Carta-testamento

29 setembro, 2017 às 06:00  |  por Fernando Tupan

Ademar Traiano*

Em 24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas atirou no próprio coração com um revólver prateado, cabo de madrepérola, calibre 32, produzido pela Colt. Deixou uma “carta-testamento” onde denunciava inimigos da pátria e anunciava: “Saio da vida para entrar na história”.

Em 26 de setembro de 2017 o ex-ministro Antônio Palocci divulgou uma carta, pedindo a desfiliação do PT e disparando contra Lula e o Partido dos Trabalhadores. Foi uma espécie de carta-testamento às avessas. Capaz de fazer o que restava intacto de Lula, do PT e seus mitos, sair da história para cair na vida.

O atirador, Palocci, não é um petista qualquer. É fundador do partido e um de seus quadros mais brilhantes. É tido como responsável pelo bom andamento da economia no primeiro governo do PT. Era candidato natural à sucessão de Lula. Tudo isso torna seu testemunho mais devastador.

Em sua carta-testamento Palocci questiona a crença cega em Lula professada pelo PT apesar das evidências que se acumulam, feito um tsunami, contra o cacique maior da legenda. Dispara contra a tese de que tudo o que o compromete não passa de uma nebulosa conspiração neoliberal, mancomunada com setores do Judiciário.

Palocci garante que o PT está mergulhado em um estágio profundo de negação e autoengano: “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do homem mais honesto do país enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!) são atribuídos a Dona Marisa? ”. E prossegue: “Somos partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade? ”

Na carta, Palocci afirma que: “Lula encomendou sondas e propinas em uma reunião com Dilma e José Sérgio Gabrielli no Palácio da Alvorada”. Isso aconteceu na presença de da futura ‘presidenta’ e do presidente da Petrobras, “na cena mais chocante que presenciei do desmonte moral da mais expressiva liderança popular que o país construiu em toda nossa história”

Palocci assegura ainda que o PT tem de carregar a culpa por ser o responsável por eleger e reeleger um mau governo (Dilma Rousseff), que destruiu o legado da passagem do partido pelo poder. Ela (a presidenta) destruiu “cada conquista social e cada um dos avanços econômicos tão custosamente alcançados”

As culpas do PT seriam tantas e tais que Palocci só vê uma saída para o partido continuar a existir. Fazer um acordo de leniência com o poder público, nos moldes daqueles feitos por empresas e corporações delinquentes. Admitir as culpas, pagar as multas, se comprometer a não violar a lei novamente.

O tiro de Getúlio o matou instantaneamente, mas o gesto extremo, sublinhado pela carta com apelo emotivo, o imortalizou na história brasileira. O disparo de Palocci provocou estragos enormes na imagem do PT. Estragos de uma extensão ainda difícil de avaliar.

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