais importantes filmes dessa década. Valeu a pena esperar. Se James Cameron tinha em mente transformar Avatar em um sonho coletivo que pudesse ser sonhado com olhos bem abertos em uma sala escura de cinema seu objetivo foi alcançado. Assistir Avatar em três dimensões é uma experiência única e transformadora em que o espectador é presenteado com imagens que, dificilmente, sairão de sua mente por um bom tempo. Esperamos que a sua mensagem também não se perca. Simplesmente uma obra de arte memorável.
Nota 10.
Confira um especial do Portal de Cinema sobre o filme Avatar.
Confira um especial do Baixaki sobre as novas tecnologias do filme Avatar.