por Ricardo Pozzo, administrador do blog

Autores

Pulp fiction das araucárias

Bons ventos trazem a estas frias plagas curitibanas uma ótima leva de autores que transitam entre vários gêneros distintos. Naturalmente que essa boa safra não é de hoje, mas em minhas andanças pelo mercado editorial desta nossa gélida capital provinciana tenho notado autores que flertam com várias frentes estilísticas.
Claro que a boa safra não se restringe à capital, pois cidades como Londrina, Maringá e Ponta Grossa, só para citar algumas, têm um cenário literário bastante profícuo e relevante, com editoras, prêmios e, naturalmente, bons autores. Podemos pensar no relevante selo princesino Olaria Cartonera. É um selo editorial que publica, como o próprio nome já adianta, livretos artesanais em formato cartonera, ou seja, livretos impressos e confeccionados de forma artesanal com tiragens pequenas, comercialmente acessíveis mas muito caprichadas.


Mas voltando à profusão de prosadores que se aventuram na poesia ou de dramaturgos que se aventuram na prosa e toda essa gang-bang de gênero, deparei-me dia desses (mais precisamente no lançamento de seu terceiro livro, o segundo de poesia, Meia com amargo) com William Teca, poeta curitibano que publicou seu primeiro livro tardiamente, Sinistros insones (Catalina edições, 2017).


Teca nasceu em Curitiba em 1975. Graduado em Letras pela UFPR e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição, transita como editor, professor, músico e escritor. Como foi apresentado em seu livro de contos, Dois contos (BuruRu, 2020), “poeta em essência, mas flerta com a prosa”, neste livro que providencialmente vem parar em minhas mãos, mesmo seu lançamento tendo passado um tanto batido, Teca se despe de seu estilo poético contestador mas elegante, entre quebras sonoras e enjambement, e invade uma atmosfera prosaica sombria e violenta.


Dois contos (Teca curte umas leminskadas que eu sei!) flerta muito com aquela tradição da literatura pulp bukowskiana, um tanto à Jonh Fante, com prostitutas, muito álcool, muito sexo, muita porralouquice. O primeiro conto já nocauteia o desatento leitor sensível pelo título (oh, almas puras!), Conga na boca do cachorrão, que narra as incursões de um pária da sociedade pela noite (curitibana?) envolto numa atmosfera brumosa que, à medida que a narrativa vai avançando e o narrador vai ficando mais bêbado, seu raciocínio também vai se tornando cada vez mais turvo. Esse anônimo ergue a bandeira de todos os estereótipos do macho alfa periférico, ou seja, tosco, homofóbico e machista, e suas incursões por um terreno que não é o seu o levam sempre à iminência de um fim trágico.


Antes mal acompanhado do que só segue o mesmo estilo, regado a muito álcool, a muito barato, a muita fumaça. A diferença entre o primeiro conto e o segundo é o estilo de linguagem que Teca usa em cada uma das histórias. Ao passo em que na primeira narrativa o autor emula a linguagem falada de suas personagens em essência, no segundo o trabalho linguístico vai muito além da coloquialidade de personagens suburbanas, periféricas, há todo um cuidado de artesão literário nesse segundo conto, resultando em um texto extremamente lírico, mesmo que retratando o mesmo submundo com todas suas agruras e percalços do primeiro texto.
Dois contos é um brinde aos leitores do William Teca poeta, e impressiona sua força estilística que, em momento algum, cai no clichê, no óbvio, no requentado, como é comum acontecer. Percebe-se com seus três livros publicados que Teca é um escritor completo.


Evoé!

Por Daniel Osiecki