O alcance de juros reais de 1,7% ao ano

06/11/12 às 23:50 Gilmar Mendes Lourenço

No encontro de 10 de outubro de 2012, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), deliberou, de maneira dividida, a redução da taxa selic para 7,25% ao ano, o menor nível da história, depois de dez cortes seguidos. Um exame do comunicado e da ata produzidos por aquela instância de deliberação permite inferir o aceno de interrupção da fase cadente da taxa básica de juros brasileira, ou ao menos de obediência ou vigilância à uma condução guiada por “máxima parcimônia”, que propiciaria, o estreitamento das margens para futuras diminuições.
Ao mesmo tempo, o Relatório de Inflação, preparado pela autoridade monetária para o terceiro trimestre de 2012, não deixa qualquer dúvida quanto à manutenção dos juros em patamares reduzidos, motivada pela fraca performance da economia, explicada pela conjugação entre timidez dos investimentos, limites à expansão movida pelo consumo das famílias e modesto poder de fogo do arsenal de benefícios anticíclicos. Em outros termos, a intenção de promover a convergência da inflação para a meta, de forma não linear, poderá ensejar o uso de mecanismos macroprudenciais diferentes dos juros para o bloqueio de uma inesperada ativação da espiral de preços.
Recorde-se que a surpreendente guinada na orientação da entidade monetária teve início na reunião de 31 de agosto de 2011, quando a selic situava-se em 12,5% a.a., taxa que foi definida na reunião do comitê do mês de junho daquele ano, ocasião em que optou-se pela elevação de 0,25 pontos percentuais (p.p.).
É necessário sublinhar que os desdobramentos da ferrenha manutenção de uma rota declinante na fixação dos juros primários, por parte da autoridade monetária, praticamente sepultaram a premissa conservadora, predominante nos meios financeiros, centrada na correlação direta entre flexibilização monetária e perturbações econômicas secundárias provocadas pelo reaparecimento de pressões e surtos inflacionários de curto prazo.
Por certo, sobrou ao BC “lucidez e competência” para, em contraposição à conservadora liturgia dos mercados, reforçada pelos oligopólios dos meios encarregados da formação de opinião especializada, apostar no prolongamento e agravamento da anemia externa, principalmente nas economias mais débeis e com maior risco de crédito da eurozona, e posteriormente na Argentina, e em suas repercussões desinflacionárias e de excessiva liquidez, por tempo esticado, em escala planetária.
A propósito do acerto do BC, a coordenação editorial da qualificada e consagrada revista Conjuntura Econômica, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), veio a público reconhecer, com a absoluta honestidade intelectual enraizada naquela instituição, que os responsáveis pela principal coluna da publicação “embarcaram na onda de críticas, e colocaram-se contra o corte da Selic de agosto do ano passado”. Diga-se de passagem, que parcela razoável da academia compreendeu e defendeu, de pronto, a inclinação ao afrouxamento monetário manifestada pelo Copom.
A confirmação da prorrogação do segundo tempo da crise internacional, iniciada em 2007-2008 nos Estados Unidos (EUA), cujo ápice foi alcançado com a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, em setembro de 2008, também contribuiu para a não observância dos efeitos ou forças colaterais normalmente associadas à preservação de uma curva de diminuição dos juros, especialmente quando esta tende a furar os pisos inéditos.
Ao contrário, o aprofundamento da recessão global, da qual ainda estariam livres algumas poucas nações emergentes, engendrou a feitura de testes de compressão dos  rendimentos dos ativos de primeira linha no Brasil, que desceram a 1,7% a.a. reais no começo de outubro de 2012, retirando, já há alguns meses, o País da incômoda primeira posição no ranking internacional e derrubando a tradição de resistência ao encolhimento dos juros, em tempos de transição de um ciclo de alta para outro de baixa da atividade econômica, quando a presença de focos inflacionários justificaria políticas monetárias ativas.
Nessas circunstâncias, em uma fase de prática de custo negativo do preço do dinheiro por parte dos bancos centrais dos países desenvolvidos, o BC brasileiro aproveitou para conjugar a busca de convergência entre juros do País e os mundiais, a contenção da enxurrada de capitais especulativos, preservando sua atração - essencial para o fechamento do balanço de pagamentos - e a perseguição de uma flutuação cambial na direção da desvalorização do real até uma cotação teto próxima de R$ 2,05 por dólar.
Assim, de modo gradativo, o BC passou a promover a descida dos juros reais da liderança no sistema mundial em agosto de 2011 (6,6% a.a.) para o quarto posto em outubro de 2012, atrás da China (3,9% a.a.), Chile (2,3% a.a.) e Austrália (2,0% a.a.), o que oportunizou a diminuição dos ganhos sem risco com as operações de arbitragem -  baseadas no apreciável diferencial entre as taxas de juros domésticas, vis a vis as externas, que transformaram a variável cambial de preço relativo em ativo financeiro - e uma espécie de abrandamento efetivo do sistema de metas de inflação - permitindo até o rompimento do teto de 6,5% em doze meses, ainda no primeiro semestre de 2012, fenômeno revertido até o final do exercício -, e de observações mais acuradas sobre os sinais emitidos pelos níveis de atividade.

Gilmar Mendes Lourenço, é economista, presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), professor do Curso de Economia e Editor da revista “Vitrine da Conjuntura” da FAE e autor do livro “Conjuntura Econômica: Modelo de Compreensão para Executivos”. Foi eleito  “O Economista Paranaense do Ano de 2011” pelo CORECON/PR e vencedor do Prêmio Imprensa e Quality TV & Jornais em novembro de 2011. Ele escreve às quartas-feiras neste espaço

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