• 11/07/2018

    O recuo estratégico - e responsável - de Cida

    A governadora Cida Borghetti retirou o projeto de lei que concedia reajuste de 1% ao funcionalismo público do Paraná. Aprovado em primeira votação na Assembleia Legislativa, o projeto recebeu mais de 30 emendas que o descaracterizavam – uma delas, propunha aumentar esse índice para 2,7%, igualando-o ao dos servidores dos demais poderes, Ministério Público e Defensoria.

    O recuo foi interpretado pelos adversários da governadora como uma derrota em vésperas de iniciar a campanha eleitoral – Cida disputará a reeleição -, mas consolida a imagem de gestora responsável que tem caracterizado os três meses de sua administração, iniciada em abril com a renúncia de Beto Richa para disputar uma vaga no Senado.

    Seria eleitoralmente mais confortável para Cida deixar as coisas como estavam – o reajuste salarial estava condicionado por lei à atualização das promoções e progressões do funcionalismo, o que somente seria possível, e olha lá, a partir do ano que vem. A imposição foi feita por seu antecessor. Mas, pressionada por alguns setores do funcionalismo, que não teve reajuste no ano passado, a repor pelo menos a inflação dos últimos doze meses, Cida fez cair essa exigência e ordenou à área técnica que estudasse a viabilidade do pleito. A resposta foi que o índice pretendido comprometia o acordo com o governo federal que permitiu a renegociação da dívida do Paraná. O máximo que se poderia conceder era 1%.

    A prudência se impôs na proposta enviada à Assembleia. A prudência se impôs na retirada de pauta do projeto diante da possibilidade de o índice ser alterado pelos deputados, afrontando o compromisso de responsabilidade fiscal. Isso obrigaria a governadora a tomar uma medida ainda mais antipática – vetar o projeto.

    O funcionalismo do Paraná ficará, assim, dois anos sem reajuste. Mas sua situação em relação aos servidores dos demais estados é invejável: os salários são pagos rigorosamente em dia e sua defasagem é pequena. O último reajuste – de 10,6% - foi dado em 2016, quando a maioria dos estados congelou os salários, parcelou-os ou simplesmente não teve como pagá-los.

    Esse percentual (10,6%) incorpora-se aos quase 84% de reajuste concedido desde 2011, quando Richa tomou posse, ao mesmo tempo em que o IPCA do período foi de 55% - o ganho real, portanto, é flagrante. Os professores foram a categoria mais beneficiada - 146%, considerando-se progressões e promoções.

    Cida promete reapresentar o projeto após as eleições. Quem sabe até lá as condições financeiras do Estado permitam um índice maior de reajuste. E, então, ela não poderá ser acusada de demagocia.

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    Por se tratar de tema relacionado ao governo do Paraná, este jornalista sente-se no dever de informaar que é servidor público lotado na Casa Civil, onde exerce a função de assessor de imprensa.

  • 05/07/2018

    Osmar e os fantasmas do passado e do presente

    O ex-senador e candidato em potencial ao governo do Paraná Osmar Dias (PDT) não consegue novos aliados para seu projeto eleitoral. Está só – solito, solito – na disputa. E, com isso, seu tempo no rádio e tevê será ínfimo e sua rede de sustentação nos municípios, raquítica.
     
    Em compensação, os velhos companheiros Lula, Dilma e Gleisi continuam firmes e fortes ao seu lado como fantasmas a povoar seu passado e atormentar seu presente. E comprometer seu futuro.
     
    Lula está preso, Dilma foi defenestrada da presidência e Gleisi está encalacrada na Lava Jato. E nunca se ouviu um pio de Osmar para criticar a conduta criminosa deles.
     
    As fotos de Osmar ao lado do trio em atos petistas vão dar munição de grosso calibre a seus adversários na disputa pelo Palácio Iguaçu. O início da campanha se aproxima. Num Estado em que o PT é rejeitado por cerca de 90% dos eleitores, ser associado ao partido, seus líderes e crimes equivale ao atestado de óbito.
     
    No esforço de viabilizar sua candidatura, Osmar acaba de ressuscitar o defunto Homero Barbosa, ex-prefeito de Londrina pelo PDT. Homero foi cassado em 2012 por corrupção e condenado por corrupção em primeira e segunda instâncias em vários casos cabeludos. É réu em outros tantos processos de igual teor.
     
    O encontro de ambos fecundou a possibilidade de Homero coordenar a campanha de Osmar no Norte do Paraná e revelou o novo visual do ex-prefeito cassado, inspirado no Homem de Neandertal: barba e cabeleira desgrenhados, órbita ocular diminuta, nariz achatado e largo. A barba de Osmar continua farta e branca. Deve ser porque esteja de molho...
  • 03/07/2018

    Aécio absolvido. Quem indenizará o país pela farsa?

    Aécio Neves fez 51 milhões de votos na eleição de 2014, vencida por Dilma Rousseff por três milhões de votos de vantagem graças ao poder financeiro do PT e sua brutal campanha de difamação contra o senador tucano (antes dele, contra Marina; antes dela, contra o finado Eduardo Campos).
     
    A campanha revelou-se um autêntico estelionato eleitoral, pois tudo o que Dilma tentava ocultar de ruim em seu governo revelou-se verdadeiro e tudo o que prometia jamais executar ela pôs em prática assim que tomou posse do seu segundo e desastroso mandato.
     
    A ofensiva difamatória contra Aécio incluiu a acusação de agressor de mulheres, cocainômano, bêbado e corrupto – acusações que Lula verbalizou em discurso irado na Praça Sete, de Belo Horizonte. 
     
    Esta última acusação tinha como ponto central uma denúncia, forjada por um falsário notório e ligado ao PT, de que Aécio teria recebido propina de Furnas por meio de um diretor indicado por ele (o diretor foi nomeado no governo petista, sendo, portanto, difícil conceber que o tucano teria tamanha força junto a seus adversários.)
     
    Laudo da PF afirmando que não pudera atestar a veracidade do documento no qual se baseava a denúncia (e não poderia mesmo, pois era falso) foi incapaz de conter a voragem acusatória dos petistas.
     
    Qual o efeito desta acusação sobre o resultado das urnas? Difícil de aferir, mas certamente contribuiu, associada às demais, para minar o prestígio do tucano.
     
    Três anos depois, conversa gravada entre o diretor da J&S Joesley Batista e Aécio revelou que o tucano lhe pedira R$ 2 milhões. A entrega do dinheiro, escamoteada em parcelas, foi filmada. Se não havia contrapartida à generosidade, que comprovaria o pagamento de propina, a forma como o dinheiro chegou ao senador e suas desculpas esfarrapadas para justificar a motivação do pedido e o modus operandi da entrega fulminaram sua credibilidade.
     
    Os eleitores de Aécio comportam-se de forma diferente da dos de Lula e demais petistas condenados (desde que não se transformem em delatores): os primeiros o abandonaram assim que surgiu a suspeita consistente de seu procedimento ilegal; os segundos aumentam o fervor do culto ao chefão da organização criminosa e a seus membros ilustres quanto mais proliferam e se comprovam as denúncias contra eles.
     
    O ministro Gilmar Mendes, do STF, pôs fim na semana passada à suspeita de que Aécio recebeu propina de Furnas: mandou arquivar a denúncia a pedido da PF, que não conseguiu comprovar sua veracidade. 
     
    Que a Justiça também se faça em relação aos outros casos cabeludos envolvendo o senador tucano, réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pela suspeita de ter recebido recursos ilícitos da J&F. Ele também é investigado em mais sete inquéritos, cinco deles baseados na delação de executivos da Odebrecht.
     
    Foram necessários quatro anos para a absolvição de Aécio no caso de Furnas. Justiça tardia não é justiça, pontificou Rui Barbosa. O prejuízo moral – e possivelmente eleitoral de Aécio (e neste caso do Brasil) – jamais será indenizado. Mas a sentença teve o mérito de estabelecer a verdade.
     
    E esta é a essência da Justiça: o estabelecimento da verdade, seja para punir ou inocentar o réu.
     
    Que a Justiça se faça também em relação aos que montaram a propagaram a farsa, que contribuiu para manter na presidência da República o chefe de Estado mais desastroso da história do país, cujo legado compromete praticamente toda uma geração.
  • 26/06/2018

    Datafolha revela: maioria dos eleitores é sadomasoquista

    O governo Lula tratou a economia da mesma forma que os militares de 1964: aproveitou-se da bonança internacional para investir prioritariamente em projetos sociais (Lula) e infraestrutura (os segundos). Terminada a bonança – a crise de 2008 com Lula e a do petróleo, em 1973, com os milicos – foi um deus-nos-acuda.
     
    Dos militares herdamos estatais fortes, obras de infraestrutura de porte concluídas – e uma baita inflação, déficit público descomunal, dívida externa; de Lula, sua maior herança foi o desastre chamado Dilma Rousseff, que concluiu a obra do padrinho: uma crise econômica sem precedentes, dívida pública colossal, desemprego histórico e o desmonte das estatais por má gestão, uso político e corrupção.
     
    Os militares, descontados casos avulsos, nos legaram o respeito ao patrimônio público. O lulopetismo, uma crise ética sem precedentes baseada no princípio de que o patrimônio público deve ser usado para a perpetuação no poder e enriquecimento individual.
     
    A comparação é superficial, evidentemente, mas sintetiza as conquistas e heranças malditas dos dois períodos políticos mais emblemáticos da história recente, o militar e o dito “popular”, este o primeiro a ser comandado por um retirante nordestino, sem formação acadêmica, mas PhD na arte da malandragem.
     
    O regime militar – ou ditadura militar, como queiram os leitores – desperta nostalgia em consequência do desastre lulopetista. Seus adeptos expressam-se em duas correntes: a dos que defendem o golpe de Estado e os que se dispõem a eleger o ex-capitão de Exército Jair Bolsonaro (que se comporta como instrutor de recos) para militarizar as ações de governo.
     
    A distância cronológica do Brasil de hoje com o dos milicos de 1964 explica em parte a adesão ao neomilitarismo. O tempo de encarrega de embotar, ou mesmo apagar, as más recordações e ressaltar as boas, ou vice-versa, conforme a perspectiva de quem o analisa. Os defensores dos militares conservam apenas a lembrança da bonança econômica e omitem as consequências da farra promovida com empréstimo externo e a face mais perversa do regime: a violação aos direitos humanos, a tortura, os assassinatos.
     
    Não se pode aplicar esta atenuante aos que defendem a volta de Lula ao poder. Dilma foi deposta em 2016, mas o ciclo lulista permanece (melancolicamente) com Michel Temer, seu sucessor. Ele participou da conspiração que a retirou do cargo, alterou radicalmente – para o bem geral da nação – a condução da política econômica, mas fez parte – e importante – de seu governo, ao levar o PMDB para apoiar e se locupletar dos desmandos e do saque promovidos pelo PT.
     
    É escalafobético, portanto, que o ex-presidente Lula, que cumpre pena em regime fechado por corrupção e lavagem de dinheiro, além de responder a outros seis (ou sete) processos penais, lidere as pesquisas de intenção de voto para voltar à presidência da República.  
     
    Está impedido legalmente de participar de tal aventura, mas sua imagem está impregnada na consciência dos que o apoiam – que são os desesperançados do Nordeste e a “elite” acadêmica e sindical – a ponto de surgir para estes como o Messias, o único capaz de devolver o país ao caminho da prosperidade. Pesquisa recente do Datafolha mostra que 32% dos eleitores o apontam como o detentor da fórmula da salvação nacional, embora o que ele prometia antes de ser preso é repetir o mesmo procedimento que conduziu o Brasil ao fundo do poço. 
     
    Segundo a pesquisa, Bolsonaro, o instrutor de recos, que não tem experiência administrativa – além de gerenciar seus bens e supervisionar a folha de servidores de seu gabinete, que inclui funcionários particulares -, é considerado por 15% dos eleitores a boia da prosperidade.
     
    Esta pesquisa revela que, além de desmemoriados ou cegos diante dos fatos, esses 47% de eleitores são sadomasoquistas: adoram sofrer e impor sofrimento aos outros. E a eles se somam 7% que veem a luz do fim do túnel na silvícola Marina Silva, a incógnita em constante evolução.

     

    Diante deste diagnóstico, só nos resta esperar – e torcer – para que os 46% restantes impeçam o suicídio coletivo.

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