O Estado não é solução

06/09/17 às 00:00 - Atualizado às 22:11 Hélio Duque

O Brasil é um país capturado por uma elite econômica, política e uma casta burocrática (nos três poderes) que acredita que o povo é o problema e o Estado a solução. Ignoram o ensinamento do historiador britânico Eric Hobsbawn; no livro “Era dos Extremos”: “O futuro não pode ser uma continuidade do passado”. O debate público é dissociado do pensamento médio da população, conseguindo moldar a opinião pública, ao invés do enfrentamento da realidade injusta, à manutenção de uma percepção privilegiadora dos seus interesses. Os fatos da realidade vivente pelas pessoas são ignorados e em seu lugar essa elite política e econômica e a casta burocrática impõem e ampliam o seu poder controlando a estrutura do Estado, ignorando a modernidade. Resistindo e combatendo qualquer reforma que rompa com os privilégios do passado.
No Brasil não há segmento na sociedade que se oponha a reformas do Estado. O problema é que quando elas enfocam os interesses corporativos, classistas e pessoais a resistência e o combate feroz se estabelecem. Reformar tudo bem, desde que os meus interesses não integrem essa agenda. Essa percepção mobiliza setores e a opinião pública, atropelam a realidade da urgência das reformas, alegando retrocesso nas suas prerrogativas políticas, de um lado e do outro, a casta burocrática alega perda de direitos conquistados.
A sólida aliança, aliada aos integrantes da área política, enxerga o Estado como grande provedor. Formam uma coalisão poderosa com metas e interesses comuns. Saquear as finanças públicas, transformando o Estado em transferidor de benefícios econômicos, com leis, projetos, reinvindicações classistas, perdão de dívidas, são garantidos a esse conglomerado bucaneiro. Advogam o aumento dos investimentos públicos em setores não prioritários para o desenvolvimento da economia brasileira. Sem investimento produtivo na infraestrutura, as receitas públicas ficam garroteadas. Pela razão direta do crescimento das despesas sem a contrapartida do aumento da arrecadação.
Nisso reside o déficit fiscal decorrente do saqueamento do Estado pela aliança dessa coalisão que vem colocando os seus objetivos imediatos acima dos interesses nacionais. A conta do desastre é sempre debitada nas costas da sociedade, onde a grande vítima são os brasileiros. O empresário produtivo e gerador de empregos e renda é vitimado por uma carga tributária escorchante, a maior do mundo entre os países em vias de desenvolvimento. Os assalariados de classe média e os trabalhadores arcam com a conta do desajuste econômico.
As diferentes corporações detêm, no Brasil contemporâneo, um poder absoluto. E os seus privilégios se multiplicam pelo indiscutível apoio que a maioria dos políticos brasileiros lhes assegura. No Congresso, mais importante do que falsificadas siglas partidárias, são as bancadas representativas dessas corporações. E o objetivo é garantir vantagens econômicas para os seus segmentos, onde a conta é do Tesouro Nacional.
O clientelismo e o patrimonialismo transformaram o Estado, pela ação política, em grande provedor de vantagens. A origem está nas campanhas políticas caras e vazias, onde não se discute programas e propostas. No Brasil quem ganha eleição é “marqueteiro”.
Em 2018 os brasileiros terão oportunidade, ou não, de mudar essa realidade. Conscientes de que o Estado não é solução, é instrumento para administrar o bem comum. Votando para revitalizar a democracia e fazendo do combate à corrupção bandeira permanente e inegociável.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991)

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