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17ª Corrida da Graciosa: em comunhão com a natureza

A Estrada da Graciosa – PR-410 – tem 28,5 quilômetros e cruza o maior trecho preservado de Mata Atlântica do Brasil, conectando Curitiba ao litoral do Paraná. Os primeiros registros da estrada datam de 1721, mas ela foi oficialmente inaugurada em 1873, depois de mais de 20 anos de construção. Se hoje representa apenas um caminho de turismo, com mirantes, recantos e cursos d’água, já foi a principal conexão rumo ao Porto de Paranaguá.

Nesse cenário único, foi realizada a 17ª Subida da Graciosa - que integra o circuito Amazing Runs -, no último dia 21, com percurso de 42 quilômetros (o desafio Mata Atlântica, que descia e subia a estrada) e os 21 quilômetros apenas de subida. Me inscrevi para a meia maratona logo após a Maratona de Floripa e, confesso, me arrependi em vários momentos. Sou um corredor que gosta de subidas até mais do que das descidas, mas 14 quilômetros ininterruptos subindo?

Treinei durante um mês aproximadamente para a prova, contando com o lastro de corridas e treinamentos para a Maratona de Floripa. Tentei simular subidas consecutivas na esteira, variando inclinações e os tiros, para incrementar a capacidade cardiorrespiratória. Já aviso de antemão aos interessados: se quer chegar preparado, acostume-se a correr na esteira na inclinação 5, pelo menos.

A prova

A prova começa quase 4 horas antes de você largar. É possível ir de carro, mas a organização oferece um ônibus que leva até um ponto próximo à largada, o que é mais conveniente e fácil. No ônibus – que saiu entre às 4h30 e 5h45 para a Meia Maratona e das 4h às 4h30 para a Maratona –, é possível acompanhar a ansiedade, a preparação e os rituais de cada um. A maior parte conversava com os amigos, ouvia sua música, mas poucos relaxaram e dormiram.

De lá, caminhava-se aproximadamente 1,5 quilômetro até a largada, que ocorreu pontualmente às 8 horas. Procurei conversar com quem já tinha treinado ou corrido na Graciosa, e a recomendação era unânime: respeite a Serra. Coloquei como objetivo terminar a prova abaixo de duas horas, sem muita pressão e em uma tentativa de não andar de jeito nenhum.

No início, a prova oferece uma descida e um percurso plano, até aproximadamente o quilômetro 2. De lá, começa-se uma subida tímida, que só piora. A subida, quando muito intensa, atrapalha o movimento da corrida, ele fica mais curto, além de exigir muito mais da musculatura e da capacidade cardíaca. Mas ainda piora: logo se sai do asfalto para o paralelepípedo, mais irregular e que exige um planejamento de onde pisar para evitar lesões – se não me falha a memória, foram 8 kms nesse piso.

Além disso, a estrada é desnivelada, fazendo com que você esteja sempre correndo de forma irregular, forçando mais o lado direito ou o esquerdo, dependendo de cada curva. Ao mesmo tempo em que se sofre, você se depara com visuais da Mata Atlântica, rios, cachoeiras, pássaros... É literalmente uma comunhão com a natureza.

Depois de algum tempo na subida, o corpo parece se acostumar com a exigência do maior esforço, mas, dos quilômetros 12 ao 16, ela fica mais íngreme e em vez das curvas contínuas, é possível observar longas subidas retas, o que desafia ainda mais o psicológico, especialmente pelo cansaço. Os cinco quilômetros pós-serra também não são fáceis, com longas descidas (extremamente incômodas depois de subir tanto), seguidas por subidas.

Corri tranquilo, exceto quando percebi que, se forçasse, conseguiria fazer em menos de duas horas nos dois quilômetros finais. Concluí a prova com 1h59m56s, sem andar. Fui o 60º atleta homem a concluir os 21 quilômetros, o 12º da minha faixa etária. Já fiz provas muito bonitas, como a Meia do Rio de Janeiro, de Vancouver e de Camboriú, mas essa – apesar da dificuldade – foi a mais bonita. Apesar de correr em casa, vejo a Estrada da Graciosa com uma nova perspectiva.

A pergunta que sempre me faço após uma prova é: faria de novo? A resposta é: sim, com certeza. Aliás, acho que é uma daquelas experiências que todo corredor deveria se desafiar ao menos uma vez na vida.

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