• Números

    Bloqueio e rastreadores ajudam a reduzir furtos e roubos de celulares

    Bloqueio e rastreadores ajudam a reduzir furtos e roubos de celulares
    (Foto: Divulgação / PC-PR)

    O número de celulares furtados ou roubados no Paraná diminuiu gradativamente nos últimos três anos. De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp-PR), a redução do número de furtos foi de 7,5% na comparação do primeiro semestre de 2019 com o mesmo período de 2018, e de 24,1%, em comparação com 2017. Já o número de roubos diminuiu 17,3% de 2018 para 2019 e 53% se comparado o primeiro semestre de 2019 com o mesmo período de e 2017. No primeiro semestre de 2019 foram registrados 9.242 furtos e 6.781 roubos de aparelhos celulares em todo o Estado.

    Parte do fenômeno é atribuída à tecnologia, que permite rastreamento ou bloqueio total de aparelhos. O bloqueio mais comum é por meio do Imei, sigla para “International Mobile Equipment Identity”, possível para qualquer aparelho smartphone. É um código de identidade de cada dispositivo eletrônico, como celulares, e que com esse código é possível inutilizar um aparelho após a realização de um Boletim de Ocorrência (BO). A própria Polícia Civil pode solicitar o bloqueio à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) ou o proprietário, de posse do Imei, pode solicitar que a operadora de telefonia faça a solicitação. De qualquer forma, é exigida confecção do B.O para que o bloqueio seja realizado.

    Apesar disso, muitos aparelhos ainda são furtados ou roubados para serem desmontados depois de vendidos para receptadores. Nesse caso, o trabalho da polícia é focado em investigar as lojas que vendem peças de segunda linha. Mas, o mais comum, segundo o delegado Marcelo Magalhães, da Delegacia de Furtos e Roubos de Curitiba, é a venda de celulares por meio de sites de vendas.

    “O que chama atenção é que muitas pessoas acabam repassando celulares por meio de sites de vendas, porque acham que é um ambiente privado, que seria difícil de rastrear. Só que nós, aqui em Curitiba, recuperamos dezenas de celulares todos os meses só fazendo buscas em sites desse tipo”, aponta.

    O delegado recomenda que aparelhos sejam comprados somente com nota fiscal em loja autorizada ou em nome do proprietário identificado. Magalhães também alerta que comprar um aparelho sem procedência pode implicar o comprador no crime de receptação.

    “A gente sempre ressalta que as pessoas devem comprar esses produtos em lojas que forneçam uma certa garantia. É temerário comprar pela internet. Também tem grupos de Whatsapp, de Facebook, onde há essa prática muito comum (de venda de celulares roubados). A gente consegue recuperar esses aparelhos. Também é comum aqui na delegacia que as pessoas que compraram celular venha relatar um problema. Dizem ‘olha, comprei aparelho pela internet e apareceu como bloqueado’. A gente investiga e descobre que é um aparelho roubado”, diz.

    Apesar da queda, casos ainda são significativos

    Embora os números mostrem uma redução no número de registros, o número de casos ainda é significativo. Exemplo é o caso da jornalista Adriana Lopes, que passou dois anos morando em Boston, nos Estados Unidos, e foi assaltada assim que chegou a Curitiba. Três dias depois de retornar, Adriana teve o celular levado no Parque Bacacheri. “Fui batizada”, ironiza.

    Adriana conta que no primeiro passeio despretensioso foi vítima de assalto. “Fui fazer uma caminhada com meu cachorro, às 16 horas, num bosque que fica próximo à minha casa. Estacionei o carro dentro do parque e fui andar, do lado de fora. Não consegui completar uma volta inteira no quarteirão quando fui abordada por três rapazes. Um deles tomou o aparelho da minha mão e o outro puxou o fone que estava no meu ouvido. Eles saíram andando normalmente, como se nada tivesse acontecido. O lugar tem guarda, mas na hora que aconteceu não tinha ninguém por perto”, conta.

    Ela diz que compartilha do sentimento de outras vítimas, que relatam estar em constante estado de atenção. “Nós, a população, estamos presos e eles, os marginais, é que estão soltos, cometendo crimes e assustando a sociedade sem o menor pudor. Como eu ia fazer para me defender de três cretinos? Claro que preferi não reagir. O iPhone foi, mas a decepção de não ter como me defender fica”, relata.

  • Coexistência

    Ato destaca crítica a ataques contra cultos de matriz africana em Curitiba

    Ato destaca crítica a ataques contra cultos de matriz africana em Curitiba
    (Foto: Franklin de Freitas)

    Curitiba teve neste domingo (15) uma terceira “Passeata Contra Intolerância Religiosa”, que reuniu representantes de diversas religiões. A manifestação na capital paranaense surgiu em 2017, em uma mobilização nacional, depois de ataques sofridos por terreiros de candomblé no Rio de Janeiro. De lá para cá foram duas edições anuais fixas, além de atos extraordinários, como o que ocorreu em julho novamente no Rio, em razão da ação de traficantes contra outro terreiro em Duque de Caxias. Em Curitiba, ocorrências também relacionadas a ataques a terreiros motivaram a mobilização.

    Embora as religiões de matriz africana sejam as mais atacadas e tenham especial defesa no ato, os organizadores ressaltam que todas as religiões foram bem-vindas e tiveram espaço no movimento por coexistência pacífica.

    O grupo Tambores do Paraná, de proteção à religiões afro-brasileiras, foi quem organizou o ato, que também tem apoio da prefeitura de Curitiba. Maycon Kopp, presidente do Tambores do Paraná e um dos organizadores do evento, diz que o momento é crítico para a diversidade religiosa e que, mais do que nos últimos anos, a participação do maior número de pessoas interessadas na paz se faz necessário. “Com certeza, tem (mais ódio e intolerância do que em outros anos). Algumas coisas aparecem na mídia, como aquela tentativa de incêndio que o pai de santo conseguiu apagar, depois o incêndio e quando roubaram o Terreiro das Marias que estava em obras. Mas algumas coisas que não estão aparecendo, como a agressividade com que forças policiais estão chegando, por exemplo, com muita força, com muitas palavras pesadas, que se intensificaram”, analisa.

    Kopp, que coordena o grupo que dá aulas de percussão a diversas entidades, conta que ele próprio presenciou abordagens consideradas por ele abusivas.

    Prisão durante passeata

    Um homem foi preso pela Guarda Municipal de Curitiba ontem, nas imediações da Praça Eufrásio Correa. Ele estava com uma faca e, no momento da prisão, disse que iriar matar uns 400, segundo denúncia dos integrantes da organização Julho das Pretas do Paraná. Segundo as informações preliminares a autuação foi encaminhada à Central de Flagrantes no bairro do Portão. Não informações sobre pessoas feridas.

    Depois de incêndio, terreiro sofreu furto

    Entre os relatos de ataques em Curitiba, o mais recente foi sofrido pelo Terreiro das Marias, de Umbanda, que fica no Bairro Santa Quitéria, em Curitiba. O local já havia pegado fogo há pouco mais de um mês, quando foi invadido e furtado na madrugada do dia 8 de setembro último. Os suspeitos, ainda não foram identificados e levaram, inclusive, materiais que estavam sendo utilizados na reconstrução do espaço.

    Os responsáveis pelo terreiro das Marias estimam novo prejuízo em torno de R$ 6 mil. Foram levados fios, máquinas de serrar madeira, lixadeira, materiais de limpeza, parafusos e buchas do piso de madeira. Da cantina, os suspeitos levaram ainda um forno elétrico, uma estufa pequena, cafeteira e garrafas térmicas, além de balas, chocolates e salgadinhos.

    O terreiro pegou fogo no dia 1º de agosto, dez dias depois de uma dupla ter ateado fogo em um centro espírita em construção no bairro Portão. As chamas consumiram praticamente todo o barracão. No caso do Portão, câmeras de segurança flagraram a ação criminosa. No Terreiro das Marias, no entanto, ainda não há suspeitos relacionados pela polícia.

    O Terreiro das Marias será reinaugurado hoje (16). A reconstrução do terreiro foi possível após a arrecadação de R$ 41 mil por meio de uma campanha de doações online, que rendeu o valor liquido após descontos de taxas, de R$ 38 mil. A reinauguração está marcada para às 19 horas. A expectativa é de que cerca de 300 pessoas participem. “Qualquer pessoa pode participar”, diz.

  • Previdência

    Servidores de Curitiba também terão reforma na aposentadoria

    Servidores de Curitiba também terão reforma na aposentadoria
    A PEC diz que se o Estado fizer ‘nós estamos dentro’, diz presidente do IPMC (Foto: Cesar Brustolin/SMCS)

    Servidores municipais de Curitiba também devem ter seus regimes de previdência alterados após aprovação de uma reforma estadual. O presidente do Instituto de Previdência dos Servidores do Município (IPMC), Ary Gil Merchel Piovesan, afirma que já aumentou a demanda por informações, mas que por enquanto não teria sido acompanhada por pedidos de aposentadoria.

    Segundo ele, o serviço municipal é próximo do servidor e há menos desinformação. “Aqui na prefeitura, dos servidores municipais, não percebemos alteração em função da reforma. Uma questão que envolve isso é que o nosso servidor vem buscar uma informação aqui conosco (no IPMC ou núcleos de RH), ele quer saber quando pode, quando não pode. É diferente uma situação do regime geral que as pessoas procuram o INSS (e não conseguem as informações precisas de imediato)”, garante Piovesan.

    Porém, o cenário deve mudar. Com acesso recente ao texto atualizado da reforma Previdência, que tramita no Congresso Nacional, a prefeitura tende a seguir os passos do governo estadual e federal e aplicar a íntegra do texto também aos servidores municipais. “A PEC diz que se o Estado fizer ‘nós estamos dentro’, por uma condição da Constituição nova. Em termos de sistema previdenciário viável tem que se estabelecer um sistema de idade mínima. A PEC dá essa abertura. Se o Estado aprovar, e nós não quisermos, temos que fazer o contrário, existiria essa possibilidade. Mas aí a gente perde a uniformidade do Pais”, adianta.

    Portanto, a tendência é de que os servidores municipais de Curitiba também tenham que arcar com as mudanças impostas aos trabalhadores de outras esferas. “Como eu compatibilizo regras distintas? Um município fazer de um jeito e outro de outro? Não dá. Somos a favor da uniformidade”, pontua o presidente do IMPC.

    Piovesan adianta que um grupo de trabalho analisa o novo texto da reforma e já prepara medidas para a mudança no regime local. “A PEC com o novo texto foi disponibilizada dessa forma na ultima sexta feira. Estamos em condição de compasso de espera (do que será feito no governo do Estado). Como vai se dar essa discussão na Assembleia Legislativa? Em que tempo? Ainda não tivemos uma discussão nesse nível (para afirmar que esta gestão aprovará a reforma municipal)”, pondera.

    O secretário diz que informar o servidor, em comparação com núcleos maiores, como o estadual e o federal, é um diferencial que evita o “grupo dos desesperados”. “Com relação ao pedido, o nosso servidor, pela proximidade da informação que ele pode obter, seja nos núcleos de recursos humanos ou no IPMC, ele não fica no ‘grupo dos desesperados’ porque tem informação. Temos servidores que poderiam ter se aposentado há 20 anos, mas que preferem continuar trabalhando”, diz.

    Ele admite, porém, que há uma euforia, que ainda pode aumentar. “O contexto (de tramitação da reforma federal) faz com que o servidor venha buscar informação, percebe que vem vindo uma reforma. A busca por informações, sim. ‘Vou ser atingido ou não pela reforma’”, conta.

    Piovesan lembra que ajustes já foram feitos no primeiro ano de gestão do prefeito Rafael Greca. “Nós já implementamos a previdência complementar (prevista na reforma federal), que começou a partir deste ano. Ele (servidor) pode aderir a uma previdência complementar. Isso o município já fez no plano de 2017, bem como as mudanças de alíquotas de contribuição mínima de 14% de contribuição do servidor. Alguns aspectos já aplicamos”, explica.

    Reforma causa corrida por aposentadoria entre servidores do Paraná

    O avanço no trâmite do projeto da reforma da Previdência no Congresso Nacional deve aumentar ainda mais a procura por requisição de aposentadorias, tanto na esfera privada, quanto na pública. No Paraná, a previsão de que o governo Ratinho Junior (PSD), conforme declarações do próprio governador, adotará literalmente o modelo federal, em que a idade prevalece sobre o tempo de serviço, já causa uma corrida por pedidos para se aposentar. Somente no primeiro semestre deste ano, já houve quase o mesmo número de pedidos do que em todo o ano passado, quando a demanda já havia aumentado.

    O fenômeno é observado desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), já no governo Michel Temer (MDB), quando preponderou o discurso de que uma reforma da previdência seria fundamental para extrair o País da crise econômica que perdura desde 2015. Somente pelo Paranaprevidência, regime dos servidores públicos estaduais, em 2017, foram 4.927 aposentadorias concedidas e 8.235 pedidos realizados. No ano seguinte, houve um recorde, de 7.285 concessões e 4.973 pedidos, que deve ser batido em 2019, já que somente até o mês de julho já foram concedidas 4.605 e pedidas 4.537 aposentadorias por tempo de serviço.

    Por enquanto, no texto aprovado na Câmara Federal e que agora tramita no Senado, a reforma não prevê a inclusão de Estados e municípios, mas uma cláusula permite que cada governo local adote ou não o regime. Em uma tentativa de evitar desgaste com servidores estaduais, o governo do Paraná defendeu que o Congresso incluísse os estados na reforma. Assim, evitaria a tramitação de uma reforma própria seguindo todo um rito no Legislativo estadual, o que daria mais brecha para mobilização contrária. Por enquanto, não há indícios de que o Senado altere essa condição. Por isso, o governo já prepara sua própria reforma nos mesmos moldes da aprovada nacionalmente.

    “Tem que ser feita uma reforma para os estados e para os municípios. Nós estamos defendendo que os estados também entrem, para que a gente possa garantir para mais 20, 30, 40 anos esse recebimento para o servidor público e, em especial, para o aposentado”, disse o governador Ratinho Junior (PSD) logo após a remessa do texto para o Senado.

    Entre outras mudanças, a idade mínima prevista no texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de reforma da Previdência, que foi aprovado no dia 4 de setembro na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e está pronto para votação em plenário, é de 65 anos para homens e 62 anos para as mulheres, com tempo mínimo de contribuição de 25 anos. Para quem já está trabalhando, conforme a proposta, haverá regras de transição.

    Servidor público federal também se mostra preocupado

    Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo, com base em dados do Ministério da Economia, apontou na semana passada que 24 mil servidores do Poder Executivo requisitaram aposentadoria nos sete primeiros meses de governo Jair Bolsonaro (PSL).

    O número já supera o total (18,8 mil) de pedidos feitos em 2018. Em 2017, em meio a negociações pela reforma no governo Temer, as aposentadorias foram 22,4 mil, ainda abaixo do acumulado neste ano. Entre 2004 e 2016, os pedidos oscilaram entre 7 mil e 16 mil ao ano.

    O serviço público só apresentou uma busca intensa assim durante os debates da reforma no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Entre 1995 e 1998, a média de pedidos no Executivo ficou em 27,5 mil ao ano, com um pico de 36,8 mil em 1995, ano de envio da proposta que virou a primeira grande transformação nas regras de aposentadoria do Brasil.

    O governo enviou ao Congresso Nacional em fevereiro a proposta para reformar a Previdência dos trabalhadores dos setores privado e público, acabando com a aposentadoria por tempo de contribuição e instituindo uma regra de transição. Em março, também encaminhou uma proposta para os militares, que veio acompanhada de um projeto de reestruturação de carreira (que diminui o impacto das mudanças previdenciárias para essa categorias). Os textos ainda estão tramitando no Legislativo e podem ser votados em plenário ainda neste mês.

  • Soluções

    Perda de passageiros desafia transporte público em Curitiba e região

    Perda de passageiros desafia transporte público em Curitiba e região
    (Foto: Franklin Freitas)

    A perda contínua de passageiros de ônibus do transporte público de Curitiba e região, que se estende pelo menos desde 2016 até agora, causou uma mobilização simultânea da prefeitura de Curitiba, por meio da Urbanização de Curitiba (Urbs), do governo do Estado, por meio da Coordenação da Região Metropolita (Comec), e das empresas concessionárias. Com 15.356.397 passagens pagas, o mês de agosto de 2019 foi o pior dos últimos quatro anos, com uma perda de 16% em comparação com o mesmo mês de 2016.

    De acordo com dados disponíveis no site do Sindicato das Empresas de Transporte (Setransp), o mês de agosto perdeu 2.906.494 passagens pagas. Os relatórios também apontam, mês a mês, que a projeção da Urbs para o número de pagantes é sempre menor do que o concretizado. Com isso, as empresas reclamam de defasagem constante para manutenção do sistema.

    Dados disponíveis no site da Urbs, apontam que quase 20 mil pessoas (2,7% do total) deixaram se locomover de ônibus no primeiro semestre de 2019, em comparação com o mesmo período do ano passado. No primeiro semestre 2018, a Rede Integrada de Transporte (RIT) registrou 718.135 usuários, uma queda de 1,14% se comparados os números do mesmo período de 2017. A queda proporcional é ainda maior, se for considerado que a população aumentou no período. Curitiba, por exemplo, segundo o IBGE, tinha 1.893.997 habitantes em 2016 e agora, tem 1.933.105, conforme dados divulgados na última semana.

    A equação, que envolve a queda de usuários, custo do sistema, lucro das empresas, taxas, impostos e melhorias já é debatida à exaustão, em especial durante o período tradicional de reajuste, em fevereiro. Esse cálculo em constante mudança cria desafios permanentes aos gestores. O valor da tarifa é apontado como causa para perda de passageiros, que atualmente têm nos aplicativos de transporte um “concorrente” mais em conta em determinados horários.

    Uma solução conjunta, projetada pela prefeitura, pelo governo e acompanhada pelas empresas é a redução do valor das tarifas em horários com menor movimento, como forma de incentivo à retomada de passageiros que têm buscado alternativas ao transporte público. Uma delas, também vista como responsável pela queda, é o uso de aplicativos de motoristas. Não há uma estimativa de quantos passageiros os ônibus perderam para os aplicativos, mas é consenso entre os gestores do sistema que o fenômeno é causado por essa migração.

    O prefeito Rafael Greca (DEM) editou recentemente nova regulamentação para a atuação de aplicativos de motoristas, mas mesmo assim ainda não foi suficiente para equilibrar a “competição”. “A maior parte dessa perda (de passageiros) ocorre devido à crise econômica. E um conjunto de outras pequenas partes contribui para que os usuários deixem aos poucos de usar os ônibus – entre elas, os aplicativos de transporte. A nossa avaliação é a de que o serviço de aplicativos de transporte deveria ser regulamentado, ou seja, obedecer a normas e procedimentos nos mesmos moldes a que estão sujeitas as empresas de ônibus, por exemplo. Do contrário, cria-se uma competição desigual”, dizem as empresas em nota enviada pelo Setransp.

    Curitiba e região devem reduzir valores

    Como medida para atrair mais usuários ao transporte público, a Comec elaborou um projeto-piloto com tarifas mais baratas em horários de menor movimento. O anúncio foi feito nesta semana pelo presidente da Comec, Gilson Santos. Testes vão começar na próxima semana, na linha Pinhais-Guadalupe. A nova tarifa, de R$ 3,90, é 60 centavos mais baixa que a convencional e será praticada a partir da próxima segunda-feira. Os testes seguirão até o dia 29 de novembro.

    O novo valor valerá para os períodos compreendidos entre 9 e 11 horas; 14 e 16 horas e das 20 horas até meia-noite. De acordo com a Comec, a linha foi escolhida por contar com veículos articulados, que podem comportar um número maior de passageiros com o possível aumento da demanda nos horários de menor movimento. Atualmente, cerca de 9 mil usuário utilizam essa linha, que sai do Terminal de Pinhais e segue até o Terminal do Guadalupe, no Centro de Curitiba.

    A Capital deve seguir o mesmo caminho. Na terça-feira a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal deu parecer positivo a um projeto de lei da Prefeitura que estabelece condições legais para tarifas diferenciadas no transporte coletivo da capital. O texto diz que a medida valerá conforme as linhas de ônibus, o horário da utilização e os pontos de embarque e desembarque. A proposta ainda estabelece que um decreto do prefeito definirá os critérios para a diferenciação tarifária com base na modalidade de pagamento do serviço, a quantidade de utilização do transporte pelo usuário dentro de uma periodicidade, dentre outros.

    Para o Setransp, não há nenhum impeditivo, contanto que não haja desequilíbrio nos contratos de concessão.

    As empresas afirmam que outras medidas foram tomadas para tentar atrair mais passageiros. Em nota, cita “renovação da frota: desde a assinatura do termo de ajuste, em novembro de 2017, já foram entregues 262 novos ônibus. Serão 450 até o fim de 2020; mais conforto, com eficiência e segurança (os novos veículos vêm equipados com câmeras) para os passageiros; criação de novas linhas, como o Ligeirão Santa Cândida – Praça do Japão; retomadas de integrações com a região metropolitana; aumento do número de faixas exclusivas; Operação Fura-Catraca; compra de créditos para o cartão transporte por aplicativos no celular; e política de subsídio para a manutenção da tarifa ao usuário em valor módico”.

  • ENTULHO

    Empresas irregulares comprometem destinação de resíduos de construção em Curitiba

    Empresas irregulares comprometem destinação de resíduos de construção em Curitiba
    Entulho da construção: um problema de descarte correto (Foto: Franklin de Freitas)

    Curitiba gera 1,9 milhão de toneladas de resíduos da construção civil todos os anos. O índice do Ministério do Meio Ambiente considera de 520 kg de resíduos da construção civil (RCC) por habitante/ano, e a população estimada pelo IBGE em 2019 para a capital. De acordo com levantamento divulgado pelo Conselho Regional de Engenharia do Paraná (Crea-PR), cerca de 98% desse material (principalmente entulho e madeira) poderiam ser reciclados, dentro do próprio canteiro ou em centrais externas especializadas. Um dos problemas que dificultam a destinação correta está na atuação de empresas clandestinas e na falta de fiscalização. Empresários ouvidos pela reportagem estimam que cerca de 150 empresas de recolhimento de entulhos atuem regularmente em Curitiba e outras 150, sem documentação. Essas seriam as vilãs do meio ambiente.

    A proprietária de uma das maiores locadoras de caçambas de entulhos de Curitiba, que pediu para não ser identificada por receio de retaliação de concorrentes, reclama da atuação de empresas clandestinas na capital e Região Metropolitana. “Quando solicita locação de caçamba, com licenças, tem toda a documentação que a empresa deve apresentar para o cliente. Temos certificação de destinação, a MTR, que é a licença de transporte, precisa de licença do Instituto Ambiental do Paraná, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e tudo isso tem que pagar. Tenho que ter essas notas e enviar para Secretaria do Meio Ambiente todos os meses, para comprovar o trabalho. O problema são as empresas que trabalham clandestinamente. Nós oferecemos as notas fiscais, tudo certo. A clandestina não tem nota, não paga taxas, não paga imposto, então lógico que vai ser mais barato. Em Curitiba e região tem muitas empresas clandestinas. Só em Curitiba, em torno de 50 empresas atuam sem documentação”, denuncia.

    Além de todo o processo de separação e destinação, as empresas de caçambas também devem obedecer as regras de trânsito, relacionadas pela Superintendência de Trânsito de Curitiba (Setran). “No Centro de Curitiba, por exemplo, a colocação de caçamba precisa seguir a regulamentação. Precisamos paga todas guias, as taxas do Setran, o Estar, e a gente apresenta para o cliente para mostrar transparência e permanecer no mercado.”, justifica.

    De acordo com a empresária, as empresas licenciadas seguem rigoroso sistema de reciclagem. “O material comum, como concreto limpo e madeira pode ser destinado a aterro licenciado. Os materiais contaminantes devem ser levados para as usinas. A gente envia para Cetric (Central de Tratamento de Resíduos Sólidos), em Araucária; e a Essencis Soluções Ambientais (na CIC), todas emitem o certificado de destinação correta que a gente apresenta para o Meio Ambiente. Também tem a Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná) que recebe concreto e madeira”, detalha.

    O preço médio para contratar o recolhimento de entulhos em Curitiba gira em torno de R$ 200,00 a R$ 230,00, segundo ela. “Caçamba de 5 metros cúbicos varia de 200 a 230, com caliça limpa (concreto), que somente o custo para aterro comum é de R$ 50,00, só para descartar no aterro”, diz. A prefeitura de Curitiba permite a permanência de uma caçamba pelo período de três a cinco dias. No caso de material contaminante, como gesso, o preço é mais alto. “Em torno de 450 reais, dependendo do material. Quando é gesso e drywall a gente manda para o HSG Reciclagem de Gesso, em Pinhais. O clandestino joga em qualquer lugar. O cliente liga para a gente e diz que 'conseguiu por 130 ou 150 reais'. Claro, sem destinação correta fica fácil”, reclama. Empresas grandes não costumam contratar clandestinas porque precisam comprovar com a certificação de destinação.

    O pedido da empresária para não ser identificada, diz, decorre de uma concorrência considerada por ela como desleal. Ela afirma que empresas clandestinas também costumam retaliar concorrentes quando se consideram ameaçadas, inclusive com depredação e roubo de caçambas. “Roubam caçamba, marcam caçamba. Tem roubo. Chega um caminhão e rouba. Quando a gente vê simplesmente a caçamba sumiu. Uma caçamba nova custa em torno de 2,5, mil”, calcula.

    A empresária recomenda que os clientes fiquem atentos aos serviços, já que, segundo ela, é fácil identificar que trabalha de maneira irregular. “Quando a caçamba não tem faixa refletiva, não tem as pinturas e contatos da empresa, já pode desconfiar que todo o resto pode estar errado. A pessoa tem que questionar. Inclusive o preço. A minha locação esta mais cara por causa da separação e destinação correta. Isso tem um custo óbvio”, justifica.

    Ela afirma que a fiscalização existe, mas que ainda é insuficiente para o número de irregularidades. “A fiscalização é importante, mas tinha que ser mais. “No site da Setran, nos sites das empresas que trabalham de forma correta já tem as explicações sobre as normas”, orienta.

    A empresária estima que Curitiba tenha pouco mais de 100 empresas regulares, o que já é considerada uma concorrência acirrada por clientes. Quando incluídas empresas clandestinas, o mercado passa a ser desleal, diz. “Só para estar com o site na primeira página do Google já é uma dificuldade imensa”, compara.

    Falta de dados trava criação de soluções

    Embora não haja dados precisos, o que é um dos principais problemas do segmento, o Caderno Técnico sobre Resíduos Sólidos publicado pelo Crea-PR aponta que a atividade de reciclagem e reaproveitamento ainda é pouco debatida. De acordo com o vice-presidente da Associação Paranaense dos Engenheiros Ambientais (Apeam), Luiz Guilherme Grein Vieira, que é também responsável pela atualização do Caderno Técnico do Crea-PR, o cálculo do setor é de que o Brasil reaproveita 21% dos resíduos da construção civil. Na Alemanha, por exemplo, o índice chega a 90%. Um verdadeiro 7 a 1 no canteiro de obras. “A gente tem muita dificuldade com relação a números. Mesmo esse valor dos 21% é um número bem questionável. Para planejar alguma coisa, fazer uma gestão de alguma coisa, é saber quanto se tem dessa coisa. No plano estadual de resíduos uma das propostas é criar um sistema de informações. Em vez de ter um papel para cada caçamba, a gente tenha um sistema informatizado. Lá na prefeitura tem uma pilha de papel. E nunca foi feito esse levantamento. Tendo esse número correto vou saber que gero 2 milhões de toneladas. O que é feito com esse restante, vai para onde? Rastreando é possível fazer um plano, um Ecoponto, uma legislação para criar novas usinas, formas de incentivo à reciclagem”, avalia.

    A fiscalização da atuação profissional é responsabilidade do Crea, já a prefeitura monitora as licenças e danos ambientais. “O pessoal do departamento de limpeza pública comentou em um evento na semana passada que houve redução de pessoal que faz a fiscalização da prefeitura. O Crea tem feito essa fiscalização nas obras, que é cobrar a atuação dos profissionais. E cresceram. Em 2017 foram 160 fiscalizações. Em 2018 saltou para 893 e em 2019, até agora, foram 593”, afirma.

    Iniciativas das próprias empresas e indivíduos responsáveis pelos resíduos também são vistas como evoluções na construção civil aliada ao meio ambiente. “Existem algumas soluções como o britador móvel, que em vez de ter que manter uma usina, que é mais cara, pode com o britador reduzir bastante na própria obra. Alguns mecanismos também não geram resíduos, o que ajuda bastante”, sugere.

    Segundo Vieira,o Plano Estadual de Resíduos Sólidos do Paraná (PERS/PR), de 2017, mostrou que, dos 81 municípios que responderam à pesquisa, 92% destinavam os resíduos em locais inadequados, ou seja, sem a devida licença ambiental. “Parte dos resíduos de construção é composta por  materiais perigosos, como tinta, solvente, EPIs contaminados, que, destinados de forma inadequada, podem contaminar o solo, a água subterrânea e a água superficial, causando impactos ambientais. Você pode contaminar o solo, a água subterrânea, a água superficial, causando vários problemas de saúde. O entulho também é um atrativo grande de vetores, como ratos e moscas, que podem causar doenças para a população”, acrescenta.

    Procurada, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente não retornou aos pedidos da reportagem.

  • Fomento

    Com 70% da carteira dependente do BNDES, BRDE teme mudanças do governo Bolsonaro

    Com 70% da carteira dependente do BNDES, BRDE teme mudanças do governo Bolsonaro
    Entrevista com Wilson Bley Lipski, diretor operacional do BRDE no Paraná (Foto: Henry Milléo)

    Narley Resende

    Mudanças ventiladas por integrantes do governo Jair Bolsonaro (PSL) na forma de concessão de recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) preocupam o principal banco de fomento do Sul do País. O Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, que atende Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, tem hoje 70% de seu caixa formado por dinheiro do BNDES.

    Há pelo menos dois anos a diretoria do BRDE tenta diminuir essa dependência, que já chegou a 99,3% de seus recursos de fomento. Hoje, BRDE espera reduzir esse número para 55%, buscando novos financiadores, principalmente internacionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Europeu de Investimentos (BEI), a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), o Banco Mundial, além de nacionais como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Há ainda uma nova política que deve ser adotada em breve, principalmente para financiar micro e pequenas cooperativas, que é o uso dos lucros do BRDE para cumprir seu papel de fomento.

    Na última semana, o BRDE divulgou seu balanço semestral apontando que encerrou o primeiro semestre deste ano com R$ 1,1 bilhão em operações de crédito contratadas. O montante representa um crescimento de 35,1% em comparação com igual período do ano anterior. O receio de um BNDES mais enxuto e uma nova estratégia de redução de dependência devem colocar à prova estratégias menos conservadoras para manter o crescimento do banco que é constante. O lucro líquido apurado pelo BRDE no primeiro semestre de 2019 foi de R$ 109,6 milhões, o que representa um incremento de 66,7% em relação a igual período do ano anterior. Este é o melhor desempenho do primeiro semestre na história do banco. Também houve, segundo o balanço, redução do índice de inadimplência (a partir de 90 dias), passando de 2,84% no primeiro semestre de 2018 para 0,88% ao fim de junho de 2019.

    “Não é esse cenário conservador que faz com que nós tenhamos uma carteira com baixa inadimplência”, pontua o diretor de operações do BRDE, Wilson Bley Lipski, ao anunciar novas modalidades de financiamento consideradas de maior risco. “O banco não pode esquecer sua finalidade que é fomentar. Isso nos motiva de uma forma diferente de outros bancos”, afirma.

    Bem Paraná - Os dados, com o número de créditos contratados e a carteira de créditos, são referentes a um ano contábil anterior, referente, por exemplo, a um repasse do BNDES do ano passado? Por que agora o governo tem mexido na política do BNDES.

    Wilson Bley Lipski - Tem, tem mexido. Nós temos limites com o BNDES, que são semestrais. Neste momento a gente está enfrentando um desafio de que o limite que eles nos ofereceram possa ser ampliado. Porque nós estamos 'encarteirados' com uma demanda enorme. Os três estados estão. O que eles nos ofereceram não atende toda essa demanda.

    BP - Por que dessa demanda? As pessoas tem menos dinheiro para investir?

    Bley - Na verdade, acho que há um movimento para retomada de investimentos. Nós temos hoje R$ 3 bilhões encarteirados dentro do banco. Geralmente, a taxa de sucesso de tudo isso que está encarteirado é de 65% a 70% do que se efetiva, nesse semestre. De janeiro a julho, nós efetivamos R$ 1,1 bilhão de novas operações de crédito. Os 'R$ 1,4 bi' é dos investimentos, onde é computado no investimento a eventual contrapartida do tomador do recurso. Como investimento, como entrega, foi R$ 1,4 bilhão. O que foi financiado por nós foi R$ 1,1 bilhão. Essas demandas ocorreram neste primeiro semestre desde ano e nós tínhamos um limite do BNDES, tínhamos outros fundings. O que nós fidelizamos do BNDES foi 70% da nossa carteira.

    BP - E isso é inferior à média dos anos anteriores.

    Bley - É inferior. Nós não queremos ser mais tão dependentes dos recursos do BNDES.

    BP - O BRDE tem, então, menos dinheiro hoje, já que o BNDES repassou menos? Tem que compensar esse dinheiro que faltou do BNDES.

    Bley - Claro, tem que compensar. O banco sempre foi grande dependente do BNDES. Chegamos a ter uma dependência de 99,3%

    BP - E por que isso é ruim?

    Bley - Ruim porque se o BNDES nos corta o limite ou se redireciona como está fazendo agora, não entrega crédito, eu tenho um custo operacional e se eu não tiver uma receita operacional eu estou fadado a ter que tomar medidas mais radicais. E você depositar toda sua confiança em um único parceiro acho que é uma questão preocupante. Dá mesma forma um tomador. Não posso pegar um dinheiro do BNDES e colocar em um único tomador.

    BP - Há desde o ano passado uma tentativa de incluir dinheiro no BRDE de uma agência francesa, do BID e outros. Isso se concretizou?

    Bley - Se concretizou. É muito forte para nós, principalmente neste período, que nós possamos ampliar a possibilidade de outros funding. Tinha no passado já uma discussão com o BID, que estamos em processo, esse dinheiro não se efetivou ainda, não entrou, estamos muito próximos que isso aconteça. Conseguimos viabilizar o BEI, que é o Banco Europeu de Investimentos, AFD, que é a Agência Francesa de Desenvolvimento, e há um mês nós aprovamos na Ciofiex (Comissão de Financiamentos Externos) o nosso empréstimo com o Banco Mundial, que são U$S 125 milhões para residência urbana. Então vão ser empréstimos aos municípios; e nós temo o Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), nós temos o FGTS.

    BP - Somente considerando essa “alternativa internacional”, só pegarmos os financiadores externos, se tudo se efetivar, incluindo o BID, quantos porcento isso irá representar para o caixa do BRDE?

    Bley - Nós temos um plano de reduzir a dependência do BNDES para 55%.

    BP - E os internacionais vão representar quanto?

    Bley - Somando tudo, acredito que uns 20%. O resto é com outros recursos. FGTS, Fungetur, outras possibilidades que nós temos. Uma das possibilidades, que se efetivou agora, foi a gente revisitar toda a nossa política, política de caixa, política de risco, de fluxo financeiro e assim por diante. Com isso, nós conseguimos primeiro ter uma carteira mais equalizada. E revisitando tudo isso, por exemplo – o banco sempre foi muito conservador no seu fundo de liquidez, e a gente deixava muito dinheiro e, claro, às vezes apostava muito em que correr risco talvez não alternativa. Deixar um dinheiro aplicado seria algo mais razoável porque estaria dando rendimentos, estaria dando resultados operacionais positivos. Então revisitamos isso. Governador deve lançar, dentro em breve, os três governadores, um programa de R$ 900 milhões, (desses) R$ 300 milhões para cada Estado. Isso é dinheiro próprio do BRDE.

    BP - Que se consegue com lucro?

    Bley - Com lucro. Vamos dizer, os R$ 100 milhões que nós demos de lucro passam pela política do nosso fluxo financeiro e também do nosso fundo de liquidez, mas a sobra disso, se a gente não for tão ortodoxo como não estamos sendo, a gente consegue passar isso para se aplicado no mercado.

    BP - Essa mudança de política é baseada em qual indicador? Ou foi uma decisão de governo, de querer usar o que sobra do lucro para fazer isso?

    Bley - A não dependência do BNDES foi estabelecida como política: não ficar somente dependente do BNDES. Isso fez com que se abrissem novas possibilidades para nós. Mais do que isso. Nós temos uma despesa que, até por uma questão vegetativa, cresce a um nível. Eu preciso ter resultados operacionais que possam suportar tudo isso. Se eu tenho uma dependência menor do BNDES e eu tenho a necessidade de encarteirar 'X valor' tenho que procurar novas possibilidades de funding. Então, nós procuramos essas instituições financeiras outras, outros fundos que possam nos possibilitar e também colocamos a nós um desafio: 'olha, o que pode ser aplicado em recursos nossos aqui'. Já lançamos no passado o 'Desenvolve Sul', um programa de R$ 215 milhões dos três Estados e agora nós conseguimos, até por algumas integralizações que ocorreram no passado, a gente equacionou isso, e achou R$ 900 milhões de dinheiro próprio do BRDE que será aplicado no mercado.

    BP - Essa política conservadora foi responsável por garantir uma taxa de inadimplência bem baixa até agora. O que garante que essa taxa vai continuar?

    Bley - Não é esse cenário conservador que faz com que nós tenhamos uma carteira com baixa inadimplência. O que tem são medidas bem efetivas de encarteirar aquilo que seja razoável que a gente sabe que vai trazer, além dos dividendos de tributos, impostos, mas também aquilo que a gente sabe que vai dar sucesso e que vão poder retornar o recurso. Isso mostra maturidade da nossa carteira. Fora isso, também o desempenho da nossa diretoria de recuperação de crédito que com grande empenho já licitou uma primeira vez e vai licitar uma segunda vez a nossa carteira de créditos que estão perdidos ao longo do tempo, mas também mostra muito a atuação delas, assim, de não ter inadimplência, de ter ações que possam mitigar essa inadimplência. Mostra uma governança bastante adequada.

    BP - Sobre esses critérios, havia um edital do BRDE para financiar uma produção de vídeo para a EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), para a TV Brasil, e o presidente da República, pouco tempo antes se manifestou dizendo que 'o governo não ia mais financiar produções LGBT'. Que tipo de interferência os governos federal e estaduais têm no banco? Eles podem direcionar dessa forma a atuação do BRDE?

    Bley - Nesse caso, nós somos quem opera o FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) da Ancine (Agência Nacional do Cinema). Nós fazemos as operações, operacionalizamos a entrega do crédito. Quem é dono do dinheiro é o fundo, quem lança o edital é a Ancine pelos seus critérios. Uma vez eleito por eles é que nós podemos fazer as operações.

    BP - Então não é uma interferência aqui, no BRDE, é uma interferência antes de chegar aqui?

    Bley - Antes de chegar aqui. Nós tivemos alguns editais e neste ano foram suspensos todos os editais, mas mesmo assim nós estamos tendo rendimentos da nossa operacionalização. É prestação de serviço pura. O FSA ainda tem desembolso, ainda tem contratos de editais anteriores que estamos fazendo por aqui. Nós não temos interferência nenhuma. Sempre coloco isso, porque geralmente as pessoas olham para aquele crédito que nos dão nesses documentários e acham que aquilo é uma ação do banco ou patrocínio do banco. Muitas pessoas me procuram dizendo 'eu também quero ser patrocinado'. Eu falo 'não, nós somos um prestador de serviços para a Ancine'. Inclusive, o FSA vai financiar algumas ações e temos o maior interesse em operacionalizar isso.

    BP - A política que eles utilizaram não interessa ao banco?

    Bley - A política é deles. Nós vamos operacionalizar isso aqui. Isso é uma receita adicional que também nós não tínhamos. A nossa receita sempre vinha da entrega do recurso, só spread (diferença entre a remuneração que o banco paga ao aplicador para captar um recurso e o quanto esse banco cobra para emprestar o mesmo dinheiro) que a gente ganha na entrega dos empréstimos. Prestar serviço é algo que está nos motivando. Tanto que oferecemos ao Estado do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a possibilidades de nós estruturarmos PPPs (Parcerias Público Privadas), servir como o BNDES fez. O BNDES no Rio Grande do Sul fez iluminação pública, fez a estruturação da PPP da iluminação pública. Nós oferecemos também e já há algumas sinalizações de a gente ter isso nesse sentido aqui.

    BP - Mas o que difere, por exemplo, para uma empreiteira. Antes ela fazia a obra e vendia para o governo a obra pronta. Agora ela vai fazer a obra via PPP com recurso próprio e do BRDE e vai cobrar lá um pedágio ou um aluguel para pagar esse crédito do BRDE?

    Bley - Para o banco, primeiro tem que servir a sua função social. O banco é de fomento e precisa estar atrelado à política que o Estado se direciona. Nós não somos uma ilha. Nós somos pertencentes aos Estados, no caso o Paraná, esse atrelamento é ainda maior por causa da relação que temos com o governador. Nós queremos auxiliar esse processo porque é uma tendência natural, as concessões, as PPPs e assim por diante. Claro que nos alimenta também uma vontade maior porque eu posso na estruturação, que eu já faço um serviço de análise muito criteriosa, econômica e financeira, quando eu vou emprestar o dinheiro quando eu vou emprestar o dinheiro para o empreiteiro, ou para o parceiro público, lá no final. Então, por que não fazer nesse início? A gente estrutura, entrega isso ao Estado, o Estado lança isso ao mercado. Na hora que tiver um parceiro privado e precisar de recursos a serem financiados o banco já sabe de toda essa estrutura, quais serão os resultados. Talvez a gente trabalhe em saber quais são as melhores garantias.

    BP - Pela lógica da Parceria Público Privada, o interesse do Estado é justamente o dinheiro que a empresa tem para investir. Se ela pegar o dinheiro emprestado do Estado, a parceria passa a fazer menos sentido.

    Bley - Exato. Às vezes dentro de um fluxo maior ou uma antecipação de investimento, que é o alinhamento que está sendo colocado. Isso é uma possibilidade, é algo que está dentro do campo das ideias. Me facilitaria a vida se tivesse esse apetite do parceiro privado que eu já fiz toda uma reflexão anterior de quais seriam os resultados, de quanto é o retorno. Eu poderia apostar dando crédito e esperar o retorno dentro dos prazos.

    BP - A política que o governo tem ventilado com relação ao BNDES é bom ou ruim para o BRDE, categoricamente?

    Bley - Ainda não entendemos qual é o reflexo de tudo isso. O que a gente tem é uma projeção de diminuir a dependência, mas não porque o BNDES tem um redirecionamento. Ele pode ter, isso é uma questão de governança, não posso apostar em um único cliente para ser tomador de crédito. O que a gente sabe do BNDES é o que a imprensa tem noticiado. Vamos ter uma reunião no dia 11 (de setembro) com o presidente do BNDES. Traz preocupação? Eu, como gestor, penso 'claro que traz', com algumas sinalizações que a imprensa deu.

    BP - O governo do Estado e o BRDE vão pressionar o governo federal e o BNDES para que se mantenham algumas políticas que hoje beneficiam o BRDE?

    Bley - Levamos essa reivindicação ao ministro (Paulo Guedes, da Economia) na semana passada. Eu e o governador estivemos lá conversando com ele. O redirecionamento ser contemporâneo é revisitar tudo aquilo que está sendo colocado e ver se aquilo é adequado ou não. Acho que é isso que o Montezano (Gustavo Montezano, presidente do BNDES). A reivindicação que nós levamos é que um banco de fomento é necessário existir, não podemos depender exclusivamente do mercado. Bancos de fomento que possam oferecer linhas com longo prazo é o que vai fazer com que possamos ter uma economia maior, que traga resultados. Viver só do mercado talvez ainda não tenhamos a maturidade para isso. Na reunião também fomos demonstrar toda a importância que o BRDE tem aqui no Sul. Todo esse investimento se traduz em emprego e renda. Isso é essencial para a economia se movimentar.

    BP - Se o governo quiser impor algum tipo de limitação ideológica, por exemplo, 'no Paraná tem uma cooperativa de um assentamento que tenha origem no MST', que tenha credibilidade e atenda às exigências do banco, o BRDE não discriminar a origem da cooperativa?

    Bley - De forma alguma. Inclusive, o governador deve lançar nesta semana um programa de apoio às micro e pequenas cooperativas. Nós estamos alinhados a essa estratégia. Estamos conversando com a secretaria de Agricultura, com o secretário Norberto Ortigara, somos parceiros, tanto nós quanto a Fomento Paraná, e se eventualmente não tiver crédito do BNDES os outros funding ou até com nosso recurso próprio pode atender esse tipo de demanda.

    BP - A capilaridade do crédito, para tomadores menores, em grande escala representaria parcela significativa da carta do BRDE?

    Bley - Em volume de crédito, não. Mas eu ter meu objetivo social atendido, sim. Se eu lançasse hoje um cartão para o agricultor? Um cartão quase pré-pago. O agricultor dentro da entressafra ou em eventual problema mais urgente ele teria esse apoio nosso para poder resolver com condições muito mais razoáveis. É algo que está planejado. Hoje o nosso modelo é muito tradicional, vem aqui e tem toda uma discussão. Claro que a gente não pode perder a essência nossa, que a gente não vende linha de crédito, a gente vende soluções de crédito. Quando você tem um projeto e vem aqui a gente iria estressar enormemente o seu projeto para saber qual a melhor linha e quem sabe uma mudança nele seja algo mais razoável. Esses dias veio aqui um senhor empresário e ele queria capital de giro, ele estava em uma situação um pouco complicada. A gente entendeu todo o core do negócio dele e entendeu que todo o custo que ele tinha era da energia. Ele gastava 250, 300 mil reais por mês de energia. O que ele queria não tinha, que era o BRDE dar dinheiro, até porque se ele não revisitasse isso e fizesse uma revisão, ali na frente ele teria os mesmos problemas. Ele saiu daqui com uma usina fotovoltaica. Conseguiu recurso no Finep em um custo extremamente baixo e com a carência que ele tem vai conseguir se recapitalizar.  

  • Sobraram poucas

    Com crise e Lava Jato, empreiteiras que restam não dão conta das obras

    Com crise e Lava Jato, empreiteiras que restam não dão conta das obras
    Obra parada na Linha Verde Norte (Foto: Franklin Freitas )

    Narley Resende

    Operação Lava Jato, burocracia, crise econômica, atrasos em pagamentos e falta de capital de giro das empresas que restam entre interessadas em obras públicas são os motivos para uma escassez de prestadoras de serviços capacitadas para tocar grandes empreitadas. Um exemplo recente foi a desqualificação alegada pela prefeitura de Curitiba a respeito da empresa Terpasul para concluir trechos de obras na Linha Verde Norte. O rompimento unilateral do contrato pela prefeitura com a empreiteira deixou sem prazo para conclusão pelo menos três lotes de obras já paralisadas desde o ano passado. Mas o fenômeno não ocorre apenas em Curitiba e nem sempre pelos mesmos motivos. Somente relacionadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Dilma Rousseff, cerca de 4,7 mil obras estão paradas no País, o que equivale a R$ 135 bilhões de investimentos.

    A ausência do chamado “Clube das Empreiteiras” (Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e UTC Engenharia e outras), as gigantes multinacionais brasileiras flagradas em escândalos de corrupção da Operação Lava Jato, causou evidente mudança no mercado brasileiro nos últimos cinco anos, paralelamente à crise econômica vivida pelo País. “As médias viraram grandes e as pequenas viraram médias”, avalia Carlos Cade, vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná (Sinduscom-PR).

    Quando o prefeito Rafael Greca (DEM) anunciou a tentativa de rescisão de contrato com a empresa executora da última etapa das obras da Linha Verde, no trecho entre os bairros Tarumã e Atuba, disse que ela não tinha capital de giro para manter a obra. “Colocaremos ali outras empresas com capacidade financeira para executar as obras. Os valores exigem que as empresas tenham capital de giro relevante”, destacou o prefeito. Antes da decisão, a prefeitura emitiu 144 notificações por descumprimento de prazos. Do conjunto, o trecho mais defasado é o que contempla a elevação do viaduto. As obras iniciadas em novembro de 2015 deveriam ser concluídas em um ano, mas após oito pedidos de prorrogação, foram atrasadas para 7 de novembro de 2019. Para as novas licitações, todos os lotes terão de passar por uma auditoria – trabalho que vai definir, além de um novo cronograma, o quanto as obras serão encarecidas .

    Ao paralisar as obras, a justificativa empresa é de que houve erros nos projetos, licitados em 2009, que chegaram a ser apontados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2017, mas que teriam sido ignorados pela Secretaria de Obras. No relatório, o órgão federal descreveu ter encontrado um “projeto executivo deficiente e desatualizado para a execução da complementação da Linha Verde Norte em função da incompatibilidade dos quantitativos orçados com os verificados em projeto e da necessidade de diversas revisões e atualizações (...)”.

    Para o vice-presidente do Sinduscom, empresas como a Odebrecht, por exemplo, estariam melhor preparadas para problemas como os relatados pela Terpasul. “Essas (grandes) se protegem. A Odebrecht se precavia de todas as formas de tudo isso. Tem empresa que ainda não recebeu até hoje (obras de 10 anos atrás). O Maracanã não pagou até hoje, tinha que desapropriar uma área para um shopping, tinha a Casa do Índio que não deixaram demolir, então havia uma quebra de contrato. Mas será que ela (empresa) não sabia e não se preparou contra isso?. Quanto maior a empresa, mais ela vai cobrar. Mais fácil enrolar um pequeno (empresário) que um grande”, ironiza.

    As obras estão subfaturadas, coloca. “Hoje tem empresa pegando obra com 40% de desconto. Claro que vai entregar um produto de má qualidade. Capital de giro, quando vai fazer uma obra tem que ter os recursos, mais que o contábil, mas precisa outro recurso. (O poder público) fica três meses sem pagar, quatro meses sem pagar, aí precisa de grandes empresas (como a Odebrecht). Se vai ganhar uma obra e sabe que o órgão vai pagar, entra (na licitação) ‘com 100’ (de preço). Se sei que o órgão á mau pagador, vou cobrar ‘120’, porque é o risco que ela (empresa) assume”, explica.

    O fenômeno também é observado em âmbito federal. Empreiteiras de tamanho médio e companhias de capital estrangeiro aumentaram a participação nas licitações de obras públicas, ocupando o espaço aberto pelas grandes companhias. Em janeiro deste ano o Portal da Transparência mostrava uma mudança no perfil do ranking de contratações. Saíram os contratos robustos dominados por grandes conglomerados brasileiros da construção e entraram projetos com valores menores, num sinal de maior pulverização dos recursos entre empreiteiras médias, sobretudo aquelas focadas na área de construção e manutenção de rodovias. São as empresas desse nicho que mais avançaram no ranking de contratações este ano.

    Em 2014, quando a Lava-Jato estava no começo, a lista era dominada por gigantes conhecidas do setor, como Odebrecht, Andrade Gutierrez, UTC, Mendes Junior e outras. Agora, figuram nos primeiros lugares empreiteiras como a paulista Ferreira Guedes, a mineira LCM Construção e a paranaense Neovia.

    Tímida, a gigante tenta voltar com fôlego

    Em 2012, antes do início da operação Lava-Jato, destacou o Jornal O Globo, a Odebrecht recebeu R$ 1 bilhão em pagamentos do governo federal. Em 2019, a empreiteira ganhou R$ 368 milhões, referentes apenas a um contrato — de construção e manutenção de cinco submarinos para a Marinha. Em 2018, a Odebrecht não fechou nenhum novo acordo com a União. As empreiteiras envolvidas na Lava-Jato lidam com a impossibilidade de serem contratadas pelo Poder Público antes de firmarem acordos de leniência com órgãos de controle.

    No Paraná, mesmo reduzida e tímida em comparação à sua atuação no passado, a Odebrecht, com outro nome (OEC), reage ao protagonizar ao menos uma “grande obra”. A duplicação da Rodovia dos Minérios (PR-092), que liga Curitiba a Rio Branco do Sul, na região metropolitana, devem começar no fim de setembro, segundo o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER). No último dia 12 de agosto, a Odebrecht foi homologada vencedora da licitação iniciada em 2017 para a realização do trabalho, pelo valor de R$ 90,6 milhões. O edital da concorrência vencida pela empresa prevê a duplicação e ampliação da capacidade de tráfego de um trecho de 4,74 km da PR-092, no trecho entre a ponte sobre o Rio Barigui, em Curitiba, e Almirante Tamandaré.

    E o processo licitatório também enfrentou entraves. A disputa teve como vencedor, em princípio, o Consórcio Triunfo-TCE, em resultado homologado em abril de 2018. Uma decisão judicial do fim de julho de 2019, no entanto, mudou o resultado do processo por considerar que a vencedora deveria ser inabilitada por ter descumprido item do edital. Nessa obra, por exemplo, essa licitação foi apenas um capítulo de uma novela ainda mais antiga. Em 2013, a duplicação de 28,7 quilômetros da Rodovia dos Minérios chegou a ser anunciada pelo governo, que previa o início da obra para 2014. A empresa Votorantim, que tem uma fábrica de cimento na região, faria a obra em troca de benefícios fiscais, com pavimento em cimento. Mas a empresa acabou desistindo do projeto.

    No último dia 24 de agosto, um grupo de moradores fechou um trecho da Rodovia dos Minérios próximo a Almirante Tamandaré para chamar a atenção para acidentes e mortes constantes que ocorrem na região. A estimativa é que 300 pessoas tenham participado do ato. Foi depois disso que o governo do estado anunciou uma nova data de início para a obra, que será tocada então pela Odebrecht.

    Envolvida no esquema investigado pela Lava Jato, a Odebrecht, que já empregou diretamente com carteira assinada mais de 185 mil pessoas, retomou o direito a participar de licitações e contratos com o poder público em 2017, após fechar acordo de leniência com o Ministério Público Federal (MPF), segundo entendimento do Tribunal de Contas da União (TCU). Mesmo assim sua atuação nem se compara aos “anos dourados”, período em que confessou ilícitos, mas que empregava centenas de milhares de pessoas direta e indiretamente.

    Quem tem dinheiro não quer contrato público

    Carlos Cade admite que grandes investidores estão abandonando o mercado de obras públicas. “O ambiente jurídico ainda não é bom. Tem muita gente que sim (desistiu de obras públicas). Tem pouco investimento hoje. A pouca obra que aparece é lei da oferta e da procura, disputam quantas empresas? Tem licitação de asfalto e estão dando 40% de desconto. Alguma coisa vai acontecer, o produto vai ser entregue de má qualidade. Quem tem uma boa empresa, de investimento, foge, sai do mercado e vai para o mercado imobiliário, vão fazer prédios. As empresas que têm condições não vão se aventurar e saem mesmo”, analisa.

    Por outro lado, Cade defende que há ainda muitas empresas qualificadas. “Não faria nunca essa afirmação (que faltam empresas). Não falta, categoricamente, empresas para fazer obras públicas no Brasil. Não precisa necessariamente que elas sejam grandes, só que ambas as partes cumpram o contrato”, pontua.

    Para além da crise, da Lava Jato e da burocracia, Carlos Cade avalia que também um problema de comportamento entre poder público e empresas no Brasil compromete a qualidade das obras. “Período muito curto para fazer os projetos. No mundo desenvolvido isso não é assim. Nós temos o costume no Brasil de gastar pouco tempo em projetar e planejar - problema das incorporadoras e do poder público - para depois executar. Na prefeitura também ocorre isso. A gente tem que entender que [e uma verba que está lá e que se não pegar ela vai embora. (A solução é) mudança de postura, de cultura. É cultural. Tem que gastar tempo em ter uma turma para fiscalizar obras, mas tem que ter uma do mesmo tamanho para analisar e produzir os projeto, um bom projeto tem muito pouco aditivo”, recomenda.

    Quando a concorrência também passa por uma “euforia”, a qualidade das obras tende a cair. “Pegam preços muito baixos, entrega de má qualidade, com projetos ruins, demora muito na execução. A legislação fala que só pode executar aditivos depois de assinado”, lembra.

    Embora reconheça a existência de um divisor de águas, Carlos Cade não “culpa” a Lava Jato. “Nosso sindicato chamou (ex-juiz Sergio) Moro para uma palestra e deu uma medalha para ele apoiando e defendendo a legalidade, fizemos diversos cursos de compliance e de ética. Fizemos debates com Tribunal de Contas da União, levamos presidente do Tribunal de Justiça do Paraná e defendemos que o que é correto”, conta. “Eu acho que foi muito bom, porque tudo que se faz transparente é melhor. Quando as coisas e as regras que ninguém entende eram como eram a gente sabe que não é o certo. Foi benéfica (a Lava Jato).

    Questionado se as obras investigadas na Lava Jato teria saído do papel se não fossem superfaturadas, Cade responde que sim, e mais baratas. “Era outro período. Teriam (saído do papel) e teriam gastado 30% menos. Se trabalhar dentro da lei. É ruim para o mercado uma empresa ser envolvida com isso (corrupção). A imagem fica ruim”, diz. Sobre o retorno da Odebrecht, Cade diz que bom para o mercado. “O empresário não pode defender ser único no negócio. Desde que as regras sejam iguais para todos. E que o compliance não fique só no papel”, pontua.

    ‘Solução é dividir grandes projetos e em parceirias público-privadas’

    Carlos Cade enumera ao menos duas alternativas para o período de crise e pós-Lava Jato: dividir grandes obras entre diversas empresas e tambám Parcerias Público Privadas. “O Paraná tem empresas com condições financeiras. Quando se tem uma estrada de 100 quilômetros pode fazer ela com uma empresa ou com 10 empresas, ou com 20 empresas. Mas eu quero construir um aeroporto (grande) como o Afonso Pena, aí é difícil, mas pode fazer por etapas e com concorrência internacional. Mas o tamanho da obra pode ser partido”, sugere.

    A outra solução, “que tem acontecimento muito” são as PPPs. “Essa é uma forma de inserir a iniciativa privada para arrumar dinheiro. Os grandes ou um grande somatório de médios a colocarem o dinheiro, para infraestrutura. Faz um programa, por exemplo, em uma estrada, investe um dinheiro e ganha com pedágio para recuperar esse dinheiro. Iluminação pública numa cidade e cobrar de quem esta usando para compensar o investimento. Presídios, fazemos uma PPP e tem toda uma regra, aberta para mais gente disputar, construímos, fazemos a gestão e cobramos do governo o valor por preso, mas quem pôs o dinheiro foi quem ganhou a PPP. É uma forma de alavancar o País. O governo não tem dinheiro. Quando vai ter dinheiro para fazer estrada, hospital, presidio? Então o governo paga aluguel”, diz.

  • Mudança

    Vale a pena sair da cidade para morar em chácaras? Veja histórias dos curitibanos que fizeram isso

    Vale a pena sair da cidade para morar em chácaras? Veja histórias dos curitibanos que fizeram isso
    A professora Andréia Carneiro Lobo no seu paraíso (Foto: Franklin de Freitas)

    O sonho de morar fora da cidade, mas com garantia de acesso à civilização, é realidade para muitos curitibanos, que encontram na região metropolitana cenário para colocar em prática projetos de vida nesse sentido. Entre os 29 municípios da Grande Curitiba, e incluindo alguns refúgios da própria capital, é possível encontrar chácaras adequadas para morar em condições de isolamento, pelo menos por enquanto. As preocupações comuns entre os que optaram pela alternativa, ao mesmo tempo em que mantêm acesso a um grande centro, giram em torno de segurança, principalmente, em relação ao avanço das cidades que não param de crescer.

    “Não queremos que as pessoas saibam como é bom aqui”, diz a design de interiores Bela Pagliosa, que desde 2013 se livrou do barulho, da insegurança e da agitação da cidade. Junto com o marido, que trabalha com direção de vídeos publicitários, ela comprou um terreno em um condomínio de chácaras na Região metropolitana, onde construiu uma casa e se mudou no ano seguinte. Bela conta que entre os fatores que ajudaram na decisão está o custo benefício. “A gente morava na cidade, procurava um imóvel para comprar e decidiu procurar na região metropolitana. A gente chegou nesta chácara. Pensamos ‘por que não morar melhor, pagar menos e mudar?’. Nós dois trabalhamos em home office, o que facilita. Eu sou designer de interiores e paisagista e ele é publicitário e trabalha na direção de filmes”, afirma.

    O projeto precisou sair do zero. “A gente comprou um terreno vazio, virgem, sem iluminação, sem água. A gente fez todo o processo elétrico e fizemos um poço artesiano. Inclusive a gente tem fibra óptica da Copel. Até sobrevivemos um tempo com (internet) 3G, mas graças a Deus a Copel veio para a nossa região”, comemora. A solidão do afastamento, porém, não é realidade aos fins de semana. “Fazemos (confraternizações) constantemente. Nossa casa vira um ponto turístico e muitos amigos vêm para passar fim de semana, acampar. Temos uma fluxo muito grande de amigos passando por aqui. (Gostamos de fogueira) muito, adoramos fazer uma fogueira”, afirma.

    Durante a semana, ela admite que há um planejamento diferenciado para sair de casa. “Essa questão da solidão é bem interessante porque a gente se torna um pouco ermitão, porque a distância é de 40 quilômetros. Hoje, eu e meu marido, a gente sempre tem que decidir se sai com dois carros ou com um só”, diz. A paisagista conta que seu terreno é amplo o suficiente para que o casal possa manter animais livres, incluindo dois cachorros.

    Com relação à segurança, o fato de “ser em um condomínio ajuda”, diz. “Temos felinos e cães, são quatro gatos e dois cachorros. O terreno tem cinco mil metros. Temos vizinhos, porque é um condomínio de chácaras, a gente tem visibilidade de vizinhos, porque é uma área que não é de mata fechada. Temos bastante área para fazer uma pequena horta, temos espaço grande de quintal e pomar”, conta.

    O condomínio, segundo ela, tem cerca de 60 moradores, em 80 residências, distribuídas em 300 lotes. “É uma área bem preservada, de mata virgem e para não receber pessoas (novos condôminos) indesejadas a gente deixa um pouco mais na surdina”, pondera. Bela afirma que a violência da cidade ainda não chegou à região, embora já tenha ouvido relatos de ocorrências. “Tem uma portaria, tem um segurança, a gente ainda não teve nenhum problema. O que teve foi ladrão de galinha, nada sério de assalto ou risco à vida. Não tenho medo, mas, claro, a gente tem todos os aparatos em mãos, com telefone, lanterna, contatos. A gente não fica pensando nisso porque, se pensa, atrai”, diz.

    O avanço da cidade é um dos incômodos. “A gente se preocupa porque a região está crescendo bastante. Aqui é considerado uma cidade violenta, mas a gente não viu nada sério por perto, mas sabe. O crescimento da cidade preocupa porque pode trazer essas coisas ruins, a gente se preocupa que se a coisa crescer a gente quer morar em um lugar mais afastado ainda”, prevê. Por enquanto, o local escolhido por Bela ainda mantém seu isolamento. “Para o meu condomínio até o centro tem cinco quilômetros, então não tem ponto de ônibus, não tem padaria. Se precisa comprar um pão leva 40 minutos”, calcula. O acesso à internet ajuda. “A gente ficou dois anos sem TV e a agora a gente caiu na Netflix, mas não tem TV aberta e a gente não tem TV paga. Por satélite, tem vizinhos que tem Sky, Net”, conta.

    “Não precisa esperar aposentar”

    Professora de História em um curso universitário de Direito, Andréia Carneiro Lobo optou criar o filho em uma chácara que herdou da família. Ela recomenda que as pessoas que gostam do estilo de vida que não adiem o projeto. “As pessoas costumam dizer: ‘Quando me aposentar vou viver no campo’. Não precisa esperar até lá. É possível morar no campo e trabalhar na cidade. Não precisa esperar a velhice. Aqui não tem cheiro de esgoto, à noite é silenciosa e escura. Dá para ver estrelas numa noite de inverno e vagalumes nas noites de verão”, aponta.

    Andreia afirma que a vida em relativo isolamento faz com que seja possível aproveitar e vida com mais calma. “Aqui podemos abraçar as árvores sem parecermos malucos, ter bichos livres - meus gatos andam pra lá e pra cá - sem temer que eles sejam mortos”. Temos vaquinhas também, que são mansas”, conta. “Onde eu moro são terras que eram do meu avô, estão na família há décadas. Ele deixou terras para os filhos, sete que estão vivos, e seis decidiram morar nessas terras. Esses filhos decidiram morar na zona rural”, diz.

    A opção de Andreia tem influência em sua experiência já na adolescência, quando morou com a mãe na chácara. Depois, ela mudou para a cidade, mas conta que não se adaptou. “Minha mãe voltou para essas terras quando eu tinha 16 anos. E eu morei na cidade, comprei uma casa na cidade, mas não me adaptei. É o fato de abrir a janela e ter para onde olhar. Eu gosto de abrir a janela e olhar para o campo, poder ficar em silêncio, olhar para a natureza, ter um portão que não tenha cadeado, não me preocupar com alarme”, observa. Alguns avanços da cidade são até bem recebidos, mesmo por quem valoriza o isolamento. “Moramos em uma comunidade tradicional. De alguns anos para cá se estabeleceram algumas indústrias, mas alterou pouco. A única coisa são os ônibus, que a circulação aumentou. Mas há uma convivência harmônica.Uma delas fez um projeto de arborização, a gente acha melhor, por exemplo, que se tivessem loteado”, conta.

    Mesmo não sendo o centro da atenção, a segurança, conta Andreia, não pode ser negligenciada. “A gente se preocupa, lógico. Mas os meus vizinhos são ou familiares ou conhecidos de décadas. A gente cuida um do outro, temos grupos de Whatsapp. Já assaltaram mercadinho, mas eu nunca fui assaltada aqui. O pouco tempo que morei na cidade eu fui assaltada”, compara.

    Curiosamente, ambas as entrevistadas pediram espontaneamente que os endereços de suas casas fossem mantidos em sigilo.

    “Roubaram a nossa paz”

    A bancária Ana Luiza Smolka não teve a mesma sorte que Andreia e Bela. Em 2013, depois passar quase 20 anos preparando sua chácara para o momento em que se mudaria de vez e apenas dois anos após a mudança, uma violação de seu lar fez o sonho de Ana ruir. Ela já havia enfrentado a resistência da família que reclamava da distância e dos gastos da chácara. Insistiu e conseguiu realizar seu sonho. Até que então um evento mudou sua realidade e o rumo que ela havia planejado para sua vida. “Sofri um assalto brutal, à mão armada, e com isso nos sentimos extremamente inseguros, para sempre”, pontua.

    Em março de 2013, quatro homens armados a esperavam já dentro de sua casa quando ela chegou em uma sexta-feira, por volta das 18h30. Ela e o filho ficaram amarrados em um quarto por quatro horas enquanto os bandidos “faziam a limpa” na casa. “Eles não roubaram só bens materiais. Levaram a nossa paz. E eu vendi (a casa), muito rapidamente, acredito que muito bem, em um bom negócio. Demorou entre cinco e seis meses”, lembra.

    Antes disso, Ana conta que foi feliz, mas ressalta que chácaras dão trabalho. “Comprei porque o preço era acessível na minha situação daquele momento. Eu não queria um endividamento, queria usar o fundo de garantia, então optei por comprar um imóvel que eu pudesse comprar quitado. Também me atraiu a possibilidade de ter água, lá tinha fonte de água, terra e um espaço bom que eu nunca teria na cidade. Fiz uma série de transformações lá, investi bastante, a gente gasta muito”, pondera.

    “Tem que ter saúde”

    As lembranças, no entanto, fizeram compensar, conta Ana Luiza. “Era uma área mais rural, realmente, apesar de ter asfalto. Eu gastei muito com grama, calçamento, a casa em si, porque construí uma casa lá. Com o tempo se tornou um lugar muito agradável de ficar, um verdadeiro paraíso. A gente criava peixes, tínhamos as árvores que vimos crescer. Foram 21 anos de investimento. Eu era muito feliz lá. O barulho do vento e poder fazer fogo no quintal e na lareira. Tinha uma área para fazer fogo, a gente tinha um barco, dois tanques, patos, marrecos, tentamos alguns outros bichinhos, coelhos, galo, galinha. As criações não deram muito certo porque a gente era muito urbano e acabou desistindo. Mas foram tempos muito felizes. Entre prós e contras, como a distância, eu não pagava aluguel nem condomínio, então me deixava financeiramente estável”, calcula.

    Os amigos que moravam na cidade também aproveitaram. “Recebemos muitos amigos nos fins de semana, muitos carros estacionados, muitos churrascos, muita confraternização, todas as pessoas fugiam da cidade para ir para a nossa chácara”, conta.

    Ela recomenda que a “aventura” seja ainda enquanto as pessoas têm saúde. “Fiz isso com vitalidade. Ao envelhecer as pessoas pensam ‘vou comprar uma chácara para a aposentadoria’. Eu não acredito que seja bom. A gente precisa de vitalidade e chácaras consomem muita energia. Precisa muita paciência para ver as árvores crescendo, algumas frutas não dão certo, tem muita mão de obra, a gente mesmo põe a mão na massa, então tem que ter saúde e juventude para isso. Acho que fiz na hora certa. Se esperasse a velhice, não faria”, analisa.

    Neto e filho de Ana Smolka, em Campina Grande do Sul. Foto: arquivo pessoal.

  • Keresdrakon vilsoni

    Nova espécie de pterossauro é descoberta no Paraná

    Nova espécie de pterossauro é descoberta no Paraná
    (Foto: Divulgação / Cenpaleo)

    Pesquisadores descobriram uma nova espécie de pterossauro que habitava o Paraná entre 110 milhões e 80 milhões de anos atrás. O réptil voador, que foi chamado de Keresdrakon vilsoni, foi documentado em artigo publicado na revista Academia Brasileira de Ciências, em edição publicada na segunda-feira (19). Os fósseis do animal foram encontrados em rochas de arenito da chamada Bacia Sedimentar do Paraná/Bauru, localizadas no município de Cruzeiro do Oeste, noroeste do Paraná. O animal tinha 2,5 metros de envergadura e cerca de 15 quilos.

    A descoberta é resultado de escavações feitas na região de 2012 a 2014. Desde então, as rochas com as amostras haviam sido levadas para o laboratório do Centro Paleontológico (Cenpaleo) da universidade, em Mafra, no norte de Santa Catarina, para serem examinadas.

    Em reportagem do site Deutsche Welle (DW Brasil), o pesquisador Luiz Carlos Weinschütz, da Universidade do Contestado, afirmou que o animal vivia numa região desértica, ao redor de um oásis com água e vegetação. Tempestades ocasionais que inundavam a área podem ter arrastado os ossos para o mesmo local e dispostos em camadas, como as que foram encontradas.

    Esta é mais uma espécie descoberta pelos pesquisadores na região, depois do pterossauro Caiuajara dobruskii (em 2014), do lagarto Gueragama sulamericana (em 2015) e do dinossauro Vespersaurus paranaensis (em junho deste ano). O local ganhou o nome de "cemitério dos pterossauros”, devido aos fósseis pré-históricos encontrados pela primeira vez em 1971. Segundo os pesquisadores, o novo pterossauro é maior do que o Caiuajara dobruskii. A descoberta deve provar a existência de um ecossistema interligado num ambiente desértico.

    "Dragão espírito da morte"

    Keresdrakon é a junção de "Keres", que, segundo a mitologia Grega, são espíritos que personificaram a morte violenta e estão associados à fatalidade; e "drakon", palavra para dragão no grego antigo.

    Já vilsoni foi uma homenagem a Vilson Greinert, um voluntário que dedicou centenas de horas preparando a maioria dos espécimes do "cemitério dos pterossauros" que fazem parte do acervo do Cenpaleo.

  • Queimadas

    Paraná está entre as regiões afetadas por corredor de fumaça que vem da Amazônia

    Paraná está entre as regiões afetadas por corredor de fumaça que vem da Amazônia
    (Foto: Reprodução / @SanGasso)

    O Paraná está entre as regiões afetadas por um corredor de fumaça proveniente das queimadas na Amazônia, que vem descendo pela América do Sul e chegou escurecer o céu de diversos municípios das regiões mais a Oeste, Norte e Noroeste do Estado. A relação entre a fumaça e a escuridão que tomou conta de alguns municípios é confirmada pela empresa MetSul Meteorologia. Procurado pelo jornal Bem Paraná, o diretor do instituto, Alexandre Aguiar, afirmou que o ar no Paraná, assim como São Paulo e outros estados, “está repleto de material particulado de fumaça de queimadas”.

    O fenômeno da elevação dos níveis de partículas e de óxido de nitrogênio – um dos reflexos de queimadas comuns nesta época do ano —no entanto, não pode ser confirmado pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP).

    De acordo com a chefe do Setor de Qualidade do Ar do IAP, Dirlene Cavalcanti e Silva, duas estações de medição, que ficam justamente em Londrina e Maringá, estão com problemas técnicos desde a semana passada. O problema está supostamente ligado à falta de energia elétrica. “A gente tem algumas estações, duas delas em Maringá e Londrina, que estão fora do ar desde a última semana. A gente sabe que realmente há uma mudança, mais pelo que a gente viu na mídia, mas neste momento não tenho esses dados. O técnico está lá (em uma das estações que não funcionam). Parece que caiu a energia e a gente não tem como saber daqui. Identificamos isso (o problema nas estações) na quinta ou sexta-feira da semana passada e ele (o técnico) só conseguiu um carro hoje para ver o que aconteceu”, diz a chefe do Setor de Qualidade do Ar do IAP.

    A população, entretanto, percebeu as condições atípicas no dia a dia. “Notei aqui em Campo Mourão e depois vi postagens em grupos de imagens do céu escuro. Era tarde e parecia noite”, conta Vanessa Dezidério dos Santos, moradora de Campo Mourão, no Noroeste. Onde não há “escuridão”, como nas regiões do Paraná onde não chove há mais de um mês, a qualidade do ar ficou ainda mais afetada, segundo a MetSul, que aponta que a maior proporção da névoa que atingiu o Norte do Paraná provém da Bolívia e do Paraguai.

    O instituto diz que há dez dias tem registrado a ocorrência na região Sul de fumaça originada em focos concentrados de incêndio na Amazônia. O ponto mais crítico de queimadas em Rondônia, por exemplo, fica a cerca de 2,5 mil quilômetros de Londrina. Desde a semana passada um corredor de fumaça se estende do Norte do País, atingindo o Centro Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil, e países vizinhos como Argentina, Uruguai, Peru e Bolívia. O fenômeno neste ano foi mais intenso em razão da mistura de fumaça com a frente fria que atingiu os estados, incluindo o Paraná, e escureceu o céu na área.

    Além do corredor de fumaça provocado por queimadas que vêm desde a Amazônia, no Paraná, o incêndio que já destruiu 62% do Parque Nacional de Ilha Grande, no Noroeste, também contribuiu para a queda na qualidade do ar. O incêndio já dura 13 dias consecutivos, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra o local. Desde o dia 8 de agosto, o fogo já atingiu 47 mil dos 76 mil hectares do parque. Os focos de incêndio estão nas cidades de Altônia, São Jorge do Patrocínio e Alto Paraíso, no noroeste do Paraná.

    Tempo seco e incêndios ilegais contribuem para problema

    Em entrevista ao Portal UOL, o argentino Santiago Gasso, pesquisador da Nasa, a agência espacial norte-americana, conta que o fenômeno do “corredor de fumaça” não ocorreu nos últimos anos e depende de muitos fatores para se formar. “Incêndios sempre acontecem nesta época do ano. Mas o corredor da fumaça não se forma todos os anos por razões que incluem o número de incêndios e sua intensidade, o tipo de combustível, a umidade no solo e questões meteorológicas”, afirmou o especialista.

    O tempo muito seco e o aumento de incêndios ilegais contribuem para o crescimento dos focos de incêndio na região amazônica, alimentando a formação do corredor. O Metsul aponta que o salto no número de queimadas neste ano também tem correlação direta com o clima.Segundo a MetSul, os ventos da Amazônia sopram de leste para oeste, entrando no continente pelo Nordeste do Brasil em direção aos Andes, onde encontram uma grande parede de montanhas de até 5.000 metros na cordilheira. A fumaça, que costuma concentrar-se entre 1.500 e 2.000 metros de altitude, não consegue ultrapassar esta barreira e desce em direção ao sul da América do Sul, passando po Peru, Bolívia, o Centro Oeste do Brasil e o Paraguai, chegando até o sul do Brasil. Com os fortes ventos e as queimadas na Bolívia e no Paraguai, a fumaça acabou atingindo o Paraná.

    De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de pontos de queimada no País é o maior dos últimos sete anos, com 72,8 mil ocorrências. Mais de 38 mil focos de incêndio – 52% do total – se concentraram na Amazônia. O Paraná registrou 1683 queimadas, segundo o levantamento.

    Fotos: reprodução / @SanGasso e Nasa

  • Grupos folclóricos

    Curitiba começa a ‘devolver’ cultura a países de origem

    Curitiba começa a ‘devolver’ cultura a países de origem
    Apresentação de grupos no Bosque do Papa nesse domingo (18) (Foto: Franklin Freitas )

    A preservação centenária de culturas internacionais pode ter causado um efeito inverso e feito com que práticas esquecidas em localidades de origem tenham sido preservadas vivas graças a inciativas persistentes de grupos folclóricos de Curitiba. Com dezenas de grupos, a capital paranaense talvez seja a cidade do Brasil com maior número de culturas preservadas e nos últimos anos esses grupos passaram a se mobilizar para participar de festivais e encontros, em especial na Europa. A surpresa é que algumas práticas haviam sido extintas em determinadas localidades e os curitibanos descendentes passaram a ensinar aos povos de origem.

    “Antes não era comum que os grupos folclóricos daqui fossem aos países de origem de suas culturas por ser inviável viajar, por custo. Era mais caro e hoje há mais possibilidades. Quando chegamos, vimos que nós estudamos muito e preservamos práticas já extintas lá”, conta o coordenador de práticas folclóricas da Fundação Cultural de Curitiba, Carlos Hauer, descendente de alemães e integrante de um grupo germânico de Curitiba.

    Embora imprecisa para ser afirmada categoricamente, a extinção de práticas fica clara pelos relatos encontrados por pessoas engajadas nos países de origem. Os grupos curitibanos, então, passaram a reensinar as culturas aos locais. Hauer afirma que o conteúdo diversificado de quem integra os grupos de Curitiba também surpreende.

    “Uma coisa que vi na Alemanha foi quando as pessoas olhavam e perguntavam sobre um suspensório, que tem a imagem de Ludovico Segundo, um dos reis da Baviera, e os alemães não sabiam quem era. Isso porque quem é da Baviera só dança música da Baviera, quem é do Norte, só dança do Norte, e nós, não. Acabamos estudando muito de todo o país. Por isso temos traje do Sul, traje do Norte e acabamos representando um pouco de cada canto. De repente eu sabia a história do rei e e eles não sabiam”, conta.

    No ano passado, a pesquisadora alemã Sabine Kiefer, da cidade de Colónia, na Alemanha, esteve em Curitiba e outras cidades brasileiras, como Blumenau (SC), que concentram grande número de colonos, e concluiu que os descendentes brasileiros ainda utilizam palavras e termos extintos na Alemanha contemporânea. “Veio fazer o doutorado e pesquisou muito dos alemães que vieram para o Brasil. Foi para Gramado (RS), Blumenau (SC), e ficou espantada porque percebeu que aqui ainda se usam palavras da língua alemã que não são mais usadas e isso é natural. As comunidades se destacaram”, conta.

    O acesso facilitado às origens também promoveu intercâmbio cultural entre os brasileiros e estrangeiros no Rio Grande do Sul, que também promoveu a correção de tradições seguidas em Curitiba. “No começo, na Associação Cultural 25 de Julho, em Gramado, eles traziam sempre alguém da Alemanha, Áustria ou Suíça e começamos a ver que havia alguns erros, inclusive, nos trajes. Com isso, começamos a corrigir”, diz Hauer.

    No ano passado, o primeiro grupo de fora da Europa a participar da Europeav, que ocorre desde 1964, foi um curitibano de folclore alemão. “O nosso grupo foi o primeiro de fora da Europa a participar, na cidade de Viseu, em Portugal. Neste ano a gente foi para a Alemanha, em um festival com cinco mil pessoas, com palcos espalhados por toda a cidade. Você caminha e vê os grupos. Acho que antes era muito difícil as passagens, e os grupos estão começando a se organizar”.

    Recentemente, os grupos do Centro Espanhol do Paraná, o polonês Wisla e o ucraniano Barvinok foram alguns dos que levaram a cultura preservada de Curitiba para os países de origem. O Barvinok foi o mais recente. No último dia 2 de agosto, integrantes viajaram para participar da 4ª Edição do Festival internacional de dança e música em Lviv, cidade ucraniana perto da fronteira com a Polônia.

    Viagem recente

    O Barvinok foi o único grupo paranaense a participar do festival, em Lviv, segundo a diretora do coletivo Solange Oresten. Ao todo, 47 integrantes, entre dançarinos e coralistas, participaram das atividades. Descendente de primeira geração do país do Leste Europeu, Solange Oresten, afirma que está foi a primeira vez que um grupo brasileiro participou de um festival na Ucrânia. “É o primeiro grupo do Brasil. Esse festival está no quarto ano e todos os grupos recebem a carta convite. Como vamos fazer 90 anos no ano que vem, a gente resolveu programar. É tudo por conta do componente, passa de R$ 10 mil por pessoa”, conta. 

    Oresten é um exemplo de quem preserva antigas tradições. Ela conta que seus pais nasceram na Ucrânia e vieram ao Brasil ainda jovens. Mesmo assim, a família sempre preservou a tradição. “Meus pais vieram da Ucrânia e tem outros que os pais e os avós e alguns já são descendentes de mais para frente. Meus pais eram de Sokal, minha mãe veio muito pequena, mas meu pai veio rapazinho. Nós mantemos até hoje as tradições de folclore. A religião da minha família era Ortodoxa”, conta. Boa parte dos descendentes de imigrantes ainda não conhecem a “terra natal”, mesmo assim assumiram a missão de preservar a cultura.

    Além do Brasil, representado pelos curitibanos, participam do festival grupos da Inglaterra, Austrália, Argentina, Canadá, Estados Unidos e Croácia. O Paraná tem a maior concentração de ucranianos do Brasil.

    “Se parar para pensar, é a cidade com mais grupos do País”

    A representatividade cultural curitibana é ainda mais ampla. Embora tenha a maior comunidade ucraniana, Curitiba também abriga grande número de outros descendentes. “Toda cidade tem uma característica, mas Curitiba sem dúvida está entre as que tem maior representativa, se não for a maior”, afirma Hauer.

    “Os grupos filiados à Aintepar (Associação Interétnica do Paraná em Curitiba), que promove o festival de etnias há 57 anos, tem 18 grupos, e um de fora, o holandês de Castrolandia. Chega a 25 grupos, ou mais, na verdade, porque alguns não se associaram e outros são ligados a escolas ou não tem grupos oficiais. Santa Catarina tem muitos alemães ou outras cidades com muitos italianos, mas Curitiba que concentra tantas (culturas) juntas, eu acho que Curitiba está entre as que mais concentram. Tem grupos de alemão, polonês, ucraniano, japonês, árabe, português, que anda meio parado, mas tem o Bacalhau com Notas. Tem escolas de tango, como o Espaço do Tango, que já fez até congresso de tango, da Argentina, mas é mundial, porque são de afrodescendentes da Argentina. Sem falar no fandango que é do Paraná mesmo. O que mais tem são os italianos. Os italianos foram brigando, brigando (risos), e agora acho que tem uns seis, se não me engano. Acho que começou com grupo Dante Alighieri ou Garibaldi”, conta.

    Os árabes, segundo Hauer, são ainda mais diversificados. “Tem sírios e libaneses, mas os árabes são 22 países. Eles não fazem parte da associação, mas tem muitas escolas. Como grupo tem o Masbha. Mas tem pessoas que dançam. Tem, por exemplo, a Marcia Luz que traz outras meninas que dançam. Outra é Cris Farah, que é independente, que dança, junta as pessoas para dançar”, afirma.

    Ciganos, sem nacionalidade definida, também marcam suas tradições em Curitiba. “A comunidade cigana tem as pessoas que dançam também, mas os ciganos não tem um grupo com nome, tem um ligado à escola Carmen Romero, já se apresentaram aqui e é muita energia, muito colorido. Eles são ligados ao Clã Sara Cali. Quando eles fizeram apresentação aqui trouxeram integrantes do clã”, diz.

    A representatividade não para por aí. “Temos o pessoal de Angola, que é o grupo vozes de Angola, que parte de um grupo que fugiu da guerra, ficou aqui em Curitiba e formou um grupo de coral. Temos também um grupo que já vi dançando, mas eles não vem (aos festivais), que é o grupo integracionalista, que mistura cultura colombiana e boliviana. Temos ainda um grupo folclórico Matsuridaico, dentro da fundação tem o Grupo Nikei (japoneses), que toca os taikos, e um que não faz parte da Aintepar. Chineses tem um grupo, quando recebemos os embaixadores do Brics, e conversei com um grupo que faz a dança do dragão e a dança do leão, que eles se unem a um grupo de Ponta Grossa. E o os indianos. Falando assim, vamos lembrando, e são muitos mesmo”, aponta.

    Hauer destaca também os grupos folclóricos locais. “Temos um monte de escolas de samba também, né. Temos também os centros de tradição gaúcha. Em Piraquara tem uma aldeia que tem um coral que já se apresentou aqui. Eles também preservam bem a cultura”.

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  • Radares

    'Cidadão de bem dirige dentro do limite', diz Yared sobre fim de radares

    'Cidadão de bem dirige dentro do limite', diz Yared sobre fim de radares
    Deputada propõe que radares móveis sejam substituídos por agentes (Foto: Franklin Freitas)

    A deputada federal Christiane Yared (PR-PR), ativista de combate à violência no trânsito, afirmou nesta quinta-feira (15) que vai propor ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) que substitua os chamados “radares móveis” por complemento no efetivo de agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O presidente determinou a suspensão do uso de radares de fiscalização de velocidade móveis em rodovias federais, as "BRs". A ordem foi publicada nesta quinta-feira no Diário Oficial da União e foi dada ao Ministério da Justiça, responsável pela PRF.

    “Estamos levando ao presidente uma outra sugestão. Já que ele insiste em retirar os radares 'móveis', queremos mais fiscalização nas estradas, que esses radares possam ser substituídos por mais policiais rodoviários federais. Queremos aumento no efetivo”, sugere Yared.

    Mãe de Gilmar Rafael Yared, morto em um acidente de trânsito causado pelo ex-deputado Luiz Fernando Ribas Carli Filho em 2009, a deputada disse que não chegou a fazer oposição à medida específica de remoção de radares móveis porque a população é contra o uso do equipamento. “Queria ser relatora do projeto do presidente, mas não consegui. Agora vamos trabalhar. Já tenho 27 emendas para colocar nesse projeto que ele colocou”, pondera. “A população não quer esse radar. As pessoas acham que são arapucas, que não ajudam, os fixos também, que sai de uma fiscalização de 110 km/h para 80 km/h e não tem sinalização suficiente”, aponta.

    Ela lembra que o fim dos radares móveis estava entre as promessas de campanha de Bolsonaro.

    “Essa era uma promessa de campanha dele e ele cumpriu. Agora nós vamos atrás para ajustar a proposta”.

    Mesmo considerando essa opinião pública, Yared afirma que o “cidadão de bem” não anda acima do limite de velocidade. “As pessoas de bem cumprem com seu papel e dirigem dentro da velocidade permitida”, afirma.

    A deputada contesta a tese levantada por Bolsonaro de que a medida combate uma “indústria da multa”, como disse ontem o presidente, nas rodovias. “O problema é o radar colocado como arapuca. Nas rodovias não há uma indústria da multa, não existe isso na rodovia. Os radares servem para que a gente consiga segurar os infratores contumazes. Em feriados prolongados, a PRF tem flagrado uma quantidade gigantesca de motoristas que insistem em estar acima do limite de velocidade”, diz Yared.

    A proposta principal para tentar reduzir as infrações e acidentes é, segundo a deputada, aumentar o efetivo da PRF. “As rodovias abrangem uma área muito grande que precisa de fiscalização. O mundo inteiro assiste à tragédia do trânsito como fatalidade. Podemos fiscalizar e punir e mudar a realidade”, diz.

    “Ninguém quer falar do trânsito. É um assunto indigesto, mas temos que falar, ninguém gosta de multa e ninguém gosta de matar. E as pessoas também morrem”, aponta. Yared complementa dizendo que vai tentar munir o presidente de informações para que medidas para redução de acidentes sejam tomadas. “Vou participar de um encontro com ele, estou indo receber um prêmio e estarei com ele conversando e temos medidas que podem substituir. Um problema é que a PRF já tinha adquirido todo esse equipamento e temos que conversar com o governo para saber o que fazer com isso”, afirma.

    Para a deputada, o decreto ainda pode ser alterado por lei ou pelo próprio presidente. “Esse decreto pode ser revogado. Não é para sempre. Eu acho que o presidente ainda pode ter uma luz e que ele precisa de uma assessoria atenta a essas questão”, deduz.

    Nessa quarta-feira, Bolsonaro também criticou o impasse judicial sobre uma decisão dele que suspendeu em abril a contratação de novo radares fixos em rodovias federais. No mês seguinte, uma ação popular conseguiu na Justiça uma liminar que proibiu o governo de seguir adiante com a medida. No final de julho, o Ministério da Infraestrutura fez um acordo para instalar 1.140 aparelhos para monitorar 2.278 faixas. "Estamos com o problema na Justiça agora. Vão tirar R$ 1 bilhão para instalar 8 mil pardais. Com o bilhão, o Tarcísio [de Freitas, ministro da Infraestrutura] asfalta 300 km de rodovia", afirmou o presidente, se referindo ao plano inicial de instalação de radares fixos, que iriam fiscalizar 8 mil novas faixas em até 5 anos.

    Na segunda-feira, Bolsonaro havia afirmado que pretendia acabar com os radares móveis no país já na semana que vem. Na ocasião, ele disse que se tratava de uma decisão dele próprio e que era "só determinar à PRF [Polícia Rodoviária Federal] que não use mais". O presidente, no entanto, afirmou que poderia voltar atrás se alguém "provar que esse trabalho é bom".

  • Brasil Sem Frestas

    Voluntária que cobre frestas com caixas de leite fala de famílias com fome em Curitiba

    Voluntária que cobre frestas com caixas de leite fala de famílias com fome em Curitiba
    (Foto: Reprodução / Brasil Sem Frestas)

    Nos últimos três anos o projeto Brasil Sem Frestas, em que voluntários utilizam caixas de leite para vedar residências precárias, já ajudou cerca de 400 famílias em situação de extrema pobreza em Curitiba e região metropolitana. Esta época do ano, em pleno inverno curitibano, o projeto está no auge da atividade e precisa de ajuda.

    Por atuar em ocupações irregulares, o grupo de voluntários evita formalizar a atividade como organização não governamental, por exemplo, para não correr o risco de ser impedido de agir e, portanto, não tem outra fonte de recursos que não seja por meio doações diretas da população.

    Sem entrar em qualquer discussão de mérito, o objetivo é simples: ajudar pessoas que estão expostas ao vento e a chuva. Responsável pela coordenação em Curitiba, a ativista Tânia Maria Machado Ribas afirma que 90% das famílias atendidas são chefiadas por mulheres e possuem crianças pequenas.

    “A gente só trabalha em área de invasão. Por isso reluto em fazer a ONG, porque não sei se vão deixar a gente trabalhar nesses lugares de maneira formal. Só se faz isso com doações. Não tem nem CNPJ, nada oficializado ainda. Sei que estão erradas (famílias invasoras), mas é o único lugar que elas tem para ir”, pontua.

    Devido às diversas experiências que teve em três anos de atuação no projeto, Tânia pensa em escrever um livro. “São histórias. Só eu tenho mais de duzentas para contar. E cada uma tem uma história diferente. Geralmente são famílias muito grandes. São pessoas que não tem estudo nenhum. Não têm condições (nem de trabalhar). Não têm condições!”, exclama.

    Fome

    Entre os casos que chamaram mais atenção, Tânia menciona “a fome” como mais chocante. De “telha moída” para comer a “restos atrás da geladeira”, ela conta que é testemunha da miséria em Curitiba e região.

    “O que realmente toca a gente é a fome. Muitas famílias, mais do que se imagina, não têm o que comer. Eu já vivenciei uma senhora que comia telha moída. Aquilo foi chocante. Já vi crianças comendo resto de comida que estava atrás de móvel que a gente arrasta. A gente arrastou uma geladeira e atrás tinha alguns restos e as crianças pegaram para comer na hora. Muito triste”, lembra.

    As situações de miséria relatadas por Tânia são diversas. “Muita gente em lugar pequeno, sujeira, colchão molhado. Banheiro nunca tem. Nós, voluntários, saímos de casa já com a ideia na cabeça de que não poderemos usar banheiro. A gente já viu vaso sanitário dentro de um quarto, onde as pessoas dormem, sem encanamento, nada”, conta.

    As famílias, segundo ela, além de quase sempre chefiadas por mulheres, tem cada uma suas tragédias que muitas vezes contribuem para as situações de miséria. “É marido que está preso, que vive em droga, ou um filho que tem problema, problemas de saúde, muita coisa. Eu sempre digo que todo o ser humano tem que fazer comigo uma casa dessa”, recomenda.

    Sobre a declaração recente do presidente Jair Bolsonaro dizendo que “passar fome no Brasil é uma grande mentira”, Tânia diz que evita se posicionar politicamente, mas garante que o chefe do Executivo está errado.

    “Eu nunca fui de me posicionar politicamente, já fui procurada por muito politico e nunca ninguém me ajudou, mas sobre isso de ‘ninguém passar fome no Brasil’, é mentira. Tem muita fome, sim”, garante. O presidente depois voltou atrás em seu comentário.

    Entre os exemplos, cita o de crianças chorando por falta de comida. “Cheguei numa casa e tinha três filhos sentados atrás dela (a dona da casa) e os três estavam chorando. Perguntei por que eles estavam chorando e ela disse que estavam com fome. Dei cinco reais para ela comprar pão. Ela me trouxe o troco. Não queria dinheiro, era só comida mesmo. Um dos filhos estava com o braço quebrado e foi junto com a mãe, mas quando viram que o dinheiro que dei era para comprar pão, eles quase brigaram para ir junto. Claro que não fiquei com o troco”, conta.

    As ações do Brasil Sem Frestas ocorrem todas as quintas-feiras, com nove voluntários fixos, além de um sábado por mês com grupos que chegam a somar 30 pessoas. “Geralmente a gente leva uma cesta básica, mas nesse dia eram quatro casas e não tínhamos quatro cestas para levar no dia. Então, toda ajuda sempre é bem-vinda”, reforça.

    Demanda é grande e projeto precisa de doações

    As demandas por ajuda são em dinheiro, com cestas básicas ou material utilizado na ação. “Caixas de leite, fios de náilon, grampo de estofador. O grampeador tem vida útil e não tem assistência (para arrumar). Eles custam R$ 80, então, imagina, quando a gente tem 40 pessoas, vai bastante”, conta. Embora reconheça as dificuldades, Tânia afirma que o resultado a motiva a continuar.

    “Quando a gente fala que vai fazer com caixinha de leite, as pessoas pensam de uma forma, mas quando veem a casa pronta, ficam muito impressionadas, porque fica mais bonito e afeta até a autoestima da pessoa. A gente já recebeu foto da pessoa deitada na cama dizendo ‘olha, agora estou dormindo mais quentinha’. Esse tipo de coisa é que faz com que a gente continue trabalhando”, diz orgulhosa.

    Ela começou a trabalhar no projeto há três anos. “O projeto já existe em Curitiba faz seis anos. Eu já fiz mais de 200 casas. No trabalho de quinta eu conto com oito ou nove pessoas, a gente começa as 9 horas da manhã e volta às 3 ou 4 horas da tarde. E nos sábados, de 19 a 30 pessoas, uma vez por mês. A gente seleciona as casas através de líderes comunitários, de igrejas, ou associações. Nunca consigo entrar nas comunidades diretamente”, conta.

    Tânia diz que escolheu essa atividade em razão da participação direta. “Eu estava procurando um trabalho voluntário e minha filha viu pelas redes sociais essa moça (Lizandra Falcão) pedindo caixas de leite. Eu comecei pedindo caixas de leite e me apaixonei pelo projeto. Eu sempre fui dona de casa e meus filhos já casaram e saíram de casa. Todo o voluntariado que eu procurava não me deixava por a mão na massa e foi o que me deu esse trabalho”, afirma.

    Hoje, o Brasil Sem Frestas alcança 29 cidades do País. A ação começou em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, com a química Maria Luisa Camozzato. A ideia é dar dignidade às famílias a partir do conforto térmico.

    “Desde que a casa esteja forrada, pode deixar o alumínio para fora, mas se não tiver forrada deixa a parte estampada (da caixa de leite) para dentro que serve como um ar condicionado”, compara. A durabilidade depende de como a instalação é conservada. “A caixa de leite dura cem anos, mas como é grampeada tem que cuidar. Quando tem criança, depende muito, mas geralmente vai até o fim da vida do barraquinho delas”, diz.

    Curitiba tem pelo menos 50 mil famílias vivendo em residências consideradas precárias, em ocupações irregulares. Somente as famílias cadastradas na Companhia de Habitação de Curitiba, em busca de uma residência popular, são 53 mil familias. 

    Quem quiser ajudar o Brasil Sem Frestas pode entrar em contato com Tânia pelo telefone (41) 98449-5213. Os endereços para entrega de doações e outras informações podem ser encontrados na página do projeto no Facebook (Brasil Sem Frestas - Curitiba).

  • 'Nova postura'

    Sergio Moro cancela status de refugiados paraguaios que moram em Curitiba

    Sergio Moro cancela status de refugiados paraguaios que moram em Curitiba
    (Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil)

    O ministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Pública, anunciou nesta terça-feira (23) em mensagem no Twitter que cancelou status de refugiados aos paraguaios Juan Arrom, Victor Colmán e Anuncio Martí. Dois deles estão em Curitiba. "O Brasil não será mais refúgio para estrangeiros acusados ou condenados por crimes comuns (o caso, extorsão mediante sequestro), seja de Battisti, Arrom, Martí ou de outros. A nova postura é de cooperação internacional e respeito a tratados. Aqui não é terra sem lei", escreveu na mensagem.

    A postagem estava acompanhada de texto do presidente do Paraguai, Marito Abdo, que comunicava a decisão do ministro da Justiça do Brasil que cancelou definitivamente o status dos refugiados. A notícia atende ao pedido do governo paraguaio.

    Quinze anos após a concessão de refúgio no Brasil a três paraguaios, ex-militantes de esquerda, que denunciaram ter sofrido sequestro e tortura em 2002, o governo paraguaio voltou a pressionar o governo brasileiro para que extradite Juan Arrom, Victor Colmán e Anuncio Martí. Arrom e Colmán moram em Curitiba e Martí, no Mato Grosso do Sul. Ambos tem vida estabelecida do Brasil, com família e trabalho.

    Atualmente, Juan Arrom é integrante de um grupo de pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Antes de fugir para Curitiba, ele era secretário-geral do Partido Pátria Livre (PPL) no Paraguai, remanescente do Movimento Pátria Livre (MPL), que hoje está praticamente extinto. Em abril, Juan Arrom conversou com a reportagem do Bem Paraná, mas optou por não conceder entrevista.

    Arrom, Colmán e Martí são acusados em seu país de terem sequestrado, em 16 de novembro de 2001, María Debernardi, esposa de um empresário paraguaio. Ela teria ficado 64 dias em cativeiro em uma ação supostamente coordenada por integrantes da facção criminosa Exército do Povo Paraguaio (EPP), criada posteriormente. Os refugiados negam veementemente qualquer ligação com o grupo, que intitulam, inclusive, como traficantes de drogas sem qualquer atuação política legítima. O EPP foi instituído oficialmente em 1º de março de 2008 e documentos encontrados em acampamento relacionam 60 membros. Os ex-integrantes do PPL dizem que diversas investigações no Paraguai já deixam claro que não há ligação entre os grupos.

    Para os refugiados, a insistência do governo paraguaio em manter a “perseguição” está ligada à denúncia que eles moveram contra o Estado na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). O julgamento do caso de tortura e desaparecimento está em fase final e envolve diversos agentes públicos e políticos que ainda mantêm atividade no governo. Entre eles está o atual vice-presidente do Paraguai, Hugo Velázquez, que é procurador de Justiça e, na época do sequestro, era responsável por coletar a confissão dos acusados. Na época da detenção, o trio foi levado a três locais, incluindo a casa de um policial, sem que ação tivesse sido notificada oficialmente. Segundo a denúncia, a intenção era que a confissão fosse obtida sob tortura. Em razão disso, o Estado Paraguaio está no banco dos réus na CIDH.

    Extradição

    Embora acompanhem os desdobramentos do caso neste ano, os refugiados afirmavam no início do ano não temer extradição. O status foi concedido pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), por sete votos a zero, e segue tratado internacional. Porém, em junho deste ano, o Conare revogou o refúgio dado aos três paraguaios, por cinco votos, uma abstenção e uma ausência. Eles recorreram, mas o Ministério da Justiça negou o recurso nesta terça-feira, afirmando, em nota, que a maioria do Conare concordou em que não haveria mais “fundado temor de perseguição” no caso dos três.

    Segundo a nota, o Conare concluiu que “não há razões concretas para acreditar que no seu país de origem os paraguaios não terão resguardado o direito ao devido processo e julgamento justo”, já que “o Paraguai atualmente conta com a estabilidade de suas instituições e do vigor da sua democracia”.

    O Conare é formado por representantes dos ministérios de Justiça, Relações Exteriores, Saúde, Educação e Esporte, além da Polícia Federal e de uma organização não governamental. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) é membro convidado, sem direito a voto.

    De acordo com Charles Gomes, coordenador do Centro de Proteção a Refugiados e Imigrantes (Cepri) da Casa Rui Barbosa, ao jornal O Globo, organismos de direitos humanos e o Acnur foram contrários à revogação do refúgio. O representante da sociedade civil no Conare se absteve na votação.

    O status somente poderia ser revogado por violação da segurança nacional, violação da ordem pública, falsidade do motivo de refúgio, que no caso é “desaparecimento forçado e tortura”, ou por renúncia. Mesmo assim, de acordo com a lei 9.474/97 no Brasil e pelo Estatuto dos Refugiados de 1951, caso cancelado o refúgio, nenhum refugiado poderá ser devolvido ao país de origem onde sua segurança e integridade está em perigo. A detenção irregular do trio está amplamente documentada e não poderia gerar a deportação.

    Ainda não há uma data para a volta de Juan Arrom, Victor Colmán e Anúncio Martí ao Paraguai. O Ministério da Justiça informou que o pedido de extradição foi feito pelo governo do país vizinho e encaminhado para julgamento do STF.

    O caso ainda é diferente do que extraditou o italiano Cesare Battisti, ex-membro do Proletários Armados pelo Comunismo, levado do preso da Bolívia para a Itália neste ano, depois de fugir do Brasil. Battisti teve seu refúgio negado pelo Conare e pelo STF. O italiano, ex-membro de uma guerrilha de esquerda, foi condenado por assassinatos em seu país, e depois de viver no Brasil por vários anos, estava foragido, após o Supremo ordenar sua detenção e extradição para a Itália, e o então presidente, Michel Temer, assinar um decreto nesse sentido.

    Apesar de o caso ser diferente, o pedido de revogação de refúgio dos paraguaios, feito pela quarta vez, foi tratado em reuniões oficiais entre o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, e o presidente Jair Bolsonaro, que com frequência compara os casos. 

    O chanceler do Paraguai, Luis Alberto Castiglioni, que se reuniu em janeiro com o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, e também com o presidente Bolsonaro posteriormente, oficializou pedido para que o Brasil revogue o refúgio dos acusados de terrorismo. A ação foi vista como blefe do governo paraguaio, mas acabou se confirmando. 

    No encontro com Araújo, Castiglioni disse existir "semelhança de valores com o governo brasileiro", fazendo menção especial à Organização dos Estados Americanos (OEA). Ele indicou que essa coincidência de idéias na região favorece a possibilidade de propor reformas, por exemplo, do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. "O Paraguai e o Brasil poderiam liderar este processo. O ministro Araujo concordou com essa possibilidade ", disse ele.

    O Paraguai alega ter provas da ligação dos ex-militantes do PPL com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) - que ano passado assinou um acordo de paz e deixou as armas - e evidências que relacionariam o grupo ao sequestro da esposa do empresário em 2001. Arrom, Martí e Colmán dizem que são mentiras, que o único contato com as Farc ocorreu na mediação que o partido fez durante processo que culminou no acordo de paz, e que não há qualquer evidência de envolvimento do partido no sequestro de María Debernardi.

    A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que integra o Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos, junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos, constatou o crime de tortura e desaparecimento contra Arrom, Colmán e Martí. O julgamento deve ser concluído nos próximos meses. Foram realizadas sete audiências na Costa Rica. A última foi em 7 de fevereiro. Na ocasião, o próprio presidente do Paraguai e outros integrantes do governo, apesar de não terem sido convocados, compareceram à sessão. Os denunciantes classificaram a presença, assim como as propostas de reforma do Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos, como tentativas de pressionar a comissão.

  • São José dos Pinhais

    Obra da Barragem de Miringuava está parada e sofre deterioração

    Obra da Barragem de Miringuava está parada e sofre deterioração
    Foto tirada em 25 de abril da Barragem do Miringuava, no município de São José dos Pinhais, cujas obras estavam paralisadas naquela data (Foto: Wagner Araújo/Divulgação TCE-PR)

    Projetada pela empreiteira Engevix e executada pela empresa Catedral Construções Civis Ltda, a obra da Represa do Miringuava, em São José dos Pinhais, iniciada em 2017, está paralisada pelo menos desde abril desde ano. Uma comissão de auditoria do Tribunal de Contas do Paraná (TCE) constatou que “há fortes indícios de obra paralisada e abandonada”. O relatório foi concluído no dia 26 de abril de 2019, data em que a comissão destacou a barragem como “sem manutenção alguma, diante das condições dos equipamentos e deterioração da obra, do entorno e sem a segurança aos populares”.

    A comissão destacou que “o Instituto das Águas do Paraná tem a obrigação legal de fiscalizar a execução das barragens desde o seu início, nos termos da Portaria 46/2010” e que, no caso de Miringuava, “há a absoluta omissão do órgão quanto a esta barragem de considerável porte”.

    “Neste cenário, há fortes indícios de abandono, incluria e grave desperdício dos recursos públicos envolvidos nesta empreitada, sem a cobrança judicial, penal, civil e administrativa dos responsáveis técnicos e fiscais da própria Sanepar S.A., bem como, das empresas envolvidas neste evento danoso no que diz respeito à segurança da construção da barragem”, diz o relatório.

    Debatida desde o início dos anos 2000, a obra da Represa de Miringuava, propõe garantir água tratada para os moradores da Região Metropolitana de Curitiba até 2030. Inicialmente, o valor total previsto do empreendimento foi de R$ 147,8 milhões e a previsão era de que a obra fosse concluída no fim de 2019.

    Após indícios de irregularidades apontados por órgãos de fiscalização, a Sanepar teria judicializado a obra, em razão de um descumprimento de prazo pela empresa responsável. A assessoria da companhia da saneamento informou que não pode se manifestar em razão de o processo estar em sigilo. A reportagem apurou que uma liminar determinou a abertura de novo edital, porém não há confirmação oficial.

    Projeto

    Conforme o projeto, a barragem deve ter capacidade para armazenar 38 bilhões de litros de água. Sua construção está prevista no Plano Diretor do Sistema de Abastecimento de Água Integrado de Curitiba e Região Metropolitana (Saic), atualizado em 2011 pela última vez.

    A bacia hidrográfica do Rio Miringuava já é utilizada como manancial de abastecimento público há mais de 30 anos. Com a captação de água direta do rio, atualmente, o sistema Miringuava oferece menos de mil litros de água por segundo.

    Após a conclusão da barragem, a Sanepar afirma que passaria a tratar 2 mil litros de água por segundo, uma vez que o sistema de tratamento já estaria pronto para atender esse maior volume de água.

    O volume total de água do reservatório (38 bilhões de litros) corresponde a 15.282 piscinas olímpicas. A altura da barragem será de 24 metros, equivalente a um prédio de oito andares, com extensão de 309 metros. Outra pretensão da obra era reduzir — nos períodos de cheias — as áreas de alagamento das margens dos rios Miringuava e Iguaçu, nas regiões abaixo da barragem.

    Hoje, na Região Metropolitana de Curitiba, a água para o abastecimento público é captada nas barragens Piraquara I e II, Passaúna e Iraí, da Sanepar, e também na barragem do Rio Verde, construída pela Petrobrás.

    O empreendimento tem impacto no desenvolvimento econômico e social de São José dos Pinhais, para a vida de moradores e agricultores da Bacia do Miringuava. Já houve, inclusive, uma série de debates públicos com participação de representantes da Sanepar e da sociedade civil, políticos, e empresas envolvidas. Para a realização da obra, foi necessária uma série de medidas compensatórias, estudos de impactos ambientais e econômicos, segurança da barragem, entre outros. Com a paralisação da obra, porém, as medidas compensatórias também não seguiram adiante.

    O presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico de São José (SJProspera), Clademir Gibrim, afirma que somente neste mês soube de maneira informal de parte dos problemas da barragem. “Tem um impacto muito grande na região, no setor de água, moradia, e no desenvolvimento econômico da cidade. Identificamos isso (irregularidades) e começamos uma conversa com a Sanepar, criamos uma câmara (Câmara Técnica da Bacia do Rio Miringuava) e solicitamos as informações para em vez de virar um problema, que vire uma coisa boa. Todas as informações estão sendo respondidas”, disse Gibrim. Apesar disso, o presidente do conselho não soube informar dados precisos sobre os motivos da paralisação da obra. “Soubemos através da provocação que nós fizemos, nós não sabíamos da paralisação”, completa.

    Viva Água

    A bacia hidrográfica do Rio Miringuava é a principal fonte de água de São José dos Pinhais, abastecendo inclusive parte de Curitiba e outros municípios metropolitanos. Entretanto, isso pode ser comprometido caso a área não passe por ações de conservação. Para contribuir com a segurança hídrica no futuro e com a realidade socioeconômica da região, a Fundação Grupo Boticário lança o movimento Viva Água, que busca conscientizar e mobilizar a sociedade para cuidar da bacia do Miringuava.

    O movimento Viva Água também conta com a parceria do Instituto Renault e busca mais apoiadores da indústria, comércio, poder público e sociedade civil organizada para colocar em prática um plano de melhoria da infraestrutura natural e alavancagem de negócios com impacto social e ambiental positivo na bacia do Rio Miringuava.

    Sem resposta

    A reportagem procurou a empresa Catedral, mas até o fechamento da reportagem não obteve resposta. A assessoria da Sanepar informou que por se tratar de assunto relativo a um processo judicial em andamento não comentaria o caso. 

    Imagem aérea da obra parada em julho de 2019. Foto: Franklin Freitas 

  • DUAS FACES DA MESMA MOEDA

    Sociedades secretas apoiam mulheres que buscam aborto em Curitiba

    Sociedades secretas apoiam mulheres que buscam aborto em Curitiba
    (Foto: Reprodução )

    Narley Resende

    Uma entidade que afirma não ter fins lucrativos e ser conveniada a parceiros de diversas cidades do País se oferece para prestar auxílio a mulheres que engravidaram e querem abortar. O trabalho, em um primeiro momento, atrai a mulher com a gravidez indesejada por meio de oferta de “apoio”, o que para algumas sugere a possibilidade de orientação a um procedimento “seguro” de aborto. Mas é apenas uma isca. A intenção, segundo integrantes da entidade, é salvar vidas.

    Em um dos casos, a primeira das “iscas” para atrair mulheres que pensam em abortar está na identificação de um site. A descrição é utilizada para direcionar pesquisas no Google, por exemplo, com os termos “Cytotec” (remédio indicado para o tratamento de úlcera, mas utilizado para abortos); “como abortar”; e “clínica de aborto”. Com isso, quando a pessoa pesquisa pelos termos no Google é mais provável que seja direcionada ao site. A plataforma, chamada “Gravidez Indesejada”, parece ser a mais estruturada entre outros sites que existem no Brasil. Diz pertencer a uma associação que declara ter “20 anos de experiência em ajudar as mulheres com uma gravidez indesejada”. Em Curitiba, o grupo conveniado trabalha há sete anos, segundo as integrantes. O site nacional promete atendimento “personalizado, sigiloso e gratuito” para que as mulheres grávidas possam “resolver rapidamente e de forma segura os seus problemas”.

    Em uma de suas seções, o portal responde dúvidas comuns sobre o uso do misoprostol (Cytotec é o nome comercial disponível hoje, da substância que é utilizada em hospitais brasileiros para realização do aborto legal – e que também é usada para abortos ilegais).

    Em um campo, então, o site oferece um chat de contato para que sejam tiradas dúvidas. No chat, uma pessoa pede dados pessoais da interlocutora e diz que alguém de sua cidade ou região entrará em contato por meio do aplicativo Whatsapp.

    Outro meio utilizado para atrair mulheres que querem abortar é o “boca-a-boca”. “Quando uma amiga sua pergunta se você sabe de alguém para indicar, você passa o nosso contato. Ela (a mulher) pensa que se trata de um esquema de aborto e nos encontra”, detalhou à reportagem uma “agente da vida”, com se autointitula a integrante do grupo, que se apresenta como “Maria”.

    Até chegar a ela, a reportagem precisou recorrer a meios não-convencionais. Questionada através de um número de Whatsapp disponível na capa do site, a pessoa que responde diz ser responsável pela “Associação Mulher” afirmou que “não participa de reportagens”.

    Após a negativa oficial, a reportagem, então, se passou por uma grávida no chat disponível no site. Após um cadastro, o repórter recebeu mensagens de uma pessoa que se identificou como “Jhonatan”. O jornalista se passou pela personagem Bianca, de 25 anos, grávida de 8 semanas.

    Veja transcrição de parte das conversas

    Jhonatan: Você deseja abortar?
    Bianca: Sim. É de graça?
    Jhonatan: Não trabalhamos com remédios, pois no Brasil eles são falsos e não funcionam. Golpistas se aproveitam do desespero das gestantes e vendem. Às vezes nem chegam a entregar e, quando entregam, é de farinha.
    Bianca: Vocês fazem a curetagem?
    Jhonatan: Somos uma ONG e eu lhe encaminharei para uma clínica.
    Jhonatan: Mas não trabalhamos com remédios.
    Bianca: Tem médicos?
    Jhonatan: Creio eu que sim.
    Bianca: Na clínica eles fazem todo o aborto? Sabe se precisa internar?
    Jhonatan: Geralmente nos processos de aborto sai no mesmo dia, mas eles vão lhe explicar melhor pessoalmente.
    Bianca: A pessoa vai me ligar?
    Jhonatan: Sim, ou ligar, ou chamar pelo Whatsapp.
    Bianca: Já vai ser a pessoa da clínica?
    Jhonatan: Sim, sim. 
    Bianca: Sabe se eu posso levar alguém comigo?
    Jhonatan: Claro, deve.

    No mesmo dia, uma pessoa de um número já com prefixo de Curitiba entra em contato.

    Maria: Boa noite. Vc está com gestação indesejada?
    Bianca: Sim. Eu quero fazer um aborto. Quanto é?
    Maria: Não tratamos disso por aqui.

    Encontro marcado com voluntárias de suposta ONG

    Um encontro é marcado entre “Maria”, da suposta ONG, e “Bianca”, o jornalista disfarçado, às 11 horas, em frente a uma farmácia de um shopping de Curitiba, “para explanação dos métodos”. Antes, Maria sugere que Bianca “não tome nenhum remédio”. Ela se diz “profissional da saúde”, diz que vai passar a utilizar outro número de telefone, também com prefixo de Curitiba, e então marca um exame de ecografia para “Bianca”, numa clínica da Capital, às 15h30 de uma terça-feira. “Na recepção diga que tem uma cortesia com o doutor (...)”, diz Maria.

    O repórter faltou ao exame, mas foi ao encontro de Maria no shopping. Lá, ele se identifica como “Neto”, namorado de Bianca. Maria é uma mulher de aproximadamente 45 anos e está acompanhada de outra mulher. Elas lamentam a ausência de Bianca.

    Em seguida passa a explicar métodos abortivos, um a um, de “sucção” a “envenenamento”, até sacar de uma bolsa uma pasta com folhas plastificadas que mostram imagens horrorosas do resultado de abortos, tópicos com supostas consequências e outras informações aparentemente extraídas da internet. No decorrer da conversa, mais à vontade, vem a revelação: “Olha, na verdade, nós somos pessoas boas, vocês também são, mas o que nós fazemos é mostrar para vocês tudo que isso (aborto) pode causar”, diz.

    Em seguida, a proposta: “se vocês realmente não mudarem de ideia, nós damos todo o apoio durante a gravidez, temos um local para atendimentos diários, se precisar, com psicólogos, terapeutas e outras pessoas na mesma situação e, se ainda assim vocês não quiserem o bebê, nós damos toda a assessoria para a adoção legal”, explica.

    Maria adianta, que “é raro” uma mãe concluir o processo de adoção depois que vence o período de gravidez. “A maioria desiste. Já participei de uma audiência, em que eu estava na sala com a juíza, esperando a mãe, e seis minutos antes a mãe desistiu de tudo e quis ficar com a criança”, conta. Há, segundo Maria, porém, aquelas que entregam o bebê. “De cada dez (mães), uma, que a gente atende, entregam (o filho recém-nascido) para adoção. Mas são os casos de muita miserabilidade”, aponta.

    Ainda convencida de que Neto é o namorado de uma grávida, Maria finaliza dizendo que “recém-nascidos são adotados com muita facilidade”. “Mas eu digo que se vocês decidirem fazer a coisa certa, quem faz o bem, colhe o bem, e posso te dizer isso com toda certeza, pois tenho muita experiência”, diz. Ao fim da conversa, Maria conta que em sete anos de atuação em Curitiba, o grupo salvou “cerca de 600 crianças”, além de mães que escaparam dos riscos, descritos por elas em detalhes, do aborto clandestino. A conversa ficou por ai.

    Desde o primeiro contato com o site até o encontro pessoal foram quase duas semanas. Durante esse tempo foram várias conversas por telefone e outros meios em redes sociais. Todos os questionamentos da “grávida” eram sempre respondidos.

    Em uma apuração avançada, realizada pelo site A Pública, que trabalhou de maneira semelhante, mas com uma repórter grávida, a conclusão foi de que a partir do mesmo site, mas com ramificação de outro Estado, a equipe do site atrai as mulheres grávidas para uma sede da organização. Lá, elas são dissuadidas de interromper a gravidez por psicólogos ligados a igrejas católicas, Ortodoxa ou Opus Dei, e assistem a slides sobre as consequências negativas do aborto na vida da mulher.

    O site da Agência Pública publicou no ano passado a reportagem investigativa que teve origem em um e-mail recebido por um dos repórteres da agência. Além da reportagem, o e-mail resultou também em uma checagem do Truco – projeto de checagem de fatos da Pública. O Truco verificou a veracidade de quatro alegações do site sobre os riscos do misoprostol como método abortivo. A apuração concluiu que três das frases são falsas, portanto, há informações equivocadas no campo que se propõe informativo. Embora seja embasado em uma política anti-abortiva, sem dúvida bem intencionada, o site acaba apelando à desinformação.

    Nas sombras

    Outro lado: grupo orienta para um procedimento ‘seguro’

    Voluntárias ‘secretas’ atuam em Curitiba para orientar a grávida sobre o aborto. Grupo tem inspiração em movimento na Argentina, conhecido como Socorristas em Rede

    Um grupo de mulheres que dá apoio e instrução para mulheres que de fato fazem abortos também foi identificado em Curitiba. Não há, nesse outro grupo, qualquer atividade econômica, pagamento ou arrecadação. As integrantes apenas passam instruções sobre como abortar da maneira mais segura possível. Ainda mais cuidadoso, o grupo de voluntárias, algumas delas mulheres que passaram por processos traumáticos de aborto, são conhecidas apenas por meio de indicação.

    “Alguém que conhece alguém que nos indica. Em geral, sempre tentamos evitar o aborto e conseguimos. Mas algumas pessoas são irredutíveis. Então, indicamos o mais seguro possível, o que é baseado em pesquisa, em muita leitura do que é científico mesmo. E tiramos o time de campo. O Estado deveria fornecer essa segurança. Tem gente que vive um desespero muito grande, que fica à mercê do mercado negro, das carnificinas mais inimagináveis”, conta uma das integrantes de uma “sociedade secreta” que pediu para não ser identificada. Ela defende a legalização do aborto como medida de saúde pública. “Entenda: elas vão fazer, de um jeito ou de outro”, pontua.

    Na Argentina, a atividade é praticamente institucionalizada. Quando as argentinas tomaram as ruas de seu país para exigir a legalização do aborto no ano passado, a procura pelo serviço voluntário aumentou. De acordo com reportagem do site The Intercept Brasil, uma militante do grupo, Camila Zurbriggen, de 25 anos, e outras mulheres formam a Socorristas en Red (Socorristas em Rede), um grupo de voluntárias de várias áreas espalhado por toda a Argentina. Elas têm a missão de ajudar mulheres a abortar com segurança em um país em que a interrupção voluntária da gravidez ainda dá cadeia. As orientações, com o descritas no site oficial do grupo, são baseadas nos protocolos da OMS.

    Encontrar um site que oriente para uma clínica de aborto em qualquer lugar do País não chega a ser uma missão complicada. Apesar de tudo correr sob sigilo e distante dos olhos da sociedade, não é difícil encontrar canais para este fim, bastando buscas simples na própria internet ou com a indicação de algum conhecido. Tanto que em dez anos, cerca de 2,1 milhões de brasileiras foram atendidas em unidades de saúde por complicações pós aborto.

    Matéria foi informada para a polícia

    Em Curitiba, a reportagem relatou passos da investigação sobre o site “Gravidez Indesejada” ao Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos (Nuciber) e ao Núcleo de Combate a Crimes de Saúde (Nucrisa). O método utilizado na atração de mulheres com gravidezes indesejadas poderia ser utilizado, por exemplo, para sustentar uma rede de exploração de abortos, não como das chamadas “aborteiras”, em uma prática avessa, diferente de grupos organizados que orientam mulheres em práticas consideradas mais seguras de se por fim a uma gravidez, mesmo que ilegalmente, para evitar riscos ainda maiores às mulheres.

    Pela forma como as abordagens são realizadas, a única maneira de se descobrir eventual esquema seria a atuação direta de uma mulher grávida na investigação em longo prazo, ou por métodos policiais. Outra suspeita seria a de um sistema de adoção ilegal. Mulheres que insistem em não assumir a gravidez seriam instigadas a aguardar o nascimento para então doar a criança a integrantes dessas instituições. Nada disso, no entanto, foi comprovado.

    A Polícia Civil informou que não há denúncia nesse sentido ou investigação em andamento. Mesmo assim, o delegado Demetrius Gonzaga, do Nuciber, pediu para ser informado sobre qualquer indídcio de crime.

    O delegado afirmou que a polícia identificaria facilmente a origem dos sites enviados pela reportagem, por meio da identificação do IP (Internet Protocol), que é a identificação dos computadores.

  • Família Gamer

    Games não são só para jovens; seis em cada dez adultos jogam

    Games não são só para jovens; seis em cada dez adultos jogam
    (Foto: Franklin Freitas)

    Narley Resende

    A 6ª edição da Pesquisa Game Brasil (PGS) revelou que 66,3% dos brasileiros jogam jogos eletrônicos. A maioria (83%) joga por meio do celular, seguido por videogame (48,5%) e notebooks, 42,6%. Mesmo na faixa entre 25 e 54 anos, o número de “gamers” é considerado elevado (61,9%), contrariando o senso comum de que os gamers são adolescentes.

    Para o presidente da Blend New Research, Lucas Pestalozzi, a geração de adultos acompanhou a evolução da indústria e comércio nacional de jogos digitais desde o início dos anos 1980. “Em outras palavras, as crianças e adolescentes da época, que cresceram num ambiente povoado por jogos digitais e tiveram em suas memórias e hábitos de consumo registros destas experiências lúdicas, estão hoje nessa faixa etária.”, afirma.

    A curitibana Fernanda Naomi é um exemplo. Aos 38 anos, ela joga ao lado do marido, 27 (que conheceu em evento de games em São Paulo) e do filho, de 19 anos. Juntos eles formam uma “família gamer”. “A gente joga no mesmo lugar, mas joga diferente. Fizemos uma sala de games. Meu filho gosta de um jogo de tiro, eu gosto de RPG e meu marido gosta de outro”, conta.

    Na pesquisa Game Brasil, Fernanda e sua família se enquadrariam como “Hardcore Gamer”, que são pessoas que jogam mais de 3 vezes por semana, com partidas que duram por volta de 3 horas (ou mais), sendo comum este público comprar mais de 10 jogos ao longo do ano. “Jogo todos os dias, quatro horas por dia. Dei uma diminuída agora para trabalhar, mas antes era das seis horas da tarde à meia-noite todos os dias”, conta.

    Além do Hardcore, o outro perfil é o do “Casual Gamers”. Os hardcore gamers são na maioria homens (58,9%) entre 25 e 34 anos (41,3%). No público casual gamer, as mulheres representam a maioria com 58,8% entre 25 e 34 anos (35,9%). Para Fernanda, sua condição de mulher interefere pouco em seu gosto e desempenho, embora reconheça que há diferenças e preconceito. “Na verdade eu jogo mais do que muitos homens que eu conheço”, diz.

    Quando seu filho era pequeno, por exemplo, Fernanda afirma que, “obviamente”, tinha mais limitações. “Eu jogava, mas bem menos porque eu também trabalhava bem mais quando ele era menor”, afirma. Segundo ela, o tempo que usa para jogar é o mesmo que outras pessoas em outras atividades. “Minha irmã gosta de assistir novela e Big Brother. Eu prefiro jogar. Eu prefiro muitas vezes jogar do que ir para balada”, compara.

    Ainda que a preferência por jogos de ação, aventura e estratégia seja alta nos dois perfis, os jogadores hardcore gamers preferem jogos de tiro (70,2%), enquanto os casuais gostam mais de jogos de esportes (59,2%). Na família de Fernanda, a tendência pela preferência se confirma.

    “Eu jogo RPG, Destiny, mas também Black Ops (Call of Duty: Black Ops III), que eu jogo mais o Zombie, mas eles (marido e filho) preferem outras (modalidades do jogo). Também Border Lends e zerei o God of War - esse eu platinei (chegou ao fim com sucesso), ‘zerei’, é muito, muito bom. Meu marido é bem eclético. Ele joga de tudo até ‘platinar’, ele é mais viciado que eu”, entrega.

    “Cada um tem um console, cada um tem um Play 3 e um Play 4. Até o ar condicionado da casa fica na sala de jogos, porque já pensou três ‘Play’ ligados ao mesmo tempo? Esquenta muito”, conta. 

    Jogos não influenciam os filhos

    A pesquisa notou que os pais são divididos em relação à violência nos games, mas que a maioria não acredita que os jogos digitais levam ao comportamento agressivo; 41,3% dos pais discordam (totalmente ou parcialmente) que os jogos digitais sejam capazes de promover esse comportamento, enquanto os pais jogadores hardcore tendem a se opor mais à essa afirmação, com 48,5% de discordância. “Muitas pesquisas científicas entendem que os jogos digitais influenciam seus jogadores, mas que a responsabilidade sobre um fenômeno comportamental não pode recair sobre uma única fonte de influência”, afirma Matheus Marangoni, professor da ESPM.

    Outro assunto que deixam pais divididos, sejam eles jogadores hardcore ou não, é a influência que os jogos digitais possuem na aprendizagem de seus filhos. Mesmo entre os pais gamers, a opinião é dicotômica: 37,6% discordam (parcialmente ou totalmente) que os jogos possam atrapalhar, enquanto 41,6% concordam (total ou parcialmente). Mas é importante observar sempre os filhos, e observar se os jogos não mascaram outros problemas.

    E-Sports podem misturar gêneros 
    Apesar do seu crescimento, os eSports ainda podem ser considerados como novidade, já que muitos jogadores brasileiros desconhecem a atividade. Isso leva também a alguns choques entre práticas antigas e as novas exigências das práticas dos esportes digitais. “Os esportes tradicionais são separados por gênero, por supostas diferenças biológicas entre os participantes para fins de balanceamento competitivo das modalidades, apesar da comunidade científica não ter consenso em relação à essa razão”, explica o professor Mauro Berimbau, coordenador do Gamelab na ESPM . “Nos eSports, não há exigência física na sua prática que justifique essa diferença. A razão para isto parece ser afinidade temática com o jogo” complementa o profissional.

    Em relação aos espaços de consumo, existe um claro domínio hoje do YouTube, com 60,6% do público hardcoreacompanhando partidas por este canal, seguido do Facebook (38,4%), TV Paga (34,0%) e Twitch (21,2%). Para jogar, o smartphone lidera a preferência por causa da sua mobilidade: dá para jogar onde estiver.

  • Criatividade

    Games: cresce a demanda por profissionais da área. Veja como buscar seu espaço

    Games: cresce a demanda por profissionais da área. Veja como buscar seu espaço
    Dungeon Crowley, game feito em Curitiba, acaba de ser lançado (Foto: Reprodução / Animvs )

    Narley Resende

    Em ascensão no mercado nacional e internacional, o profissional de Jogos Digitais tem um leque de opções de atuação. A profissão se divide em até dezenas de funções. Pode atuar com desenvolvimento de programas, com a parte artística ou ainda explorar a comunicação da área, com produção de vídeos, peças publicitárias, streamings, entre outras. Os jogos em si podem ser educativos, de aventura, ação, simulação 2D e 3D, entre outros diversos gêneros. A criação de jogos digitais é apenas um dos segmentos, sendo que há etapas complexas no desenvolvimento, gestão de projetos de sistemas, análise de mercado no mundo digital interativo, em rede ou isoladamente. Há dentro de uma plataforma a função exercida por desenvolvedores e outras essencialmente artísticas.

    Dono da Animvs, empresa desenvolvedora de jogos em Curitiba, o programador Andrei Daldegan aponta que o segredo está no desejo por atualização. “Antes de mais nada a pessoa tem que estar disposta a se atualizar. A tecnologia muda muito rápido. A tecnologia que a gente usava há três anos já mudou completamente; é um esforço contínuo manter-se atualizado com a tecnologia de high-end (de ponta). Tem que ter um espírito de aprendizado contínuo. E é essencialmente criativo. É importante ter uma mensagem para passar”, resume. A Animvs acaba de lançar o jogo Dungeon Crowley e trabalha na obra-prima da empresa, o IX - The Pilgrim’s Path

    Recentemente Daldegan apresentou seu trabalho aos alunos da Game Escola, que ensina programação e criação de jogos. O programador aponta que o primeiro passo para os aspirantes é montar um portfólio.

    “Os profissionais tem que se qualificar bem tecnicamente. O mercado não absorve muito os profissionais. Temos muita gente se graduando. A primeira opção é criar o próprio jogo, em vez de ser aproveitado pelo mercado. Tem público para tudo, mas muita gente não está preocupado com jogo ‘AAA (Triple A). A entrada do mercado se inicia na confecção do seu próprio portfólio. Essa é uma área não regulamentada e não precisa ter um diploma necessariamente. É necessário criar pequenos protótipos no decorrer de seu aprendizado, isso é o primeiro passo. Se o cara é artista ele vai ter uma ‘ArtStation’. Se o cara é programador ele vai ter código no ‘GitHub’. Eu recebo currículos aqui e a minha preocupação não é a graduação, e sim o portfólio que vale mais que qualquer coisa na minha opinião. É uma área bem prática. Isso que as empresas procuram”, orienta.

    Nesse ramo é possível diversificar. “Essa área é a de desenvolvimento de software. Existem pormenores nos jogos que tornam ele peculiar, um pouco mais complexo, mas essencialmente é um software. Uma das coisas que tem acontecido no mercado de games brasileiros é a atuação em diversas áreas por parte do profissional. Tem que ser bom em solução de problemas, gestão de projetos, é completamente o que a gente vê em engenharia de software. Um profissional de criação de jogos consegue atuar em outras áreas, como desenvolvimento de sites, aplicativos. Os artistas conseguem trabalhar na produção de propaganda, marketing geral e identidade visual.”, diz.

    Daldegan confirma que a demanda por profissionais dos jogos digitais está em ascensão no Brasil. “Existe uma demanda, mas para isso ainda precisa que as empresas se estabeleçam e no geral nos últimos quatro anos aumentou em 300% o número de empresas de jogos no Brasil. O gargalo de contratação da área é a situação do País (por causa da crise econômica). Todo mundo se organizando ainda”, pondera.

    Embora muitas das profissões que envolvam o desenvolvimento de jogos não seja regulamentada, já há em Curitiba um curso de graduação em jogos digitais. “O mercado de jogos é muito maior do que a gente imagina. Existe desde o espaço dos jogadores, existe todo um mercado envolvido em práticas de gamers, seja em relação à produção audiovisual, atrelada ou mesmo à concepção de jogos em diferentes modalidades”, explica a coordenadora do curso de graduação em Jogos Digitais da UniCuritiba, Luciana Reitenbach Viana.

    O professor Bruno Mendonça, da disciplina de Projetos, afirma que o curso de graduação na área organiza cada segmento e prepara para um mercado profissional. “Isso para todas as plataformas, para console, aplicativo, tanto para aplicação na web. Existem hoje grandes campeonatos de jogos que envolvem desde o dinheiro da premiação, até a cobertura jornalística, cobertura com licenciamento de TV para transmitir tudo isso. Então a gente percebe expansão bem grande desse mercado. Isso se torna interessante para a gente formar profissionais que tenham essa visão”, afirma.

    Em outra ponta da formação de profissionais dos games em Curitiba está a escola Octopus, que também conta com uma unidade em São José dos Pinhais. Como uma introdução que antecede o curso acadêmico, a escola técnica em atividade há oito anos tenta colocar os alunos em prática com foco no segmento artístico dos jogos digitais e dá ao estudante oportunidade de criar seu portfólio.

    “Dentro desse segmento (jogos) é a parte artística (a especialidade da escola). Tem o cara da programação, que é mais matemática, algoritmo, etc. E nós aqui oferecemos para o ‘cara da cor, do cenário, da história’. Aquele que olha para um jogo e pensa no melhor personagem. Isso aqui é uma escola artística. Trabalhamos com jovens que são aproveitados pelo mercado. Eles chegam aqui com mil ideias e organizam aqui. A faculdade oferece o processo teórico, nós oferecemos a prática”, explica o diretor comercial da Octopus, Nilo Fernandes. A Octopus aceita alunos até com 6 anos de idade. “Em games até de 12 anos em diante. Desenho tem até com 6 anos. Mas no geral, em Games, o mínimo é que seja 14 anos. Tentamos direcionar de acordo com o perfil. Tem meninos que estão na idade de olhar o computador como diversão e tem quem já entenda de outra forma. O curso de Animação 3D, que é o de Games, todos os cursos, têm começo, meio e fim”, pontua.

  • Recomeço

    Basquete de rua renasce em Curitiba

    Basquete de rua renasce em Curitiba
    FiftySeven Streetball é o time de rua mais antigo de Curitiba (Foto: Franklin Freitas )

    Narley Resende

    Em alta em Curitiba e outras cidades do Brasil na década de 1990, o basquete de rua ressurgiu neste ano na cena esportiva da capital paranaense e tem demonstrado força ascendente. Entre os praticantes, há consenso de que uma soma de fatores é responsável pelo recomeço, embora ainda distante de uma consolidação. O basquete de rua está mais forte após a retomada na TV aberta das transmissões de jogos da NBA, a liga americana de basquete, passando também pela reforma de quadras em praças públicas e pela organização de grupos de praticantes.

    Essa organização, porém, é apenas por lazer, já que os prêmios máximos dos torneios não passam de kits com uniformes, medalhas e troféus. “É o nosso lazer organizado”, resume o almoxarife Luiz Passos, de 40 anos, que é técnico do time FiftySeven Streetball. A equipe de rua tem 15 anos e é a mais antiga da cidade em atividade na liga independente.

    Impulsionada pela chamada Liga Interpraças, um torneio surgido em 2016, uma conexão de jogadores é formanda hoje pelo evento extraoficial que rivaliza em números de adeptos com qualquer outro oficial na região. Sem ligação com federação ou confederação, o evento reúne 192 jogadores em 16 times inscritos para o torneio deste ano.

    “Hoje o Interpraças tem primeira e segunda divisão (Ouro e Prata). O campeonato surgiu nos últimos anos com o pessoal que jogava se reunindo em times”, conta Luiz Passos. No entanto, ressalta o técnico do FiftySeven, outros fatores coincidiram para alavancar o basquete de rua. “As partidas da NBA estarem passando na TV aberta ajudou bastante. Antes passava em TV a cabo, então não era tão popular. Antigamente passava na TV aberta e também era isso que ajudava”, compara.

    Além dos jogos em TV aberta, o terceiro principal fator é o de qualidade das quadras de rua. “A praça central em Curitiba no basquete sempre foi a Oswaldo Cruz. Ela ficou fechada por três anos para reforma e quando reabriu ficou muito melhor”, conta. A revitalização da praça começou em 2015 e terminou em 2018. Com isso, segundo Passos, o número de praticantes e de projetos envolvendo o centro esportivo público aumento.

    Outra demonstração de que faltava apenas incentivo para que o esporte se impusesse foi um evento patrocinado por marca de cerveja realizado em maio. No projeto publicitário, a marca também escolheu cinco quadras em grandes cidades do Brasil (Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte) para serem reformadas. Os locais foram pintados e receberam tabelas e aros novos. Para marcar a reinauguração das quadras, a marca de cerveja promoveu um evento gratuito com muitas atrações que envolvem o lifestyle do esporte, batalhas, shows e outras atrações. Praticamente um dia dedicado a tudo que envolve a cultura do basquete. “Encheu muito, foi muita gente mesmo. Como evento de basquete surpreendeu”, contra Luiz Passos.

    Três eventos formam a liga independente

    O Interpraças está na quarta edição. O evento é organizado pela BSS Sports e forma uma liga independente. Outros dois torneios do basquete amador contemplam a liga, o Taça Curitiba masculino e feminino, que tem apoio da Prefeitura, e o Torneio Interamericano, considerado o mais sofisticado. O responsável pela BSS Sports é Bruno Sartório, de 39 anos. Ele conta que há dois anos foi decidido dividir os Interpraças em divisões. “Em 2017, os 12 melhores colocados foram para a Ouro e os que foram entrando ficaram na Prata. É todos contra todos. Os oito melhores permanecem e quatro caem”, explica.

    Sartório afirma que a evolução das esquipes passa pelo incentivo por parte de Prefeituras. “Não é como eram as duas primeiras edições, que eram só praças. São equipes que treinam, não necessariamente clubes, mas tem de prefeituras, como é o caso de Quatro Barras e Campo Largo. Tem equipe de São José dos Pinhais. Muirtos atletas de clubes também acabam participando.

    A partir da segunda metade de julho, o calendário de competições do basquete de rua de Curitiba terá eventos todos os fins de semana. “Quem for assistir aos jogos da Taça Curitiba a gente vai sortear para fazer arremesso do meio da quadra e a pessoa que acertar vai ganhar prêmio em dinheiro”, convida Sartório.

    Embora se admita que há estímulos, o principal, segundo os envolvidos, é a “cultura urbana” que se mantém viva mesmo sem qualquer patrocínio. O próprio basquete de rua surgiu nos bairros pobres das cidades estadunidenses em resposta à exclusão social, ao racismo e à crise econômica que os Estados Unidos atravessaram com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Desde o final da década de 1970, ela passou a se confundir com o movimento Hip Hop, cujo estilo se reflete nas letras dos rappers, na dança de rua (o break), nas gírias, na arte do grafite e na moda – não por acaso, inspirada no basquete americano.

    O Hip Hop chegou ao Brasil no início de década de 1980 por intermédio de equipes de som, das revistas, dos discos, filmes, vídeo clipes e programas de TV. Junto com o estilo, o basquete veio de carona, assim como a indústria de produtos esportivos dos EUA que inundou lojas e o comportamento da juventude.

    O gerente da Decathlon Barigui, uma das maiores lojas de esportes de Curitiba, Renan França afirma que o aumento na demanda pelo basquete é evidente, embora ainda não tenha reflexo no mercado. “A gente consegue identificar que tem, sim, um crescimento no último ano. Todo últmo sábado do mês a gente organiza jogos de basquete 3x3. Tem atá 15 times e movimenta bastante gente. Tem um pessoal que participa que vem de São José, de Araucária. Tem quatro times femininos jogando. Com relaçao às vendas tem outras variações, quanto ao momento (econômico) que estamos vivendo, mas pelos eventos que a gente percebe que a procura aumentou tanto pelo basquete de rua, quanto pelo de quadra”, confirma. No caso da loja, o engajamento é de uma das funcionárias, Angela Laschewitz, que é jogadora e organiza os eventos.

    Envolvimento
    As iniciativas dos próprios grupos de moradores também se destaca. Na Praça Brigadeiro Eppinghaus, no Juvevê, por exemplo, quem reformou a quadra e mantém conservada são os próprios frequentadores, na maioria jovens que moram na região. “A praça já foi citada até na ESPN”, conta Passos. Neste ano, a Liga Interpraças ocorre em ginásios fechados espalhados por diversas regiões da cidade. “Na semana que vem a rodada será no Parque dos Peladeiros. Alguns jogos tem até muito público, só que é difícil porque um lugar fica longe do outro, então ainda falta uma divulgação.

  • Vespersaurus paranaensis

    Nova espécie de dinossauro carnívoro é descoberta no Paraná

    Nova espécie de dinossauro carnívoro é descoberta no Paraná
    Reconstrução em vida de Vespersaurus paranensis, que viveu no período cretáceo, há 90 milhões de anos atrás; fóssil da espécie, da mesma linagem do tiranossauro e do velociraptor, foi encontrado no município de Cruzeiro do Oeste, região noroeste do Paraná (Foto: Foto: Rodolfo Nogueira)

    Narley Resende

    Estudo publicado nesta quarta-feira (26) no periódico científico Scientific Reports, do grupo Nature, apresenta uma nova espécie de dinossauro, que viveu no período Cretáceo, há cerca de 90 milhões de anos. O fóssil foi encontrado no município de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, e estudado por paleontólogos da USP, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Museo Argentino de Ciências Naturales e Museu de Paleontologia de Cruzeiro do Oeste. A nova espécie foi nomeada Vespersaurus paranaensis, a partir da palavra vesper (oeste ou entardecer em latim), em referência ao nome da cidade onde foi descoberta, e por representar o primeiro dinossauro do Estado do Paraná.

    Os fósseis da nova espécie revelam um animal pequeno, com pouco mais de 1,5 metro (m) de comprimento, que faria parte da linhagem dos terópodos, grupo de dinossauros carnívoros bípedes que também inclui o tiranossauro e o velociraptor. Dentre os terópodos, o Vespersaurus paranaensis pertence ao subgrupo denominado Noasaurinae, que inclui dinossauros de pequeno porte até então conhecidos apenas na Argentina e em Madagascar, com possíveis registros também na Índia, indicando que essas terras estiveram unidas durante o Cretáceo, com provável conexão através da Antártica. 

    O Vespersaurus paranaensis é a oitava espécie de dinossauro descrita a partir de material brasileiro que pode ser seguramente atribuída aos terópodos. Com quase metade do esqueleto conhecido, mesmo que com muito pouco do crânio, ele corresponde ao terópodo preservado de forma mais completa no país, sendo os demais conhecidos com base em crânios parciais, esqueletos mais incompletos ou mesmo poucos ossos isolados.

    O novo dinossauro possuía vértebras escavadas por divertículos do sistema respiratório, que conferiam leveza ao seu esqueleto (como nas aves viventes), e um braço muito reduzido (com menos da metade do comprimento da perna), mas sua característica anatômica mais peculiar está nos pés. Seu peso era praticamente todo suportado por um único dedo central, sendo o animal funcionalmente monodáctilo, de forma semelhante aos cavalos atuais. Já os dedos que flanqueavam esse dígito central possuíam grandes garras em forma de lâmina, que serviriam para cortar e raspar.

    “De forma análoga ao Velociraptor, com o qual o Verpersaurus não é aparentado, ele provavelmente usaria as garras do pé na captura e dilaceração de presas, que poderiam incluir os lagartos e pterossauros que sabemos também terem habitado a região” afirma o paleontólogo Max Langer, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) e líder do estudo. As rochas do noroeste paranaense em que o Vespersaurus foi preservado se formaram em ambientes desérticos, indicando que o animal era adaptado a esse tipo de clima.

    Na década de 70, nessas mesmas rochas, o paleontólogo Giuseppe Leonardi havia descoberto um estranho conjunto de pegadas fósseis. Elas pareciam ter sido feitas por um pequeno dinossauro bípede e monodáctilo, mas à época não se conhecia nenhum animal com tais características ao qual elas pudessem ser atribuídas. “É incrível que, quase 50 anos depois, parece que descobrimos qual tipo de dinossauro teria produzido aquelas enigmáticas pegadas” comenta o geólogo Paulo Manzig, primeiro pesquisador a investigar os fósseis de Cruzeiro do Oeste e coautor do estudo.

    O Vespersaurus paranaensis não foi a primeira espécie da “era dos dinossauros” encontrada no noroeste do Paraná. No mesmo sítio fossilífero em Cruzeiro do Oeste foram descobertos o lagarto Gueragama sulamericana e inúmeros indivíduos do pterossauro Caiuajara dobruskii. Para Neurides Martins, diretora do Museu de Paleontologia da cidade, o achado deve catapultar as pesquisas paleontológicas na região, que possui comprovado potencial para coleta de fósseis. “É uma área riquíssima, mas ainda pouco explorada, que seguramente irá aportar grandes novidades ao mundo da paleontologia”, diz a pesquisadora. A descoberta foi apresentada à imprensa no dia 26 de junho, na UEM.

    Representação tridimensional do esqueleto de Vespersaurus paranensis indicando (em dourado) os ossos que foram encontrados – Foto: Rodolfo Nogueira

    Reconstrução tridimensional dos ossos do pé de Vespersaurus paranensis e da pegada deixada pelo mesmo e, à direita, reconstrução em vida do pé – Foto: Rodolfo Nogueira

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