Acertar o tom de um personagem nem sempre acontece de imediato, requer um tempo de trabalho, experimentando as diversas facetas possíveis até chegar ao ponto desejado. Mas às vezes o ator acerta de cara, como no caso de Humberto Martins, que conquistou o público com seu complicado Eurico, empresário com imensa dificuldade em aceitar mudanças. Deixando de lado sua fase de descamisado em diversas novelas, o ator é um dos destaques da novela ‘A Força do Querer’, de Glória Perez, que entra em sua reta final. 

O fato de ser um personagem extremamente preconceituoso e conservador, exigiu de Martins desenhá-lo em sua cabeça assim que pegou o roteiro em suas mãos. Assim que vi como era o papel comecei a montá-lo, imaginando como se movimentaria, como seria a fala, e mesmo qual o tom da voz, explica o ator, que enfatiza o fato de não se inspirar em ninguém para montar o personagem. Eu imaginei essa pessoa com essas características fortes, bom presidente de empresa, mas controlador, retrógrado, conservador, austero.”

Quando recebi os primeiros capítulos, eu estava em Orlando e lá mesmo já estudei o personagem. Tudo o que eu precisava saber sobre ele estava ali, no texto da autora, e cheguei aqui com ele pronto, do jeito que está na tela, afirma. Aos 56 anos, Martins conta que ao se dar conta de como Eurico pensava, tão diferente do que se prega hoje em dia, direcionou-o da maneira como achou melhor. De acordo com o que estava no roteiro, resolvi construí-lo com essas características. Pensei assim: vou fazer esse cara falar forte e alto, sem noção do volume da sua voz.
Dependendo de como eu fizesse o Eurico, poderia ir por um caminho ruim e ser rejeitado, afinal, as coisas que ele diz são pesadas. Por isso mesmo, optamos por um lado cômico no jeito como ele se expressa. Fiz questão de traduzi-lo com certa leveza, para dar graça, conta o ator carioca. Ele também teve a preocupação de fazer com que o Eurico fosse engraçado e de transformar qualquer situação que pudesse ter uma leitura pesada ou polêmica em um momento de humor. Seria mesmo um risco, afinal Eurico não perdoa ninguém, quando diz o que pensa, rejeitando até quem ele ama, como é caso da sobrinha, que ele discriminou quando ela assumiu ser trans, passando da menina Ivana para o rapaz Ivan. Uma cena forte. Humberto

Martins lembra ainda que Eurico mostra também uma faceta mais leve, mas não menos carregada de preconceito, em relação ao motorista Nonato, que é na verdade uma travesti, mas que tem de se passar por hétero. Vira e mexe, o patrão enfatiza a tal masculinidade do empregado, que tem cabelo comprido e engana Eurico, dizendo que não pode cortá-lo por causa de uma promessa feita por sua mãe. Corta isso logo, seu Nonato, isso não é coisa de homem, repete o empresário para o rapaz, que precisa se conter.

Ele é contrário a tudo que é modernidade, que transgride a normalidade, tudo que sai do normal, mas gosta muito do Nonato e a expectativa do público é como será quando ele descobrir a verdade sobre o rapaz. O lance será como é que ele vai tratar a situação do cara que ele gosta, trata como filho. Até eu estou curioso para saber, afinal o Nonato cuida do patrão, se mete nas situações da mulher para tentar salvá-la das encrencas, diz Martins. Eu acredito, pelo modo de pensar do Eurico, que ele não vê essas pessoas integradas na sociedade, de forma legal, como cidadãos, uma coisa que acontece nos dias de hoje, mas acho que, ao saber a verdade sobre Nonato, isso vai abrir muito os olhos dele. Tenho para mim, que ele vai medir o tempo de convivência que teve com esse rapaz e raciocinar que uma coisa não tem nada a ver com a outra, porque o Nonato é muito competente, um gentleman, solícito, educado, torce o ator, que não sabe se Eurico vai aceitar a situação, nem como será a cena, mas acredita que o personagem conseguirá quebrar esse preconceito, menos um na vida dele.

Mas terá ainda uma outra cena que exigirá uma dose de lucidez de Eurico, que será a descoberta do vício da mulher, Silvana. Nos últimos capítulos, comecei a fazê-lo mais conformado, ele tem um tom de desconfiança em relação às atitudes da mulher, mas ele mesmo não sabe como solucionar, não acredita em clínica, mas ela precisa passar por um tratamento severo, um controle.

Quanto ao sucesso do personagem, Humberto Martins avalia: Essa aceitação do público, colegas elogiando, vejo que cumpri minha missão.


No exterior

‘The New York Times’ discute importância de ‘A Força do Querer’ para transgênero

O jornal The New York Times publicou no sábado, 7, uma reportagem sobre a importância da novela A Força do Querer para a representatividade das pessoas trans no Brasil.
Intitulada Transgender Brazilians Embrace Hit Soap Opera: Now You Can See Us (Transgêneros brasileiros abraçam novela de sucesso: Agora vocês nos veem, em tradução livre), a matéria entrevista membros da produção da novela, além de Pabllo Vittar e moradores da Casa Nem, que acolhe transexuais, travestis e transgêneros no Rio de Janeiro.
Além de discutir o enredo da novela, o texto ainda traz um panorama dos direitos e da atual situação da população LGBT no País.

Enquanto o Brasil desenvolveu uma reputação por políticas sociais inclusivas durante os 13 anos em que foi governado pelo Partido dos Trabalhadores, de esquerda, cujo mandato acabou no ano passado, o País continua em diversos aspectos uma nação muito conservadora, na qual ativistas afirmam que gays e pessoas transgênero enfrentam estigmatização e violência, escreve a repórter. O texto é assinado por Shannon Sims e explica que a novela atinge um público amplo no Brasil em uma época na qual temas relacionados a gays e transgêneros estão mais em alta por aqui.

A história de Ivan, transmitida logo após o telejornal mais assistido do País, pode ser o retrato positivo mais proeminente de questões trans na cultura pop, reflete a jornalista.

Sims descreve como a novela reflete parte do dia a dia de moradores da Casa Nem. Ela traz o exemplo de Letthycia Siqueira, que foi expulsa de casa aos sete anos de idade por se vestir com roupas femininas. Eu vivi tudo que a novela está mostrando, disse ela ao jornal. As pessoas trans passam por dificuldades e enfrentam o preconceito, não importa de que cor ou classe são. Nós todos fomos rejeitados em momentos diferentes, afirma.

Ao fim, a reportagem mostra como a novela deu esperança a Letthycia. Nós sempre fomos invisíveis, disse ela com os olhos grudados na televisão. Pelo menos agora as pessoas têm a chance de abrir o coração. Pelo menos agora vocês nos veem.