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Maternidade

O amor

Venho recebendo no consultório um analisando cujo silêncio se impõe há pelo menos um ano. Um ano. Trocamos algumas poucas palavras no primeiro encontro. Ele me contou o que procurava, falamos sobre a frequência das sessões, o preço... A partir daquele dia, sua voz se limitou ao “boa noite” e o “até semana que vem” ditos no início e no fim de cada sessão. Embora possa parecer estranho a quem nunca viveu um processo de análise, o silêncio em um setting analítico está longe de ser vazio de significado. É um silêncio ativo, uma abertura de espaço. O fato de o analisando seguir vindo, semana após semana para ter seu silêncio sustentado por um outro – e por si mesmo, claro –, diz de um trabalho que caminha. Não sem angústia.

Na sala de espera do consultório, ao lado de uma das cadeiras que estão lá, mantenho uma mesa com cartões e balinhas. A princípio, eram as mesmas balinhas de menta que minha analista oferece em seu consultório. Um referência descarada. Fato é que, vez por outra, eu me servia das balinhas. E como passo grande parte de meus dias no consultório, me dei conta de que vinha consumindo mais açúcar do que o indicado. ‘Me dei conta’ só para parecer consciente e controlada, na verdade, meu dentista foi responsável pelo informe. Por esta razão, passei a comprar somente doces que não gosto, garantindo assim, a saúde de meus dentes. Mas como gente é matéria confusa, tenho escolhido os doces cada vez com mais esmero para afastar a culpa de servir algo que não comeria. Aposto no chiclete adams que, além de muito bem quisto pelos pacientes, é amarelo e vai bem com a decoração da sala de espera – embora me force a tentar alguma variação para não entediá-los.

No último mês de junho, vi em destaque, na prateleira da loja de doces que frequento, uma caixa de paçoquinha Amor. A paçoquinha atendia ao meu desgosto e à minha exigência cromática, pensei que faria sentido com as festas de fim de semestre. Levei. Qual não foi minha surpresa ao vê-la nas mãos do analisando quieto e silencioso sobre quem falei no início desse texto. Entrou na sala já dizendo da saudade que tinha das paçocas do São João da infância. “Me dói pensar que mudou a embalagem, sempre foi linda”, ele dizia enquanto abria com cuidado o plástico de hoje. Longos minutos sobre o papel de ontem, a fórmula que também mudara, mas que conservava consigo algum gosto de passado, os farelos que, por mais que a gente tente conter, seguem se espalhando por aí, o desejo de comer mais, de abocanhar a vida sem reservas. Foi ela quem fez furo no muro forte do analisando. Foi por ela que foi possível dizer tanto. Foi ele quem se deixou furar. Estejamos prontos para as pequenas oportunidades. Uma paçoquinha. Boa semana queridos.

Ps: como sempre gosto de lembrar, o analisando foi consultado e permitiu que sua história estivesse nessa coluna.

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