Guantánamo, o último desafio para Obama

14/12/16 às 13:58

A promessa de fechar a Base Naval de Guatánamo foi feita por Barack Obama logo ao início de seu 1º mandato à frente da Casa Branca em 2009. Agora, com menos de um mês restando para o encerramento do 2º mandato, às vésperas de entregar a presidência para um troglodita chamado Donald Trump, os 59 detentos que lá permanecem sem culpa formada e sem direito sequer a um julgamento justo, são o retrato fiel do inevitável reconhecimento de um fracasso cujas consequências são péssimas não apenas para quem lá permanece.

Esta é uma história que remonta a 1903 nos governos de Theodore Roosevelt e Tomás Estrada Palma. O apoio norte-americano na guerra contra a Espanha viu-se premiado, graças à Emenda Platt, pela cessão de uma área de 117 km2 no extremo oriental da província cubana de Guantánamo, em frente ao Haiti. O território, destinado a uma Base Naval, entrou num limbo jurídico por ser de propriedade cubana com jurisdição pelos Estados Unidos que paga um aluguel anual, hoje cotado em US$ 4,085 que desde 1959 Fidel nunca quis receber. O dinheiro é depositado em uma conta bancária e lá permanece até ser devolvido aos cofres do tesouro em Washington. No marco da recente reaproximação entre os dois países, Raúl Castro teve duas reivindicações não atendidas: o fim do embargo econômico e a devolução de Guantánamo. Obama comprometeu-se a fechar as portas da prisão em que George W. Bush transformou a base em 2002, mas nunca disse que devolveria a área a Cuba.
Ao longo desses 14 anos um total de 780 prisioneiros, carimbados como terroristas pelo governo norte-americano, transitaram pelo centro de tortura, sem nunca serem submetidos a julgamento. A maioria foi transferida s outros países por Bush. Dos 242 que restaram como herança para Obama, 5 morreram no cárcere. Dos demais, cerca de 60% são iemenitas e 40% principalmente afegãos, chineses, argelinos e sírios. Para Dick Cheney, vice de Bush, Guantánamo deveria receber os piores dentre os piores, mas na realidade muitos foram capturados apenas por estarem no lugar errado no momento errado. Um exemplo é Mohamedou Ould Slahi da Mauritânia, autor do best seller Diário de Guantánamo, que aderiu às milícias talebãs quando da resistência afegã - apoiada pelos Estados Unidos - à ocupação soviética. Preso em 2001 pela polícia de seu país a pedido da CIA e inicialmente encaminhado a prisões na Jordânia e Arábia Saudita, afinal foi para a Base Naval americana em Cuba onde ficou, barbaramente torturado, por onze anos. A principal razão para que Guantánamo permaneça aberta é a feroz resistência do Congresso republicano, que impede a transferência dos presos para outras prisões em território americano, o que obriga o governo a contar com a boa vontade, até agora, de trinta outras nações que se dispuseram a receber a conta gotas cotas de prisioneiros. Na mais recente liberação, no início deste mês de dezembro, dez iemenitas que não podiam voltar a seu país por causa da guerra local, foram absorvidos por Omã. Outros, também este ano, dirigiram-se a Gana, Sérvia, Montenegro, Itália, Arábia Saudita, Senegal, Kuwait e dois anos atrás ao Uruguai de Pepe Mujica que concedeu asilo a outros seis.
Dos que permanecem, 46 são considerados de alta periculosidade e não podem ser libertados, devendo ser encaminhados a prisões de segurança máxima dentro do território americano. Uma vez que os republicanos, em maioria no Parlamento, seguem em oposição frontal a tal hipótese, Guantánamo deverá permanecer aberta durante a gestão de Donald Trump que pretende começar tudo de novo, disposto a enchê-la "with some bad dudes" (com alguns maus almofadinhas), o que poderia incluir até mesmo eventuais terroristas americanos.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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