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“Sobreviver em 2025 exige mais do que café forte e meditação guiada. Exige repertório” (Foto: Pìxabay)

Você acorda, respira fundo, espia o celular e leva o primeiro tapa do dia: mais uma crise, mais um cancelamento, mais uma dancinha viral sobre um assunto sério demais pra virar coreografia no Tik Tok. E você ali, tentando entender se é o fim do mundo ou só seu wi-fi que caiu de novo.

Como diria Odete Roitman, “sim, meu bem”. Sobreviver em 2025 exige mais do que café forte e meditação guiada. Exige repertório. Não que seja necessário recorrer a Shakespeare ou Simone de Beauvoir. Mas é importante saber quando rir, quando opinar e, principalmente, quando fazer cara de conteúdo e fingir que entende do assunto.

Então, respira fundo, e segue algumas dicas pra atravessar esse tempo esquisito sem perder a graça. Ou a cabeça.

1. Crises são como azeitonas: vêm em conserva e nunca vêm sozinhas

Hoje é a crise diplomática com os EUA. Já teve a Guerra da Ucrânia e do Oriente Médio, além da crise hídrica. Semana passada, crise nos nervos. E, no horizonte, a crise climática, assando o planeta com zelo e maestria. Vivemos num ciclo de emergência crônica: quando não estamos sendo tragados por incêndios, somos atropelados por boletins econômicos, achaques internacionais, gafes presidenciais ou colapsos emocionais em massa. O mais curioso é que já naturalizamos esse tipo de cenário. Comentamos tragédias com a mesma entonação de quem fala das mudanças drásticas do tempo em Curitiba.

2. Fingir conhecimento e assumir o papel de pseudo intelectual

Hoje, poucos têm tempo pra mergulhar em artigos acadêmicos sobre geopolítica ou modernidade líquida. Mas isso nunca impediu ninguém de parecer sabichão. Basta saber soltar frases como “o que me preocupa mesmo é o viés cognitivo coletivo”, “estamos num momento pós-narrativo da história”, culpar o “neocolonialismo” e o “algoritmo de polarização”. Não importa o que isso signifique. O importante é parecer profundo o suficiente pra desmotivar qualquer tentativa de debate.

3. Redes sociais são confessionários com plateia

Vivemos postando a vida como se fôssemos protagonistas de uma série existencial que mistura comédia romântica com distopia trash. Tem gente que chora nos stories e, três cliques depois, surge dançando com filtro de cachorro. Publicar virou parte do luto, da festa, da raiva, da dúvida. No fundo, o que queremos é ser vistos. Nem compreendidos, nem aplaudidos. Só vistos. Ainda que seja por algoritmos carentes.

4. Política virou reality show com eliminação por tweet

Se antes a política era um campo de ideias (ainda que enviesadas), hoje é uma arena de gladiadores digitais. As discussões são sobre quem lacrou mais, quem cancelou primeiro, quem viralizou melhor. Questões diplomáticas são anunciadas por meio das redes sociais, com direito à indignação performática. Militamos com emojis, protestamos com gifs e seguimos votando com preguiça.

5. O clima pirou e ninguém mais sabe como se vestir ou sentir

Temos alertas meteorológicos no celular e na alma. Faz 37 °C às 9h e 11 °C à meia-noite. As estações já não sabem quem são: primavera com cara de outono, inverno que dá passagem pra umidade tropical e um verão que parece rave no inferno. Mas pior do que o calor do planeta é o frio da empatia. Gente suando por fora e congelada por dentro. Climatologistas e terapeutas andam dividindo a mesma sala, onde tudo resulta em previsão de tempestade.

6. Informação virou streaming: cada um assina a narrativa que mais combina com seu algoritmo

Não existe mais “a verdade”. Existe a minha verdade, a sua verdade e a do sujeito que gravou um vídeo no YouTube explicando física quântica com base em vivência pessoal e três livros esotéricos. Está tudo bem, desde que você não questione. A realidade virou buffet livre: você escolhe a versão dos fatos que mais te agrada e ignora o resto. Quem ousa discordar é automaticamente taxado de “alienado”, “inocente útil” ou “vítima do sistema”. É o fim da dúvida saudável e o nascimento da certeza histérica.

7. Espiritualidade virou serviço por assinatura — e os Legendários estão entre nós

Tem coach que fala olhando pro nada, com voz calma e dedo apontando pro além. Ele vende “reprogramação celular com propósito” e diz que dinheiro é só uma frequência. Curiosamente, a dele sempre está em alta. Tem também guru minimalista que vive num bangalô instagramável em Bali, mas prega o desapego radical. Não dá pra esquecer o xamã corporativo, que usa colar de semente amazônica por cima da camisa da Hugo Boss e promete “expandir sua liderança quântica” com base em ayahuasca e gráficos de desempenho. Todos prontos pra te salvar de você mesmo, por um preço acessível e uma parcela no cartão.

E, no meio disso tudo isso, tem você. Tentando pagar o boleto, parecer interessante no bar, entender os memes da geração Z e não surtar com o barulho do mundo. A boa notícia é que, se fosse realmente o Apocalipse, já teria trilha sonora do Hans Zimmer e narração do Morgan Freeman. Por enquanto, o que temos é só a vida como ela é, bem rodriguiana: meio trágica, meio cômica, cheia de updates e bugs.

Então respira, pega uma taça (de vinho, de água, de coragem) e segue. Com ironia no bolso, poesia na língua e um coração que, apesar de tudo, ainda quer dançar. Porque rir ainda é o mais revolucionário dos atos.

Danielle Blaskievicz é jornalista, empresária e usuária avançada de ironia em ambientes hostis. Especialista em fingir normalidade desde 2020.