Independência ou Marte!

12 setembro, 2008 às 06:12  |  por Marcus Vinícius

A coluna Toda Política desta sexta-feira no JE.

O 7 de Setembro, Dia da Independência desta pátria lascada, serviu ao menos a um propósito nobre. Na madrugada de domingo, num ponto eqüidistante entre o Jardim Social e o Batel, um jornalista insone enxergou, em meio a um clarão de luz e ao som de trombetas, o “pobre” de Curitiba.
Foi uma epifania. Revelada ao jornalista enquanto, segundo ele, degustava um excelente vinho português comprado na Adega Boulevard.
O escriba é um cristão, ora tendo o privilégio de participar como “agente de divulgação” da campanha de uma das candidatas à prefeitura da capital – adivinhe quem? Foi ao lado da petista Gleisi Hoffmann, que o assessor de imprensa descobriu, duas décadas depois de fixar residência em Curitiba (antes tarde do que nunca), que uma cidade grande vai além das residências de luxo e das casas de vinho e queijo.
Mas deixemos que ele cante em sua freguesia: “Pela primeira vez na minha vida vi fezes humanas saindo por um cano e caindo em um córrego que abastece uma torneira comunitária para o atendimento de 300 famílias que vivem no Jardim Kosmos”.
A essa hora, qualquer um deve estar se perguntando de que planeta caiu o tipo faceiro. Peralá, ele veio de Ramos, no Rio, e nunca viu um cocozão boiando? De Marte!
Maestro, por favor, o naipe de violinos para o que vem a seguir: “Mesmo perto fisicamente, o Jardim Kosmos está distante socialmente de mim. Então meu espírito cristão se condói com aquela realidade”.
(Mas só um tiquinho. Porque “ele continua morando bem e comendo bem”).
“Sou eu dos dois lados: em Ramos, no Rio, e no Jardim Social, em Curitiba. Eu mudei de lado porque meus pais sempre investiram na nossa Educação. Eles se sacrificaram para pagar ensino médio particular para mim,
pois fui o único dos cinco filhos que não conseguiu ser aprovado em concurso para uma escola pública após o antigo ginásio”.
É a cota social do perdedor: 20%. Reparou? 80% dos que alcançaram a escola pública por mérito, em condições econômicas idênticas, pagam por aquele que fracassou. É a lógica torta do sistema de cotas.
Mas fiquemos na epifania. O jornalista atribui a uma reportagem da “Gazeta do Povo”, o milagre de sua repentina clarividência. Alguém aí ouviu a harpa do Anjo Gabriel? Pois é. “Não sou mais ignorante! Isso aumenta a minha responsabilidade, mas me motiva a mudar. E mudar é preciso!”
O caro leitor pode julgar que o desfecho é heróico: o assessor de imprensa desnudou-se franciscanamente de seus bens e seguiu condoído rumo ao Jardim Kosmos, onde pretende, juntamente com seus irmãos, dividir a água tirada do córrego em que bóia o cocozão.
Não sejamos tão literais. A mudança a que o iluminado jornalista se refere é política. O vinho português da Adega Boulevard, portanto, está garantido.

Cadê os números?
O site do Ibope é pródigo em esconder os dados das pesquisas nas principais cidades do país. Ontem, quem tentou obter detalhes de sondagens recentes viu resultados de Imperatriz (MA), Juazeiro do Norte (CE), Porto Seguro (BA) e Taboão da Serra (SP).

Bomba, bomba
À última hora apareceu notícia fresca: Edson Piriquito lidera as intenções de voto em Balneário Camboriú (SC). Agora vai. Quaquaquá.

PT nos píncaros
O Datafolha divulgou novo ranking dos prefeitos do país. Dos quatro primeiros colocados, três são petistas: Fernando Pimentel, de Belo Horizonte, com nota 7,6, João Paulo, do Recife, 7,3, e Luiziane Lins, de Fortaleza, 6,4.

The best
O tucano Beto Richa confirmou liderança com a nota 8. Em levantamento anterior, divulgado em 23 de agosto pelo Datafolha, Richa obteve 7,7 em uma escala de 0 a 10.

Parlatório
A paróquia São Lucas, no Xaxim, promove hoje, a partir das 19 horas, debate com 12 candidatos a vereador. Entre eles, Pedro Paulo e Adenival Gomes, ambos do PT, e Valdir Bicudo (PPS).

ARREMATE
Ex-candidato do PT à prefeitura de Curitiba, com o apoio de Requião, o deputado federal Ângelo Vanhoni tem recorrido a rifas para saldar dívida da campanha de 2004, na casa dos R$ 5 milhões. Moreira subiu no telhado.

OBLADI-OBLADÁ
Em entrevista coletiva, o prefeito de Paranaguá e candidato à reeleição, José Baka Filho (PDT), denunciou suposta armação do governo para intervir no município. *** “É uma atitude facínora e fascista. Estamos usando todos os antídotos legais e democráticos contra isso. Ficou claro que a atitude do governador de querer vencer as eleições no tapetão”.

marcusvrgomes@uol.com.br

1 Comentários

3 ideias sobre “Independência ou Marte!

  1. Horácio Bernarddi

    Nunca vi tanta coisa linda… encontrou esgoto a céu aberto degustando vinho português… pobre no dia 7 de setembro é encontrado por um habitante do Jardim Social… sou cristão e estou com dores na consciência…
    Deve ser por que o Mensalão pagou alguma parte do salário do assessor ou teve que dividir com o Gafanhoto-mor…

  2. A resposta de Marcos Cordiolli a Sérgio Wesley

    Camarada Sérgio Wesley
    Por vezes, e quase sempre nos últimos tempos, acho que a politica não está mais
    comportando pessoas imbuídas de humanismo. As lutas de egos e de interesses escusos parecem
    que estão, definitivamente, suplantando os desejos mais utópicos. Mas, a tua carta, e pessoas
    como você, teimam, ainda bem, em mostrar que a política pode ser, ao menos em parte, um
    território da ética e do humanismo.
    Aliás, nesta campanha eleitoral, tenho conhecido boas pessoas e, você, seguramente está
    entre as melhores. Não apenas pelo profissionalismo de tuas ações ou pela reincidente simpatia.
    Mas principalmente pela sensibilidade politica dos momentos mais difíceis.
    Eu tenho uma historia ligeiramente distinta da tua. E num aspecto particular muito
    diferente: como militante do PT, num primeiro momento, e posteriormente, como formador de
    educadores sempre vou, e fui, aos bairros mais distantes. Esta condição talvez tenha evitado o
    meu embrutecimento, como de muitos outros companheiros, que foram se adaptando ao status
    quo. Portanto, mais do que posições auto-declaradas, compreendo, segundo uma das máximas de
    Guevara, que o elo de companheirismo se produz entre os que sentem indignação diante uma
    injustiça, de qualquer injustiça. Este, parece ser, o alicerce básico da solidariedade. Outros, ao
    invés de pontes, constroem anteparos para não os próprios olhos diante do que vêem, mas não
    querem enxergar. Ou melhor, que buscam as desculpas mais vis para fugir a compromissos com
    a sociedade, e em particular, com os que denomina de mais desfavorecidos. Por isso,
    sensibilidade e politica não podem andar separados.
    A tua carta é antes de tudo um documento da sensibilidade. É um documento da
    inteligencia que expressa a forma como observas o mundo e aprendes com a experiência. Pela
    sensibilidade e pela inteligência pode-se dar ao direito de mudar de opinião, escrever o que pensa
    e, principalmente, assinar embaixo, sem nenhum medo ou falso pudor. (Lamento apenas os
    comentaristas dos blogs o ataquem leviana e gratuitamente, e mais grave: escondidos atrás de
    pseudo nomes. Uma covardia inominável).
    Camarada Sérgio, parabéns pelo teu ato de humanismo e coragem. Não vamos temer a
    mediocridade, mas vamos apostar na utopia da política com ética, sensibilidade e inteligencia.
    Sinto-me honrado e feliz por ser seu teu amigo e estar ao teu lado nesta batalha. Não porque a
    cidade está diante de um atletiba com opções simplistas, entre partidários cegos de paixão pelas
    cores do Alto da Glória contrapostos aos da Arena da Baixada. Mas, porque sabemos que
    estamos empenhados em levar a prefeitura da nossa cidade à política pautada pela ética, com
    sensibilidade e inteligencia. Aqueles que não se pautam pela ética, podem até ter inteligência,
    mas seguramente não possuem sensibilidade. E por isso ficam tão profundamente incomodados
    com alguém, como você, age com coragem e humanismo. Camarada Sérgio, não tenhas dúvida,
    de que a tua carta foi uma contribuição maior que imaginas neste processo.
    Um grande abraço
    Curitiba, inverno de 2008
    Marcos Cordiolli

  3. jose

    Camarada? Guevara? Quanto mofo….

    Humanismo, ? Falar de fezes degustando vinho português….

    Ética? Não combina com PT….

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