A liderança da Bundesliga, o Campeonato Alemão, não está nas mãos do Bayern de Munique, do Borussia Dortmund ou até mesmo do RB Leipzig. Um modesto clube, que tem um baixo orçamento e sua história atrelada ao passado do Muro de Berlim, ganhou os holofotes do futebol mundial no início desta temporada: o 1. FC Union Berlin ou, simplesmente, Union Berlin.

Comandado pelo suíço Urs Fischer, que chegou a Berlim em 2018, o time vive um verdadeiro “conto de fadas” nos últimos três anos: do acesso para a Bundesliga, classificação para a Liga Europa na última temporada e, finalmente, a liderança do Campeonato Alemão nesta temporada, superando o milionário Bayern de Munique.

Como explicar esse sucesso? O elenco é jovem (média de idade de 25 anos), composto em sua maioria por jogadores alemães (17, dos 31 inscritos na competição) e com um craque nascido no Suriname – Sheraldo Becker, meio-campista, com seis gols e que lidera a artilharia da competição.

Essas são só algumas das hipóteses do sucesso do Union Berlin. Invicto nas primeiras sete rodadas – com goleada de 6 a 1 sobre o Schalke 04, vitória diante do RB Leipzig e empate contra o Bayern de Munique -, a nova sensação na Alemanha soma 17 pontos, dois de vantagem para o Borussia Dortmund, na liderança da disputa.

É um momento único para o clube e para o futebol alemão como um todo – uma história que pode ser semelhante à do Leicester na temporada 2015/16, que conquistou o Campeonato Inglês. Johannes Schwieters, de 35 anos, é professor e torcedor do Stuttgart, clube da primeira divisão alemã. Em entrevista ao Estadão, ele conta sobre a atmosfera dessa campanha inédita do Union Berlin.

“Eu sinto que a imprensa está focando, neste início de temporada, no fato de o Bayern de Munique não estar desempenhando seu melhor futebol”, conta Schwieters. “O Union é elogiado pela sua campanha, mas ninguém acredita, pelo menos até agora, que o time conseguirá terminar entre os três primeiros colocados da Bundesliga.”

O Stuttgart, time de Schwieters, sofreu com esse crescimento do Union Berlin, em 2019. Na partida de acesso, sua equipe foi rebaixada pelo Union, após um empate em 0 a 0 na volta. “Para os olhares desatentos, o Union Berlin estaria tendo um desempenho acima do esperado. No entanto, faz pelo menos quatro anos que clube têm um crescimento constante no futebol alemão”, afirma.

“Além do desempenho do Union, os torcedores de todos os times estão satisfeitos que, pela primeira vez em dez anos, a Bundesliga está com uma temporada mais emocionante. É só o começo do ano, mas aparenta que clubes menores conseguiram se planejar para alcançar o desempenho do Bayern de Munique”, relata.

“Eles não se preocupam em jogar bonito”, brinca Schwieters. Entre as cinco maiores ligas do futebol europeu (Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha e França), o Union Berlin tem uma das piores precisão no passe. “Eles utilizam das poucas chances que têm para marcar – e vem conseguindo vencer seus jogos”.

PRIMÓRDIOS

O Union Berlin ficou mais conhecido na Europa apenas nos últimos anos. A equipe nunca teve os holofotes sobre si, seja a nível local ou nacional. O Hertha Berlin, maior clube da capital alemã, dominava a atenção da torcida e da imprensa. Esse fator se deve à fundação do Union (ainda com outro nome), à Guerra Fria e a criação do Muro de Berlim.

Nascido em 1906, como FC Olympia 06 Oberschöneweide, o clube passou por diversas mudanças antes de chegar à forma como é conhecido atualmente. Em 1910, passou a se chamar SC Union 06 Oberschöneweide. Antes e durante a Primeira Guerra Mundial foi um dos maiores clubes da Alemanha, conquistando múltiplos campeonatos dentro do país.

Nesse período, seu uniforme se assemelhava ao de seu rival contemporâneo Hertha Berlin: azul e branco. Com a construção do Muro de Berlim, que dividiu a capital alemã entre ocidente e oriente – capitalista e socialista -, o Union perdeu sua força. Em 1966, nasce o Union Berlin, já nos moldes modernos, com o uniforme vermelho e branco.

O Union nasceu, ainda na Alemanha Oriental, como um clube que representasse a classe operária da cidade. Apesar do apoio popular, a diferença de investimentos entre os clubes da Alemanha Ocidental e Oriental fez com que o Union não conseguisse se equiparar às demais equipes quando a nação foi reunificada.

Além disso, durante o período da Guerra Fria, o Union viu seu maior rival, Dynamo Berlin, ser o principal clube da metade oriental da cidade. Auxiliado pelo patrocínio da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental.

‘CLUBE DA MINHA VIDA’

Com uma Alemanha reunificada, o Union Berlin sofreu até conquistar seu espaço na elite do futebol alemão. Entre os anos 90 e 2019, o clube esteve à beira da falência em múltiplas oportunidades. Até disputar sua primeira Bundesliga da história, na temporada 2019/20, o Union disputou divisões regionais da Alemanha, quarta, terceira e permaneceu dez anos na Bundesliga 2, a Série B do Campeonato Alemão.

Ao longo dessa trajetória para chegar ao mais alto patamar do futebol em seu país, a equipe contou com a ajuda de um centroavante brasileiro. Daniel Teixeira, hoje com 54 anos, foi revelado pelo Cruzeiro e disputou três temporadas pelo Union: em 2000/01, 2005/06 e 2006/07. Nas duas primeiras, foi artilheiro da equipe e conquistou, juntamente com a equipe, dois acessos – da terceira divisão para a segunda e da quarta para a terceira, respectivamente.

Ao Estadão, Daniel revela uma relação muito próxima com o Union. “É o clube da minha vida”. Em duas passagens por Berlim – a primeira por empréstimo -, o jogador marcou história com a camisa da equipe. Em 2007, foi escolhido pelos torcedores como o segundo maior atleta do clube. Na Alemanha, recebeu o apelido de “Texas”, em referência ao seu sobrenome.

“Na minha primeira temporada no Union, em 2001, conquistamos o acesso à segunda divisão e chegamos à final da Copa da Alemanha”, conta Daniel, que tem boas lembranças de seu período no clube. “Em todo clube em que joguei, gostava de conhecer a história antes de estrear propriamente pela equipe”.

“Vivi os melhores seis meses da minha carreira em 2001 pelo Union”, afirma o ex-jogador. Naquela terceira divisão do Campeonato Alemão, foi o artilheiro da competição com 18 gols – no total da temporada, fez 32. “Nunca vi uma festa igual àquela, com uma torcida apaixonada pelo clube”. Apesar de não disputar a primeira divisão do Campeonato Alemão, o resultado na Copa da Alemanha garantiu a vaga do Union na Copa UEFA de 2001/02 (antiga Liga Europa).

Sem ter sido comprado pelo Union Berlin ao fim da temporada de 2001 – o alto valor pedido por seu clube, o Uerdingen, cerca de 500 mil euros, foi um obstáculo -, Daniel deixou a equipe sem disputar a competição continental.

Com passagens pelo Japão e Portugal, além do Cruzeiro no Brasil, ele relembra as estruturas do clube na época em que chegou ao Union Berlin. “Por causa da falta de investimentos na Alemanha Oriental, a equipe ficou atrás dos rivais no país. Mas em comparação com outros clubes do mundo, o Union sempre teve um estádio próprio e cinco campos de treinamento”, relata.

Em 2005, já com 37 anos, Daniel retornou ao clube. Nesse período, Dirk Zingler, presidente do clube desde 2004, ofereceu um contrato de dois anos, para encerrar sua carreira no Union. “Foram dois anos com sentimentos diferentes. Na primeira temporada, ajudei a equipe a dar o primeiro passo nesse crescimento com a ascensão da quarta para a terceira divisão, sendo artilheiro; no segundo, já não conseguia mais acompanhar o ritmo dos mais jovens e senti que era a hora de parar”, comenta o ex-jogador.

Com direito a jogo de despedidas e convites para trabalhar na comissão técnica e gestão do Union Berlin por dois anos, “Texas” se despediu como um dos maiores jogadores da história do clube. Em 68 jogos, marcou impressionantes 47 gols – uma média de 0,7 por partida. “Tenho certeza que fiz parte desse processo de crescimento do Union, que alcançou a liderança da Bundesliga neste ano”.

Assim como a mídia e os torcedores na Alemanha, ele admira esse início de temporada do Union, mas segue cético quanto a um título inédito. “O mais importante agora, e que é um marco da gestão do presidente Zigler, é estabilizar o clube na primeira divisão da Alemanha”. Antes de chegar à Bundesliga, o time permaneceu 10 anos na “segundona”, onde se preparou para este novo momento na história.

“Permanecer no topo da tabela, conquistando vaga para as competições europeias – como a Liga Europa deste ano – é o objetivo da diretoria e do clube”, conta Daniel. Neste ano, o Union Berlin levou mais de três mil torcedores à Portugal para a partida da Liga Europa contra o Braga – terminou com a vitória do time da casa, por 1 a 0. “Os torcedores com quem eu converso já estão eufóricos com o desempenho da equipe nas primeiras partidas, não consigo imaginar a festa caso a equipe conquiste uma vaga na Champions League”.

“Esse momento é inacreditável. Acompanhar o sofrimento das últimas décadas, na terceira e quarta divisão, e ver os resultados em campo neste ano é um sentimento sem preço para mim”, afirma Daniel. Apesar de aposentado, faz questão de visitar Berlim e as instalações do clube a cada ano. “Ele se tornou, hoje, o maior clube de Berlim.”