• Encontros e o aprendizado da paciência

    Logo que comecei a frequentar tabacarias percebi que os encontros que ali aconteciam eram especiais. O charuto e o drink escolhidos são normalmente o pontapé inicial para começar uma conversa com a pessoa ao lado. No conforto de um sofá e com uma boa música ao fundo, é como se estivéssemos em casa, o que torna o papo mais leve e despretensioso.

    Já presenciei muitos e também já tive os meus encontros nestes espaços. Já fiz contatos de trabalho, já conheci pessoas que me ensinaram muito sobre história, gastronomia e política. Tive a chance de conhecer homens e mulheres inspiradores e com alguns ainda cultivo uma amizade.

    Como todo bom encontro, a maioria acontece de maneira inesperada. Recentemente perdi meus dois avôs, figuras muito importantes na minha vida e que deixaram uma saudade imensa. Saudade que apertou um pouquinho mais quando vi um senhor entrando na tabacaria.

    Após escolher o seu charuto e whisky ele me chamou em sua mesa e falou: “vim aqui hoje para conversar, mas não consigo acompanhar essa meninada falando ao mesmo tempo”. Dei risada e ele continuou. “Menina, tenho 86 anos, eles podem ser mais velhos aos seus olhos, mas para mim, são meninos”, emendou. O papo continuou e quando me dei conta já estávamos no segundo charuto da noite. Foram algumas horas de muita conversa e aprendizado.

    No fim da noite, ele me agradeceu pela indicação do último charuto, um Arturo Fuente 8-5-8 (Delicioso! Tem uma excelente evolução e não amarga nada, é atualmente a minha marca favorita). Esse senhor me lembrou de algo que meus avôs repetiam continuamente, e que provavelmente o seu também já lhe disse algumas vezes: paciência.

    Meus avôs me diziam para esperar que tudo tem o tempo certo, que é preciso saber aproveitar cada fase e cada momento, seja ele bom ou não. Nesse dia, aprendi muito com esse senhor e colocamos em prática essa paciência ao degustar um charuto. Esse é um ensinamento importante também na arte de se degustar puros. Quando não se deixa o charuto descansar acabamos esquentando ele demais, o que acaba amargando e prejudicando a degustação.

    Então, assim como em tudo na vida, paciência. Aproveite os momentos com calma, aprecie cada aroma, cada sabor e cada encontro!

    Eu sigo, cheia de saudades, mas tentando seguir os conselhos dos meus queridos avôs.

    Ah, e aproveite os encontros, curtos ou longos, eles são sempre especiais, só precisamos ter essa paciência para reconhecê-los.

  • Há quem diga que charuto é para poucos

    Há quem diga que charuto é para poucos.

    A maioria dos que falam isto nunca degustaram um charuto. Não vejo mal nesse comentário, a princípio.

    Logo que comecei a beber vinhos achava que qualquer garrafa estava ok, até porque vinhos bons são caros e só servem para aqueles homens mais velhos que falam sobre suas uvas favoritas, o oposto de mim.

    Ao longo do tempo o vinho não só se tornou mais acessível no preço como também na informação, e é graças ao conhecimento adquirido ao longo do tempo que desmistificamos essa bebida. Hoje, em um almoço de domingo todos falam sobre o assunto. Quando me reúno com amigas, são algumas garrafas que nos acompanham.

    O mesmo está acontecendo com o charuto. Ele vem ganhando espaço no mundo físico e virtual, nesse último, porém ainda sinto certa soberba. Como o vinho, é possível degustar excelentes exemplares nos mais diversos preços.

    Recentemente acompanhei a discussão em um rede social sobre tirar ou não a anilha do charuto (anilha é aquele rótulo, uma espécie de anel em cada puro). Pela minha experiência a anilha pode servir para puxar um assunto, mas nunca vi ser motivo de piada ou discriminação.

    Quando se degusta um charuto pouco importa se o seu foi mais caro que o do seu amigo ou não. É o mesmo sentimento que temos ao reunir amigos para um happy hour. Pouco importa o preço do vinho, podemos falar sobre ele ser bom ou não, mas o que importa mesmo é que ele é a motivação que precisávamos para estarmos juntos e nos divertindo. Acredito que mais em breve do que se imagina, o charuto também fará parte desses momentos, afinal o charuto, assim como o vinho, é para todos!

    A foto é de uma viagem que fiz com minhas primas e passamos alguns dias visitando vinícolas e degustando muito vinho! Quem sabe a próxima não seja sobre charutos?

    A foto é de uma viagem que fiz com minhas primas e passamos alguns dias visitando vinícolas e degustando muito vinho! Quem sabe a próxima não seja sobre charutos?

  • Mulheres e charutos, por que não?

    Quem me conhece sabe que no meu discurso e nas minhas atitudes sou sempre a que defende a igualdade entre homens e mulheres. Estou longe de ser perfeita e volte e meia me pego com algum pensamento contrário a isso. Logo me corrijo e refaço essa ideia. É um exercício de aprendizado diário.

    Na última semana conheci uma mulher, vamos chamá-la de Natália. Natália se dizia apaixonada por charutos, sabia tudo! Conhecia as marcas, histórias e blends, mas Natália não degustava. “Não acho bonito mulher com charuto”, disse. Na hora discordei, falei que não existe isso e a convidei para participar de uma confraria de mulheres.

    Em um dos meus últimos textos disse que charuto para mim é prazer e por isso não degusto na tabacaria, afinal é meu ambiente de trabalho. Será mesmo? Natália me fez questionar tudo isso. No início eu só degustava na frente dos meus pais, evitava fazer mesmo na frente de tias e amigas da família que também degustam. Isso porque mesmo com todo o meu discurso girl power, também tinha vergonha. Tudo bem, aqui cabe uma discussão gigantesca do motivo da minha vergonha, mas vamos deixar essa para outra hora.

    A série “Coisa mais Linda”, da Netflix, com delicadeza e uma trilha sonora deliciosa mostra o quanto nós mulheres lutamos desde sempre para quebrar regras e tabus. O quanto é difícil conquistar o nosso espaço na sociedade e mais que isso, entender isto dentro de nós mesmas. Precisamos perceber que não somos menos que ninguém, que podemos e merecemos tudo o que desejamos.

    Natália provavelmente nem sabe, mas ela me ajudou a quebrar um pequeno tabu dentro de mim. Não se deixem enganar, mulheres! Estamos todas diariamente superando pequenas e grandes batalhas.

    Para celebrar essa pequena conquista, decidi degustar um charuto aqui na tabacaria.  O escolhido foi um Don Blend. Leve e muito saboroso, tanto que só lembrei da foto quase no final. Até a próxima coluna!

     

  • A primeira vez que degustei um charuto

    Toda vez que falo que “sim,  degusto charutos”,  a expressão de surpresa de quem está ao meu redor é certeira. Muitos duvidam,  outros questionam, nunca passa batido.

    “Mas é charuto mesmo? Não é  cigarrilha?”.

    Prefiro acreditar que a maioria questiona porque é difícil me ver degustando ou até mesmo fotos minhas com um charuto são raras. Degustar charutos, para mim, acontece sempre em um momento de tranquilidade e descanso.

    A primeira vez que degustei foi assim e talvez por isso charuto e lazer são sinônimos para mim. Eu estava na praia com os meus  pais e depois de ler muito sobre o assunto, a curiosidade já era grande e decidi que era o momento.

    Escolhi o charuto e com cuidado fiz o corte e acendi. Puxei e só senti gosto de fumaça. Na hora só consegui pensar em tudo o que li sobre aquele puro. Todas as notas de couro, os aromas complexos o retrogosto suave, onde estavam todos esses sabores que eu não sentia? Insisti mais um pouco e comecei a notar um aroma aqui, um sabor diferente ali.

    A verdade é que estudei tanto que achei que ao puxar o charuto a frio já seria capaz de fazer um review digno das maiores revistas de charuto, mas não foi bem assim. A teoria ajuda muito, mas como tudo (ou quase tudo) aprendemos mesmo é na prática e isso é o mais legal!

    A experiência foi ótima, mas melhor do que todas as notas foi finalmente entender o que os entusiastas dessa arte sempre me falavam. O momento em que você degusta um charuto é mágico. É como se o mundo desse uma pausa, nada mais importa. Foram duas horas onde eu só me preocupei em aproveitar o charuto e a companhia dos meus pais.

    A minha escolha foi um charuto cubano, Hoyo de Monterrey Epicure n2, um excelente charuto que hoje, após um bom tempo degustando, já consigo perceber muito do que li na época.


    Se você quiser iniciar nesse mundo procure uma boa tabacaria, busque um  charuto mais rápido e leve que não tem erro. Porém o mais importante: divirta-se ao degustá-lo e tenho certeza que você também vai se apaixonar!

     

  • Bem-vindos ao De Ponta a Ponta

    Era sexta-feira quando o telefone tocou e uma voz animada me convidava para mais um desafio!

    Desde de 2009, cada folha em branco era o meu desafio. Eu deveria preencher cada uma com linhas e traços a fim de projetar espaços. A partir daquele momento o desenho arquitetônico era a minha forma de comunicação com o mundo. Inclusive foi por ela que tive o meu primeiro contato com uma tabacaria. A folha em branco ganhou belas formas e cores para o projeto de um espaço para se degustar charuto, mas nunca saiu do papel. Algum tempo se passou, muitos projetos ganharam vida, mas para mim ainda faltava algo.

    Em paralelo às grandes folhas da arquitetura, passei a gerenciar a rede social daquela mesma tabacaria. Foi aí que pude conhecer a complexidade na arte do charuto. Todo o cuidado na produção e preparação das folhas e blends. Fiquei fascinada!

    As tabacarias ainda são um universo desconhecido para muitos e comigo não foi diferente. Me surpreendi, percebi que tinha encontrado algo mágico. Uma tabacaria é um espaço intimista e tranquilo, onde é possível escutar uma boa música, ler um jornal sem pressa, degustar um puro e um café, além de ser um lugar para fazer amizades, compartilhar histórias e risadas. É um espaço que comporta homens e mulheres que compartilham um gosto em comum, o charuto!

    Hoje as grandes folhas da arquitetura já não fazem mais parte do meu dia a dia e aquela tabacaria que conheci no início da minha vida profissional é o meu destino de todos os dias. Surge então uma nova folha em branco para ser preenchida, mais um desafio.

    A partir de hoje vou compartilhar com vocês o que eu sei dessa arte.

    Tenho certeza que se deixarem o pré conceito de lado, também vão se apaixonar por esse estilo de vida como eu me apaixonei.

    Sejam bem-vindos ao De Ponta a Ponta!

    Um beijo, Carol Macedo. 

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