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Cotidiano

Alavancas de Bolsonaro, Escola sem Partido e gênero têm raízes religiosas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Até as 20 horas de segunda-feira (22), somava 8,6 milhões de visualizações um vídeo de 2016 em que Jair Bolsonaro, então deputado e agora candidato do PSL à Presidência, acusa o PT de promover a sexualização precoce de crianças nas escolas do país.

A título de comparação, o número equivale a 18% dos votos recebidos por ele no primeiro turno da eleição.

No vídeo, postado em sua conta pessoal no Facebook e ainda no ar, Bolsonaro denuncia a entrega para alunos do que, segundo ele, seria um kit em que se ensina a ser homossexual e de um livro sobre sexo para crianças.

Esses dois materiais, entretanto, jamais chegaram a escolas por vias oficiais.

O livro apresentado por Bolsonaro no vídeo, e de novo em entrevista ao Jornal Nacional antes do primeiro turno, nunca esteve na lista de obras compradas pelo governo. Depois do desmentido, ele voltou a gravar afirmando que as escolas receberam a obra, sim, como um brinde das editoras.

Esse novo vídeo já foi visto 3,5 milhões de vezes no YouTube, em canal extraoficial. Não é possível mensurar a quantidade de compartilhamentos de conteúdos no WhatsApp.

A campanha envolvendo esse tema alavancou Bolsonaro, como o próprio reconheceu. "O 'kit gay' foi uma catapulta na minha carreira política", disse ao jornal O Estado de S. Paulo em abril de 2017.

Mas essa não é uma retórica isolada ou original, circunscrita ao contexto brasileiro. Movimentos que se opõem a discussões sobre gênero nas escolas ganham força desde a década de 1990.

Há iniciativas em ao menos 50 países, dos EUA à França, em consonância com agendas religiosas como a oposição ao aborto, ao casamento homossexual e a um suposto risco de destruição da família.

Entre os detratores pelo mundo, reforça-se o discurso de que há um ataque orquestrado por militantes da esquerda marxista ao conceito tradicional de família.

No México, deputados com apoio de grupos conservadores chegaram a propor em 2016 a queima de livros didáticos que abordavam a educação sexual. No mesmo ano, uma marcha tomou as ruas na Colômbia contra a pretensão do governo de incluir essa discussão na educação.

Na Itália, o chamado Jogo do Respeito foi proibido após mobilização de conservadores e religiosos. O material, com desenhos, questionava estereótipos sociais e apresentava homens passando roupa ou carregando um carrinho de bebê, além de mulheres trocando lâmpadas de casa.

Segundo estudiosos, a abordagem educacional da identidade de gênero pode colaborar com o combate a problemas como gravidez na adolescência, violência contra a mulher e homofobia. A igualdade de gênero é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

De acordo com pesquisadores, o próprio termo "ideologia de gênero" foi gestado entre os que atacam essas discussões. Não há entre educadores, portanto, quem defenda essa ideologia.

A consolidação da expressão se dá em documentos religiosos. "Identidade de gênero" aparece pela primeira vez em 1998, em nota da Conferência Episcopal do Peru intitulada "A Ideologia de Gênero: Seus perigos e alcances" (antes, autoras antifeministas como as americanas Christina Sommers e Dale O'Leary haviam feito críticas similares).

Em 2000, novas menções surgem em registro da própria Cúria Romana, até que, em 2003, é publicado o mais extenso documento católico sobre o tema, o Lexicon.

A preocupação está presente, por exemplo, na Carta de Aparecida, resultado da Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, realizada no Brasil em 2007 com presença do papa Bento 16. O texto diz que a "ideologia de gênero" colaboraria para o enfraquecimento da família e prejudicaria a dignidade do casamento.

A adoção do discurso e de expressões tem sido combinada com acusações infundadas, segundo o pesquisador Rogério Junqueira, do Centro de Estudos Multidisciplinares e Avançados da UnB (Universidade de Brasília).

Na publicação de Bolsonaro de 2016, consta que, para o PT, "brevemente a pedofilia deixará de ser crime". Nunca houve iniciativas nesse sentido nos governos do PT.

Imagens de materiais do Ministério da Saúde para o público LGBTI em campanhas contra a Aids, por exemplo, foram disseminadas nesta eleição como se fossem conteúdo escolar. Foto de uma Parada Gay nos EUA também.

A Justiça eleitoral determinou no último dia 15 a retirada do ar de publicações do capitão reformado que associam a entrega do que passou a ser chamado de "kit gay" a Fernando Haddad (PT).

O petista, que disputa o segundo turno, era ministro da Educação na época da polêmica sobre o material contra a homofobia, engavetado em 2011. Além de ter sido barrado, o kit era voltado a alunos de ensino médio (com 14 anos ou mais) e a professores.

"Investe-se em um pânico moral quando se começa a falar que as crianças estão sendo ameaçadas", diz Junqueira, autor de artigos sobre a cruzada contra discussões de gênero. "Os acusadores colocam os acusados na defensiva a partir de um suposto comportamento inaceitável, como ensinar sexo para crianças."

No Brasil, a polêmica sobre o kit foi o ruidoso início desse fenômeno, ainda em 2011. Mais tarde, em 2014, no governo Dilma Rousseff (PT), uma meta que buscava superar desigualdades educacionais "com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual" foi suprimida da versão final do PNE (Plano Nacional de Educação).

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