RAQUEL COZER, ENVIADA ESPECIAL
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Numa mesa muito aplaudida e cheia de frases de efeito, que arrancaram gargalhadas do público, o dramaturgo britânico David Hare tratou de questões políticas a outras mais prosaicas, como a vaidade dos atores. O debate ocorreu na Tenda dos Autores, no início da tarde deste sábado (4).
Embora suas peças -com temas como o papel da igreja e da imprensa, a crise do Partido Trabalhista britânico e as origens da invasão do Iraque- não sejam conhecidas no Brasil, parte de seu trabalho o é, já que fez o roteiro de filmes como “As Horas” e “O Leitor”, e Hare soube usar essas experiências para se aproximar da plateia em Paraty.
Comentou, por exemplo, a boa fase da televisão, elogiando séries como “Mad Men” e “The Wire”, e disse acreditar que muito dessa “renascença” tem a ver com “escritores terem liberdade de fazer o que fazem, que é a narrativa”.
“Salman Rushdie disse que, se começasse agora, escreveria para a TV, porque a narrativa agora reside na TV. O perigo do romance agora é que comece a tentar fazer coisas que a TV não pode fazer. Ele fica tão literário que acaba sendo irrelevante na vida das pessoas”, disse.
Da produção audiovisual, lembrou também roteiros de filmes que se recusou a fazer, como o de “A Dama de Ferro”, sobre Margaret Tatcher (“Não queria vangloriar o mito dela mais uma vez”) e o do quarto filme da série “Guerra nas Estrelas” (“Pensei: ‘Meu Deus, será que vou ter de assistir o um, o dois e o três?'”).
Argumentou que uma das vantagens de ser dramaturgo, na comparação com o trabalho como roteirista de cinema, é que trabalha sozinho e não aceita encomendas, de modo que, quando entrega uma peça, “é uma dádiva”, as pessoas não sabem o que esperar e gostam”.
“Já no cinema tudo é decidido por dez, 12 pessoas. A coisa mais idiota que você pode fazer numa reunião é ser o primeiro a falar, porque os poderosos falam por último e mudam tudo. E o cretino é que no cinema são sempre os roteiristas que falam primeiro.”
Os bons momentos da mesa incluíram as histórias de quando Hare resolveu atuar no monólogo “Via Dolorosa”, sobre o conflito entre israelenses e palestinos, com o diretor Stephen Daldry.
“Depois disso entendi a neurose dos atores sobre o palco. Passei 30 anos lidando com eles antes e não entendia. No palco, o ator é como se fosse um colecionador obcecado que tem que ver todas as peças no mesmo lugar. Tolero muito mais os atores agora, sou mais solidário”, disse.
Lembrou, no entanto, que o ator americano Paul Newman não foi tão solidário assim ao cumprimentá-lo após uma apresentação. “Ele disse: ‘É excelente. Como se fosse uma criança de três anos levantando para se apresentar numa festa’.”
O dramaturgo destacou ainda a importância do estilo, lembrando Virginia Woolf, que dizia gastar dez vezes mais tempo pensando no ritmo do que no sentido do que escrevia. “Isso parece um comentário muito estético, mas na verdade ritmo é sentido. A não ser que você consiga criar ritmo, a linguagem não funciona. Não adianta imitar a fala natural, isso é insuportável”, disse.
Sobre seu trabalho de apuração para peças, contou que passou uma temporada acompanhando reuniões do Partido Trabalhista para escrever “Ausência de Guerra”, sobre a “autodestruição” dos progressistas no início dos anos 1990. “Ficava todo mundo sussurrando, ninguém confiava em mim”, disse, lembrando que a peça, exibida novamente em 2015, “continua atual”.
Certa vez, contou, foi procurado por um secretário da rainha inglesa, que queria saber se ele não gostaria de escrever sobre a família real. Respondeu que não era uma prioridade no momento, ao que o secretário pediu que o procurasse caso mudasse de ideia.
“Achei que era um secretário camicase da rainha”, brincou.