Querida ou doutora?

18/09/17 às 00:00 Adriane Werner | contato@adrianewerner.com.br

Na semana que passou, em meio a tantas polêmicas, escândalos políticos, noticiário agitado, um detalhe que poderia ter passado despercebido chamou a atenção e ganhou espaço desmedido na Imprensa e nas redes sociais – o fato de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter se dirigido à procuradora da República Isabel Cristina Groba Vieira chamando-a de “querida”, durante depoimento que prestava ao juiz Sérgio Moro, a respeito da ação em que é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.

Como se tivesse sido ofendida, a procuradora interrompeu o ex-presidente, pedindo para que ele não a chamasse de querida. No mesmo momento, o próprio juiz Sérgio Moro afirmou ter certeza de que a intenção não era ofensiva, mas pediu que Lula não utilizasse o termo e que se referisse a ela como “doutora” ou “senhora procuradora”. Foi o que bastou para que torcedores “a favor” e “contra” Lula, assim como os “a favor” e “contra” a Lava Jato tomassem as redes sociais com comentários inflamados, argumentando o quanto o termo pode soar como pedante, ou como é apenas uma questão de hábito. Estou entre aqueles que acreditam que o ex-presidente tem apenas o costume de chamar a todos de “querido” ou “querida”, sem que isso represente alguma ironia ou mesmo elogio. Chamou-me atenção o comentário de um advogado que foi às redes para dizer que prefere ser chamado de “querido” do que de “doutor”.

O presidente nacional da ABRACRIM – Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas, Elias Mattar Assad, fez coro em suas postagens, afirmando que não vê problema em um jurisdicionado (cidadão) tratar alguém de “querido”, já que a palavra é um termo respeitoso, que significa “muito estimado, dileto, prezado”.

A própria postagem causou polêmica. Uma senhora chegou a dizer que, quando usado por outras pessoas, o termo é elogioso, mas que usado por Lula é ofensivo – ao que o advogado respondeu que é perfeitamente aceitável que o cidadão comum utilize, mesmo em juízo, linguagem coloquial, desde que respeitosa.

Mas o mais curioso é que a polêmica toda que se formou em torno desta questão tão pequena trouxe à tona outra velha polêmica, que volta e meia reaparece: Afinal, devemos ou não chamar os mais diferentes atores do Direito (advogados, delegados, promotores, procuradores, juízes...) de “doutor”?

Mesmo que haja razões históricas para o uso do termo (um decreto imperial de 1820 em que Dom Pedro I institui os cursos jurídicos no Brasil, conferindo aos profissionais o grau de “doutor”), o fato é que o assunto gera muita controvérsia. As justificativas mais plausíveis de juristas e historiadores têm ressalvado que o tal decreto deve ser analisado considerando o contexto histórico em que foi criado, e que, assim, não se justificaria o grau de “doutor” aos atores do Direito.

Para fugir da polêmica, a ideia geral tem sido a defesa de que, no trato diário, nas conversas e situações formais, continuemos chamando-os de “doutores”, mas não em textos, documentos, etc. Agora, cá entre nós, alguém apresentar-se ou exigir ser chamado de “doutor” é o cúmulo da arrogância e prepotência, não?

 

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