Nem o Papa na presidência é capaz de derrotar o sistema político do Brasil

04/10/17 às 00:00 Karlos Kohlbach | karloseak@gmail.com

O Brasil tem jeito? É possível vivermos em um país sem corrupção? A pergunta é para lá de pertinente em época de escândalos políticos semanais com as mais variadas formas e gêneros de roubar dinheiro público. E é normal que nos façamos este questionamento. Mas sou cético em afirmar: nem com o Papa na presidência seria capaz de derrotar o sistema político que reina no nosso país. Cheguei a esta conclusão depois que fui questionado sobre as perguntas que dão inicio ao Papo Reto desta semana. Convido você leitor a fazer um exercício de futurologia comigo. Talvez você chegue a mesma conclusão.
Imagine que o Papa Francisco, cansado de ver os desmandos e a corrupção endêmica no Brasil, resolva abandonar o papado, o Vaticano, e ter como missão divina se eleger presidente dos brasileiros para por fim a roubalheira. É preciso também que ignoremos a naturalidade Argentina do Papa – afinal nossa legislação permite que apenas brasileiros, com mais de 35 anos, concorra ao cargo. Pois bem. “Abrasileiremos o Papa”.
Vossa santidade desembarca em terras tupiniquins e a primeira tarefa é estudar nossa legislação eleitoral para depois escolher um partido para disputar a eleição presidencial de 2018. Deixando de lado aqui as questões ideológicas, pouca importa a legenda escolhida pelo Papa. Para não personalizar este ou aquele partido, imaginem que ele tenha escolhido o PDP (Partido do Papa).
Ok senhor Francisco, vamos primeiramente a sua filiação. Assinado os documentos é hora de conversar com as lideranças do PDP para convencê-los que vossa santidade é o candidato capaz de vencer a eleição. Sobrarão pesquisas Datafolha, Vox Populi... todas elas.
Os caciques do PDP verão em você Francisco um candidato honesto, sério e de ótima reputação. De fato um candidato capaz de chegar ao Palácio do Planalto. Reconhecido isso, começam as conversas nada republicanas. “Olha Francisco, realmente você é o cara. Não só o cara, mas a cara do PDP. Você será nosso candidato. Está decidido. Mas (e sempre tem um mas) o PDP não tem tempo de televisão. Mas fique tranquilo, temos um candidato a vice ideal. Ele é do PDA (Partido de Aluguel). E vice, Francisco, é só uma mera formalidade. Temos que ter tempo de televisão para mostrarmos vossas propostas”, advertem ao candidato Francisco.
Lá pelas tantas, com Francisco aparecendo bem na intenção de voto, os mesmos caciques do PDP lhe apresentarão lideranças do partido que vão arrematar votos importantes e decisivos para a eleição. “Em troca, candidato, teremos de ceder alguns ministérios e comando de estatais. Mas é para o fortalecimento do PDP”, alertam os caciques. Num eventual segundo turno, Francisco precisa fazer alianças para derrotar o oponente. Legendas diametralmente contrária ao seu pensamento irão lhe propor apoio – em troca, claro, de alguns ministérios e cargos. “Mas Francisco, precisamos vencer a eleição. Temos chance. Precisamos destes partidos, de tempo de televisão”.
Em outubro, Francisco, o ex-Papa, vence a eleição. Se às 17h ele é aclamado pela Justiça Eleitoral o novo presidente da República, as 17h05 o PDP começa a discutir nomes para compor o governo. Francisco ainda curte a ressaca da eleição, mas ele mal sabe que 80% dos cargos já estão comprometidos com os partidos aliados e os apadrinhados. Vira o ano e Francisco desfila na Esplanada dos Ministérios cercado de populares. Começa o ano legislativo e o presidente do Senado Federal e da Câmara dos Deputados lhe fazem uma visita de cortesia. Se eles já estiverem arrebanhados pelo PDP, ótimo. Só irão reivindicar mais alguns cargos no Governo.
Talvez uma estatal de gordo orçamento. Mas caso as duas maiores autoridades na linha sucessória lhe façam oposição, o presidente Francisco terá duas escolhas: aceitar o que está sendo pedido ou ver o governo naufragar – mesmo há poucos dias do seu começo.
É neste ponto que quero chegar. Não importa o quanto é bem intencionado o presidente da República. Aqui, nesta situação hipotética, estamos falando do Papa Francisco. Quem comanda o sistema político do Brasil, e todas as suas mazelas, é o Congresso Nacional. Se Francisco encaminhar 350 projetos da mais alta relevância, capazes de acabar com a corrupção, melhor a vida do brasileiro, acabar com a miséria, e o Congresso não votar, eles repousarão sobre gavetas do Senado e da Câmara. Haverá sempre instalação de comissões que nada resolvem para frear e tornar os projetos uma espécie de Frankstein. Cabe somente aos presidentes das duas casas definirem o que é votado. O governo de Francisco viverá numa paralisia. Nada tramita, nada é aprovado.
Qualquer presidente deste país, seja ele o Papa, dependerá do Congresso para governar. Invariavelmente. As regras do jogo hoje são assim. E para ter suas ideias e projetos aprovados vossa santidade terá de ceder. E o preço é caro. São ministérios e cargos que mais tarde serão usados para desviar recursos públicos que engordarão suas contas bancárias – seja aqui ou em paraísos fiscais. Ou estarão em malas e em caixas de papelão em qualquer apartamento vazio. É preciso mudar tudo, todas as regras vigentes hoje. Já temos exemplos suficientes de que como está não pode ficar mais. Não deu certo. A ponto de nem o Papa Francisco poder nos salvar. Ao invés de pedir para vossa santidade disputar a eleição em 2018, que heresia a minha, peço ao Papa Francisco que continue rezando por nós brasileiros. Porque, definitivamente, nem o Papa é capaz de derrotar o sistema político do Brasil.

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