• Entrevista

    ‘Ayahuasca foi a ferramenta que me ajudou a mudar’, revela Fábio Elias

    ‘Ayahuasca foi a ferramenta que me ajudou a mudar’, revela Fábio Elias
    Fábio Elias: “Música é trabalho. Trabalho ao mesmo tempo que me divirto” (Foto: Franklin de Freitas)

    Uma das bandas de rock mais consagradas de Curitiba, a Relespública, celebra seu aniversário de 30 anos nesta quinta-feira (14) no Jokers. O líder do grupo é Fábio Elias, de 43 anos, “nascido dia 29 de dezembro de 1975, no Hospital Nossa Senhora das Graças, nas Mercês, curitibano de nascença”, como ele mesmo se apresenta quando questionado sobre “quem é Fabio Elias”. Mais do que isso, Elias é músico, cantor, compositor, guitarrista, casado com Catia, pai de \Giulia, 6, e Pietra, de 2 anos. É roqueiro e ex-cantor sertanejo. “Eu vivo de música (…). ‘Ah, você foi para o sertanejo por causa de grana’. Não, eu fiz rock para ganhar dinheiro também”, pontua. É um músico profissional, que entende e explica o significado disso. Ele viveu a evolução dos meios e formatos musicais, partindo da busca por gravadoras, discos, fitas K7, CDs, DVDs, MP3 e, agora, streaming. Fabio Elias viu os ‘inferninhos’ de música ao vivo da cidade evoluírem ao que são hoje. “Nesses 30 anos tudo aconteceu. Foi uma evolução do que era para o que é, mas ninguém sabe aonde vai. Se dizem “você já passou por tudo”, digo “não, a gente está passando por tudo e ainda vai passar por mais”. Esse caminho ainda levou a Relespública para além dos limites da capital paranaense. “Fez tudo que tinha que fazer”, gravou discos em gravadora, com produtora, participou de programa de TV, DVD gravado pela MTV, fazendo shows do extinto Empório São Francisco ao Rock in Rio...

    A Reles mantém desde 1989 com os mesmos integrantes, mas com pelo menos uma triste mudança no caminho. “Em 1991, Daniel (Fagundes) entrou na banda e infelizmente, em 1994, só três anos depois, um acidente fatal aqui na cidade vitimou Daniel e ele foi ser nosso produtor lá no céu, nosso integrante nas nuvens”, conta Elias.

    Na vida pessoal, Fabio Elias também amargou sérios problemas. Lidou por anos com vício em álcool e drogas. “Limpo” desde junho de 2018, hoje diz lidar com tranquilidade perante a realidade do underground curitibano. Elias atribui sua vitória contra o vício a três questões centrais: amor próprio e decisão; apoio de sua esposa Catia; e ao uso do chá enteógeno Ayahuasca, por meio do ritual do Santo Daime. “Me ajudou a me libertar de um mal e me reencontrar comigo”.

    Bem Paraná - Você esteve em outras bandas?
    Fabio Elias - Minha primeira banda foi a Relespública. Montei outras bandas depois, como os Garotos Chineses, participei da Aerodiesel, da Grié Forte, que toco até hoje e é uma junção de bandas, um supergrupo de rock curitibano, com Fabio Elias, da Relespública; Oneide Dee Diedrich, da Pelebroi Nao Sei; Raphael Machado, da Dissonantes; e Ivan Rodrigues, filho do nosso saudoso Ivo Rodrigues, da Blindagem. E tenho também alguns projetos paralelos de tributos, que faço, ao The Who, que é o The Wholes, o tributo ao Ira, que é o Clandestino. São bandas que gosto muito e para mim não é nem um tributo, é um prazer. Não tenho pretensão nenhuma de ser igual aos meus ídolos, porque eles são muito grandes, muito mestres. Faço para me divertir. Se não for divertido, não tem graça. rock and roll para mim é isso, é quando acaba o dia e você ter algo para se divertir, algo para fazer, para aliviar a pressão.

    BP - A primeira formação da Relespública era diferente?
    Elias - A Relespública começou em 1989, com Ricardo (Bastos) e (Emanuel) Moon e eu na banda, mas aí a gente sentiu necessidade de um vocalista. Em 1991, Daniel (Fagundes) entrou na banda e infelizmente, em 1994, só três anos depois, um acidente fatal aqui na cidade vitimou Daniel e ele foi ser nosso produtor lá no céu, nosso integrante nas nuvens. Reles sempre manteve a mesma essência. Depois houve outras formações, mas o trio original está junto até hoje.

    BP – A Reles, como dizem, “fez tudo que tinha que fazer”, gravou discos em gravadora, com produtora, participou de programa de TV, DVD gravado pela MTV, do vinil e fita cassete ao MP3 e streaming. “Chegou lá”. O cenário da música mudou muito?
    Elias – A gente passou pelo vinil, depois pelo CD, DVD, MP3, clipe... A gente passou toda a transformação da música e do mercado musical. Nesses 30 anos tudo aconteceu. Foi uma evolução do que era para o que é, mas ninguém sabe aonde vai. Quando você acha que está tudo em um formato estabelecido, muda. Se dizem “você já passou por tudo”, digo “não, a gente está passando por tudo e ainda vai passar por mais”.

    BP - Vocês se adaptaram ao streaming, aos aplicativos?
    Elias – A gente está se adaptando a tudo isso. Nessas mudanças todas, cada vez era com uma editora, uma gravadora, com uma assinatura em um contrato diferente. Então, temos que regularizar tudo isso para poder se adaptar aos novos tempos. A gente sempre se preocupou única e exclusivamente com a banda. Hoje são todos pais de família e não temos só esse emprego. Não vivemos só da banda. O baixista tem o trabalho dele, o baterista tem o trabalho dele, eu tenho outros trabalhos na música. Em um país como o Brasil, onde você não sabe o que vai acontecer daqui a um mês, quem dirá um ano, a gente não pode se programar muito. Tem que saber cobrar o escanteio, correr e cabecear.

    BP - Entre as cidades do Brasil, Curitiba é pior para a música?
    Elias – Curitiba é a melhor cidade do Brasil. Já fui de reclamar mais, mas a gente não pode. Tem espaço para tudo. Curitiba é uma cidade linda, organizada, que ama o rock, que ama música, que ama o sertanejo, qualquer música que tem festa. Tem restaurantes bons, casas boas de shows. Tem gente muito boa, tem políticos bons, artistas bons, jornalistas bons. Curitiba é uma cidade muito foda, vamos dizer assim.

    BP – Você mudou o gênero da sua música para o sertanejo por um tempo. Por quê?
    Elias – As pessoas dizem “você foi para o sertanejo para ganhar dinheiro”. Eu vendia limonada quando era criança, para ganhar dinheiro. Precisava de dinheiro para comprar minhas coisas. Para comprar uma corda de guitarra é R$ 50,00 o jogo. Precisa ter um jogo para cada guitarra e uma reserva para cada guitarra. Faça as contas para quem tem seis guitarras, quem tem um estúdio com uma porção de instrumentos para poder trabalhar legal. Tudo é dinheiro. “Ah, você foi para o sertanejo por causa de grana”. Não, eu fiz rock para ganhar dinheiro também. Se me chamarem para um trabalho eu vou fazer, é um trabalho.

    BP – Você foi chamado para o sertanejo ou foi uma busca sua, uma análise de mercado?
    Elias – Desde criança ouvi música sertaneja. Minha família é do Interior do Paraná. Meu pai é de Wenceslau Braz, minha mãe é do Interior de São Paulo. Meu avô cantava modinha para mim. Aprendi a tocar viola antes de violão e guitarra. Tocava viola quando tirava férias da escola na casa do meu tio no interior. Tinha uma viola pendurada em um prego lá e eu pegava e ficava tocando. A música sertaneja é nossa música popular brasileira. Tom Jobim é nossa música tipo exportação. Mas a música mais consumida no Brasil é a sertaneja, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Para quem quer viver de música no Brasil, a música sertaneja, entenda, é o principal mercado musical brasileiro. Se quiser entrar para o mercado precisa entender a música sertaneja. A princípio eu queria ser compositor de música sertaneja, compor para esses caras que já estão estabelecidos na música sertaneja. Mas acabei recebendo um convite para cantar e gravar minhas próprias músicas. Eu não esperava esse convite. Foi o produtor Plauto Marote. Na época ele era produtor de Zezé de Camargo e Luciano e Zezé estava com problema na voz, estava fazendo cirurgia, coisa que também passei, fiz cirurgia nas cordas vocais. Então, enquanto ele estava parado esperando Zezé se recuperar eu apareci com as minhas músicas, com um pen drive cheio de músicas minhas. Eles disse “mas essas músicas não são suas? Grave aí”. Falei “mas eu tenho uma banda de rock”. Ele respondeu “se eu tocasse só o que eu gosto só tocava MPB”.

    BP – O que você gostou mais de fazer, sertanejo ou rock? Você disse que faz “tudo por diversão”
    Elias – Faço tudo por diversão, mas sempre aceito trabalhos com relação à música. Música é trabalho. Trabalho ao mesmo tempo que me divirto. É que nem trabalhar em um parque de diversões. Fazer música sertaneja foi um prazer, foi divertido também. Não foi só por dinheiro. Se fosse, não faria. Quem trabalha só por grana é infeliz.

    BP – A Reles vai fazer um show especial de aniversário no dia 14 de novembro. Você considera que a banda está em um trabalho contínuo, planeja uma “retomada” ou uma mudança? Como está a cena musical em Curitiba hoje?
    Elias - Sempre existiu e sempre vai existir a cena musical. A Reles está nesta cena, já esteve, está e espero que esteja no futuro também. É uma banda consagrada, não é nova. A gente quer contar a nossa história até aqui e quer a partir daí contar uma nova história. Queremos fazer um álbum novo, fazer uma história nova.

    BP – Você já escreveu quantas músicas?
    Elias – Não sei. Nunca parei para contar. Tem oito CDs, dois DVDs, meus discos solo, além de músicas que foram lançadas sem gravar em disco, com single, vamos dizer.

    BP – Era mais fácil escrever antigamente?
    Elias – Eu tinha mais tempo. Com filho agora fica mais difícil. Antes eu só tinha uma preocupação que era fazer música e tocar. Agora é diferente. Tem essa preocupação, mas também tem que cuidar da família. Tenho que cuidar das minhas filhas. Estou mais velho, a criatividade e você passa a ser mais crítico sobre aquilo que você faz. Por um lado é mais fácil fazer aquilo que você já faz, mas tem que cuidar para não ficar uma forma repetitiva, automática que perde a graça. Você não fica tão espontâneo, com aquele criatividade do mundo da fantasia, acaba dando lugar para a realidade.

    BP – Você trabalhou com seus ídolos e em grandes shows, como Rock n Rio. Qual show você destaca?
    Elias – Houve shows importantes. Rock n Rio, que você citou, mas foram vários festivais. Os de música independente, a Group Rock, Goiânia Noise, Mada, ene festivais espalhados pelo país inteiro. Show especial, eu gosto daquele de tocar em lugar pequeno, que o público está ali, que estamos cuspindo na cara do público e o público cuspindo na cara da gente e todo mundo se abraçando no final, sentir aquela energia ali. Estar junto com o público é onde o artista tem que estar. Fazer show grande é legal, com puta estrutura, palco, iluminação, P.A. (Public Address / caixas de som amplificadas) e milhares de pessoas. É legal demais, quem é que não gosta disso? É o objetivo, isso. Mas voltar sempre a tocar naquele PUB para o nosso público, para a nossa gente, para a nossa galera é recarregar as baterias dos celulares e ficar 100%.

    BP – Trabalhando em PUBs, na noite, por tanto tempo, você teve problemas com álcool e outras drogas?
    Elias – Tive. Já bebi tudo que tinha que beber, já fumei, já cheirei tudo que tinha que fazer já. Em 30 anos de banda, por 25 fiquei chapado totalmente. Não que eu tenha ficado o tempo inteiro louco. Mas eu sempre bebi e sempre usei droga, desde de moleque. Comecei bebendo cedo, fumando. Experimentei tudo que eu queria. Me viciei em algumas coisas. De junho de 2018 para cá, não bebi mais, não usei mais drogas, não fiz mais mal para a minha saúde, não comprometi mais minha saúde. O corpo não aguenta mais, a cabeça não aguenta mais e eu não aguentava mais aquela situação. Não tinha mais graça nenhuma. A droga já não fazia mais efeito, a bebida já não deixava mais bêbado. Não teve mais sentido para mim. Pensei em mim, pensei nas minhas filhas, no futuro, na música, na minha voz, na minha condição física e espiritual.

    BP – Aconteceu alguma coisa pontual?
    Elias – Aconteceu. Fui à Igreja Céu da Nova Vida, em Pinhais, tomei o Daime lá. O Ayahuasca foi a ferramenta que me ajudou a mudar. Não virei um “daimista”, não frequento a igreja, não sou do Daime, não fico pregando nada, não tenho nada de religião. Cada um tem sua espiritualidade, seu Deus, suas crenças ou não. Para mim foi a ferramenta que me ajudou a me libertar de um mal e me reencontrar comigo. Ouvi uma voz dizendo assim: “você não nasceu com isso, não precisa disso para viver. O seu eu real é esse”. Eu pus para fora o mal que estava em mim, consegui me libertar daquela coisa ruim, dos pensamentos ruins, da energia ruim e encontrei comigo de novo. Meu amor próprio. Era isso que eu precisava encontrar e recuperar e consegui atraves do Daime.

    BP – Existem estudos para o uso terapêutico do Ayahuasca e é comum pessoas que usaram dizerem que se libertaram de vícios, pararam de fumar, beber, etc. Você buscou tomar o chá com esse objetivo concreto, decidido a sair dos vícios?
    Elias – Fui. Fui com fé. Tem que ir com fé. Meu nome é Fabio Elias. Minhas duas iniciais formam a palavra fé. Tenho muita fé em tudo o que eu faço. Se eu vou matar uma garrafa de Whisky eu vou com fé. Se vou tomar um Daime para me curar daquilo, vou com fé. Fui pontual em busca da cura. Eu não sabia o que iria acontecer, mas busquei a cura até o fim. Fiz todo o tratamento, tomei as três vezes que tinha que tomar. Tomei mais de três vezes para “dar uma garantida”. Estou consciente e pleno daquilo que fui fazer. Resolveu. Pode ter certeza que resolveu.

    BP – Continuar fazendo shows, trabalhando na noite, não pode te levar a recaídas eventuais?
    Elias – Hoje vou em bares, toco direto, as pessoas até me oferecem. Sábado passado me ofereceram. “Fábio, vai ali no banheiro, tem uma esticadinha já, carreirinha”. Eu falei “não, obrigado. Não quero. Valeu aí, mas eu não estou afim”. Como diria Rita Lee: “Diga não às drogas, mas seja educado. Diga não, obrigado”. Não precisa parar de fazer as coisas que você faz, parar de tocar, de frequentar bares, frequentar a noite. Não precisa deixar de enfrentar seus demônios se você estiver com fé em você e protegido com uma casca chamada “fé, paz e amor”.

    BP – Como é seu relacionamento, com tudo isso?
    Elias – Estou muito feliz com meu casamento hoje. Katia é uma mulher que segurou uma barra, me pegou assim em uma mudança muito grande, vindo da música sertaneja, de uma separação, de envolvimento com bebida, com droga. Ela pegou um caminhão de problemas na minha vida, na fase mais difícil da minha vida eu conheci a Catia. Ela foi a mulher mais forte que eu já conheci, de aguentar a barra e não me abandonar. Segurou a onda, me ajudou e foi comigo no Daime, inclusive. Hoje a gente está cada vez mais unidos. Nosso amor só cresceu, com essa demonstração dela. Sou um capricorniano, um baita de um egoísta. Preciso tratar isso em mim. Sou um cara muito pilhado. Não essa de 8, comigo é 80. Então, ela conseguiu que eu chegasse aos 43 anos bem e feliz, em plena forma, amando e amando a mim mesmo. Eu não conseguiria amar ninguém se eu não me amasse. Isso ela me fez entender.

    BP - Curitiba já há alguns anos tinha um cenário relativamente fértil para o rock. Como está hoje?
    Elias – O rock está na moda agora. O sertanejo deixou de ser a moda que estava na Woods, Shed e o caramba. Agora é rock, cervejarias artesanais, hamburguerias, com essa coisa mais vintage, classic rock. Tem muito rock. Vamos frisar que tem muito cover. Não estou falando que é errado. Eu toco cover também. O mercado está para o cover e tributos. Antes não existia mercado e a gente cavava com as próprias unhas. Existia um mercado de música autoral? Não. Existiam bandas de música autoral. O mercado sempre tentou se organizar e sempre bateu na trave em algum problema ou falta de grana, falta de público, falta de casa de show, gravadora, produtora, sempre faltava um peça nesse quebra cabeça. O cara que vai na Woods, vai no Claymore pra ouvir uma banda cover do Queen. O cara que via dupla sertaneja para pegar mulher, vai no Claymore para pegar mulher agora. Não é a música, enfim, só, é o sexto que move o negócio (risos).

    BP - Uma casa paga mais barato para uma banda cover, de modo geral?
    Elias – O cover é muito mais prático de se trabalhar. O cara vai lá para curtir um Led Zeppelin cover, Queen cover, The Doors cover, sei lá o que cover. O trabalho autoral o cara vai para ouvir aquele trabalho daquele artista real. Então, tem muito músico. O importante é que está dando trabalho para os músicos, para as bandas. Voltou a ser moda tocar bateria no “retão” (risos)

    BP – Tocar é a fonte de renda?
    Elias – Sempre foi. Nunca foi gravar disco e nem dar entrevista. Sempre a grana veio do cachê e da bilheteria. O público é que paga as contas. A gente tem que agradecer ao público sempre, porque ele sustenta a vida de um artista.

  • Entrevista

    ‘Maturidade me fez continuar na política após tantos ataques’, diz Maria Victoria

    ‘Maturidade me fez continuar na política após tantos ataques’, diz Maria Victoria
    (Foto: Franklin Freitas)

    Eleita deputada estadual pela primeira vez aos 22 anos de idade, Maria Victoria Borghetti Barros Campos (Progressistas), retornou neste mês ao posto aos 27 anos, em uma nova fase de sua vida pessoal e profissional, depois de seis meses de licença-maternidade, dois anos de casada, ex-candidata à prefeitura de Curitiba e já em seu segundo mandato parlamentar. Nasceu neste ano sua primeira filha, Maria Antônia Borghetti Barros Campos, que segundo Maria Victoria, mudou seu “ponto de vista, prioridades, tudo, literalmente”. A postura de filha agora é de mãe.

    E, segundo ela, é essa maturidade que a fez manter-se na política, mesmo após tantos ataques sofridos por opositores. “A dona Maria, lá do Jardim Olinda, onde vivem duas mil pessoas, sozinha não consegue asfalto para a cidade dela. E é pela dona Maria, por eles (quem precisa) que estou aqui, para ajudar pessoas que sozinhas não conseguem resolver seus problemas”, diz.

    Meses após ficar em quarto lugar na disputa pela prefeitura de Curitiba em 2016, Maria Victoria foi alvo de protestos em seu casamento com o advogado Diego da Silva Campos, no Palácio Garibaldi, no Largo da Ordem. Jogaram ovos sobre os convidados, houve gritos de protesto e xingamentos contra todos que ali estavam.

    Foi logo após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fato que ela atribui como combustível aos manifestantes na ocasião. “Não tinha como evitar, as pessoas têm liberdade de expressão, a gente vive em uma democracia”, avalia. Maria Victória é filha do deputado federal Ricardo Barros e da ex-governadora Cida Borghetti - sobrinha do ex-prefeito de Maringá Sílvio Silvio Magalhães Barros II (Progressistas) e neta do também ex-prefeito de Maringá Silvio Magalhães Barros I. Seu casamento no coração de Curitiba foi um “prato cheio” aos manifestantes, que a compararam Victoria à “Maria Antonieta”, rainha francesa guilhotinada após a Tomada da Bastilha, que culminou na Revolução Francesa (1789-1799).

    Antes de entrar oficialmente para a política, Maria Victoria estudou na Suíça por cinco anos, fez trabalhos voluntários na África e na China, e adotou a educação como bandeira. Ainda antes de ser eleita deputada e disputar uma cadeira na prefeitura, conheceu Diego Campos, advogado que participou de uma comitiva brasileira comandada por Ricardo Barros na Sérvia. Barros era presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Sérvia na Câmara e junto com autoridades das Forças Armadas levou sua família para participar da 7ª Feira Internacional de Defesa de Belgrado (Partner). O evento foi realizando pelo governo da Sérvia e pela estatal Jugoimport.

    Diego era advogado de uma empresa que buscava equipamentos de defesa militar na Sérvia. A partir dali, o casal se reencontrou em Curitiba. Maria Antonia é fruto desse casamento e agora é preponderante nas decisões da mãe, que avalia tentar em 2020 novamente a prefeitura de Curitiba.

    Maria Victoria amarga lembranças ruins de sua herança política na infância, embora hoje veja com mais clareza o potencial de sua condição. “Minha mãe é Cida. Então, o que a professora fez na aula de Biologia? Falou assim: 'tudo que é Cida, é veneno. Inseticida, pesticida'. Aquilo contagiou a escola inteira. 'Cida é veneno, Cida é veneno. Sua mãe é veneno'. Eu tinha 10 anos”.

    Em entrevista ao Bem Paraná ela fala sobre o episódio do casamento, sobre o que mudou com a maternidade e admite que só não abandona a carreira política pelo desejo de continuar ajudando aqueles que mais precisam.

    Bem Paraná - Está decidida a ser candidata à prefeitura de Curitiba?

    Maria Victoria – Disputei a cadeira da prefeitura de Curitiba e foi engrandecedor. Não ganhei a eleição, mas ganhei experiência, amizades, conhecimento sobre a cidade e foi uma oportunidade maravilhosa. A gente brinca que para 'para se candidatar você não perde nada, só ganha'. Não tem perigo de perder tempo ou, enfim, tem vários benefícios. Não tem nada definido (para a próxima eleição). Isso depende das pesquisas, da vontade da população mesmo.

    BP – Mas há uma disposição sua?

    Maria Victoria – Acho que todos nós que temos o hábito de servir estamos sempre à disposição para o que for necessário. Isso depende do desejo do próprio grupo político. Ninguém pode dizer 'eu sou candidata porque eu quero'. Sozinho não chego a lugar nenhum. Dependo do grupo político, de pessoas que queiram ajudar e contribuir para o projeto.

    BP – O que você considerou ruim na sua experiência como candidata ao Executivo?

    Maria Victoria – É muito diferente disputar uma cadeira no Executivo. Tem os debates e entrevistas. E por ser mulher é ainda mais complicado. Os homens acordam de manhã, tomam um banho, colocam uma roupa e está tudo certo. Eu tinha que gravar os programas da televisão todos os dias de manhã e tinha que me arrumar, arrumar cabelo, maquiagem, roupa e isso é bem cansativo. Eu ainda aproveitava desse momento para estudar. Eu tinha um grupo de estudo e trabalho e a gente pesquisava a s demandas e problemas da cidade, possíveis soluções, o que os países de primeiro mundo estavam fazendo que a gente poderia propor aqui. E, de fato, minha campanha tinha ótimas propostas e viáveis. O lema era 'é possível, é viável e vamos fazer'. Essa é uma coisa do Progressistas, que a gente já deu exemplo na prefeitura de Maringá (pai, tio e avô foram prefeitos de Maringá), a gente promete, a gente faz. Promete pouco, mas cumpre tudo. Acho que as pessoas merecem esse respeito. É cultural que na campanha os políticos prometam o mundo e na hora de exercer não conseguem fazer. Então, eu aproveitava esse momento que eu tinha que me arrumara para estudar e outro desafio muito grande, além dos programas de televisão que tinha que gravar todos os dias, por diversas vezes eu sentava no TP (Teleprompter) para digitar o texto todos os dias, porque eu estudava bastante. E os debates são muito desafiadores. Eu estava debatendo com o atual prefeito (Gustavo Fruet); estava debatendo com o Greca, que é uma sumidade em termos de cultura, educação e preparo; estava debatendo com Tadeu Veneri, que aqui (na Assembleia) dá um show na oposição e faz um trabalho brilhante. Para mim, muito nova, mulher, foi muito desafiador. Não foram coias ruins, mas foram difíceis. Superei e consegui passar ilesa, o que é uma grande coisa, sem falar nenhuma bobagem. Porque já houve exemplos lá atrás de em um debate falarem bobagem e, pronto, imprime na imagem. É, modéstia à parte, um ato de bravura colocar a cara a tapa por um bem maior. O rosto, a reputação, a família, a gente fica muito aberta e muito vulnerável e aberta a críticas. Fico feliz porque passei por isso sem maiores problemas. Fiz uma votação razoável, claro, sempre menos do que a gente espera, a gente sempre quer ganhar a eleição, mas fiquei em quarto lugar. Só perdi para o prefeito e para os dois que disputaram o segundo turno (Ney Leprevost e Greca). E ainda brinco que fui a única entre os candidatos que tomou um lado no segundo turno. Ninguém tomou lado, só eu que fui apoiar o Greca. E a diferença de voto do Greca para o Ney foi justamente a minha votação (risos). Claro que é uma coincidência, mas sempre brinco com o Greca que graças ao meu apoio que ele está eleito.

    BP - Como é sua relação com Greca hoje? Ele te deu espaço no governo?

    Maria Victoria – Ele é muito aberto a contribuições. Tem feito uma excelente administração, na minha visão. Claro que sempre há críticas. Nunca ninguém vai agradar todo mundo. Nem Jesus Cristo agradou todo mundo. Eu não participo do governo dele, claro, ele tem sua própria equipe que tem feito um belíssimo trabalho, mas na época foi dito, durante o segundo turno, que ele adotaria algumas propostas minhas para a área da Educação. De fato, a secretaria está tentando possibilitar algumas das propostas que a gente tinha.

    CASAMENTO

    ‘As pessoas podem protestar onde quiserem'

    Bem Paraná – Seu casamento em 2017, no Palácio Garibaldi, foi alvo de protestos, jogaram ovos nos convidados, entre outras coisas. Passado esse tempo, como você vê esse episódio? Deixou alguma marca?

    Maria Victoria – Claro. Como qualquer menina, mulher que sempre sonhou em casar, te digo com todo meu coração e toda sinceridade: o meu pai fez o que podia e não podia para me dar a festa que ele achava que eu merecia. Eu me solidarizo com pessoas que passaram pela mesma coisa, como o deputado (estadual) Tiago Amaral (PSB), que bloquearam a rua no casamento dele e tal, porque é, de fato, muito triste. Fico pensando que o Tiago ainda é o homem, coitada da mulher dele que não tinha nada a ver com isso. Da mesma forma meu marido e a família dele. Coitado. Não tinha nada a ver com isso. Foi uma sucessão de fatores. O ex-presidente Lula tinha acabado de ser preso aqui em Curitiba, os ânimos estavam alterados. A ideia de valorizar o Largo da Ordem eu sempre gostei. Já me perguntaram em entrevista, antes da eleição, onde era meu lugar favorito da cidade e a resposta foi o Palácio Garibaldi. É um clube. Não sou sócia do Graciosa, nem do Curitibano. Sou sócia do Garibaldi. São pouquíssimos sócios e eu sempre gostei. Enfim, eu resolvi fazer o casamento lá e deu no que deu. Acredito que se eu escolhesse outro lugar seria a mesma coisa. Porque as pessoas dizem “também, foi casar lá no Largo da Ordem, que tem muita confusão”. Eu poderia casar no Castelo do Batel, acho que seria a mesma coisa e seria mais criticada ainda porque “ai, é luxo”.

    BP – Mas se arrepende de ter casado lá?

    Maria Victoria – Eu não me arrependo de ter casado. Eu amo meu marido. A gente se dá bem. Mas não me arrependo, faria de novo, talvez... Porque não tinha como evitar, as pessoas tem liberdade de expressão, a gente vive em uma democracia. As pessoas querem protestar e elas vão aonde elas quiserem e a gente respeita isso. Inclusive, a gente pediu à polícia que não tomasse nenhuma atitude. Os policiais foram agredidos pelos manifestantes e não revidaram. Os convidados, idosos, crianças, crianças estavam lá, as daminhas. Certas coisas a gente tem que parar e pensar. E perdoar aqueles que não sabem o que fazem.

    BP – Você mencionou a 'prisão do ex-presidente Lula'. Depois dessa situação, como é seu relacionamento na Assembleia com deputados do PT, por exemplo?

    Maria Victoria – Tenho uma boa relação com eles. Não acredito que algum dos meus colegas aqui (na Assembleia) tenha interferido diretamente nisso. Da mesma forma que não gosto que generalizem a classe política ou qualquer pessoa de qualquer área, também não generalizo 'petistas', 'PSOL' ou 'esquerda'. Foram figuras específicas que fizeram isso e os outros não tem nada a ver.

    BP – Sua filha tem 6 meses. Como está conciliar a atividade parlamentar com a materna?

    Maria Victoria – Maria Antonia é muito tranquila e simpática. Dá trabalho como qualquer criança. Não dorme à noite. Eu não tive babá, fiquei mesmo durante a licença maternidade cuidando dela. Ela está com seis meses e uma semana, está crescendo e saudável. É duro voltar à ativa. É bom, claro, como mulher, porque é bom sair de casa. É complicado ficar seis meses dedicada exclusivamente à maternidade. As mães sabem. Ao mesmo tempo, toda vez que tenho que sair dá uma dorzinha no coração. Hoje saí pela porta e ela estava na janelinha me olhando dar tchauzinho, olhando assim 'aonde você vai? O que está acontecendo?'. Então, isso dói um pouco, mas todo mundo passa por isso. Vou sobreviver. A maternidade muda tudo. Muda ponto de vista, prioridades, tudo, literalmente. Eu sei hoje que nunca mais vou ter sossego na vida. Penso 'será que ela está bem? Será que precisa de mim? Será que vai ficar bem?'. Isso vai ser para sempre.

    TRAUMA

    “Era bullying sem freio na escola'

    Bem Paraná - Depois do que aconteceu no seu casamento, depois que nasceu Maria Antonia, passa pela sua cabeça abandonar a política?

    Maria Victoria – Passa. E como passa. Hoje estive em um retiro espiritual com Dom Peruzzo. Ele convidou alguns políticos, vereadores e deputados, um grupo de católicos, não para formar uma bancada, mas para lembrar de alimentar a alma. Ele falou 'tudo que a gente faz de mais certo, corretamente, é escrito na areia e aquilo que faz de errado é escrito no mármore'. Falamos da generalização dos esteriótipos das profissões. Ele mesmo se colocou, como arcebispo, mas como padre que já foi. Hoje a gente fala em padre, a gente lembra de quê? 'da pedofilia'. Lembra de político, pensa em 'corrupto'. E hoje em dia está muito difícil fazer política porque as pessoas só criticam nas redes sociais. Nessa linha, de que 'o que é ruim se escreve em mármore', de fato, é o que se propaga. Noticia, obviamente, não é a boa. 'Notícia boa é propaganda', não é notícia. Então, são certas coisas que são desmotivantes, ainda mais entre pessoas de bem, que querem fazer a boa política, que querem servir as pessoas. Mas eu só estou aqui pelo seguinte: a dona Maria, lá do Jardim Olinda, onde vivem duas mil pessoas, sozinha não consegue asfalto para a cidade dela. Jardim Olinda não consegue eleger ninguém, é pequeno em representatividade. Quem vai buscar, trabalhar por ela, atendê-la? E são muitas pessoas que precisam do Poder Público. Classe alta e classe média não precisam de ônibus para a saúde, etc. E eles (os pobres) dependem de tudo. E é pela dona Maria, por eles (quem precisa) que estou aqui, para ajudar pessoas que sozinhas não conseguem resolver seus problemas.

    BP – Quais outros desgastes você passou que destacaria na sua carreira política?

    Maria Victoria – Por tudo que eu passei, na escolinha meu pai já estava na política, minha mãe também, disputando a prefeitura de Maringá. Nas vésperas de eleição sempre forravam a calçada da frente da escola e havia lá (nos panfletos) ofensas muito graves aos meus familiares. As fake news do passado. Aí era bullying sem freio na escola.

    BP – Lembra de um exemplo do que mais te marcou?

    Maria Victoria – Lembro de uma professora, inclusive. Ela se chamava Jane. Posso até falar o nome dela. Vai que ela lê e pensa 'meu deus, realmente traumatizei essa criança'. Minha mãe é Cida. Então, o que a professora fez na aula de Biologia? Falou assim: 'tudo que é Cida, é veneno. Inseticida, pesticida'. Aquilo contagiou a escola inteira. 'Cida é veneno, Cida é veneno. Sua mãe é veneno'. Eu tinha 10 anos. Esse é um dos exemplos. Hoje, com Maria Antonia, fico pensando. Não quero que ela passe por isso. Mas aí eu lembro da Dona Maria. Aí eu sei que da mesma forma que eu 'sobrevivi' a todos esses ataques e cresci com isso, aprendi com isso, sei que a minha filha também vai. É para um bem maior e sei que um dia ela vai entender. Acredito que Deus está no comando e que se não fosse pela vontade dele. Acho que cada um tem um destino. O que aconteceu no casamento, na escola, com a professora Jane, é tudo bobagem. Tudo vira pó quando você consegue materializar as conquistas no trabalho, quando consegue ver as obras acontecendo, como é o caso agora do Hospital da Criança em Maringá que atende a uma área com população de 3 milhões de pessoas. Tem 21 especialidades, um projeto que começou no governo Cida Borghetti, com uma parceria do governo do Estado com o Ministério da Saúde, enquanto Ricardo Barros estava ministro e aportou recurso, a Associação Mundial da Família, que entrou com U$ 10 milhões para a obra e todo o know-how da construção. Hoje, com a Maria Antonia, também consigo imaginar a dificuldade que seria se eu morasse em Maringá e tivesse que deixar meu trabalho, meu marido e vir para Curitiba para ter um atendimento de qualidade no Pequeno Príncipe como todo mundo faz, ou ir para São Paulo. Isso desestrutura tudo. Já é difícil você ter uma doença na família e ainda ter que passar por tudo isso.

    BP – Uma candidatura sua em Maringá não seria mais fácil de vencer do que em Curitiba?

    Maria Victoria – Meu titulo eleitoral está em Curitiba. Impossibilita até de conversar sobre isso. Mas com certeza nós teremos um candidato nosso, do grupo, lá em Maringá. Tem vários que querem. O ex-secretário da Fazenda, José Luiz  Bovo, o ex-secretário da Saúde, Augusto Nardi, Doutor Baptista é sempre candidato, Homero Marchesi acho que também vai ser candidato. Silvio (Barros) hoje é o melhor nas pesquisas e pode ser que seja o nosso candidato. Alguém vai estar lá para contar às pessoas todas as conquistas da nossa família e do nosso partido para a cidade. É bom sempre relembrar o que foi feito.

    BP – Agora no seu retorno à Assembleia, qual seu principal projeto ou o que considera a principal atuação?

    Maria Victoria – Sou membro titular da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) desde o início do ano. Sempre quis fazer parte, porque é o filtro. Se não passa na CCJ, não vai a plenário. É importante participar e estar por dentro da constitucionalidade ou inconstitucionalidade dos projetos e ajudar a selecionar o que vale a pena ir para frente ou não.

    TRADIÇÃO

    'Não sofro pressão da família'

    Bem Paraná – Você sofre pressão da família para permanecer na política e continuar ocupando o espaço? Ou sofre pressão do marido para sair da política?

    Maria Victoria – Não sofro pressão da família. Claro que eles apreciam que eu mantenha a tradição da família de servir à população, mas apoiam no que eu quiser fazer da vida. Quanto ao marido, não. Ele é muito tranquilo quanto a isso. Ele admira a determinação de fazer um trabalho desafiador, ainda mais nos dias de hoje. Apoia muito.

    BP – Como você conheceu ele? Tem alguma relação com a política?

    Maria Victoria – Essa história é engraçada até. A gente se conheceu em Belgrado, na Sérvia. Ele morava aqui (em Curitiba) e eu também e a gente nunca tinha se encontrado, apesar de frequentar os mesmos lugares. Na época, ele era advogado de uma empresa que estava buscando equipamentos de defesa militar na Sérvia. Eu estava acompanhando o meu pai que na época era deputado federal responsável pelo relacionamento Brasil/Servia. Na comitiva, estava o chefe do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, o Diego como advogado, eu e minha mãe e algumas outras pessoas. Nós nos conhecemos lá. Cheguei ao aeroporto e ele tinha acabado de desembarcar de outro voo. Cumprimentei a todos da comitiva, a maioria conversando em inglês, e falei com ele em inglês. Não sabia quem era. Achei ele um gatinho, mas nem sabia quem era. Saímos de lá e fomos para o hotel. Depois fomos comer alguma coisa na esquina rapidamente, em um pequeno restaurante que se chamava Vapeana. E já tínhamos que ir para a Jugoimport, que é a produtora desse equipamentos de defesa militar. E ele foi junto almoçar. E eu fiquei pensando 'mas quem será que é esse cara'. Me apresentaram. Eu, de forma educada, pedi um potinho de salada grega e ofereci para ele. Ele sentou do meu lado e já colocou o garfo na minha salada, bem cara de pau (risos). A gente foi se conhecendo e deu certo. Estamos até hoje.

    BP - Qual seu principal medo na política?

    Maria Victoria – Pensei muito sobre isso hoje de manhã. Temo que, se as coisas continuarem como estão, só pessoas que não têm patrimônio, que não têm família, que não têm reputação, vão continuar na política. Temo que só pessoas muito ricas com interesses particulares ou financeiros, ou pessoas que não tem nada a perder, participem da política.

  • Projeto

    Bairro Novo da Caximba é promessa de dignidade a 1693 famílias em Curitiba

    Bairro Novo da Caximba é promessa de dignidade a 1693 famílias em Curitiba
    (Foto: Reprodução / Ippuc)

    Um grave problema ambiental, que envolve inundações e ausência de saneamento e urbanização e que se ampliava na região sul de Curitiba, pode estar com os dias contados com um projeto que deve também alçar à dignidade 1693 famílias que moram hoje em condições precárias na Ocupação 29 de Outubro e outras do bairro da Caximba. Dessas famílias, 1147 serão realocadas para áreas próximas, desapropriadas ou arrendadas pela prefeitura, dentro de um projeto especial da Companhia de Habitação de Curitiba (Cohab).

    O Bairro Novo da Caximba, como será chamada a área, é um projeto modelo da cidade, “um grande laboratório de inovações urbanas”, como descreve o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippuc), para mostrar a união de soluções multisetoriais agrupadas em um projeto de nome extenso, o Projeto de Gestão de Risco Climático Bairro Novo do Caximba.

    O viés ambiental garantiu o recurso da Agência Francesa de Desenvolvimento, financiadora da ação. Antes, a tomada de recursos precisou ser aprovada pela Câmara Municipal neste ano. Vai custar R$ 238 milhões para mostrar ao mundo como é possível avançar com inovação e inteligência, dentro do conceito Cidades Inteligentes. Desse valor, são R$ 164 milhões da Agência Francesa, mais R$ 41 milhões em contrapartida de recursos próprios da prefeitura.

    “Curitiba não pode ficar de braços cruzados diante de uma situação como essa”, descreveu Rosemeiri Morezzi, diretora de relações comunitárias da Cohab. Meiri, como é conhecida, é responsável por reunir moradores da ocupação, discutir e levar demandas ao projeto.

    “O cronograma de ações começou no início do ano e fizemos reuniões semanais com grupos de 80 famílias em que elas colocam sugestões ao projeto, dizem o que pensam, além da consulta pública que permite que as famílias se manifestem no processo. Elas puderam registrar isso. Formalizamos em um documento que foi protocolado com as reivindicações das famílias, de questões que a gente não tinha pensado, mas que elas trouxeram”, detalha.

    Projeto tem inspiração em soluções da Espanha e do Canadá 

    O projeto Bairro Novo da Caximba se inspira e troca informações com outros já conhecidos, como iniciativas do 22@, de Barcelona, e o SideWalk, de Toronto, ambas ações integradas no conceito de cidades inteligentes. A presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento, Cris Alessi, destaca que todos os projetos que têm os cinco pilares do conceito, no caso da Caximba a “sustentabilidade” tem participação da agência.

    “Depois vem a educação empreendedora. Além disso, toda a questão do resgate social da Caximba foi feita por causa dos impactos e problemas ambientais. O conceito de Smart City que está lá (no projeto da Caximba) tem semelhanças com o 22@ em Barcelona”, compara.

    Alessi afirma que efeitos mais amplos, como comportamentais dos cidadãos, também são pensados.

    “Possibilidade de as pessoas trabalharem e viverem com a reestruturação do bairro, com o comércio presente nas edificações das moradias, nos miolos do bairro, para diminuir o deslocamento de transporte. O 22@ é muito assim, lá foi dividido em quatro partes, com as praias, a função das empresas e comércio que se instalou ali, tinha as universidades e as moradias em algumas regiões. E o 22@ é referência de reestruturação urbana tanto que gera 60 mil empregos. Esse bairro já tem 20 anos, mas os novos projetos têm seguido isso”, aponta.

    Já o Sidewalk é um projeto pensado com a cidade de Toronto junto com a Alfabet, para restruturação de um espaço degradado, que tinha problemas ambientais graves.

    “Morarias irregulares, sem a orla, mas era de resgatar o espaço para as famílias. Não existe ainda, também está em projeto e construção, junto com a iniciativa privadas. No caso da Caximba, estamos com a Agência Francesa, e também com a participação da comunidade local muito forte, como ocorre em Toronto”, afirma.

    Parte do projeto de revitalização da área foca em desenvolvimento econômico para a comunidade. “Você também acaba atraindo um público de outras áreas da cidade para a região também por causa dos parques e espaços públicos, então o Sidewalk também tem essa visão”, compara Cris Alessi.

    A proposta é de um laboratório de inovações urbanas que deve se repetir em outros projetos para a cidade. “Quando você começa a unir vários projetos como esses, com nova energia, placas fotovoltaicas, fazendo com que as pessoas não se desloquem com o transporte para longe de sua casa. Curitiba vem buscando isso, a união desses projetos, com a visão multisetorial nos projetos da prefeitura. São várias áreas que se completam”, destaca.

    O conjunto das ações para tornar o bairro “inteligente” se soma à implantação do dique de contenção de cheias, construção de um parque linear, urbanização da faixa edificável, adequação viária e implantação de infraestrutura de transporte, de saneamento e de abastecimento de água e energia elétrica na área consolidada. Novas tecnologias, inclusive, serão implantadas no Novo Caximba, como um sistema de casas autônomas (sustentáveis) que vai reaproveitar água da chuva e ser abastecido por energia solar a partir de placas fotovoltaicas no telhado.

    Reassentamento da 29 de Outubro marca ponto de partida

    O reassentamento de famílias da Ocupação 29 de Outubro, instalada em Área de Proteção Ambiental (APA), no encontro das bacias dos rios Barigui e Iguaçu, em um terreno de propriedade do Instituto das Águas do Paraná, é apenas o ponto de partida do projeto. O prefeito assinou decreto que definiu a área como Setor Especial de Habitação de Interesse Social – Regularização Fundiária da Caximba, que inclui além da Vila 29 de Outubro as ocupações irregulares Vila Dantas, Vila Espaço Verde e Vila Primeiro de Setembro. Com isso, essas famílias foram incluídas em uma espécie de “fila especial” da Cohab. Não precisam permanecer no cadastro regular, por se tratar de uma situação de risco.

    “Em 2017, tivemos a orientação do prefeito para cadastrar todas as famílias. Como envolve uma questão climática, pela cheia do rio, a Agência Francesa tem uma atuação bem forte nessa área. Há um risco, há uma prioridade para essas famílias, em razão do cunho ambiental. O reassentamento é na mesma região. A Cohab está desapropriando áreas particulares, entre a ocupação e a Rua Delegado Bruno de Almeira, que é a rua principal. A distância de onde elas estão para aonde vão é de 600 metros”, explica Meiri.

    Com o reassentamento, haverá outras etapas que envolvem a implantação de um dique para a contenção de cheias, reestruturação urbana e a construção de um parque linear, como parte do maior programa de recuperação social e ambiental.

    “A área toda já está identificada, as pessoas estão cadastradas, todo o perfil socioeconômico já está traçado. Por exemplo, se há uma pessoa com deficiência que necessita adaptação no projeto de habitação. Outra questão é a existência de renda. Se não houver renda alguma, é um perfil que não vamos fazer apartamento para essas pessoas, porque ela não pode pagar uma taxa de condomínio. Será uma casa, mas não de graça, só que, claro, em um projeto subsidiado sempre considerando que não pode gastar mais que 30% de sua renda em habitação. Se ela ganha R$ 300 reais, não pode pagar uma prestação de mais de R$ 100. Se tiver renda zero, ela assina um contrato não oneroso, em que ela mora na casa e começa a pagar assim que houver uma renda. Isso acontece com um idoso sozinho, que não tem beneficio social, não tem uma aposentadoria. A maioria é de casais com 30 e poucos anos com filhos ou mulheres sozinhas com crianças. São 180 mulheres totalmente sozinhas, além de 300 mulheres que sustentam as famílias”, descreve a diretora de relações comunitárias da Cohab.

    De acordo com o Ippuc, o projeto caminha para a fase de execução. Curitiba teve sinal verde para negociar com financiadores e o processo já está avançado com a Agência Francesa.

    Fotos: Ippuc

  • Entrevista

    ‘Defendo tudo que é respeitoso’, diz Claudia Silvano, diretora do Procon-PR

    ‘Defendo tudo que é respeitoso’, diz Claudia Silvano, diretora do Procon-PR
    “Sou um uma técnica e continuo no cargo. Isso é legal” (Foto: Henry Milleo )

    Diretora do Departamento Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor do Paraná (Procon-PR) desde 2011, a advogada e pedagoga Claudia Francisca Silvano, a Claudia Silvano, aos 52 anos completa 37 anos de serviço público, atividade que diz amar, que começou a exercer aos 15 anos, em uma época em que não era necessário passar em um concurso público para trabalhar em órgão da administração direta. “Comecei como telefonista e depois assistente de bibliotecária”, conta. Hoje Claudia é vista como responsável por um status de referência atribuído ao Procon paranaense. O portal consumidor.gov, por exemplo, tem mais acessos no Paraná graças às campanhas promovidas por ela, que incansavelmente usa sua imagem associada à ferramente de serviços ao consumidor.

    Formada em Pedagogia em 1989 pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em Direito pela Faculdade de Direito de Curitiba em 2003, Claudia subiu na carreira passo a passo, sem nunca ter sido apadrinhada. Seu primeiro vínculo político surgiu em 2018, quando se filiou a um partido em Curitiba. A informação foi revelada sob a condição de que o nome da legenda não fosse publicado. O capital político adquirido por Claudia Silvano ao longo dos anos é alvo de assédio de diversos partidos. Porta-voz do direito do consumidor no Paraná, ela já foi convidada “por todos os principais candidatos” ao governo para ser candidata ao Legislativo Estadual. Sempre declinou.

    “Não tenho talento. Nunca vou ser candidata”, diz. Ela também garante que não quer se aposentar. “Nunca. Gosto de ser servidora, tenho orgulho e estou feliz assim”, diz. Isso não impediu que ela se filiasse e nem que tenha preferência política, como qualquer outra cidadã. “Defendo tudo que é respeitoso, que o cidadão seja respeitado de qualquer forma, em todas as suas manifestações. Eu odeio homofobia e qualquer tipo de preconceito. Odeio qualquer posição radical que não se disponha a discutir e a ouvir”, pontua.

    Irreverente, excêntrica e comunicativa, Claudia hoje se permite a usar as roupas que quer. Em manifestação nas redes sociais, já foi “acusada” de usar “pijamas” no trabalho. “Roupa para mim é liberdade”, explica. Ela não se incomoda com eventuais ataques nas redes sociais, principalmente porque a grande maioria das pessoas manifesta apoio ao trabalho e às escolhas dela. Claudia tem dez tatuagens. Ela contou uma a uma durante a entrevista ao Bem Paraná para ter certeza de que eram dez e revelou: “me inspirei na Josianne Ritz (chefe de redação do Bem Paraná, que também cultiva tatuagens com significados)”.

    A tatuagem mais exposta de Claudia Silvano é um código de barras colorido em sua mão direita. “Tem muito a ver com o meu trabalho, é um código de barras que a gente vê nos produtos. Ele é colorido porque eu gosto de cores. Ele tem datas e números. Tem meu RG, meu aniversário e da Ana (sua companheira). Fazemos no mesmo dia (11/11), por incrível que pareça, e o aniversario da minha mãe”, revela.

    Em uma união estável com a jornalista Ana Paula de Carvalho, 46, com quem se relaciona desde 2006, Claudia diz que vai se casar. “Engraçado que ainda tenho que preencher ‘solteira’ nos formulários”, afirma. Ela também afirma que teme mudanças nos regimes legais para união homo afetiva, eventualmente causada pelo governo conservador do presidente Jair Bolsonaro (PSL), alvo frequente de críticas de Claudia, mesmo que indiretamente, em suas redes sociais. Ela garante que nunca sofreu pressão política e nem foi intimidada a não se manifestar. “Nunca. Aliás, isso é muito legal, por que sou uma técnica e continuo (no cargo após mudança de governo)”, afirma.

    Claudia revela uma saudade constante de sua mãe, Paulina Borovski, morta após um acidente vascular cerebral em 2011, poucos meses depois que assumiu a direção do Procon e que consolidou seu relacionamento. “Foi um ano muito especial, mas que acabou triste”, afirma ela que diz também tratar uma depressão que vem e vai.

    BP - Você se considera excêntrica? A RPC TV fez uma reportagem com você em que muita gente reagiu destacando a roupa que você usou no dia. A maioria das pessoas fizeram elogios, mas uma ou outra disse que eram pijamas. Você se ofendeu? Usa isso a seu favor?

    Claudia - É uma evolução, na verdade. Nem sempre eu fui assim. Você vai vivendo. É muito de “poder” agir dessa forma. Talvez se eu trabalhasse em outro local ou com outra função eu não poderia. Não é fácil porque você tem que mostrar que você não é só aquilo. A roupa é uma questão secundária. Para mim a roupa sempre foi um ambiente de liberdade, porque minha mãe ficou doente muitos anos. Foram 12 anos muito difíceis. Mas sempre fui mais para o não convencional do que para o convencional. Eu tinha uma blusa que minha mãe ficava louca comigo. Ela era uma pessoa chique e tal, não tinha bom gosto, mas tinha bom gosto. Mandei fazer uma blusa com esses cobertores de campanha e ele dizia 'meu Deus, como você vai sair com isso?'. Eu (na juventude) contrariava ela e tal. A coisa acabou tomando um corpo nesse período entre 2009 e 2011. Então a roupa para mim é liberdade. Me visto do jeito que eu quero onde posso ser livre.

    BP - Você assumiu a chefia no Procon em 2011, mesmo momento em que casou. Foi um momento importante para a sua vida?

    Claudia - Foi. Nessa época minha mãe era viva ainda. Eu assumi a direção no começo do ano e ela faleceu em outubro. Foi um ano bacana, mas que ao mesmo tempo terminou triste. No Procon, eu não imaginava. Foi um convite que aconteceu. Claro que mudou minha vida, óbvio, mas não era algo que eu almejava.

    BP - Antes de assumir a direção, você já tinha uma facilidade de comunicação, para explicar as coisas os jornais já te procuravam, já era uma espécie de porta-voz. Isso ajudou?

    Claudia - Claro. E eu não imaginava que as coisas iriam tomar essa proporção que tomara. (Ser comunicativa, bem articulada com as palavras) me ajuda muito. Tive um professor, Evaldo, na faculdade que dizia que eu tinha um poder de síntese. Por um lado era bacana, por outro era ruim porque eu tinha que me aprofundar nas coisas. Ele dizia também que eu conseguia falar de uma forma simples. Isso ficou e é importante para mim porque eu tenho que ser útil para as pessoas. Eu tenho que falar algo que o consumidor entenda, senão não sou útil, não estaria servindo.

    BP - Você acha que o Procon hoje cumpre sua função com excelência? Por exemplo, muita gente critica as multas aplicadas que as empresas nunca pagam porque conseguem reverter na Justiça.

    Claudia - Vou falar dos Procons, de maneira geral, porque presidi uma associação nacional que representa os Procons. É claro que não (cumpre com excelência). Estamos muito aquém do que deveria e poderia. Só que nós temos um mercado supercomplexo, produtos que são complexos. Tem várias coisas que tem que ser ponderadas. Não é só chegar, multar e acabou. Pega um celular. É supercomplexo, para saber como funciona, para operar. Mas por outro lado, sim (cumpre o papel), porque o Código de Defesa do Consumidor mudou as relações de consumo. Hoje há um mercado que respeita muito mais o consumidor do que ontem e amanhã haverá um mercado que respeitará o consumidor muito mais do que hoje. São Paulo tem 44 milhões de habitantes. O Procon de lá tem 700 funcionários. É um mundo de gente. Dá conta? Não. Não dá conta por causa da complexidade das relações humanas, dos conflitos.  

    Bem Paraná - Você pensa em ter filhos?

    Claudia Silvano - Não. Não quero, não tenho vocação para maternidade, a humana. A maternidade alternativa, canina, eu tenho. Tenho um relacionamento desde 2006, que virou uma união estável em 2011, com Ana Paula, que é jornalista. Temos duas filhas de quatro patas, a Sissa, que é uma vira-latas super linda, e a Rebeca que é um dachshund, o linguiça, que é uma bomba relógio. É uma galinha, na verdade, que acorda às 5h para comer. A gente mora juntas desde 2011 em um apartamento.

    BP - De onde você veio, quem são seus pais e sua origem?

    Claudia - Vamos falar da minha mãe, que é o que importa. Meu pai não tem importância neste contexto que é a minha vida. Minha mãe tem uma história legal. Era uma mulher linda. Nota-se que eu puxei meu pai (risos). Ela era super bonita, desfilava, era um mulherão. Uma mulher à frente de seu tempo, me teve sozinha, com 35 anos, me criou sozinha e era uma pessoa super enérgica. Tão enérgica quanto amorosa, cuidou muito bem de mim, tenho muitas saudades dela. Eu nasci em São Paulo, minha mãe nasceu em Curitiba. Eu vim para cá (Curitiba) com 1 ano e meio, bem pequena. Estudei no Instituto de Educação, aqui na frente (do Procon), vejo minha sala (de aula) e lembro. Estudei no Colégio Bardal, no Camões, no Positivo e aí fiz Federal e (Faculdade) Curitiba. Na Federal, fiz Pedagogia. Escolhi a área da orientação educacional. Sala de aula para mim, foi depois no Direito (que deu aulas).

    BP - Antes de ser funcionária pública você chegou a trabalhar em outra área?

    Claudia - Sempre fui funcionária pública, desde os 15 anos. Entrei trabalhando em uma fundação, que era a Fidepar, Fundação Instituto Paranaense de Treinamento e Desenvolvimento. Entrei como telefonista, depois fui ser assistente de bibliotecária, que carrega caixa mesmo. Na época não tinha computador, eu usava uma maquinha de escrever verdinha, que encontrei anos depois. Passei no vestibular, com 18 anos, e fui ser assistente dos técnicos. Montava material, xerocava, fazia chamada nos treinamentos, era uma parte operacional.

    BP - Não tinha concurso nesse época. Como entrava?

    Claudia - Entrava como indicação, alguém que trabalhava indicava, começava de baixo. Trabalhei na Fidepar nesse tempo e quando ela foi extinta eu fui trabalhar na secretaria de administração. Entrei no Estado em 1981. Hoje eu já posso, mas não quero me aposentar.

    BP - Tem ideia de quando vai querer se aposentar?

    Claudia - Nunca. Não tem por que me aposentar. Posso trabalhar. Não tenho essa vontade de ficar em férias, de ficar passeando. (Ela faz uma pausa com a chegada do fotógrafo para abrir a página consumidor.gov em seu computador para que apareça na fotografia). Gosto de ser servidora, tenho orgulho e estou feliz assim. Depois fui para a Secretaria de Justiça. Trabalhei com treinamento por anos. Por isso, vim parar no Procon. Foi quando montei um treinamento para o Procon e desde 1991 estou no Procon.

    BP - Sua mãe teve um papel importante na sua vida?

    Claudia - Ela teve um AVC. Eu morei muito tempo com ela, saí de casa e depois voltei. Ela me colocou para trabalhar com 12 anos, nesse ponto ela foi meio exagerada. Dizia 'tem que trabalhar, ter responsabilidade' e tal. Uma amiga dela tinha uma joalheria e eu lavava xícaras, fazia pequenos trabalhos. Mas isso foi ótimo, não tenho problema com isso, não deixei de brincar. Fui superfeliz. Com 15 anos entrei no Estado como servidores e assim estou desde então.

    BP - Aqui tem alguns estagiários, jovens, como é sua relação com eles no trabalho. Você se encontra nelas, acha que alguém vai seguir seu caminho?

    Claudia - Tem, sim. O Rafael (aponta) é um deles, foi meu estagiário em 2007 e está comigo há anos. A Lani também foi. São estagiários que tiveram um comportamento muito aderente ao meu. Até falo para eles 'peguem de mim o que tenho de melhor e não o pior'. Sou difícil, exigente, uma chata (risos).

    BP - Quer que as pessoas se esforcem como você?

    Claudia - Quero que as pessoas sejam bem tratadas, que o consumidor saia daqui superconsciente de que a gente fez tudo para resolver o problema dele. Tenho um compromisso, tenho que fazer jus ao título de servidora pública, sendo chefe ou não. Minha mãe era muito exigente, acho que por isso.

    BP - A exposição que você teve na imprensa, nas redes sociais, te colocou vulnerável também a ataques na internet algumas vezes. Já falara sobre sua sexualidade de maneira pejorativa. Como você lida com isso?

    Claudia - Procuro não levar para o lado pessoal. Teve um cara que falou 'o pé é grande'. É, nada. Meu pé é super bonito, calço 37 (risos), vou ao podólogo, é bem tratado e passo creme. Então, não dá para sofrer. As pessoas exageram. Ninguém tem coragem de chegar na cara e falar uma coisa dessas. Esses dias fiquei superfeliz com o título de cidadã honorária (na Câmara Municipal) do (vereador) Professor Euler (PSD). Fiquei super grata. E uma pessoa disse 'te encontrei na panificadora e você rosnou um sorriso'. Foi grosseira. É que eu não saio sorrindo, mas não sou uma pessoa antipática. Eu jamais vou virar as costas para alguém nas ruas, nunca. Eu uso muito as redes sociais para dar informação, a minha rede, que é a Claudia Silvano. As pessoas perguntam e eu não vou responder? Eu respondo, claro, às vezes escapa alguma coisa que não consigo.

    BP - Alguém já tentou te corromper? Na sua carreira, você já se deparou com corrupção de algum colega ou alguém do seu meio?

    Claudia - Nunca tive e espero nunca ter que lidar com isso.

    BP - Mas já teve alguma tentativa?

    Claudia - Já aconteceu comigo. No ano em que fui convidada para ser diretora chega uma cesta de Natal aqui. Eu devolvi. Tem que devolver na portaria, não pode nem subir. Se deixar subir, fodeu. O porteiro só vê subir e não vê descer, aí já viu. Já barro na porta, digo que não quero e faço um documento para comprovar que devolvi. Aí aí (a empresa) faz uma vez e já para de fazer. Recebi convite para o Cirque du Soleil uma vez. Um banco mandou. Fiz uma carta e mandei embora de volta, tudo bonitinho e documentado. Já foi até engraçado porque uma vez um cara ligou e disse que a direção de tal empresa ia me mandar um convite. Eu já disse 'não me mande esta merda porque senão vou ter que perder tempo fazendo carta para devolver' (risos).

    BP - Você sofre bastante assédio nas ruas de Curitiba e também viaja bastante. Se sente mais em paz em outros lugares?

    Claudia - Viajo menos agora (que não é mais coordenadora nacional dos Procons). Mas não sou celebridade, sou uma pessoa comum. Isso (pessoas que abordam) é superlegal, é carinho, pedem para tirar foto.

    BP - Sua personalidade e atuação profissional te deram capital político. Já foi convidada para se candidatar a algum cargo?

    Claudia - Várias vezes e sempre disse que não queria.

    BP - Você acha importante manifestar sua posição política e ideológica?

    Claudia - Eu defendo tudo que é respeitoso, que o cidadão seja respeitado de qualquer forma, em todas as suas manifestações. Eu odeio homofobia e qualquer tipo de preconceito. Odeio qualquer posição radical que não se disponha a discutir e a ouvir. Então, acho que já dá para entender qual a minha, o que eu defendo. Aqui no Procon, estamos no centro da cidade e volta e meia alguém me pergunta 'o morador de rua quer entrar para ir ao banheiro, pode?'. Óbvio que pode. Deve. Ele naquele momento não é um consumidor, não veio para reclamar, mas é alguém que está precisando ir ao banheiro. Ele vai e aqui vai ser bem recebido. Tinha um cara dormindo em uma das portas aqui um dia desses. Eu disse para deixar ele ali, não mandar ele sair. Pelo contrário, disse para oferecer um café. Está entendendo o que estou dizendo? Para mim não dá. Nas redes sociais, se você faz qualquer manifestação de gostou ou não gosto de fulano de tal você começa a apanhar nas redes sociais.

    BP - Você acha que isso pode atrapalhar o seu trabalho? Alguém te monitora?

    Claudia - Acho que não. Nunca percebi nenhum tipo de monitoramento nesse sentido. Muito pelo contrário. Hoje sou subordinada ao secretário Ney Leprevost, que eu não conhecia pessoalmente. Conheci ele em janeiro deste ano. Me trata com todo respeito do mundo, apoia o Procon, estimula que a gente faça as coisas, é superpositivo. A mesma coisa, o governador. Me deu a oportunidade de continuar e isso que eu acho legal porque eu sou uma técnica. Não sou indicação política do João da Silva.

    BP - Quem te convidou para se filiar ou ser candidata?

    Claudia - Todo mundo. Nas eleições, os principais candidatos, me convidaram para ser deputada estadual. Mas eu não quero. Se tem uma coisa que quero aprender na vida, é marcenaria. Quero demais. Tem que ter talento para ser político. Não adianta fazer uma coisa que não tem talento.

    BP - Você se sente livre para apoiar um candidato, se filiar a um partido como cidadã?

    Claudia - Sim. Sou filiada a um partido, mas não quero dizer qual.

    BP - Você poderia se aposentar e usar sua imagem para fazer palestras ou outras atividades. Já pensou nisso?

    Claudia - Tenho que ver, pensar nisso depois. Agora a ideia é continuar trabalhando.

    BP - Quantas tatuagens você tem?

    Claudia - Deixa eu contar. Um, dois, três... Tenho dez.

  • Laboratório

    Fazenda Urbana encontra ‘terreno fértil’ para gerar conhecimento em Curitiba

    Fazenda Urbana encontra ‘terreno fértil’ para gerar conhecimento em Curitiba
    O centro de produção de orgânicos da Prefeitura fica no bairro Cajuru: engajamento (Foto: PMC)

    A expansão das hortas urbanas pelos quatro cantos de Curitiba mostrou à cidade que havia ‘terreno fértil’ para um projeto ainda mais ousado. A Fazenda Urbana, no Cajuru, que será uma grande centro de cultivo, plantio, experimentos e conhecimento já saiu do papel. “É um catalisador de práticas de segurança alimentar, que é transversal”, destaca o secretário municipal de Segurança Alimentar, Luiz Gusi.

    Com a primeiro plantio em julho e a primeira colheita já feita em setembro, a previsão é de que a estrutura que ocupa uma área de 4,6 mil metros quadrados fique totalmente pronta em fevereiro de 2020. O centro de produção de orgânicos da prefeitura, que deve gerar soluções para o plantio urbano, está em fase de licitações, mas já instalado na Rua Prefeito Mauricio Fruet, na região do cruzamento com Rua Capitão João Busse, ao lado do Mercado Regional Cajuru e próximo ao Terminal do Capão da Imbuia.

    “Já estamos com 30 hortas comunitárias espalhadas pela cidade. A Fazenda Urbana surge da necessidade de soluções sobre o plantio, a compostagem, a horta vertical, sobre como posso trabalhar todo o conceito da horta urbana, da agricultura em si, incluindo as escolas e todos que demandam por conhecimento”, explica Eliseu Alves Maciel, gerente da Unidade de Agricultura Urbana de Curitiba.

    A proposta de fomentar a agricultura urbana integra o conceito de “cidade inteligente”, adotado como padrão por Curitiba nos últimos anos. Conforme a plataforma, uma cidade inteligente prioriza a qualidade de vida de seus moradores, se preocupa com a sustentabilidade e em resgatar a boa alimentação para a população.

    Dentro dessa proposta, segundo a prefeitura, a Fazenda Urbana é solução para demandas que surgiram após a ampliação das hortas urbanas e demanda de diversos segmentos da sociedade. Será o primeiro centro de disseminação de agricultura urbana do Brasil.

    O espaço no bairro cajuru terá a missão de promover a difusão de práticas e técnicas de agricultura urbana e organização comunitária, a fim de contribuir para a educação social, alimentar e ambiental da população.

    “Quando a gente fala de agricultura urbana, é sobre ocupar vazios na cidade, onde as pessoas terão melhora na saúde, na alimentação saudável, além da educação para a saúde, do desenvolvimento de conhecimento, de preparar o consumidor do futuro e também incentivar as pessoas a voltarem a plantar. Há uma preocupação não só em Curitiba, mas em Santa Catarina e outros locais, porque as pessoas não estão plantando. Isso é qualidade de vida que tem que ser retomada”, aponta Maciel.

    Diversas entidades já estão engajadas no projeto. “As escolas terão visitas aqui (na Fazenda Urbana), como já temos nas hortas urbanas. A ideia é que elas venham onde terão um conceito maior, inclusive na Cozinha Escola, onde vão poder preparar os alimentos com os chefs e nutricionistas”, explica.

    A iniciativa é pública, porém o projeto prevê parcerias institucionais e empresariais. “Em princípio, sim (é uma iniciativa pública), mas vamos trabalhar com parcerias na execução, com a Eletrolux, por exemplo, que já manifestou interesse, assim como produtores de sementes e outros. Vamos abrir editais de parcerias, porque a prefeitura não precisa trabalhar sozinha. Já temos parceiros como Embrapa, Emater, Secretaria do Meio Ambiente, universidades, inclusive da rede particular, que vão ter espaço para trabalhar aqui”, conta.

    Os editais devem ser finalizados já em outubro deste ano. “Vai ficar pronto para fevereiro de 2020, com estufa, poço, sistema de irrigação, e tudo está em fase de licitação. Estamos em fase de adição de terra que vamos fazer na área que será da parte de cultura, mas vai haver a Telhado Verde, estufa, compostagem, cultivo protegido, os canteiros estruturais, muita coisa mesmo. As culturas que vão compor os estrados estão em fase de licitação que deve terminar já neste mês”, aponta.

    “Retorno para questão educacional e social é imensurável”

    O custo da estrutura é de R$ 1,8 milhão, segundo o secretário Luiz Gusi. “Tem retorno mensurável e retorno que a gente não mensura, sobre despertar todos os aspectos que a Fazenda pode trazer na questão educacional, social, todos os ativos ambientais, toda a informação desse ecossistema. A gente já tem uma equipe para trabalhar e essa equipe vai ficar sediada ali (na Fazenda). Como tem crescido muito a demanda, a gente tinha que deslocar equipe para olhar a área, orientar. Agora, com a Fazenda a gente consegue otimizar o nosso trabalho. A gente consegue ter uma excelente relação custo beneficio, sem agregar custo na manutenção. Geralmente o investimento é menor que o custeio, mas é diferente do que é na Fazenda”, calcula.

    O secretário reforça que com os parceiros privados o projeto se torna autossuficiente. “Estive em um evento em Porto Alegre na última semana, de tendências da alimentação. Conhecemos uma empresa de sementes que quer ver seu nome em uma inciativa como essa da Fazenda. Eles tem a linha de horticultura caseira e industrial. Com os editais a gente vai ter vários parceiros, que além de otimizar vão utilizar o espaço e usar o espaço para trabalhar esse conceito, incluindo os chefs de cozinha e outros”, adianta Gusi.

    As escolas integram a primeira etapa de resultados da Fazenda Urbana. “O primeiro público é a escola. Se a gente tem que mudar o padrão alimentar, sabemos que é bem mais difícil com o público de 50 anos. A garotada é mais fácil de conscientizar. E outro aspecto é trazer empresas que querem sua marca ligada à cozinha, aos padrões de sustentabilidade. Estamos montando um hub de processos de parceria e esse é o objetivo do prefeito”, lembra.

    O incentivo à segurança alimentar deve ser a primeira meta alcançada. “As pessoas perderam a conexão com o processo de produção de alimento. A criança acha que um bezerro é um cachorro. A gente ri, mas essa ligação está desfeita. Como retomar a saúde alimentar se não se sabe o processo do alimento?”, questiona.

    A Fazenda Urbana é também um grande laboratório para toda a cidade, segundo o secretário. “Foi aprovada a Lei Municipal de Agricultura. Estamos em um processo de regulamentação da lei e muito do que estamos tirando da discussão com a comunidade. Por exemplo, as hortas em calçadas. Em frente à Fazenda tem calçada e vamos trabalhar o conceito lá. A gente começa de dentro pra fora trabalhando práticas. É um trabalho de resgate, de regeneração do verde da cidade, dos biomas. Por isso o papel da abelha. Aí entram as frutíferas nativas, as bromélias, e vai trabalhando ações incrementais que vão surgir da própria comunidade, das universidade, dos chefs e aproveitando a própria estrutura urbana”, planeja.

    Além das ações escolares, outro passo é incrementar serviços sociais e de urbanização da cidade. “Ao mesmo tempo em que tem fome, tem desperdício de alimentos. Vamos trabalhar isso. Em outro campo, uma associação de condomínios nos procurou perguntando sobre hortas em terraços. Então, a gente vai gerando ações incrementais que surgem durante o processo e isso não tem limite”, pontua Gusi.

  • Entrevista

    Fundador do Festival de Teatro: 'liberal nos costumes e na economia, ninguém me representa'

    Fundador do Festival de Teatro: 'liberal nos costumes e na economia, ninguém me representa'
    Leandro Knopfholz: “ De um lado e de outro, acho que ´Lula Livre´ incomoda assim como ´Bolsonaro Mito´” (Foto: Henry Milleo)

    Criador do Festival de Teatro de Curitiba, administrador de empresas formado pela Universidade Federal do Paraná, Leandro Knopfholz, de 46 anos, enfrenta o período mais adverso de sua carreira. A Parnaxx, empresa da qual é sócio majoritário, que detém as marcas Fringe, Guritiba, Gastronomix, Risorama, Mish Mash, Tudo Improviso e uma série de outras na prateleira, hoje tenta reduzir sua dependência do Festival de Curitiba, “sem diminuir o festival, mas aumentando as outras”, e retomar apoio do Poder Público que míngua dia após dia.

    As consequências da “falta de organização” dos governos, segundo Knopfholz, vão de problemas com patrocinadores, que “se viciaram” em leis de incentivo, a desafios para lidar com a polarização política. Ele admite que “os 65% de recursos” (empresas patrocinadoras), que viabilizam o Festival, se incomodam com manifestações políticas nas plateias. “Atrapalha o todo. A gente já chegou em três ou quatro patrocinadores privados que falaram ‘que chata a manifestação política’ (…) ‘Lula Livre’ ou ‘Bolsonaro Mito’, também acho chato”, diz. Ele conta que aprendeu a acender as luzes como forma de inibir a agitação política. “No claro as pessoas não são tão corajosas”, explica. 

    Apesar disso, Leandro Knopfholz afirma que nunca abriu mão da liberdade de expressão nos espetáculos, condição que considera base de sua personalidade. “Se o espetáculo chamar ‘Leandro, vá tomar no c*’ - você (jornalista) não vai colocar isso (risos) - eu não tenho o poder de dizer que esse espetáculo está fora. (…) Se o cara (patrocinador) falar ‘eu quero fazer o Risorama, mas como sou contra Bolsonaro, não quero Danilo Gentili’, ou Lula e Gustavo Mendes, só como exemplo, sou capaz de abrir mão do patrocínio”, garante.

    Knopfholz é mestre em gestão de artes cênicas (Arts Menegement) pela City University, na Inglaterra, onde diz ter encontrado mentes o modelos que profissionalizaram seu trabalho 12 anos após já ter iniciado o Festival de Curitiba. Evitando falar em primeira pessoa, se refere sempre à empresa como responsável pelos feitos, Knopfholz atribui também a mentes curitibanas e condições locais a viabilidade do festival. “Se (o então prefeito) Jaime Lerner não tivesse oferecido acelerar a obra da Ópera de Arame para inaugurar a cobertura do primeiro Festival, a gente não teria acontecido”, lembra.

    Judeu, “ligado muito mais à cultura judaica do que especificamente a ritos religiosos”, casado há seis anos, pai de um filho de 5 anos, Knopfholz afirma que já pensou em desistir do festival “um milhão de vezes”, mas que uma vez mais pensou em continuar. “O Festival demorou 15 anos para zerar as contas. Vim pedalando (pagando dívidas do ano vigente com receitas do ano posterior)”, conta.

    Sua área de atuação, que “nunca foi fácil” de financiar, sofreu duros golpes nos últimos anos. Primeiro foi a gestão do prefeito Rafael Greca (DEM) que zerou, desde o primeiro mês de mandato, em 2017, os repasses municipais ao festival. No último ano de apoio, 2016, recebeu R$ 450 mil. Em seguida, cortes que já eram realizados pelo governo federal, em especial por meio da Petrobras, foram ampliados. A dependência de leis de incentivo à cultura, que é maior entre os grupos participantes do que do festival em si, também devem causar impacto na medida em que os contratos anteriores forem vencendo.

    Com tantos obstáculos nas relações políticas, incluindo animosidade do governo Jair Bolsonaro com a classe artística, Leandro Knopfholz mantém uma postura isenta. Nunca atacou a prefeitura, por exemplo, e evita falar no assunto. “Esse embate não serve pra nada”, diz.

    Ele já foi presidente da Fundação Cultural, entre 2006 e 2009, e lembra que sofreu ataques de grupos que viam “conflito de interesses” quanto ao fato de ele gerir a pasta enquanto sócio do festival, mesmo que licenciado, mas diz se orgulhar de sua atuação pública. “Vejo nos editais, que a Fundação está lançando agora, iniciativas que começaram na nossa gestão lá atrás”, afirma.

    Bem Paraná - Como surgiu o festival?

    Leandro Knopfholz - Hoje estou à frente dessa empresa que chama-se Parnaxx, de ativos criativos. Ela transforma ideias em valor. A empresa foi se moldando junto com a minha atividade profissional, não imaginei que ela seria assim e que chegasse 'aqui'. O fazer alimentou a estrutura, a estrutura alimentou o fazer. Começou em 1991, uma ideia que tive na Federal, de fazer um festival de teatro, tenho amigos que se tornaram sócios.

    BP - O Festival foi sua primeira produção?

    Knopfholz - Foi o Festival de Teatro de Curitiba em 1992, começando a gestá-lo em 1991.

    BP - Não havia uma empresa ainda?

    Knopfholz - A empresa surgiu porque surgiram patrocinadores e eu precisava emitir uma nota fiscal (risos). Não era uma empresa que cheguei a imaginar que chegaria aos seus 29 anos.

    BP - Como ela se chamava?

    “Nota fiscal” (risos). Brincadeira. Se chamava Festival. E com o tempo a década de 1990 foi de aprendizado. Trabalhei depois na Fundação Cultural de Curitiba e saindo da fundação fui agraciado com uma bolsa de estudos na Inglaterra e pude ter contato com outros profissionais que tinham atividade parecida comigo no mundo inteiro. E apenas naquele momento, portanto, 12 ou 13 anos depois que iniciei minha atividade comercial que percebi que aquilo era uma atividade que poderia ser padronizada.

    BP - Você se inspirou em algum outro festival para adotar como modelo?

    Knopfholz - Me lembro que a frase foi: “Curitiba deveria ter um festival de teatro assim como Gramado tem um festival de cinema”. Curitiba tinha salas, tinha público, mas não tinha oferta de espetáculos acontecendo no início da década de 1990. Várias coisas aconteceram nessa época. A empresa ganhou licitação para participar do festival de Joinville, por exemplo. Meu ex-sócio continua tocando lá. Ou seja, há mais de 20 anos essa mesma estrutura, mesmo que ramificada, está no Festival de Dança de Joinville. Em 1996, a gente começou a trabalhar com a Companhia de Dança Deborah Colker, fazendo vendas internacionais para seus espetáculos, que é uma coisa também absolutamente nova. Entre 2001 e 2004, fui para Fundação Cultural, acho que levando algumas ideias que o Poder Público não encampava até então e que até hoje perduram. Vejo nos editais que a Fundação está lançando agora foram iniciativas que começaram na nossa gestão lá atrás. Mas a sensação que eu tinha é que minhas ideias eram esparsas, “não embalável”. Meu curso na UFPR foi administração e era muito comum, pelo menos na época, o aluno ser preparado para tocar uma indústria, um comércio e não uma empresa de entretenimento.

    BP - Você ia ao teatro, era um consumidor de arte que uniu o que gostava com o projeto profissional?

    Knopfholz - Eu gostava de assistir teatro. De arte em geral. Sim (uni), mas nunca imaginei na primeira edição que isso se tornar a atividade da minha vida. Tanto que o festival terminou em março de 1992 e eu fui passar um ano em Israel, um plano que eu tinha bem antes da iniciativa do Festival. Larguei a empresa nas mãos dos sócios e não sabia se haveria segundo festival. Quando vi que ocorreu o segundo, o terceiro e o quarto, percebi que “quase cheguei lá (rentável ou sustentável)”. O Festival demorou 15 anos para zerar as contas, por incrível que pareça. Vim pedalando. Mas percebi, assim, que se vendesse mais ingressos daria certo. Foi em 2007 (que zerei as contas). Mas eu sempre pensava “se aquele patrocinador tivesse saído, se aquele espetáculo tivesse entradas a mais, vendido mais ingressos”, etc. Sempre uma situação que era resolvida em um ano, mas não era resolvida em outro.

    BP - Você atua como intermediário de patrocinadores com as companhias e grupos. É difícil de lidar com tantos grupos?

    Knopfholz - É sempre com diálogo, com a verdade. Já emprestei dinheiro dos meus pais, já emprestei dinheiro de amigos, de banco, de próprio fornecedor que ficou pendurado durante um ano antes de receber. Já fiquei devendo para companhia. A gente hierarquiza. Quem é que menos pode esperar?

    BP - Quanto vale o Festival de Teatro hoje? Qual é o 'passe' do festival?

    Knopfholz - Não tenho ideia. Nunca fiz esse valuation (Avaliação de Empresas). Não vou mentir que não é uma coisa que eu não pense enquanto tomo banho, fico pensando “olha, quando eu for parar, qual meu patrimônio hoje?”, apesar de ser menos mensurável do que achava antes de ir para a Inglaterra. Lá percebi que existiam mercados sustentáveis dentro dessa cadeia. Um show de música, por exemplo, com a cambalhota que o entretenimento deu (em razão da mudança no consumo de música causada pela tecnologia) cada vez mais a relação ao vivo com o artista passou a valer mais (artistas ganham com shows e não com discos ou CDS). O entretenimento ao vivo passou a ser o cerne da atividade. Nas artes cênicas é um pouco mais complicado, especialmente no Brasil. O mercado de música sertaneja é um que se resolve na bilheteria. Gastronomia, música eletrônica, mercado editorial se resolve na venda de livros. O mercado de artes cênicas, infelizmente, não se resolve na venda de ingressos. Ele depende do patrocínio.

    BP - Como você capitalizou o festival sem perder a essência da arte, sem “industrializar” a cultura?

    Knopfholz - O mercado das artes cênicas começou a se respaldar muito no patrocínio, que por sua vez se respaldou muito nas leis de incetivo. Isso fez com que as empresas se “viciassem” nesse modelo. Elas só patrocinam se for incentivado. O Rock n Rio, por exemplo, já foi incentivado, mas hoje não é mais. Mas ele é um bom negócio. As empresas vão lá e patrocinam. O Festival de Teatro depende 20% de receitas próprias (bilheteria) e 80% de receita de patrocínio. Desses, 65% são via lei de incentivo.

    BP - Sem considerar os grupos que tem seus próprios projetos baseados em leis de incentivo?

    Knopfholz - Exatamente. Isso é o custo para trazer o espetáculo. Provavelmente o espetáculo que estamos contratando também dependeu da lei de incentivo na outra ponta, para existir. As leis são oscilantes. A Lei Rouanet nasceu em 1993 e era para viger por 10 anos. A ideia era acostumar as empresas a patrocinar e depois de 10 anos elas não precisariam mais de incentivo fiscal. Aconteceu o contrário. Elas se viciaram nisso. Em 2003, o governo foi lá e renovou por mais 10 anos, com o mesmo discurso, de as empresas se acostumarem e depois disso “a gente desmama”, entre aspas. Em 2013, foi feita uma pressão e ela foi assinada para viger para sempre. A lei surgiu como incentivo ao mercado, ao negócio. Ela tem duas ferramentas, o mecenato e o fundo. O fundo incentivaria a pesquisa e a arte que não visa o mercado e o mecenato visaria o patrocínio, a visibilidade, a projeção. De 2003 até hoje começou-se a tentar mudar a lei, em vez de criar uma nova, por meio de instruções normativas. Foram mudando mecanismos da lei e foi virando um grande Frankenstein. A lei nasceu para o mercado. Não nasceu para a área social. Então, voltando à pergunta, acho que nossos ativos valem muito, mas por causa dessa oscilação que vale para Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro, ficou instável. A instrução normativa vale a partir da assinatura. A reforma da previdência, sem juízo de valor, se gosta ou não, mas ela tem uma regra de transição, permite que as pessoas se programem. A instrução normativa, todas as que foram editadas, assinou, mudou. Então, por causa dessa precariedade na base que sustenta eu não sei dizer o valor que a gente tem pro mercado. Sei que nossos ativos são valiosos. A gente tem o Festival de Teatro, o Fringe, o Guritiba, o Gastronomix, o Risorama, o Mish Mash, Tudo Improviso e uma série de outras na prateleira.

    BP - Patrocinadores interferem ideologicamente do Festival?

    Knopfholz - Para que o comércio não invada a programação artística, acho que isso é um aprendizado adquirido em quase 30 anos, que a gente aqui preserva. A curadoria da mostra do Festival de Teatro tem a liberdade total de escolher os espetáculos dentro de um discurso específico.

    BP - Quais são os critérios, por exemplo?

    Knopfholz - Nos últimos anos tivemos, por exemplo, os 'limites do corpo'.

    BP - Por causa da polêmica envolvendo o espetáculo Macaquinhos (polemizado a partir de apresentação em São Paulo, em que foi exposta a exploração do ânus entre os atores)?

    Knopfholz - Não, pelo menos assim eu não entendo. Limites do corpo é, por exemplo, um espetáculo que a gente trouxe de um cidadão portador de paralisia cerebral, com cadeira de rodas, atores idosos. Como esse ator se movimenta no palco, memoriza um texto? A gente trouxe espetáculos que tem a ver com diversidade de linguagem. E essa discussão não passa na venda de patrocínio. A nossa postura faz também com que o patrocinador não invada. A gente não tem nenhum tipo de restrição ideológica, política e de linguagem.

    BP - A curadoria tem critério próprio relacionado à política, por exemplo?

    Knopfholz - Eles, pessoa física, evidentemente têm, posições pessoais. O Festival não pretende ter. A gente gosta sempre de contrapontos. Se trouxe uma coisa radical de um lado, traz uma coisa radical de outro. A gente não quer se posicionar. A gente quer um festival para todos. Pense vermelho, pense azul, pense alto, pense baixo. É um festival para todos. E isso é um pouco do reflexo desta casa, da nossa empresa. No limite do individualismo, pode tudo aqui e a gente convive muito bem com diferenças.

    BP - Na Inglaterra, após conhecer pessoas e modelos, você encontrou mentes também em Curitiba responsáveis por algum fator do modelo adotado por você? Você considere Curitiba um terreno fértil para isso?

    Knopfholz - Se (ex-prefeito) Jaime Lerner não tivesse oferecido acelerar a obra da Ópera de Arame para inaugurar a cobertura do primeiro festival a gente não teria acontecido. Foi preciso ter uma mente como o cara. Se Sergio Reis, então diretor de marketing do Bamerindus, não tivesse acreditado na ideia. Hoje se fala muito em “inovação”, apostar no novo, na gurizada. No tempo em que não era moda e não se falava esses caras foram lá e apostaram na gurizada. Eu tinha 17 para 18 anos. O nosso mais velho tinha 26 anos. Hoje, aqui, a gente tem essa gurizada. Eu, com 46 anos, de certa forma começo a calcificar. Faço um esforço enorme para não ser esse Jurássico desclassificado. Eu preciso me alimentar muito do que vem do novo. O exemplo que tive lá atrás me alimenta para fazer isso (apostar na juventude).

    BP - Você só trabalhou e trabalha com a Parnaxx?

    Knopfholz - Empreendi em outras áreas. Sou sócio de uma cervejaria local, chama-se Way Beer, sou sócio de um bar chamado Quintal do Monge, sócio de uma produtora de cinema no Rio de Janeiro e por aí vai.

    BP - Sempre ligado ao entretenimento, arte e lazer?

    Knopfholz - O deus do álcool é o mesmo deus do teatro. Para os gregos é Dionísio, para romanos é Baco. Então, eu ajoelho para a mesma santidade nesse caso. Mas o que eu gosto mesmo é de ideias.

    BP - Os patrocínios da Petrobras que foram bastantes importantes. Um corte do governo comprometeu diversos festivais, eventos e grupos no País. Qual é o impacto disso e o planejamento para o festival?

    Knopfholz - A gente não tem o patrocínio da Petrobras há dois anos. Algumas companhias que trabalham com a gente têm, tinham. Sem dúvida isso vai impactar. Pelo que sei estão cumprindo os contratos e não estão renovando. O festival teve nos últimos anos uma média de 400 espetáculos. Não acho que a gente vai ter menos espetáculos por causa da Petrobras. A grande maioria dos espetáculos está no Fringe e esses já não contam com patrocínio da Petrobras. Os espetáculos que eram patrocinados pela Petrobras são de companhias mais estáveis convidadas para a Mostra, que tem em média 30 espetáculos. Ainda não é o caso de algum espetáculo deixar de acontecer. Os contratos ainda vão vencer. O contrato com o grupo Corpo ainda vige, Armazém ainda vige e Deborah Colker ainda vige. Vão deixar de viger na metade de 2020. Aí, sim, haverá um impacto maior.

    BP - A Prefeitura de Curitiba também retirou seu patrocínio nos últimos 3 anos. Qual o impacto disso? A prefeitura ainda “usufrui” do festival de alguma forma?

    Knopfholz - Representa 10% do valor do Festival. Veja, a gente faz o Festival “de Curitiba”, que tem mais de 10% do público que vem de fora da cidade, então tem impacto pro turismo comprovado em estatística que vem da própria Secretaria de Turismo. Afirmou inclusivo em evento do Sebrae que é o evento (o festival) que mais traz turistas para a cidade. Recebo sempre essa notícia do “não” com certa indignação.

    BP - Todo ano tem uma renegociação?

    Knopfholz - Todo ano eu tento uma renegociação, como neste ano estou tentando e vamos ver se a administração pública é sensibilizada pelos meus argumentos.

    BP - Para você, por que a prefeitura cortou o repasse?

    Knopfholz - O argumento deles para cortar é impublicável (risos). Eles é que devem responder isso.

    BP - Com tantas dificuldades hoje, em razão do contexto político e econômico do país, você vê com os mesmos olhos o mercado das artes cênicas que via quando começou?

    Knopfholz - O contexto é absolutamente outro. A gente tem um desafio diário aqui. Quando a gente começou a fazer o Festival em 1991, conseguir o telefone de alguém (político) era uma comemoração, deixar um recado numa secretária eletrônica (era uma comemoração). Lembro que uma vez liguei para (Antonio) Fagundes, estava falando com a secretária eletrônica e de repente ele atendeu. Eu não sabia nem o que falar porque estava preparado para deixar um recado na secretária. Nossa aquisição maior em 1991 foi uma máquina de fax. Hoje o desafio é expandir o festival para uma plataforma para o Brasil e o mundo. O que acontece aqui tem que reverberar fora, através de streaming, de notícia, de conteúdo gerado, de relacionamento, de possibilidades de encontros. Nesse contexto, vejo um mundo inteiro pronto para ser desbravado. É um desafio enorme conciliar o recurso do patrocinador com a entrega necessária. O primeiro espetáculo teve 12 espetáculos de teatro e dois de rua. Hoje acho que é o maior da América Latina. Temos dados que mostram que é o maior, seja com apresentações públicas, privadas, atrações. Duração não sei dizer. Tem uma associação internacional de festivais que ranqueia os festivais.

    BP - Você já pensou em desistir?

    Knopfholz - Um milhão de vezes. Só que pensei um milhão e uma vez em continuar.

    BP - O festival, como você disse, se pagou pela primeira vez em 2007. Como está hoje?

    Knopfholz - Está bem. Hoje, a Parnaxx, que é a empresa que detém os ativos todos, incluindo o Festival, que trazem contribuição para a empresa. Emprega 22 pessoas. O Festival tem uma importância enorme na Parnaxx. É uma intenção nossa diminuir essa dependência, sem diminuir o festival, mas aumentando os outros.

    BP - Você atua politicamente? Você já foi filiado a algum partido?

    Knopfholz - Político-partidário, não. A gente conversa com todas as cores. Não fui (filiado a partido), não sou e nunca serei. Minhas convicções ideológicas são muito simples, que é 'o cidadão tem que ser maior que o Estado e o Estado tem que só organizar e não atrapalhar'.

    BP - Direita ou esquerda, já que hoje quase todos são taxados?

    Knopfholz - Não me enquadro em lugar nenhum. Me vejo um liberal na área econômica, mas também um liberal nos costumes. Aí ninguém me representa, porque quem é liberal na economia é conservador no costume e vice-versa. Então, na política ninguém me representa hoje. Para mim, libera tudo. Casamento, todo mundo pode casar, quem quiser, enfim. O indivíduo, na minha opinião, é responsável por si. Se ele não atrapalhar o outro que faça o que quiser. Claro, que se 'atrapalhar' o outro tem que ter um organizador disso que é o Estado.

    BP - Como você vê os recentes embates entre agentes público e políticos, como o recente em que o diretor da Funarte (Roberto Alvim) xingou Fernanda Montenegro, 90 (de 'sórdida' e 'mentirosa')?

    Knopfholz - Eu acho que atrapalha o todo. Sem nenhum viés político-partidário (da minha parte). Foi comum ver no festival nos últimos anos quando apagam a luz (do teatro) vem “Lula Livre” ou alguma coisa assim. A gente já chegou em três ou quatro patrocinadores privados que falaram “que chata a manifestação política”. Não estou falando que é chata em si, talvez se o cara tivesse gritado “viva Bolsonaro” também seria chato, eu também acho chato. Quanto eu trabalhava na Fundação Cultural, a gente fez a Oficina de Música, e o (então prefeito) Jaime Lerner foi fazer um discurso e as pessoas vaiaram Jaime. A sala estava escura. Depois disso, aprendi que você não deixa a sala escura. No escuro as pessoas ficam corajosas, já no claro já não são tanto assim. Eu acho, quando você vai a uma sala de teatro assistir a um espetáculo para você e não para os outros que não é o lugar de uma manifestação anônima dessas. Não acontece no cinema, não acontece no restaurante. Pelas manifestações do mercado, incomoda, sim, os nossos 65% de recursos que estão sendo incomodados com essas manifestações. De um lado e de outro, acho que “Lula Livre” incomoda assim como “Bolsonaro Mito”.

    BP - Vocês impõem alguma limitação política aos grupos?

    Knopfholz - Não, de maneira nenhuma. As gente faz o Fringe, que tem duas restrições. Uma é que 80% dos participantes têm que ter registro profissional, num acordo que a gente fez com o sindicato, e a outra é que a gente não quer proselitismo religioso. Se o espetáculo chamar-se “Leandro, vá tomar no cu”, você não vai colocar isso, eu não tenho o poder de dizer que esse espetáculo está fora. Se ele quer falar isso, tem que ter a liberdade.

    BP - Como o espetáculo “Pornô Gospel” (que é independente), por exemplo, que já causou polêmica por causa do nome?

    Knopfholz - Na minha opinião, tem que ter a liberdade. Tanto que a gente fez questão, a gente pegou três caras que haviam sido censurados e montou o espetáculo. O (performer) Wagner Shvartz, que foi aquela história do museu (de Arte Moderna de São Paulo em 2017, em que o artista foi atacado nas redes sociais por sua performance ‘La Bête’ em que o público poderia tocá-lo nu), o Menino da Bolha em Brasília, e a Transexual (Renata) no Interior de São Paulo, do “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, que os três tiveram seus espetáculos censurados. Numa iniciativa nossa, a gente falou 'vamos chamar os três e dizer façam o espetáculo'. A gente não disse nada, só 'façam o espetáculo'. Sabe o que eles fizeram? A gente acho superinteligente, super sutil. Eles pegaram um retrato da Monalisa e cada um dos três entrou lá e disse o que entendia daquele retrato como uma manifestação de liberdade de opinião. Se a gente tem alguma função política, acho que é essa (dar liberdade). Houve censura e eu achei errado. O que o Festival deveria fazer? Era dar oportunidade para que eles falassem o que eles pensavam. Funcionou e representa muito do que a gente pensa (sobre liberdade).

  • Festival de Balões de Ponta Grossa

    Vila Velha pode ter passeio de balão como ocorre na Capadócia

    Vila Velha pode ter passeio de balão como ocorre na Capadócia
    (Foto: Cappadocia Wallpapers)

    Principal sítio geológico dos Campos Gerais do Paraná, o Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa, deve ganhar passeios de balões como uma de suas atrações. Com o projeto de concessão do parque em tramitação, a ideia do governo é que com a aprovação uma empresa que assuma o espaço inaugure o passeio permanente de balão nos moldes do que ocorre na Capadócia, na Turquia. A região guarda semelhanças com Ponta Grossa em razão das “chaminés de fada”, altas formações rochosas em formato de cone agrupadas no Vale dos Monges, em Göreme.

    Para fomentar a ideia de concessão e do voo permanente de balões pelo município, a prefeitura promove neste domingo o primeiro “Festival de Balões de Ponta Grossa”. Ao todo, serão 15 balões que farão uma revoada na região do parque.

    O prefeito de Ponta Grossa, Marcelo Rangel (PSDB), lembra que o balonismo na região seria uma das atrações mais adequadas em razão principalmente da vista da Escarpa Devoniana. “Nosso governador determinou que nossa linda Vila Velha tenha balonismo, como acontece na Capadócia, na Turquia, com as vistas mais lindas da Escarpa Devoniana e dos Arenitos”, publicou o prefeito em sua conta no Twitter.

    Segundo o secretário municipal de Turismo de Ponta Grossa, Edgar Hampf, o festival servirá para que o município perceba como pode ser feito um sistema de revoadas permanente no parque. “A revoada é uma maneira de a gente fomentar a discussão e mostrar como é a ideia”, diz.

    Na revoada experimental, apenas os profissionais baloeiros e os integrantes de clubes de balonismo cadastrados poderão voar. Para ver a revoada, o evento não cobrará ingressos na área. A primeira leva de voos será às 7h30 e a segunda, às 16h30 deste domingo. Qualquer pessoa pode acompanhar. O parque, porém, tem capacidade máxima de visitação de 800 pessoas. Para visitar outras áreas, como as furnas ou arenitos, a cobrança de ingressos é normal, como ocorre todos os dias. “Para o festival não tem cobrança nenhuma”, reforça o secretário.

    O projeto de concessão do Parque Vila Velha prevê a utilização de uma área pré-estabelecida à iniciativa privada para desenvolver atividades de uso público, como turismo e hotelaria. O objetivo é melhorar os atrativos e estruturas do parque para que aumentar o número de visitantes. A concessão, no entanto, não desobriga o Instituto Ambiental do Paraná (IAP), órgão administrador do parque, de monitorar se a gestão obedece a preservação do local.

    Atração para turistas e empresas

    O Parque Estadual de Vila Velha passa por um processo de concessão pelo governo do Estado e o evento com balonismo servirá para que as empresas interessadas em investir no parque vejam todo o potencial turístico do local. O prefeito Marcelo Rangel comemorou a confirmação do evento em suas redes sociais. “Conseguimos e está confirmado! Ponta Grossa terá Festival de Balões na Vila Velha. Dia 13 de outubro, domingo, com entrada franca na Vila Velha. Ponta Grossa é turismo”, ressaltou o prefeito.

    Com a concessão do parque, outras novas atrações são vislumbradas pelo prefeito e sua equipe, como além do balonismo, o arvorismo, fotografia de natureza, caminhadas, campo de desafios, cicloturismo e mountain bike, observação da vida selvagem, acampamento e glamping (acampamento glamouroso). Outras propostas nessa linha também poderão ser exploradas, como eventos técnicos, religiosos, esportivos e de lazer, flutuação na Lagoa Dourada, espaços interativos, museu, rapel, elevador em Furnas e hospedagem (hotel, pousada, hostel e glamping).

    Cerca de dez empresas já procuraram a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo manifestando interesse pelo processo de licitação para a gestão do Parque Vila Velha. O edital do processo de concessão foi publicado em 5 de setembro, dirigido a empresas interessadas em investir na melhoria da estrutura do parque e do seu entorno, potencializando os atrativos turísticos do local. A abertura da licitação ocorrerá em sessão pública marcada para o dia 23 de outubro, às 9h30, no auditório da secretaria, em Curitiba. O prazo estimado para a empresa assumir a gestão do parque é de 120 dias, a partir da data de abertura dos envelopes com as propostas.

    O valor do contrato chega a R$ 9,8 milhões e corresponde ao montante de investimentos mínimos a serem realizados pela concessionária durante o prazo de vigência da concessão de uso, prazo este que é de 30 anos podendo ser prorrogado. Caberá à concessionária o pagamento mensal de outorga ao Estado, sobre sua receita operacional bruta. “O objetivo da concessão é chamar mais visitantes para a unidade, que é uma das principais atrações turísticas do Paraná”, disse o secretário Márcio Nunes.

    SAIBA

    Vila Velha

    Criado em 1953, para preservar as formações de arenito e os campos nativos do Paraná, o Parque da Vila Velha é tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Estadual e tem mais de 3 mil hectares. Considerado o principal atrativo natural de Ponta Grossa, é composto por três principais atrações: Arenitos, que são formações rochosas que apresentam formas variadas, como a “taça” e o “camelo”; as Furnas e Lagoa Dourada que tem este nome porque as suas águas ficam com uma coloração dourada quando reflete a luz do Sol.

    Para visitar o parque atualmente, os visitantes precisam do acompanhamento de guias de turismo credenciados para entrar. O atendimento é feito por ordem de chegada e os turistas são reunidos em grupos de 20 a 46 pessoas. Grupos maiores de 15 pessoas precisam de agendamento prévio com antecedência de 10 dias.

    Às segundas, quartas e quintas como o Parque tem visitação restrita, os guias ficam aguardando na portaria os visitantes para fazer a visita individual ou em grupo, pagando o valor de R$180,00 para o guia (valor que pode ser dividido por quem estiver presente para fazer a visita), mais R$18,00 da visitação no Parque, sendo utilizado o carro do guia ou condução própria no atrativo.

    Sexta, sábado e domingo o parque funciona normalmente para visitação com a estrutura do Parque, onde o guia recebe os grupos na recepção e o valor da visita com o guia fica R$28,00. O passeio inclui os Arenitos, as Furnas e a Lagoa Dourada.

    Grupos maiores de 15 pessoas devem agendar a visita com no minimo 10 dias de antecedência pelo e-mail: pevilavelha@iap.pr.gov.br. e fazer a contratação do guia pelo e-mail: agendamentongtur@gmail.com.

  • TRE

    TRE indica que erro de procedimento anulou eleições para conselhos tutelares

    TRE indica que erro de procedimento anulou eleições para conselhos tutelares
    (Foto: André Cruz / Agência Brasil )

    Inconformidade da foto de candidatos em urnas eletrônicas; relatório com formulário de ata sem qualquer anotação; mídia de memória de uma urna que dá o resultado de outra; e violações nos envelopes foram os problemas apontados pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Curitiba (Comtiba) para justificar a anulação das eleições para conselheiros tutelares na Capital. Um novo cronograma para eleição deve ser divulgado até esta quarta-feira (9). No Paraná, as eleições também foram canceladas em Campo Largo, na região metropolitana da capital; em Paranaguá, no litoral; em Ivaí, nos Campos Gerais; e Ivaté, no Noroeste.

    O Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) atribui os problemas que levaram ao cancelamento das eleições a "procedimentos adotados" pela delegação do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente nos municípios. Em nota oficial redigida nesta segunda-feira (7) (veja a íntegra), o TRE lembra que a Justiça Eleitoral apenas empresta urnas eletrônicas ou urnas de lona para a realização de eleições comunitárias.

    De acordo com o TRE, a definição do processo eleitoral, a organização e a realização do pleito são de responsabilidade das comissões eleitorais dos conselhos municipais.

    Em Curitiba, a entidade responsável pela organização do pleito é o Comtiba, que justificou o cancelamento em comunicado oficial (veja a íntegra) divulgado na noite de domingo (6). Um dos problemas é relacionado à foto que aparecia nas urnas em inconformidade com a dos candidatos. Os registros de inconformidades teriam ocorrido nas regionais Boqueirão, Bairro Novo, Cajuru, Pinheirinho, Santa Felicidade e Tatuquara.

    O Comtiba afirmou que o problema gera "insegurança em todo o processo eleitoral". Com isso, o conselho decidiu "anular os processos de sufrágio nas 10 regionais de Curitiba; comunicar até quarta feira (09/10/19) um novo cronograma para eleição".

    Outro problema foi registrado na "urna 186" em que "o envelope foi entregue apenas com o relatório das zerezimas (nome dado ao relatório emitido pelo sistema de computação das urnas eletrônica) e apresentando o formulário de ata assinado pela presidente e mesários, sem qualquer anotação". De acordo com o Comtiba, "a mídia de memória foi retirado desta urna e testado em uma urna de contingenciamento (JE 2010) na presença da representante da OAB: Dra. Bruna Saraiva, às 20h13min, e constatado que a mídia de memória da 186 dá o resultado da urna 169". Também foram constatadas "violações nos envelopes" das seções 231, 241 e 213 da regional do Portão e seção 133 da regional CIC.

    Os problemas relatados foram registrados e o documento assinado também pela promotora Fernanda N. Garcez, representante do Ministério Público (MP) na comissão.

    Crimes eleitorais

    O MP afirmou que recebeu denúncias de irregularidades diversas, não relacionadas ao cancelamento das eleições, e que vai apurar os casos. A promotora Luciana Linero destaca que o MP segue aberto para receber eventuais notícias de irregularidades ocorridas nas eleições realizadas no domingo. "Podem ser reportados problemas nas urnas eletrônicas ou nas cédulas de votação, casos de boca de urna, transporte indevido de eleitores, compra de votos, propaganda de candidatos em eventos religiosos (como missas ou cultos), entre outras situações" (clique aqui e encontre a Promotoria de sua cidade para noticiar).

  • CRIANÇAS E ADOLESCENTES

    Eleitores vão às urnas neste domingo para escolher conselheiros tutelares

    Eleitores vão às urnas neste domingo para escolher conselheiros tutelares
    Conselheiros agora podem tentar reeleição ilimitada (Foto: Franklin Freitas)

    Narley Resende

    Marcada por intensa disputa política, a eleição para mandatários de conselhos tutelares de Curitiba é neste domingo (6). As regras e a data são as mesmas para todo o Brasil, regulamentadas pelo Ministério Público Estadual (MPE) e Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Em Curitiba, 196 pessoas concorrem a 50 vagas para conselheiros titulares e 50 vagas para suplentes. A eleição dá direito a ocupar o cargo por quatro anos, entre 2020 e 2023, com um salário de R$ 4.684,66 para atuação exclusiva de 40 horas semanais. O conselho tutelar é previsto no ECA (Lei 8.069/1990) como órgão permanente e autônomo, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. São cinco mandatários por unidade do conselho.

    No Paraná, hoje, todos os 399 municípios realizam a eleição. Ao todo, são 427 conselhos tutelas. Entre as capitais do País, Curitiba foi a última capital que implantou o processo eleitoral. Esta é a quinta eleição consecutiva. O presidente da Fundação de Ação Social (FAS) Thiago Ferro, da Prefeitura de Curitiba, lembra que neste ano a prova aplicada para qualificar os candidatos em Curitiba foi elaborada pelo Núcleo de Concursos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e não pela FAS, como era até o ano passado.

    “Fizemos um processo seletivo bem mais rigoroso neste ano, justamente por causa da responsabilidade do cargo, que é trabalhar com crianças. A UFPR foi para trazer isonomia no processo. O Comtiba (Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Curitiba) é quem regulamenta e organiza”, lembra.

    Qualquer pessoa que possua título de eleitor válido pode votar, desde que esteja em situação regular perante a Justiça Eleitoral até 28 de junho deste ano, data em que as urnas eletrônicas foram fechadas, preparadas para o pleito. O local de votação é em uma das regionais da cidade que esteja mais próxima da zona eleitoral do cidadão. O TRE cede os sistemas de votação e as mídias, realiza a preparação das urnas, o treinamento dos mesários e do pessoal de suporte à urna eletrônica. Os conselhos tutelares, por sua vez, ficam responsáveis por entregar à Justiça Eleitoral os dados referentes aos candidatos, selecionar os membros das mesas receptoras e realizar a totalização das eleições nos municípios com menos de 200 mil eleitores.

    Para garantir transparência, o processo conta, desde o início, com fiscalização do MP e participação de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil Seção do Paraná (OAB-PR).

    Cada eleitor deve votar em sua regional (Veja locais abaixo). No site da FAS tem a lista de candidatos, em PDF.

    "Nota Explicativa 25 traz lista de candidatos aprovados na prova, com CPF e RG. Nota Explicativa 14 traz número de votação dos candidatos".

    Igrejas e políticos se impõem na corrida

    A disputa política envolve a participação de igrejas, principalmente evangélicas e católicas; partidos políticos; associações de bairros; conselhos de segurança; organizações não governamentais, entre outras entidades. No caso das igrejas, a disputa é tão intensa que levou o Ministério Público do Paraná a editar uma norma para proibir que padres e pastores utilizem o altar para pedir votos, “prática muito comum até hoje”, segundo a conselheira tutelar Jussara Gouveia, que atua na área há 20 anos. A norma passou a valer para a eleição deste ano.

    Jussara, de 55 anos, afirma que muitos atuam de maneira irregular. “O MP proibiu de pedir voto no altar, mas pode fazer campanha fora da igreja. Neste ano já houve uma denuncia. Um padre foi gravado pedindo voto no altar. Estamos pedindo para que as pessoas gravem e denunciem, porque o conselheiro tem que ser muito sério, muito ético, é para trabalhar com crianças e adolescentes”, apela. 
    Historicamente os candidatos e eleitos vêm também de associações de moradores, “muitas vezes pouco qualificadas para exercer a função”, diz Thigo Ferro. “Isso (de não ser qualificado) não vale mais, 'apenas exercer uma liderança', tem voto, mas precisa ter um conhecimento do ECA”, diz.

    Pastor evangélico e vereador licenciado, o presidente da FAS confirma que sua igreja está envolvida no processo, “como sempre esteve”, mas que não há qualquer tipo de favorecimento ou conflito de interesses. "Exatamente por ser presidente eu não participei. Alguns vereadores me procuraram, são ligados ao segmento evangélico e me disseram que estão acompanhando. A preocupação do segmento evangélico é natural, porque está ligado ao cuidado com a criança. Mas não sei como faria uma mobilização dentro de uma igreja até porque é abuso de poder. O líder evangélico pode participar, mas não usar a igreja assim. A Sol da Nossa Terra (igreja da qual Ferro faz parte) historicamente participa de processos eleitorais como instituição, inclusive conselhos de segurança, mas não houve nenhuma normativa (para induzir fiéis eleitores)”, garante.

    A conselheira Jussara Gouveia confirma que é ligada à Igreja Católica, a um partido político, a políticos em si e a movimentos sociais. “Sou ligada a tudo isso, partido (PSOL), vim das pastorais, fui da antiga Juventude Operaria Cristã, sou de esquerda, movimentos das mulheres”, confirma. “E acho que é assim que tem que ser”, reforça Jussara.

    Ela pondera que ter origem em uma instituição, mesmo sendo democrática e legítima a participação, “não dá licença” para que o conselheiro eleito use do cargo para impor sua ideologia. “Tem que seguir a lei, o ECA e o que a lei diz que são os direitos. Não pode na prática de trabalho levar ideologia religiosa. Sindicato, partido, igreja, pode e deve participar, é claro”, pontua.

    A conselheira decana conta, entretanto, que a função exige dedicação e resistência dos mandatários. “Tem saído muita militância dos conselhos. É muita demanda e cansa também. Você lida com abuso, falta de vagas, violência e falta de politica pública para dar a retaguarda necessária. A saúde mental dos nossos adolescentes está abalada, uma gama muito grande de jovens de automutilando, deprimido, violento. Coisas que tinha tanto antes. Falta de tudo aqui no conselho. Estou há mais de 20 anos, não que eu tenha perdido a esperança, não perdi, é porque cansa, mesmo, a demanda só continua. A comunidade pensa que você é responsável pela politica pública que não é adequada. Mas eu acredito no conselho, eu acredito no estatuto. Já caminhamos bastante, mas temos bastante para caminhar”, avalia.

    A conselheira também reclama do que considera baixa divulgação e pouco estímulo à participação da sociedade. “Aumentou, mas pouco o número de eleitores. A divulgação é muito pouca, tenho medo até que diminua o número de eleitores, o que é ruim. (Na última eleição) pouco mais de 20 mil pessoas votaram (em Curitiba). Em um universo de 2 milhões de habitantes, é muito pouco. Tem municípios em que 80% da população vota”, conta.

    O cientista político Emerson Cervi, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ressalta que a eleição foi destacada das funções partidarizadas. “A ideia de eleger conselheiros tutelares de forma direta, mas dissociada de outras eleições, teve o objetivo de dar um caráter democrático para a função, sem partidarizá-la. Parece que com o passar do tempo a sociedade está se interessando mais pelos conselhos tutelares. Veja que no caso de Curitiba, teremos na média quase 4 candidatos por vaga. Isso é maior que a última média nacional de candidatos a prefeito, que foi de 3 por vaga na média brasileira. Então, isso é bom”, avalia.

    Cervi ressalta que o processo independente não garante ocupação técnica das vagas. “O fato de não termos envolvimento direto de política partidária nas eleições para conselhos tutelares não garante que técnicos ou profissionais da área sejam os eleitos. A possibilidade de termos o envolvimento direto de pastores ou igrejas indicando e apoiando candidatos é preocupante, pois trata-se de uma função muito sensível, por tratar da infância. Precisa ser por princípios técnico-científicos e respeito ao ordenamento jurídico, embora estimule uma ação por posicionamentos ideológicos. Isso é ruim”, pontua.

    Reeleição divide opiniões

    Neste ano, de acordo com o presidente da FAS, Thiago Ferro, o processo seletivo está sendo especialmente “tumultuado”, em razão de mudanças no processo. Foi sancionada em maio pelo presidente Jair Bolsonaro uma lei que alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para permitir a reeleição ilimitada de conselheiros tutelares. Antes da nova lei, o ECA permitia a recondução ao cargo por apenas uma vez.

    “Foi um pouco tumultuado porque houve um decreto (sic) do governo federal, sobre ter ou não ter reeleição, por isso foi mais curto (o tempo de organização da eleição em Curitiba)”, diz.

    Na regional Matriz, por exemplo, quatro dos atuais conselheiros disputam reeleição após a nova regra.

    Com quatro mandatos não-consecutivos de experiência, Jussara Gouveia diz ser contrária à lei que permitiu reeleição ilimitada para conselheiros. Ela decidiu não se candidatar neste ano. Hoje, além de conselheira na Regional Pinheirinho, em Curitiba, ela é vice-presidente da Associação Estadual de Conselheiras Tutelares. É também presidente de honra da entidade, por ser a mais antiga. “Não defendo mandatos consecutivos (no conselho tutelar). Vicia muito a pesa, têm muitos problemas que a gente vê todos os dias e que precisam de energia nova para ser enfrentados. Precisa ter uma renovação sempre, senão fica muito parecido com mandato de vereador. Cansa muito porque no fim quem manda é o prefeito e tem que ter energia”, afirma.

    Além de aprimorar o processo seletivo de candidatos, uma das preocupações é o da formação continuada. Hoje é responsabilidade da prefeitura oferecer cursos aos conselheiros. “Temos uma proposta de uma sala de conselho para que escolas estaduais e ao menos uma local pudessem dar formação continuada”, afirma a presidente da associação dos conselheiros.

    Conselheiros tutelares - Trabalham para garantir os direitos de crianças e adolescentes que sofrem violações, entre elas negligência e violências física, emocional e sexual

    Vagas - 50 vagas para titulares e 50 vagas para suplentes. Em 2019, são 196 candidatos aprovados em processo seletivo

    Mandato – Subsídio de R$ 4.684,66 por mês para mandato de 4 anos com possibilidade de reeleição ilimitada. Sem outros benefícios

    Quem fiscaliza – MP, TRE, Comtiba, FAS, OAB e associações de conselheiros

    Eleição – Qualquer cidadão com título de eleitor pode votar e qualquer cidadão pode se candidatar, observadas as datas limite e regras do edital.

    Locais de votação

    Bairro Novo
    Escola Municipal Bairro Novo do CAIC Guilherme Lacerda Braga Sobrinho

    Boa Vista
    Escola Municipal Professor Ricardo Krieguer

    Boqueirão
    Escola Municipal Nossa Senhora do Carmo

    Cajuru
    Escola Municipal Prefeito Omar Sabbag

    CIC
    Escola Municipal Nossa Senhora da Luz dos Pinhais

    Matriz
    Escola Municipal Professor Brandão

    Pinheirinho
    Escola Municipal de Educação Especial Tomaz Edison de Andrade Vieira

    Portão
    Escola Municipal Papa João XXIII

    Santa Felicidade
    Escola Municipal dos Vinhedos

    Tatuquara
    Rua da Cidadania do Tatuquara

  • Operação Romanos

    BRF deu plano de saúde como propina para fiscais, diz Carne Fraca

    BRF deu plano de saúde como propina para fiscais, diz Carne Fraca
    (Foto: Divulgação / PF Paraná)

    A BRF, uma das maiores empresas brasileiras de alimentos, que tem diversas plantas no Paraná, entregou documentos ao Ministério Público Federal (MPF) mostrando que fiscais federais recebiam pagamentos indevidos para avançar os interesses empresariais da companhia. De acordo com documento do MPF, as revelações da BRF resultaram na nova fase da operação Carne Fraca, deflagrada nesta terça-feira (1º).

    De acordo com o MPF, após uma série de medidas em março de 2018 e com o avanço das investigações, a BRF apresentou ao órgão, entre o segundo semestre de 2018 e o primeiro semestre de 2019, uma série de informações e documentos, bem como autorizou expressamente o uso desse material em investigações acerca da atuação de fiscais federais ligados ao Ministério da Agricultura, os quais alegadamente recebiam vantagens indevidas para que atuassem em benefício da companhia.

    Plano de saúde como propina

    Em despacho (veja a íntegra) que deu origem à 4ª fase da Carne Fraca nesta terça, o juiz André Wasilewski Duszczak, da 1ª Vara Federal de Ponta Grossa, afirma que a BRF inscreveu fiscais do Ministério da Agricultura no plano de saúde da empresa como forma de pagamento de propina. 

    "Tais vantagens indevidas beneficiaram diversos fiscais e configuram o crime de corrupção passiva, materializando-se pelas seguintes condutas: ter o fiscal plano de saúde, para si e para seus dependentes, custeados pela empresa; receber o fiscal pagamentos imotivados da empresa, direta ou indiretamente, inclusive para deixar de atuar como deveria, nas plantas fabris que fiscalizava; e receber o fiscal vatangens ilícitas indiretas, como por exemplo a promoção funcional de parentes do fiscal que já eram empregados da BRF S/A. Nos levantamentos preliminares, foi detectada a vinculação de 51 fiscais ao plano de saúde da empresa, como se dela fossem empregados, além daqueles outros que receberam vantagens ilícitas diversas do uso de plano de saúde. O esquema criminoso pode ser bem mais amplo que isso, porque foram empregados diversos meios para ocultar as ilicitudes praticadas", diz o despacho.

    Segundo o despacho, documentos amparam a tese de um esquema amplo de corrupção. "Quanto ao uso do plano de saúde da BRF S/A por fiscais do MAPA, o MPF anexou aos autos documentos que provam quais agentes do Serviço de Inspeção Federal - SIF (e conveniados desempenhando essa função) tinham o benefício, bem como qual o tipo de plano de saúde, quais os dependentes junto ao titular do plano, qual o número de procedimentos médicos realizados, qual a data de ingresso e desligamento no plano de saúde, qual o valor gasto pela empresa com os beneficiários e, quando foi o caso, qual a participação financeira pelos beneficiários", diz o documento. 

    Operação Romanos

    A PF informou na tarde desta terça que a 4ª fase da Carne Fraca, denominada Operação Romanos, cumpriu todos os 68 mandados de busca autorizados pela Justiça. "Foram apreendidos diversos celulares e documentos" e "realizadas várias extrações de servidores de pessoas jurídicas". De acordo com a PF, o nome da operação faz referência a diversas passagens bíblicas do Livro de Romanos que tratam de confissão e Justiça.

    A investigação apura crimes de corrupção passiva cometidos por auditores fiscais agropecuários federais que teriam recebido propinas para atuarem em benefício da BRF. Segundo a PF, há indicativos de que foram destinados R$ 19 milhões para os pagamentos indevidos.

    Cerca de 280 policiais cumpriram os mandados de busca e apreensão em nove Estados: Paraná (9), São Paulo (2), Santa Catarina (22), Goiás (10), Mato Grosso (6), Pará (1), Rio Grande do Sul (15), Minas Gerais (1) e Rio de Janeiro (2). 

    Entre os alvos de buscas está a empresa União Avícola Agroindustrial, controlada pelo ex-senador Cidinho Santos. A companhia teria sido utilizada pela BRF para repassar propina para fiscais agropecuários federais.

    Resposta da BRF

    Em nota oficial, a BRF afirma que a “Operação Romanos”, da Polícia Federal, não cumpriu mandados “em nenhum dos escritórios ou instalações ou de seus administradores da empresa foi alvo, nesta data, de medidas de busca e apreensão no âmbito dessa operação e suas atividades seguem em plena normalidade”. A BRF afirma na nota à imprensa que “tem colaborado com as autoridades para o esclarecimento dos fatos apurados nas investigações conduzidas pela Polícia Federal e Ministério Público”. 

  • Entrevista

    Reitor resume gestão da UFPR: ‘sobrevivência e resistência’. Em texto e podcast

    Reitor resume gestão da UFPR: ‘sobrevivência e resistência’. Em texto e podcast
    Ricardo Marcelo Fonseca em entrevista na Reitoria da UFPR (Foto: Henry Mileo )

    Eleito reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) com intuito de “realizar coisas, fazer projetos, ter ideias e colocá-las na mesa”, o pesquisador, historiador, advogado, mestre e doutor Ricardo Marcelo Fonseca se viu em meio a um turbilhão político após sua nomeação em 2017, auge de sua carreira aos 50 anos de idade. Assumiu a gestão da universidade mais antiga do País logo após o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, paralelamente à maior crise econômica da história, que foi acompanhada de cortes, arrochos e contingenciamentos orçamentários. Ele afirma que imaginava que teria que “destravar coisas, claro”, mas não que se tornaria gestor de “subsistência, sobrevivência e resistência”, como se autodefine hoje.

    “Mas a vida é assim. Tem que se adaptar e responder aos novos estímulos”, completa. Mais do que nunca o papel do reitor da UFPR é político. Precisa negociar, oficiar, dialogar e ponderar, conforme define o próprio Ricardo Marcelo. Ele diz nunca ter considerado, no entanto, a possibilidade de disputar uma eleição no âmbito político-partidário. “Disse que nunca pensei nisso e não está na minha linha de consideração”, desconversa. 

    Casado, pai de dois filhos de 14 e 11 anos, Ricardo Marcelo considera que sua família foi “muito sacrificada neste momento”, embora considere que conta com a compreensão dela. “No futuro eles dirão que seria errado não responder aos desafios que se colocaram nesse tempo”, aponta. Filho de pequenos comerciantes, o pai cearense e a mãe do Norte do Paraná, nascido em Curitiba, o reitor adquiriu recentemente, em 25 de setembro, o título de professor titular da UFPR. “Passei pela banca para chegar nesse último ponto da carreira (docente). Isso é muito difícil, estando na reitoria, mas tenho tentado manter ativa minha vida científica. Sou pesquisador do CNPQ, pesquisador PQ nível 1B. Essa é a parte da minha vida que sempre gostei mais”, se orgulha.

    Ouça em podcast:

    Bem Paraná - Desde que o governo divulgou que faria cortes de verbas de universidades, a reação da UFPR foi dizer que fecharia as portas em setembro, caso o contingenciamento não fosse revertido no período. Como está a situação da UFPR neste momento em que o governo federal se comprometeu a desfazer alguns dos cortes?

    Fonseca - A questão é matemática. Se tirar no mês de maio deste ano 30% das nossas verbas, de orçamento discricionário, que é o dinheiro que a gente paga as despesas correntes, na hora que chegasse em setembro o dinheiro ia acabar. E efetivamente é o que acontece (o dinheiro acabou). As contas de setembro nós majoritariamente pagamos no início de outubro e neste momento a UFPR esgotou seus recursos, apesar de ter feito uma série de ajustes ao longo do ano, particularmente no mês de julho, para poder sobreviver. A gente 'sobreviveu' bem até agora. Olhando para outras instituições de colegas reitores no Brasil, vejo que aconteceram muitos traumas pelas universidades por aí Brasil a fora. Centenas de pessoas de empresas terceirizadas despedidas. Vi que em algumas universidades tiveram que reduzir o cardápio, sem a carne, fazer uma coisa radical nesse sentido. Em outras universidades restringiram o acesso a restaurantes universitários. Houve universidades em que cortaram bolsas. Pois bem, aqui na nossa universidade não aconteceu nada disso. Só que agora o dinheiro acabou, para pagar as contas de outubro.

    BP - O descontingenciamento prometido ocorreu?

    Fonseca - Qual é a notícia novíssima, novíssima, que recebi hoje de manhã, que foi editado decreto pelo governo federal (Decreto 10028) datado de ontem (26), saiu ontem bem de noite, que recompõe cerca de R$ 1,9 bilhão do orçamento para o MEC. O que isso significa concretamente para nós vamos ter que esperar uns dias para saber. Vai para o MEC e a gente tem que saber o que vai para os institutos, o que vai para as universidades e o que vai para a educação básica. Temos que ver o montante que vai para as universidades e a partir do montante que vai para as universidades saber como isso será redistribuído para todas as 63 universidades federais. A notícia pelo menos é boa. Alguma coisa retornou. Seguramente no início desta semana a gente vai ter isso concretizado e liberado no orçamento para pagar as contas do mês de setembro, que vencem no início de outubro, e nos dá mais um fôlego.

    BP - Quanto há de orçamento garantido daquilo que era previsto no início do ano?

    Fonseca - Zero. Os 70% que sobraram, terminaram. Sem essa restituição daquilo que foi bloqueado, os 30%, a universidade não sobrevive.

    BP - Tem contratos atrasados?

    Fonseca - Nenhum. A UFPR, e isso é uma exceção entre as universidades, está completamente em dia com seus compromissos.

    BP - O vestibular corre algum risco?

    Fonseca - Não corre nenhum risco. Acho que seria (suspender o vestibular) afetar aquilo que a universidade tem de melhor e afetar, sobretudo, aquela parcela da população que mais precisa, se a gente suspendesse o vestibular. Porque hoje em dia o contingente dos nossos alunos da graduação, aqueles que entram pelo vestibular, mais da metade são alunos carentes, com fragilidade socioeconômica. Na universidade federal hoje não são mais universitários de elite como antes se dizia. Esse perfil mudou. Se a gente bloqueia o acesso ao vestibular a gente está fazendo um grande impacto na sociedade, mas sobretudo naquelas pessoas que apostam na universidade pública talvez como sua grande esperança de vida. O concurso de vestibular tem uma taxa de inscrição, é autofinanciado, mas não usamos o dinheiro do orçamento para isso e não há razão alguma para a gente fazer isso. Nosso sindicato é que propôs isso em uma assembleia e naturalmente eu respeito muito as estratégias sindicais e a interlocução deles, têm que fazer o papel de sindicato, mas nós fazemos um papel de gestão. E eu enquanto gestão digo que essa medida como pressão nem seria muito eficaz na medida em que na maiorias das universidades federais sequer tem vestibular como critério principal de ingresso. Tem o sistema do Sisu que é pelo teste do Enem. É inócuo acabar com o vestibular que as pessoas entram pelo Enem de qualquer modo. Até como estratégia não me parece eficaz. A posição institucional é manter o vestibular.

    BP - Como o senhor viu a reação da população aos cortes nas Universidades? A universidade pecou em não se aproximar da população, para que pudesse ter reagido de forma diferente?

    Fonseca - Por um lado, sim, acho que as universidades pecaram muito em se aproximar em se comunicar. A universidade é uma instituição não só importante. É crucial, fundamental para a sociedade. Não é uma torre de marfim com pessoas de jaleco fazendo reflexões exóticas. Tem projetos e pesquisas que dizem respeito ao dia a dia de cada um, de cada uma, ao desenvolvimento econômico. Comunicar esse conteúdo das universidades, como nós somos importantes, acho que foi problema no passado. Hoje, neste ano de 2019 em particular, quando vivemos essa crise, isso ficou bastante patente. Por outro lado, preciso dizer que os ataques simbólicos, de comunicação, nos últimos anos contra a universidade são inusitados. Por alguma razão que eu tenho dificuldade de compreender, a universidade se tornou alvo. É como se fosse um lugar caro e, portanto, “inconveniente”, um lugar de “balbúrdia”, e até um lugar de “corrupção”. Isso está presente lastimavelmente hoje ainda na própria retórica oficial, quando o ministro diz, como por exemplo ontem, que professores ganham muito. Ele disse que professores titulares com dedicação exclusiva são “zebras gordas”, quando na verdade são provavelmente as joias da coroa da ciência, da tecnologia e da produção do conhecimento brasileiro. A gente precisa começar a olhar não só em planilhas de custos, até porque precisa parar de pensar em primeiro lugar que gastos em educação são “gastos”, porque na verdade são investimentos no futuro.

    BP - Nos últimos anos houve operações da Polícia Federal, inclusive aqui na Reitoria. Pessoas foram presas, recentemente saiu condenação de uma servidora por desvios de verbas de bolsas de estudo. A corrupção, de alguma forma, existe. Em junho de 2018, o jornal Gazeta do Povo publicou uma reportagem em que apontou viagens de um núcleo de professores da UFPR e servidores do Instituto de Transportes da UFPR (ITTI) para hotéis considerados de luxo pelo jornal. Em dois anos e meio, a publicação apontou gastos de R$ 100 mil. O link dessa reportagem tem sido usado hoje por pessoas que querem justificar os cortes do governo. Como o senhor vê esses gastos e como explicar isso ao contribuinte?

    Fonseca - Antes de tudo, preciso dizer que essa é uma guerra de comunicação que a gente está vivendo agora. É curioso notar que notícias velhas, aumentadas, às vezes não devidamente apuradas são sempre recuperadas nessa guerra simbólica que hoje acontece. A UFPR é gigante. Nós temos mais de 40 mil pessoas em Curitiba e no Interior vivendo, professores, técnicos e estudantes, essa instituição. É uma instituição centenária, é uma instituição pública imensa. Toda instituição, pública ou privada, tem o risco de passar por problemas internos, por riscos e desvios, porque as pessoas que vivem a universidade como qualquer instituição são pessoas de carne e osso. No que a instituição tem que estar permanentemente comprometida é em ter critérios internos de transparência e controle cada vez mais aperfeiçoados para que isso não aconteça. Aconteceu no início de 2017, eu tinha dois meses de gestão, uma operação policial que apareceu por aqui por conta do que se chamou de um “escândalo de bolsas”, que de fato aconteceu. Aconteceram desvios, mas que preciso dizer que foram desvios em mais de quatro anos que somaram R$ 7 milhões. Não estou dizendo que isso é ninharia, que isso é desprezível. A gente quer recuperar cada centavo desse dinheiro. Só que se você olhar o montante da universidade que foi gasto e que foi bem gasto, isso, de fato, é uma gota em um oceano. Não estou desprezando o cuidado que tem que se ter com o dinheiro público, mas o tamanho do barulho que se faz por conta de uma coisa dessa é absolutamente desproporcional. Naquela operação policial foi um grande estardalhaço. Eu estava em Brasília no dia e vieram dezenas de policiais armados, junto com a imprensa, às 6 horas da manhã. Levaram dezenas de pessoas em condução coercitiva. No final das contas, quando acabou o inquérito policial, três pessoas (da UFPR) apenas foram indiciadas. De fato havia um esquema no departamento financeiro da pró-reitoria de pesquisa e pós-graduação e que duas servidoras da universidade, que estavam aqui há mais de 30 anos, que tinham a confiança de todos, que todos as conheciam, eu as conhecia, das outras gestões, inclusive, que efetivamente operavam desvios. Um desvio tosco. Foram responsabilizadas. Havia duas maçãs podres em um cesto de 40 mil. Reforçamos todos os mecanismos de transparência de modo que digo que hoje isso é impossível de acontecer. Não há instituição que tenha instrumentos de controle interno tão rígidos do que as universidades. E temos CGU, o TCU, o MPF a todo momento olhando cada passo que a gente faz. Não há empresa privada com essa forma de controle.

    BP - O senhor assumiu a reitoria em 2016, período em que a PF estava fortalecida, engrandecida por causa da Lava Jato, inclusive, “envaidecida”, o tema da transparência em alta, acesso à internet amplificado, viu passar o impeachment, além de nos anos seguintes encontrar um governo extremo oposto ao que havia quando você assumiu. Esperava, como pessoa, pegar essa “bomba”, se arrepende de ter assumido a reitoria em um período tão conturbado?

    Fonseca - Nunca é uma decisão individual. É de um grupo grande de pessoas e quando resolveu formar uma candidatura em que eu estava representando, eu sempre parto da premissa de que essa é uma posição institucional, a universidade tem 107 anos, perceba, que é perene, que é de Estado, que é fundamental e que não pode, não poderia ou deveria, sofrer oscilações de acordo com ventos circunstanciais deste ou daquele governo. Quando fui candidato, não fui porque estava no governo A ou no governo B, mas porque a universidade tem um grande papel, precisava responder a determinados desafios e eu achava que podia contribuir. Os ventos fizeram com que os destinos das universidades públicos brasileiras fossem mais afetados. Isso já em 2017 foi muito claro. Esses episódios policiais aconteceram não só na UFPR, mas na UFRGS, UFMG, aconteceram na UFSC que teve um trágico desfecho com o suicídio do reitor. São simplesmente instituições das mais importantes do nosso Brasil, objetos de operações policiais como se fossem antros de bandidos. Era um contexto que não tinha a ver exatamente com corrupção. Era espetaculização do moralismo administrativo, às vezes diante de problemas que efetivamente existiam, mas que eram superlativados. Em 2017 fortes cortes orçamentários, em 2018 seguiu com restrição orçamentária e 2019 com um novo governo que do ponto de vista oficial investe contra as universidades em sua voz oficial. As universidades pertencem ao arco do Ministério da Educação. Nós somos parte do Estado. E me surpreendo com uma retórica que nos coloca que se fossemos adversários.

    BP - Sua proposta de gestão, que enquanto candidato à reitoria era uma, deve ter mudado de formato e hoje é outra. Não havia esse cenário em 2016. Era para você estar do “lado de cá” e não do “lado de lá”?

    Fonseca - Eu imaginava, sim, que a gestão da universidade era para realizar coisas, fazer projetos, ter ideias e colocá-las na mesa, destravar coisas, claro, mas para dar um passo adiante. Mas a vida é assim. Tem que se adaptar e responder aos novos estímulos. Essa gestão acabou se tornando de subsistência, de sobrevivência e resistência.

    BP - Já encontrou cenário que demandasse tanta resistência em sua carreira?

    Fonseca - No período em que fui diretor do Setor de Ciências Jurídicas tive lá meus desafios. Em 2015, a gente fez um grande evento aqui do julgamento simbólico do “Massacre dos Professores, do 29 de abril”, logo na sequência fui atacado pelo deputado Francischini porque havia um curso do Pronera, programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que foi extinto, que foi desvirtuado e fui atacado naquele momento. Depois houve uma resposta, uma discussão pública. Mas a experiência da Reitoria não se compara com outras experiências que eu possa ter tido em outros conflitos e outros embates. Aqui a escala é muito maior, o momento histórico é outro.

    BP - Seu cargo exige atuação política e diálogo com políticos. Na sua trajetória há envolvimento com o movimento estudantil, você já foi filiado a algum partido? Ricardo Marcelo é de direita ou esquerda?

    Fonseca - Na minha militância estudantil, aqui no Curso de História, na época (anos 1980) nós (eu) fazíamos parte de um grupo anarquista, no sentido de que a gente não queria nenhuma filiação de nenhum partido político que patrulhasse ou monitorasse nosso centro acadêmico. Nunca fui filiado a nenhum partido político e nunca fiz militância partidária. Já me perguntaram definição de esquerda e direita e eu como historiador acho que isso é uma coisa modulada pela história. Começa lá com Jacobinos e Girondinos, reconfigurada no momento da Guerra Fria, embora a retórica de esquerda/direita com base naquele modelo esteja muito viva no Brasil, acho que hoje as coisas se colocam de outra maneira. Existem aquelas pessoas que se colocam com um compromisso muito forte com o campo democrático, com a pluralidade de ideias, com a cultura de direitos e a cultura de garantias, de proteção e respeito às minorias, com discurso de tolerância, que contribui para a temperança do debate público. Aqueles que apostam na democracia e que a gente achou que fosse um discurso já estabelecido e hoje me parece que precisamos rever essa posição. E aqueles que apostam em carcomer as instâncias de representação, que consideram os direitos humanos são para “humanos direitos” eu tenho ouvido e é uma frase terrível de tantas pessoas em uma sociedade que tem aumentado muito seu padrão de violência.

    BP - Com esse discurso, se fosse no Congresso Nacional, você seria taxado de militante de esquerda. Nesse caso, prefere ficar desse lado?

    Fonseca - O que o momento democrático brasileiro precisa fazer é unir. Todos que antes se consideravam um centro democrático e uma direita democrática tem que se unir. Quero lembrar que a direita no Estados Unidos defende acirradamente os direitos humanos e direitos das minorias. Aqui no Brasil é que as coisas se embaralharam um pouco. O desafio hoje é unir o campo democrático. Eu reconheço que na direita existem militantes democráticos no campo liberal e no centro também.

    BP - Falando em liberalismo, o governo federal apresentou o Future-se (Leia a íntegra do projeto) em uma tentativa de descentralizar a gestão, trazer iniciativa privada para dentro da universidade, talvez tirar autonomia. O conselho da UFPR se posicionou contra a minuta do projeto. Como é a relação da universidade com a iniciativa privada e quais os pontos do Future-se que não são aceitos?

    Fonseca - O sistema das universidades e da ciência e tecnologia nunca teve problema de um modo geral com aproximação com o setor produtivo. Em algumas áreas, como as engenharias, por exemplo, nas agrárias, mas não só, a interlocução com o setor produtivo é fundamental inclusive para a formação dos nossos estudantes. A questão não é a aproximação com o setor produtivo. O problema é que com essa a aproximação a gente não pode perder a nossa racionalidade pública em nenhum momento. As universidades tem buscado se aproximar e não tem conseguido por restrições do próprio governo federal, das regras orçamentárias do governo. As dificuldades sempre foram que a gente buscava arrecadar recursos fora do orçamento, chamados recursos de arrecadação própria, e não conseguia gastar todos esses recursos por imposições de regras do próprio governo federal. Isso não só desse governo. Era do governo Temer, era do governo Dilma. É claro que precisamos aumentar a possibilidade de recursos próprios com o setor produtivo. Fala-se em fundos patrimoniais. Isso não é do Future-se. O próprio governo Bolsonaro em janeiro sancionou uma lei, embora com vetos importantes, de criação de fundos patrimoniais, que é uma discussão que vinha desde o incêndio no Museu Nacional no ano passado. Tudo isso já estava na pauta das universidades. Não é um ovo de Colombo. Nós, reitores, soubemos do programa junto com a imprensa e tivemos um tempo muito pequeno para debater o conteúdo. A estratégia que o Future-se fez para a arrecadação própria, para a entrada de recursos, é diferente. Existem as Organizações Sociais (OS) para fazerem esta mediação, que são pessoas jurídicas de direito privado. Não existe possibilidade das ciências aplicadas oferecerem soluções para o mercado se antes as ciências básicas não derem as condições para isso. Você não vai conseguir tem um grande salto tecnológico se não fomentar as ciências básicas, na física, na matemática, na química, etc. Mesmo o salto tecnológico que se espera com as ciências aplicadas não é possível sem que exista investimento nas ciências básicas. E uma empresa não vai investir em ciências básicas. As empresas quando querem investir, elas querem um produto uma solução que às vezes casa com os interesses da universidade, mas nas ciências aplicadas. Em qualquer lugar do mundo, as ciências básicas, seja nas humanidades, mesmo nas ciências duras, são fomentadas pelo Poder Público, inclusive nos Estados Unidos que são o exemplo hoje retoricamente muito utilizado por aí. O receio que o Future-se acaba nos dando é um pouco esse, que as humanidades fiquem de lado, o que seria catastrófico e também que dentro das ciências ditas 'duras', as 'hard sciences', a ciência básica fique subdimensionada.

    BP - Se aquele jovem anarquista da década de 1980 fosse fazer uma crítica ao reitor hoje, qual seria?

    Fonseca - Acho que muitas (risos). Eu lembro das coisas que eu fazia enquanto estudante e acho que pago hoje com juros justamente por isso. É normal, são as fases da vida. Isso dá, inclusive uma perspectiva. Nós temos hoje uma militância estudantil, sobretudo de esquerda, nós sempre tivemos, também de direita, mas a de esquerda em particular é bastante aguerrida aqui e que às vezes me critica. O jeito como eu fui no Curso de História me faz ter um olhar muito compreensivo e contextualizador. Um estudante de 17, 18 anos tem que ser muito mais radical que um de 50 anos, que é o meu caso. Não estou dizendo que não sou radical, que estou em cima do muro. Eu me considero um inconformado, mas um inconformado com maturidade e com a responsabilidade da gestão, o que me coloca algumas imposições, desafios e ponderações diferentes. 

  • Político tribal

    De Ratos de Porão a Krishna: Goura e a política sobre duas rodas

    De Ratos de Porão a Krishna: Goura e a política sobre duas rodas
    (Foto: Dálie Felberg/Alep)

    Prestes a completar 40 anos de idade, o representante mais legítimo da “cena underground” ou “alternativa” da classe média curitibana na política estadual, que foi do culto ao hardcore aos templos indianos do deus Krishna, Jorge Brand, conhecido Goura Nataraj Das (Servo de Krishna, Rei dos Dançarinos), seu nome de batismo Hare Krishna, ainda se sente representante das pautas originais, mesmo depois de chegar à Assembleia Legislativa. “Sou um devoto de Krishna”, diz. Lactovegetariano há 24 anos, professor de Yoga, filósofo, ativista e “o cara da bicicleta”, Goura foi alçado à cena política pelas bandeiras da ciclomobilidade, intervenção urbana, cultura, ocupação dos espaços públicos, proteção do meio ambiente e da alimentação livre de agrotóxicos. 

    Nada mais autêntico que começasse sua vida pública filiado ao Partido Verde (PV), que depois veio a descobrir “não ser tão verde assim”, até que a compreensão do jogo político o levasse a integrar um grupo no PDT. Antes de roupas coloridas, calças de pano cru e cabeludo, e agora de terno e gravata, sentado ao lado de políticos tradicionais com quem negocia suas pautas, quando questionado, o parlamentar faz um paralelo de sua carreira com a da deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), outra “outsider”, que em sua avaliação cometeu um “erro estratégico” por rejeitar modelo de previdência proposto por seu partido e votar com o governo federal. 
    Goura admite também ter cometido seus próprios “erros estratégicos”. “Eu não me arrependo, da ‘segunda-feira sem carne (na merenda escolar), que já é lei em São Paulo, que vem desde Paul McCartney, o beatle, e a gente apresentou como projeto de lei. Isso provocou um debate muito agressivo”, lamenta, que foi vereador por dois anos e é deputado estadual desde fevereiro.

    Entre 18 vereadores de Curitiba que se candidataram em 2018, foi o único eleito para a Assembleia. E já pensa em novo vôo, como pré-candidato à prefeitura de Curitiba, vaga que deve disputar no PDT com o ex-prefeito Gustavo Fruet. “Estou no terceiro ano parlamentar e acho que tenho condições de representar um projeto de cidade. Gustavo (Fruet) é um dos melhores quadros políticos do Paraná, que sofreu muito o boicote deliberado do governo estadual, em relação ao municipal. (...) O PDT está trabalhando com os dois nomes (Goura e Fruet) e eu entendo que meu nome representa um oxigênio novo, um olhar para frente que tenho trabalhado até antes de estar no PDT”, afirma. 

    Bem Paraná - Sua vida política começou com uma banda?
    Goura - Aos 15 anos eu estava envolvido com uma cena musical hardcore e punk. Eu morava no Ahú. O primeiro show que eu fui foi do Ratos de Porão, em 1994, no Palácio de Cristal, quando eu tinha 14 anos. Era Ratos de Porão com Boi Mamão abrindo. Lembro que fui eu e um amigo e a gente pogando levava porrada, caia no chão, aí vinham uns caras mais velhos vinham e levantavam a piazada. E comecei a me envolver. A gente ouvia muito as bandas punks e politizadas, como Dead Kennedys e outros. Com 16 para 17 anos eu comecei a me interessar pela cultura do Yoga, especialmente pelo Shelter, uma banda de Nova York que vinha da cena hardcore e eles todos (da banda) viraram hare krishna, vegetarianos, e as letras do Shelter eram letras filosóficas, de provocação. Aquilo mexeu comigo. Foi um momento de adolescência, de crises e angústias. Eu matava aula para ir no templo hare krishna, parei de comer carne, briguei com a família ali naquela ocasião. Paralelamente continuei mantendo contato com uma cena musical. A gente tinha uma banda, a Family, a primeira banda ‘straight edge’ de Curitiba. Eu tocava guitarra, fazia as letras e fazia as músicas. A Family teve tapes e Cds independentes e a gente tocou em São Paulo várias vezes, fazia algumas turnês. Depois tive outras bandas. (Left Behind, Dias de Glória, Leste da Montanha e Justman).

    BP - Sua turma era grande?
    Goura - No começo era pequena, uma cena musical, assim, mas aqui em Curitiba a gente fazia shows no DCE (Diretório Central dos Estudantes), pegava o espaço, fazia o show. Entrei em Filosofia em 1998, pela Federal. Eu tinha 18 anos.


    UNDERGROUND
    ‘Sempre teve essa vontade de mudar as coisas’

    Bem Paraná - Você foi batizado? Como se organizou para seguir doutrina hare krishna?
    Goura - Eu fui iniciado na Índia. Passei no vestibular, consegui convencer meus pais. Eu passei em Biologia, na verdade, foi no segundo semestre e transferi para filosofia. Só que antes de começarem as aulas surgiu a oportunidade de fazer a viagem com 30 monges hare krishna para a Índia, para um mês de peregrinação. Aí no final da viagem encontrei lá meu professor, meu guru, que é brasileiro, um mestre hare krishna e pedi para sei iniciado. Foi em março de 1998. Lá que ganhei o nome Goura Nataraj Das. Significa o “Servo de Krishna o Rei dos Dançarinos”. É um nome dado pelo guru, pelo mestre. Os nomes são referências a divindades, a Deus, no sentido de que o discípulo deve sempre elevar sua mente. A própria ideia do Mantra, que é uma palavra sagrada, que em geral são nomes de Deus, cuja repetição e lembrança elevam a consciência.

    BP - Quando voltou ao Brasil, se formou, chegou a dar aulas?
    Goura - Estudei Letras Clássicas junto com a graduação em Filosofia. Minha dissertação na graduação foi uma tradução de textos de Seneca, de Maro Aurélio, do Grego e do Latim. Engatei a graduação com um mestrado, quando estudei (Arthur) Schopenhauer, especialmente a aproximação de Schopenhauer com a metafísica indiana, dos vedas. Eu não cheguei a dar aulas de filosofia, fiz estágio no Colégio Estadual do Paraná, mas dei aulas de Yoga, nesse tempo comecei a estudar mais o hatha Yoga, dei aulas de sânscrito e comecei a dar aulas sobre a filosofia da Índia e do Yoga. De 2003 a 2015, quando entrei na Prefeitura, vivi basicamente dando aulas.

    BP - Você tem duas filhas?
    Goura - Elas nasceram em 2009 e 2012. Foi no período que entrei no Coletivo Interlux, de intervenções urbanas.

    BP - Foi nesse momento que começou o ativismo urbano, dos “coletivos”, que começaram nesse período?
    Goura - A gente já estava, eu pessoalmente, com uma angústia, pensando ‘nesse mundo está tudo errado’, ‘a gente tem que mudar (o mundo)’. A cena que a gente tinha era punk politizada e a gente tinha uma crítica muito grande ao “For Fun”, esses hardcore sem engajamento político, as bandas que não tinham nada a ver. A gente já tinha ali, o pessoal, straight edge, não consumia drogas, com uma preocupação com uma elevação individual e uma mudança social.

    BP - Você viveu algum período em contato com drogas, alcool?
    Goura - Fiquei dos 17 aos 24 anos sem tomar nem café. Foi muito importante para mim. Foi um período de formação física, cidadã, intelectual que foi muito boa, vejo agora olhando para trás. Mas sempre teve essa vontade de mudar as coisas. Quando voltei da Índia em 2004, que fiz uma viagem maior, uma segunda viagem, e estava já concluindo a viagem e reencontro esses amigos aqui que tinha o Coletivo Interlux. Era um coletivo de artistas, basicamente o Ruan Parado, Rimon Guimarães, André Mendes, Fernando Rosembaun, que estavam pensando muito a arte no sentido de intervenção urbana, com grafite, o lamb, festas e coisa e tal. Eu queria continuar as coisas, mas via que o hardcore tinha suas limitações. A gente começou a pensar algumas formas de intervenção urbana, como, por exemplo, a Bicicletada, a Jardinagem Libertária, que tinha uma interface política. A gente estava discutindo o uso da bicicleta como intervenção e o impacto em uma discussão política, sobre a cidade, com o prefeito, com o Ippuc.


    BICICLETADA
    Pintura de ciclofaixa marcou movimento

    Bem Paraná - Qual foi sua primeira reunião, em que levou um projeto, uma ideia ou reivindicação a um político ou gestor público?
    Goura - A gente começou em 2005 a Bicicletada de Curitiba, como a segunda cidade do Brasil com a bicicletada, a primeira é São Paulo. E a bicicletada era na hora do rush, última sexta-feira, os ciclistas se reunirem e saírem no meio dos carros, de forma a mostrar a falta de uma divisão de espaço igualitário do espaço público, predomínio do carro, etc. A gente começa isso com um movimento de baixo para cima, horizontal, sem líderes, para provocar a sociedade em geral, sem uma organização. Saía pedalar, fazia cartazes, fazia uma coisa bem performática. E a gente começa a ver que estávamos gritando da rua, e qual a consequência? No Dia Sem Carro de 2007, dia 22 de setembro, era um sábado, e a gente fez um ato, a gente organizou esse ato, que foi a pintura da primeira ciclofaixa pirata, aqui na Rua Augusto Stresser, perto do Couto Pereira, em que a gente comprou tinta asfáltica, fizemos um manifesto, entregamos aos comerciantes, moradores e residentes, saímos em uma bicicletada no sábado de manhã. Na ocasião, alguém falou ‘o prefeito está ali no Passeio Público’. A gente direcionou todo o grupo, com uns 50 ciclistas, até o Passeio Público, cercamos onde ele estava e todo mundo gritando ‘menos carros’. Os assessores já ficaram preocupados, assim, e ele estava do lado de lá das grades. Chegamos todos meio que fantasiados e ele não pôde nos ignorar. Eu tomei a frente, chamei ele. Entregamos a ele algum material e ele disse ‘vamos conversar’ e não sei o quê. De lá fomos à Augusto Stresser para concluir nosso ato de desobediência civil em que a gente fechou a rua com as bicicletas para que a gente começasse a pintar a ciclofaixa. Quando a gente terminou de pintar, a gente guardou as tintas, chegou a Guarda Municipal, de forma autoritária, eles tiraram a identificação (da farda). Eu estava cabeludo na época e eles ‘você aí, cabeludo’, Rosembaum estava careca e Ruan estava normal. ‘Entra na viatura’.

    BP - Pegaram os líderes?
    Goura - Identificaram como liderança e levaram a gente para a Delegacia do Meio Ambiente na Erasto Gartner. A gente foi autuado por crime ambiental, pichação. Na autuação, fui inscrito em dívida ativa. A gente decidiu fazer um crowdfunding, uma vaquinha, fizemos uma festa com Trombone de Frutas, que não era Trombone de Frutas, o Luiz Felipe Leprevost, para arrecadação. A gente decidiu pagar as multas do Ruan e do Fernando porque eles participavam de editais da Fundação Cultural e precisavam ter o nome limpo. Eu não precisava. A gente decidiu, como um ato político, manter a multa no meu nome e entrar na Justiça. A gente perdeu no âmbito administrativo duas vezes, depositou o recurso em juízo, entramos na Justiça e aí a gente venceu. O processo só se conclui na gestão Gustavo Fruet. Coisa absurda. O recurso a gente destinou para ações educativas de trânsito.

    BP - Essa ciclofaixa te colocou na política?
    Goura - Na época, a pintura da ciclofaixa deu grande repercussão, até pelo fato de a gente ter parado na delegacia. A mídia cobriu e criou-se uma reordenação no trânsito. Enquanto a faixa estava lá, passava um carro e ficava o espaço para o ciclista. Em algumas semanas, a prefeitura apagou a ciclofaixa. A gente chamou a imprensa, saiu a gente mostrando a ciclofaixa. A gente fez a repintura da ciclofaixa, só que aí a gente chamou a imprensa. Na ocasião, a gente juntou o primeiro desafio intermodal. A Universidade Federal (depois) incorporou isso. É o ciclista, o usuário do táxi, do ônibus, motociclista, o carro e o pedestre, saindo da ciclofaixa. Aí ela ficou até o tempo apagar. Mas foi importante porque aí o prefeito, Beto Richa, no caso, nos chamou e a gente foi ao gabinete. Na ocasião eles falaram, meio que para dar uma resposta, que eles iam fazer o projeto da ciclofaixa da Marechal Floriano e disse que ‘em 2008 está pronto’. Lembra que a Marechal só ficou pronta na gestão Fruet em 2014. Foi um processo que teve início a partir desse ato.

    BP – A Cicloiguaçu que institucionalizou o movimento?
    Goura - Em 2011 a gente sente a necessidade de aprofundar essa interface política e foi criada a Cicloiguaçu, a Associação dos Ciclistas do Alto Iguaçu. Eu, por aclamação, por aclamação, viro membro coordenador. A gente faz a carta-compromisso aos candidatos em 2012, então começa a ganhar um relevo político maior ali.

    BP - Estando hoje na política, você mantém seu nome hare krishna. Qual é sua religião hoje, ainda se considera um homem de fé?
    Goura - Considero. Tenho minha espiritualidade, busco meditar todos os dias, sinto que a visão de mundo que eu tenho é marcada por esses anos todos de formação espiritual. Não pratico mais a vivência institucional do movimento hare krishna. Já estive muito próximo disso, já tive a cabeça raspada, já vendi livro na rua. Nunca fui um monge de morar no templo, mas eu meditava duas horas por dia. Eu diria que hoje sou um devoto de Krishna.

    ELEIÇÃO
    ‘Aprendi a dar nó em gravata’

    Bem Paraná - Como foi feito o convite para que você integrasse a gestão Fruet? Você estava no PV. Tem alguma relação?
    Goura - Eu fui para o PV, porque era o partido... ‘verde’ (risos). Achei que era o partido de pautas ecológicas. Eu não venho de uma formação política clássica, de movimento estudantil ou partido. Meu pai foi candidato várias vezes, teve uma mobilização, mas eu nunca quis ser candidato. Era claro que o processo político para mim não era o político institucional, partidário, eletivo. Eu me candidatei quando fui convencido por amigos, que consideram que eu era a face pública do movimento. Vamos lá, me convenci. Por qual partido? PV. Fizemos uma campanha de baixíssimo custo. O partido não ajudou nada. E a gente conseguiu fazer uma grande votação. Fiz 11 mil votos em Curitiba (para deputado federal). Passou um tempo, lembro que estava no alto do (morro) Anhangava e recebi um telefonema da secretária de Trânsito, Luiza Simoneli, que é do PDT, dizendo que ela e Gustavo queriam me convidar para participar. Nos dois anos anteriores, em 2013 e 2014, Gustavo começou a colocar algumas coisas em prática que estavam na carta compromisso, que todos os candidatos tinham assinado, o (Rafael) Greca, o Ratinho Junior... Então, eu recebi o convite e disse ‘deixa eu pensar um pouco’. Demorei uns dez dias para responder a ela. Topei. Eu era do outro lado, do ativismo, mas topei.

    BP - Por que exatamente saiu do PV?
    Goura - Nesse meio tempo, Alvaro Dias entrou no partido (PV) e eu disse ‘cara, eu não vou ficar aqui, junto com o cara que diz que agrotóxico é fitossanitário. Eu não vou estar aqui. E veio o convite para entrar no PDT, da Luiza, do Gustavo. Eu trabalhei com a hipótese de me candidatar ou não a vereador até o último momento. Eu vi que tinha chances reais.

    BP – Foi aí sua vida mudou bastante, não?
    Goura – Aprendi a dar nó em gravata.

    BP – As pessoas te cobram fidelidade às origens?
    Goura – Convivi desde o começo com uma ambivalência. Tem gente criticando, dizendo ‘você está querendo se apropriar do movimento’. Por outro lado, eu tinha legitimidade para falar em nome do movimento. Fui eleito vereador em 2016 e já fazia 12 anos que estava discutindo com Ippuc, Setran, prefeito, inclusive aqui na Assembleia. Um simples ativista que vinha aqui no (Ademar) Traiano, com Guto Silva junto, cobrar bicicletário na Assembleia. Fiz esse exercício de abrir um leque de pautas e ações. É que como vereador você tem que se posicionar em todos os assuntos que chegam.

    BP – Agora que você senta com outros políticos, negocia, cede e cobra, o que você diz a quem está no ativismo hoje?
    Goura – O aprendizado de estar aqui, ocupando o espaço, é de também não abrir mão de princípios, de ideais e utopias, mas conseguir ter um avanço significativo. Um exemplo: o projeto mais importante que a gente aprovou na Câmara de Vereadores, da Agricultura Urbana. Incubamos esse projeto, fizemos audiências públicas, debatemos, chegamos a um projeto que se fosse no meu nome protocolado, ele não ia passar. Porque o prefeito (Rafael Greca) ia orientar a base a derrubar. Mas a gente conseguiu articular com o secretário de Abastecimento que tinha interesse no projeto e a gente protocolou o projeto em nome da Comissão de Meio Ambiente. Pro Greca ficou mais confortável.

    BP – Você se posiciona nas votações com a esquerda, com o trabalhismo, com a oposição. Como vai crescer politicamente e convencer o curitibano de direita para ser prefeito?
    Goura – A gente teve a votação do ‘Escola Sem Partido’. Eu tenho uma posição de centro-esquerda, a gente tem conversado e dialogado com vários setores, mas se não fosse esse diálogo com o centro e a centro-direita também, o projeto ‘Escola Sem Partido’ teria sido aprovado. Se a gente não tivesse conseguido sensibilizar deputados que não são de esquerda, que são mais conservadores, mas que entenderam que o projeto é inconstitucional.

    BP – Até onde vai sua carreira política? É a favor da reeleição no Executivo?
    Goura – Dentro da filosofia do Yoga, a gente exerce o desapego. Sim, uma vez (a reeleição), acho que sim. A política é um serviço. Um ato de doação, de servir a sociedade.

    Foto: Reprodução / Facebook / Goura

  • Números

    Bloqueio e rastreadores ajudam a reduzir furtos e roubos de celulares

    Bloqueio e rastreadores ajudam a reduzir furtos e roubos de celulares
    (Foto: Divulgação / PC-PR)

    O número de celulares furtados ou roubados no Paraná diminuiu gradativamente nos últimos três anos. De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp-PR), a redução do número de furtos foi de 7,5% na comparação do primeiro semestre de 2019 com o mesmo período de 2018, e de 24,1%, em comparação com 2017. Já o número de roubos diminuiu 17,3% de 2018 para 2019 e 53% se comparado o primeiro semestre de 2019 com o mesmo período de e 2017. No primeiro semestre de 2019 foram registrados 9.242 furtos e 6.781 roubos de aparelhos celulares em todo o Estado.

    Parte do fenômeno é atribuída à tecnologia, que permite rastreamento ou bloqueio total de aparelhos. O bloqueio mais comum é por meio do Imei, sigla para “International Mobile Equipment Identity”, possível para qualquer aparelho smartphone. É um código de identidade de cada dispositivo eletrônico, como celulares, e que com esse código é possível inutilizar um aparelho após a realização de um Boletim de Ocorrência (BO). A própria Polícia Civil pode solicitar o bloqueio à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) ou o proprietário, de posse do Imei, pode solicitar que a operadora de telefonia faça a solicitação. De qualquer forma, é exigida confecção do B.O para que o bloqueio seja realizado.

    Apesar disso, muitos aparelhos ainda são furtados ou roubados para serem desmontados depois de vendidos para receptadores. Nesse caso, o trabalho da polícia é focado em investigar as lojas que vendem peças de segunda linha. Mas, o mais comum, segundo o delegado Marcelo Magalhães, da Delegacia de Furtos e Roubos de Curitiba, é a venda de celulares por meio de sites de vendas.

    “O que chama atenção é que muitas pessoas acabam repassando celulares por meio de sites de vendas, porque acham que é um ambiente privado, que seria difícil de rastrear. Só que nós, aqui em Curitiba, recuperamos dezenas de celulares todos os meses só fazendo buscas em sites desse tipo”, aponta.

    O delegado recomenda que aparelhos sejam comprados somente com nota fiscal em loja autorizada ou em nome do proprietário identificado. Magalhães também alerta que comprar um aparelho sem procedência pode implicar o comprador no crime de receptação.

    “A gente sempre ressalta que as pessoas devem comprar esses produtos em lojas que forneçam uma certa garantia. É temerário comprar pela internet. Também tem grupos de Whatsapp, de Facebook, onde há essa prática muito comum (de venda de celulares roubados). A gente consegue recuperar esses aparelhos. Também é comum aqui na delegacia que as pessoas que compraram celular venha relatar um problema. Dizem ‘olha, comprei aparelho pela internet e apareceu como bloqueado’. A gente investiga e descobre que é um aparelho roubado”, diz.

    Apesar da queda, casos ainda são significativos

    Embora os números mostrem uma redução no número de registros, o número de casos ainda é significativo. Exemplo é o caso da jornalista Adriana Lopes, que passou dois anos morando em Boston, nos Estados Unidos, e foi assaltada assim que chegou a Curitiba. Três dias depois de retornar, Adriana teve o celular levado no Parque Bacacheri. “Fui batizada”, ironiza.

    Adriana conta que no primeiro passeio despretensioso foi vítima de assalto. “Fui fazer uma caminhada com meu cachorro, às 16 horas, num bosque que fica próximo à minha casa. Estacionei o carro dentro do parque e fui andar, do lado de fora. Não consegui completar uma volta inteira no quarteirão quando fui abordada por três rapazes. Um deles tomou o aparelho da minha mão e o outro puxou o fone que estava no meu ouvido. Eles saíram andando normalmente, como se nada tivesse acontecido. O lugar tem guarda, mas na hora que aconteceu não tinha ninguém por perto”, conta.

    Ela diz que compartilha do sentimento de outras vítimas, que relatam estar em constante estado de atenção. “Nós, a população, estamos presos e eles, os marginais, é que estão soltos, cometendo crimes e assustando a sociedade sem o menor pudor. Como eu ia fazer para me defender de três cretinos? Claro que preferi não reagir. O iPhone foi, mas a decepção de não ter como me defender fica”, relata.

  • Coexistência

    Ato destaca crítica a ataques contra cultos de matriz africana em Curitiba

    Ato destaca crítica a ataques contra cultos de matriz africana em Curitiba
    (Foto: Franklin de Freitas)

    Curitiba teve neste domingo (15) uma terceira “Passeata Contra Intolerância Religiosa”, que reuniu representantes de diversas religiões. A manifestação na capital paranaense surgiu em 2017, em uma mobilização nacional, depois de ataques sofridos por terreiros de candomblé no Rio de Janeiro. De lá para cá foram duas edições anuais fixas, além de atos extraordinários, como o que ocorreu em julho novamente no Rio, em razão da ação de traficantes contra outro terreiro em Duque de Caxias. Em Curitiba, ocorrências também relacionadas a ataques a terreiros motivaram a mobilização.

    Embora as religiões de matriz africana sejam as mais atacadas e tenham especial defesa no ato, os organizadores ressaltam que todas as religiões foram bem-vindas e tiveram espaço no movimento por coexistência pacífica.

    O grupo Tambores do Paraná, de proteção à religiões afro-brasileiras, foi quem organizou o ato, que também tem apoio da prefeitura de Curitiba. Maycon Kopp, presidente do Tambores do Paraná e um dos organizadores do evento, diz que o momento é crítico para a diversidade religiosa e que, mais do que nos últimos anos, a participação do maior número de pessoas interessadas na paz se faz necessário. “Com certeza, tem (mais ódio e intolerância do que em outros anos). Algumas coisas aparecem na mídia, como aquela tentativa de incêndio que o pai de santo conseguiu apagar, depois o incêndio e quando roubaram o Terreiro das Marias que estava em obras. Mas algumas coisas que não estão aparecendo, como a agressividade com que forças policiais estão chegando, por exemplo, com muita força, com muitas palavras pesadas, que se intensificaram”, analisa.

    Kopp, que coordena o grupo que dá aulas de percussão a diversas entidades, conta que ele próprio presenciou abordagens consideradas por ele abusivas.

    Prisão durante passeata

    Um homem foi preso pela Guarda Municipal de Curitiba ontem, nas imediações da Praça Eufrásio Correa. Ele estava com uma faca e, no momento da prisão, disse que iriar matar uns 400, segundo denúncia dos integrantes da organização Julho das Pretas do Paraná. Segundo as informações preliminares a autuação foi encaminhada à Central de Flagrantes no bairro do Portão. Não informações sobre pessoas feridas.

    Depois de incêndio, terreiro sofreu furto

    Entre os relatos de ataques em Curitiba, o mais recente foi sofrido pelo Terreiro das Marias, de Umbanda, que fica no Bairro Santa Quitéria, em Curitiba. O local já havia pegado fogo há pouco mais de um mês, quando foi invadido e furtado na madrugada do dia 8 de setembro último. Os suspeitos, ainda não foram identificados e levaram, inclusive, materiais que estavam sendo utilizados na reconstrução do espaço.

    Os responsáveis pelo terreiro das Marias estimam novo prejuízo em torno de R$ 6 mil. Foram levados fios, máquinas de serrar madeira, lixadeira, materiais de limpeza, parafusos e buchas do piso de madeira. Da cantina, os suspeitos levaram ainda um forno elétrico, uma estufa pequena, cafeteira e garrafas térmicas, além de balas, chocolates e salgadinhos.

    O terreiro pegou fogo no dia 1º de agosto, dez dias depois de uma dupla ter ateado fogo em um centro espírita em construção no bairro Portão. As chamas consumiram praticamente todo o barracão. No caso do Portão, câmeras de segurança flagraram a ação criminosa. No Terreiro das Marias, no entanto, ainda não há suspeitos relacionados pela polícia.

    O Terreiro das Marias será reinaugurado hoje (16). A reconstrução do terreiro foi possível após a arrecadação de R$ 41 mil por meio de uma campanha de doações online, que rendeu o valor liquido após descontos de taxas, de R$ 38 mil. A reinauguração está marcada para às 19 horas. A expectativa é de que cerca de 300 pessoas participem. “Qualquer pessoa pode participar”, diz.

  • Previdência

    Servidores de Curitiba também terão reforma na aposentadoria

    Servidores de Curitiba também terão reforma na aposentadoria
    A PEC diz que se o Estado fizer ‘nós estamos dentro’, diz presidente do IPMC (Foto: Cesar Brustolin/SMCS)

    Servidores municipais de Curitiba também devem ter seus regimes de previdência alterados após aprovação de uma reforma estadual. O presidente do Instituto de Previdência dos Servidores do Município (IPMC), Ary Gil Merchel Piovesan, afirma que já aumentou a demanda por informações, mas que por enquanto não teria sido acompanhada por pedidos de aposentadoria.

    Segundo ele, o serviço municipal é próximo do servidor e há menos desinformação. “Aqui na prefeitura, dos servidores municipais, não percebemos alteração em função da reforma. Uma questão que envolve isso é que o nosso servidor vem buscar uma informação aqui conosco (no IPMC ou núcleos de RH), ele quer saber quando pode, quando não pode. É diferente uma situação do regime geral que as pessoas procuram o INSS (e não conseguem as informações precisas de imediato)”, garante Piovesan.

    Porém, o cenário deve mudar. Com acesso recente ao texto atualizado da reforma Previdência, que tramita no Congresso Nacional, a prefeitura tende a seguir os passos do governo estadual e federal e aplicar a íntegra do texto também aos servidores municipais. “A PEC diz que se o Estado fizer ‘nós estamos dentro’, por uma condição da Constituição nova. Em termos de sistema previdenciário viável tem que se estabelecer um sistema de idade mínima. A PEC dá essa abertura. Se o Estado aprovar, e nós não quisermos, temos que fazer o contrário, existiria essa possibilidade. Mas aí a gente perde a uniformidade do Pais”, adianta.

    Portanto, a tendência é de que os servidores municipais de Curitiba também tenham que arcar com as mudanças impostas aos trabalhadores de outras esferas. “Como eu compatibilizo regras distintas? Um município fazer de um jeito e outro de outro? Não dá. Somos a favor da uniformidade”, pontua o presidente do IMPC.

    Piovesan adianta que um grupo de trabalho analisa o novo texto da reforma e já prepara medidas para a mudança no regime local. “A PEC com o novo texto foi disponibilizada dessa forma na ultima sexta feira. Estamos em condição de compasso de espera (do que será feito no governo do Estado). Como vai se dar essa discussão na Assembleia Legislativa? Em que tempo? Ainda não tivemos uma discussão nesse nível (para afirmar que esta gestão aprovará a reforma municipal)”, pondera.

    O secretário diz que informar o servidor, em comparação com núcleos maiores, como o estadual e o federal, é um diferencial que evita o “grupo dos desesperados”. “Com relação ao pedido, o nosso servidor, pela proximidade da informação que ele pode obter, seja nos núcleos de recursos humanos ou no IPMC, ele não fica no ‘grupo dos desesperados’ porque tem informação. Temos servidores que poderiam ter se aposentado há 20 anos, mas que preferem continuar trabalhando”, diz.

    Ele admite, porém, que há uma euforia, que ainda pode aumentar. “O contexto (de tramitação da reforma federal) faz com que o servidor venha buscar informação, percebe que vem vindo uma reforma. A busca por informações, sim. ‘Vou ser atingido ou não pela reforma’”, conta.

    Piovesan lembra que ajustes já foram feitos no primeiro ano de gestão do prefeito Rafael Greca. “Nós já implementamos a previdência complementar (prevista na reforma federal), que começou a partir deste ano. Ele (servidor) pode aderir a uma previdência complementar. Isso o município já fez no plano de 2017, bem como as mudanças de alíquotas de contribuição mínima de 14% de contribuição do servidor. Alguns aspectos já aplicamos”, explica.

    Reforma causa corrida por aposentadoria entre servidores do Paraná

    O avanço no trâmite do projeto da reforma da Previdência no Congresso Nacional deve aumentar ainda mais a procura por requisição de aposentadorias, tanto na esfera privada, quanto na pública. No Paraná, a previsão de que o governo Ratinho Junior (PSD), conforme declarações do próprio governador, adotará literalmente o modelo federal, em que a idade prevalece sobre o tempo de serviço, já causa uma corrida por pedidos para se aposentar. Somente no primeiro semestre deste ano, já houve quase o mesmo número de pedidos do que em todo o ano passado, quando a demanda já havia aumentado.

    O fenômeno é observado desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), já no governo Michel Temer (MDB), quando preponderou o discurso de que uma reforma da previdência seria fundamental para extrair o País da crise econômica que perdura desde 2015. Somente pelo Paranaprevidência, regime dos servidores públicos estaduais, em 2017, foram 4.927 aposentadorias concedidas e 8.235 pedidos realizados. No ano seguinte, houve um recorde, de 7.285 concessões e 4.973 pedidos, que deve ser batido em 2019, já que somente até o mês de julho já foram concedidas 4.605 e pedidas 4.537 aposentadorias por tempo de serviço.

    Por enquanto, no texto aprovado na Câmara Federal e que agora tramita no Senado, a reforma não prevê a inclusão de Estados e municípios, mas uma cláusula permite que cada governo local adote ou não o regime. Em uma tentativa de evitar desgaste com servidores estaduais, o governo do Paraná defendeu que o Congresso incluísse os estados na reforma. Assim, evitaria a tramitação de uma reforma própria seguindo todo um rito no Legislativo estadual, o que daria mais brecha para mobilização contrária. Por enquanto, não há indícios de que o Senado altere essa condição. Por isso, o governo já prepara sua própria reforma nos mesmos moldes da aprovada nacionalmente.

    “Tem que ser feita uma reforma para os estados e para os municípios. Nós estamos defendendo que os estados também entrem, para que a gente possa garantir para mais 20, 30, 40 anos esse recebimento para o servidor público e, em especial, para o aposentado”, disse o governador Ratinho Junior (PSD) logo após a remessa do texto para o Senado.

    Entre outras mudanças, a idade mínima prevista no texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de reforma da Previdência, que foi aprovado no dia 4 de setembro na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e está pronto para votação em plenário, é de 65 anos para homens e 62 anos para as mulheres, com tempo mínimo de contribuição de 25 anos. Para quem já está trabalhando, conforme a proposta, haverá regras de transição.

    Servidor público federal também se mostra preocupado

    Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo, com base em dados do Ministério da Economia, apontou na semana passada que 24 mil servidores do Poder Executivo requisitaram aposentadoria nos sete primeiros meses de governo Jair Bolsonaro (PSL).

    O número já supera o total (18,8 mil) de pedidos feitos em 2018. Em 2017, em meio a negociações pela reforma no governo Temer, as aposentadorias foram 22,4 mil, ainda abaixo do acumulado neste ano. Entre 2004 e 2016, os pedidos oscilaram entre 7 mil e 16 mil ao ano.

    O serviço público só apresentou uma busca intensa assim durante os debates da reforma no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Entre 1995 e 1998, a média de pedidos no Executivo ficou em 27,5 mil ao ano, com um pico de 36,8 mil em 1995, ano de envio da proposta que virou a primeira grande transformação nas regras de aposentadoria do Brasil.

    O governo enviou ao Congresso Nacional em fevereiro a proposta para reformar a Previdência dos trabalhadores dos setores privado e público, acabando com a aposentadoria por tempo de contribuição e instituindo uma regra de transição. Em março, também encaminhou uma proposta para os militares, que veio acompanhada de um projeto de reestruturação de carreira (que diminui o impacto das mudanças previdenciárias para essa categorias). Os textos ainda estão tramitando no Legislativo e podem ser votados em plenário ainda neste mês.

  • Soluções

    Perda de passageiros desafia transporte público em Curitiba e região

    Perda de passageiros desafia transporte público em Curitiba e região
    (Foto: Franklin Freitas)

    A perda contínua de passageiros de ônibus do transporte público de Curitiba e região, que se estende pelo menos desde 2016 até agora, causou uma mobilização simultânea da prefeitura de Curitiba, por meio da Urbanização de Curitiba (Urbs), do governo do Estado, por meio da Coordenação da Região Metropolita (Comec), e das empresas concessionárias. Com 15.356.397 passagens pagas, o mês de agosto de 2019 foi o pior dos últimos quatro anos, com uma perda de 16% em comparação com o mesmo mês de 2016.

    De acordo com dados disponíveis no site do Sindicato das Empresas de Transporte (Setransp), o mês de agosto perdeu 2.906.494 passagens pagas. Os relatórios também apontam, mês a mês, que a projeção da Urbs para o número de pagantes é sempre menor do que o concretizado. Com isso, as empresas reclamam de defasagem constante para manutenção do sistema.

    Dados disponíveis no site da Urbs, apontam que quase 20 mil pessoas (2,7% do total) deixaram se locomover de ônibus no primeiro semestre de 2019, em comparação com o mesmo período do ano passado. No primeiro semestre 2018, a Rede Integrada de Transporte (RIT) registrou 718.135 usuários, uma queda de 1,14% se comparados os números do mesmo período de 2017. A queda proporcional é ainda maior, se for considerado que a população aumentou no período. Curitiba, por exemplo, segundo o IBGE, tinha 1.893.997 habitantes em 2016 e agora, tem 1.933.105, conforme dados divulgados na última semana.

    A equação, que envolve a queda de usuários, custo do sistema, lucro das empresas, taxas, impostos e melhorias já é debatida à exaustão, em especial durante o período tradicional de reajuste, em fevereiro. Esse cálculo em constante mudança cria desafios permanentes aos gestores. O valor da tarifa é apontado como causa para perda de passageiros, que atualmente têm nos aplicativos de transporte um “concorrente” mais em conta em determinados horários.

    Uma solução conjunta, projetada pela prefeitura, pelo governo e acompanhada pelas empresas é a redução do valor das tarifas em horários com menor movimento, como forma de incentivo à retomada de passageiros que têm buscado alternativas ao transporte público. Uma delas, também vista como responsável pela queda, é o uso de aplicativos de motoristas. Não há uma estimativa de quantos passageiros os ônibus perderam para os aplicativos, mas é consenso entre os gestores do sistema que o fenômeno é causado por essa migração.

    O prefeito Rafael Greca (DEM) editou recentemente nova regulamentação para a atuação de aplicativos de motoristas, mas mesmo assim ainda não foi suficiente para equilibrar a “competição”. “A maior parte dessa perda (de passageiros) ocorre devido à crise econômica. E um conjunto de outras pequenas partes contribui para que os usuários deixem aos poucos de usar os ônibus – entre elas, os aplicativos de transporte. A nossa avaliação é a de que o serviço de aplicativos de transporte deveria ser regulamentado, ou seja, obedecer a normas e procedimentos nos mesmos moldes a que estão sujeitas as empresas de ônibus, por exemplo. Do contrário, cria-se uma competição desigual”, dizem as empresas em nota enviada pelo Setransp.

    Curitiba e região devem reduzir valores

    Como medida para atrair mais usuários ao transporte público, a Comec elaborou um projeto-piloto com tarifas mais baratas em horários de menor movimento. O anúncio foi feito nesta semana pelo presidente da Comec, Gilson Santos. Testes vão começar na próxima semana, na linha Pinhais-Guadalupe. A nova tarifa, de R$ 3,90, é 60 centavos mais baixa que a convencional e será praticada a partir da próxima segunda-feira. Os testes seguirão até o dia 29 de novembro.

    O novo valor valerá para os períodos compreendidos entre 9 e 11 horas; 14 e 16 horas e das 20 horas até meia-noite. De acordo com a Comec, a linha foi escolhida por contar com veículos articulados, que podem comportar um número maior de passageiros com o possível aumento da demanda nos horários de menor movimento. Atualmente, cerca de 9 mil usuário utilizam essa linha, que sai do Terminal de Pinhais e segue até o Terminal do Guadalupe, no Centro de Curitiba.

    A Capital deve seguir o mesmo caminho. Na terça-feira a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal deu parecer positivo a um projeto de lei da Prefeitura que estabelece condições legais para tarifas diferenciadas no transporte coletivo da capital. O texto diz que a medida valerá conforme as linhas de ônibus, o horário da utilização e os pontos de embarque e desembarque. A proposta ainda estabelece que um decreto do prefeito definirá os critérios para a diferenciação tarifária com base na modalidade de pagamento do serviço, a quantidade de utilização do transporte pelo usuário dentro de uma periodicidade, dentre outros.

    Para o Setransp, não há nenhum impeditivo, contanto que não haja desequilíbrio nos contratos de concessão.

    As empresas afirmam que outras medidas foram tomadas para tentar atrair mais passageiros. Em nota, cita “renovação da frota: desde a assinatura do termo de ajuste, em novembro de 2017, já foram entregues 262 novos ônibus. Serão 450 até o fim de 2020; mais conforto, com eficiência e segurança (os novos veículos vêm equipados com câmeras) para os passageiros; criação de novas linhas, como o Ligeirão Santa Cândida – Praça do Japão; retomadas de integrações com a região metropolitana; aumento do número de faixas exclusivas; Operação Fura-Catraca; compra de créditos para o cartão transporte por aplicativos no celular; e política de subsídio para a manutenção da tarifa ao usuário em valor módico”.

  • ENTULHO

    Empresas irregulares comprometem destinação de resíduos de construção em Curitiba

    Empresas irregulares comprometem destinação de resíduos de construção em Curitiba
    Entulho da construção: um problema de descarte correto (Foto: Franklin de Freitas)

    Curitiba gera 1,9 milhão de toneladas de resíduos da construção civil todos os anos. O índice do Ministério do Meio Ambiente considera de 520 kg de resíduos da construção civil (RCC) por habitante/ano, e a população estimada pelo IBGE em 2019 para a capital. De acordo com levantamento divulgado pelo Conselho Regional de Engenharia do Paraná (Crea-PR), cerca de 98% desse material (principalmente entulho e madeira) poderiam ser reciclados, dentro do próprio canteiro ou em centrais externas especializadas. Um dos problemas que dificultam a destinação correta está na atuação de empresas clandestinas e na falta de fiscalização. Empresários ouvidos pela reportagem estimam que cerca de 150 empresas de recolhimento de entulhos atuem regularmente em Curitiba e outras 150, sem documentação. Essas seriam as vilãs do meio ambiente.

    A proprietária de uma das maiores locadoras de caçambas de entulhos de Curitiba, que pediu para não ser identificada por receio de retaliação de concorrentes, reclama da atuação de empresas clandestinas na capital e Região Metropolitana. “Quando solicita locação de caçamba, com licenças, tem toda a documentação que a empresa deve apresentar para o cliente. Temos certificação de destinação, a MTR, que é a licença de transporte, precisa de licença do Instituto Ambiental do Paraná, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e tudo isso tem que pagar. Tenho que ter essas notas e enviar para Secretaria do Meio Ambiente todos os meses, para comprovar o trabalho. O problema são as empresas que trabalham clandestinamente. Nós oferecemos as notas fiscais, tudo certo. A clandestina não tem nota, não paga taxas, não paga imposto, então lógico que vai ser mais barato. Em Curitiba e região tem muitas empresas clandestinas. Só em Curitiba, em torno de 50 empresas atuam sem documentação”, denuncia.

    Além de todo o processo de separação e destinação, as empresas de caçambas também devem obedecer as regras de trânsito, relacionadas pela Superintendência de Trânsito de Curitiba (Setran). “No Centro de Curitiba, por exemplo, a colocação de caçamba precisa seguir a regulamentação. Precisamos paga todas guias, as taxas do Setran, o Estar, e a gente apresenta para o cliente para mostrar transparência e permanecer no mercado.”, justifica.

    De acordo com a empresária, as empresas licenciadas seguem rigoroso sistema de reciclagem. “O material comum, como concreto limpo e madeira pode ser destinado a aterro licenciado. Os materiais contaminantes devem ser levados para as usinas. A gente envia para Cetric (Central de Tratamento de Resíduos Sólidos), em Araucária; e a Essencis Soluções Ambientais (na CIC), todas emitem o certificado de destinação correta que a gente apresenta para o Meio Ambiente. Também tem a Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná) que recebe concreto e madeira”, detalha.

    O preço médio para contratar o recolhimento de entulhos em Curitiba gira em torno de R$ 200,00 a R$ 230,00, segundo ela. “Caçamba de 5 metros cúbicos varia de 200 a 230, com caliça limpa (concreto), que somente o custo para aterro comum é de R$ 50,00, só para descartar no aterro”, diz. A prefeitura de Curitiba permite a permanência de uma caçamba pelo período de três a cinco dias. No caso de material contaminante, como gesso, o preço é mais alto. “Em torno de 450 reais, dependendo do material. Quando é gesso e drywall a gente manda para o HSG Reciclagem de Gesso, em Pinhais. O clandestino joga em qualquer lugar. O cliente liga para a gente e diz que 'conseguiu por 130 ou 150 reais'. Claro, sem destinação correta fica fácil”, reclama. Empresas grandes não costumam contratar clandestinas porque precisam comprovar com a certificação de destinação.

    O pedido da empresária para não ser identificada, diz, decorre de uma concorrência considerada por ela como desleal. Ela afirma que empresas clandestinas também costumam retaliar concorrentes quando se consideram ameaçadas, inclusive com depredação e roubo de caçambas. “Roubam caçamba, marcam caçamba. Tem roubo. Chega um caminhão e rouba. Quando a gente vê simplesmente a caçamba sumiu. Uma caçamba nova custa em torno de 2,5, mil”, calcula.

    A empresária recomenda que os clientes fiquem atentos aos serviços, já que, segundo ela, é fácil identificar que trabalha de maneira irregular. “Quando a caçamba não tem faixa refletiva, não tem as pinturas e contatos da empresa, já pode desconfiar que todo o resto pode estar errado. A pessoa tem que questionar. Inclusive o preço. A minha locação esta mais cara por causa da separação e destinação correta. Isso tem um custo óbvio”, justifica.

    Ela afirma que a fiscalização existe, mas que ainda é insuficiente para o número de irregularidades. “A fiscalização é importante, mas tinha que ser mais. “No site da Setran, nos sites das empresas que trabalham de forma correta já tem as explicações sobre as normas”, orienta.

    A empresária estima que Curitiba tenha pouco mais de 100 empresas regulares, o que já é considerada uma concorrência acirrada por clientes. Quando incluídas empresas clandestinas, o mercado passa a ser desleal, diz. “Só para estar com o site na primeira página do Google já é uma dificuldade imensa”, compara.

    Falta de dados trava criação de soluções

    Embora não haja dados precisos, o que é um dos principais problemas do segmento, o Caderno Técnico sobre Resíduos Sólidos publicado pelo Crea-PR aponta que a atividade de reciclagem e reaproveitamento ainda é pouco debatida. De acordo com o vice-presidente da Associação Paranaense dos Engenheiros Ambientais (Apeam), Luiz Guilherme Grein Vieira, que é também responsável pela atualização do Caderno Técnico do Crea-PR, o cálculo do setor é de que o Brasil reaproveita 21% dos resíduos da construção civil. Na Alemanha, por exemplo, o índice chega a 90%. Um verdadeiro 7 a 1 no canteiro de obras. “A gente tem muita dificuldade com relação a números. Mesmo esse valor dos 21% é um número bem questionável. Para planejar alguma coisa, fazer uma gestão de alguma coisa, é saber quanto se tem dessa coisa. No plano estadual de resíduos uma das propostas é criar um sistema de informações. Em vez de ter um papel para cada caçamba, a gente tenha um sistema informatizado. Lá na prefeitura tem uma pilha de papel. E nunca foi feito esse levantamento. Tendo esse número correto vou saber que gero 2 milhões de toneladas. O que é feito com esse restante, vai para onde? Rastreando é possível fazer um plano, um Ecoponto, uma legislação para criar novas usinas, formas de incentivo à reciclagem”, avalia.

    A fiscalização da atuação profissional é responsabilidade do Crea, já a prefeitura monitora as licenças e danos ambientais. “O pessoal do departamento de limpeza pública comentou em um evento na semana passada que houve redução de pessoal que faz a fiscalização da prefeitura. O Crea tem feito essa fiscalização nas obras, que é cobrar a atuação dos profissionais. E cresceram. Em 2017 foram 160 fiscalizações. Em 2018 saltou para 893 e em 2019, até agora, foram 593”, afirma.

    Iniciativas das próprias empresas e indivíduos responsáveis pelos resíduos também são vistas como evoluções na construção civil aliada ao meio ambiente. “Existem algumas soluções como o britador móvel, que em vez de ter que manter uma usina, que é mais cara, pode com o britador reduzir bastante na própria obra. Alguns mecanismos também não geram resíduos, o que ajuda bastante”, sugere.

    Segundo Vieira,o Plano Estadual de Resíduos Sólidos do Paraná (PERS/PR), de 2017, mostrou que, dos 81 municípios que responderam à pesquisa, 92% destinavam os resíduos em locais inadequados, ou seja, sem a devida licença ambiental. “Parte dos resíduos de construção é composta por  materiais perigosos, como tinta, solvente, EPIs contaminados, que, destinados de forma inadequada, podem contaminar o solo, a água subterrânea e a água superficial, causando impactos ambientais. Você pode contaminar o solo, a água subterrânea, a água superficial, causando vários problemas de saúde. O entulho também é um atrativo grande de vetores, como ratos e moscas, que podem causar doenças para a população”, acrescenta.

    Procurada, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente não retornou aos pedidos da reportagem.

  • Fomento

    Com 70% da carteira dependente do BNDES, BRDE teme mudanças do governo Bolsonaro

    Com 70% da carteira dependente do BNDES, BRDE teme mudanças do governo Bolsonaro
    Entrevista com Wilson Bley Lipski, diretor operacional do BRDE no Paraná (Foto: Henry Milléo)

    Narley Resende

    Mudanças ventiladas por integrantes do governo Jair Bolsonaro (PSL) na forma de concessão de recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) preocupam o principal banco de fomento do Sul do País. O Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, que atende Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, tem hoje 70% de seu caixa formado por dinheiro do BNDES.

    Há pelo menos dois anos a diretoria do BRDE tenta diminuir essa dependência, que já chegou a 99,3% de seus recursos de fomento. Hoje, BRDE espera reduzir esse número para 55%, buscando novos financiadores, principalmente internacionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Europeu de Investimentos (BEI), a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), o Banco Mundial, além de nacionais como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Há ainda uma nova política que deve ser adotada em breve, principalmente para financiar micro e pequenas cooperativas, que é o uso dos lucros do BRDE para cumprir seu papel de fomento.

    Na última semana, o BRDE divulgou seu balanço semestral apontando que encerrou o primeiro semestre deste ano com R$ 1,1 bilhão em operações de crédito contratadas. O montante representa um crescimento de 35,1% em comparação com igual período do ano anterior. O receio de um BNDES mais enxuto e uma nova estratégia de redução de dependência devem colocar à prova estratégias menos conservadoras para manter o crescimento do banco que é constante. O lucro líquido apurado pelo BRDE no primeiro semestre de 2019 foi de R$ 109,6 milhões, o que representa um incremento de 66,7% em relação a igual período do ano anterior. Este é o melhor desempenho do primeiro semestre na história do banco. Também houve, segundo o balanço, redução do índice de inadimplência (a partir de 90 dias), passando de 2,84% no primeiro semestre de 2018 para 0,88% ao fim de junho de 2019.

    “Não é esse cenário conservador que faz com que nós tenhamos uma carteira com baixa inadimplência”, pontua o diretor de operações do BRDE, Wilson Bley Lipski, ao anunciar novas modalidades de financiamento consideradas de maior risco. “O banco não pode esquecer sua finalidade que é fomentar. Isso nos motiva de uma forma diferente de outros bancos”, afirma.

    Bem Paraná - Os dados, com o número de créditos contratados e a carteira de créditos, são referentes a um ano contábil anterior, referente, por exemplo, a um repasse do BNDES do ano passado? Por que agora o governo tem mexido na política do BNDES.

    Wilson Bley Lipski - Tem, tem mexido. Nós temos limites com o BNDES, que são semestrais. Neste momento a gente está enfrentando um desafio de que o limite que eles nos ofereceram possa ser ampliado. Porque nós estamos 'encarteirados' com uma demanda enorme. Os três estados estão. O que eles nos ofereceram não atende toda essa demanda.

    BP - Por que dessa demanda? As pessoas tem menos dinheiro para investir?

    Bley - Na verdade, acho que há um movimento para retomada de investimentos. Nós temos hoje R$ 3 bilhões encarteirados dentro do banco. Geralmente, a taxa de sucesso de tudo isso que está encarteirado é de 65% a 70% do que se efetiva, nesse semestre. De janeiro a julho, nós efetivamos R$ 1,1 bilhão de novas operações de crédito. Os 'R$ 1,4 bi' é dos investimentos, onde é computado no investimento a eventual contrapartida do tomador do recurso. Como investimento, como entrega, foi R$ 1,4 bilhão. O que foi financiado por nós foi R$ 1,1 bilhão. Essas demandas ocorreram neste primeiro semestre desde ano e nós tínhamos um limite do BNDES, tínhamos outros fundings. O que nós fidelizamos do BNDES foi 70% da nossa carteira.

    BP - E isso é inferior à média dos anos anteriores.

    Bley - É inferior. Nós não queremos ser mais tão dependentes dos recursos do BNDES.

    BP - O BRDE tem, então, menos dinheiro hoje, já que o BNDES repassou menos? Tem que compensar esse dinheiro que faltou do BNDES.

    Bley - Claro, tem que compensar. O banco sempre foi grande dependente do BNDES. Chegamos a ter uma dependência de 99,3%

    BP - E por que isso é ruim?

    Bley - Ruim porque se o BNDES nos corta o limite ou se redireciona como está fazendo agora, não entrega crédito, eu tenho um custo operacional e se eu não tiver uma receita operacional eu estou fadado a ter que tomar medidas mais radicais. E você depositar toda sua confiança em um único parceiro acho que é uma questão preocupante. Dá mesma forma um tomador. Não posso pegar um dinheiro do BNDES e colocar em um único tomador.

    BP - Há desde o ano passado uma tentativa de incluir dinheiro no BRDE de uma agência francesa, do BID e outros. Isso se concretizou?

    Bley - Se concretizou. É muito forte para nós, principalmente neste período, que nós possamos ampliar a possibilidade de outros funding. Tinha no passado já uma discussão com o BID, que estamos em processo, esse dinheiro não se efetivou ainda, não entrou, estamos muito próximos que isso aconteça. Conseguimos viabilizar o BEI, que é o Banco Europeu de Investimentos, AFD, que é a Agência Francesa de Desenvolvimento, e há um mês nós aprovamos na Ciofiex (Comissão de Financiamentos Externos) o nosso empréstimo com o Banco Mundial, que são U$S 125 milhões para residência urbana. Então vão ser empréstimos aos municípios; e nós temo o Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), nós temos o FGTS.

    BP - Somente considerando essa “alternativa internacional”, só pegarmos os financiadores externos, se tudo se efetivar, incluindo o BID, quantos porcento isso irá representar para o caixa do BRDE?

    Bley - Nós temos um plano de reduzir a dependência do BNDES para 55%.

    BP - E os internacionais vão representar quanto?

    Bley - Somando tudo, acredito que uns 20%. O resto é com outros recursos. FGTS, Fungetur, outras possibilidades que nós temos. Uma das possibilidades, que se efetivou agora, foi a gente revisitar toda a nossa política, política de caixa, política de risco, de fluxo financeiro e assim por diante. Com isso, nós conseguimos primeiro ter uma carteira mais equalizada. E revisitando tudo isso, por exemplo – o banco sempre foi muito conservador no seu fundo de liquidez, e a gente deixava muito dinheiro e, claro, às vezes apostava muito em que correr risco talvez não alternativa. Deixar um dinheiro aplicado seria algo mais razoável porque estaria dando rendimentos, estaria dando resultados operacionais positivos. Então revisitamos isso. Governador deve lançar, dentro em breve, os três governadores, um programa de R$ 900 milhões, (desses) R$ 300 milhões para cada Estado. Isso é dinheiro próprio do BRDE.

    BP - Que se consegue com lucro?

    Bley - Com lucro. Vamos dizer, os R$ 100 milhões que nós demos de lucro passam pela política do nosso fluxo financeiro e também do nosso fundo de liquidez, mas a sobra disso, se a gente não for tão ortodoxo como não estamos sendo, a gente consegue passar isso para se aplicado no mercado.

    BP - Essa mudança de política é baseada em qual indicador? Ou foi uma decisão de governo, de querer usar o que sobra do lucro para fazer isso?

    Bley - A não dependência do BNDES foi estabelecida como política: não ficar somente dependente do BNDES. Isso fez com que se abrissem novas possibilidades para nós. Mais do que isso. Nós temos uma despesa que, até por uma questão vegetativa, cresce a um nível. Eu preciso ter resultados operacionais que possam suportar tudo isso. Se eu tenho uma dependência menor do BNDES e eu tenho a necessidade de encarteirar 'X valor' tenho que procurar novas possibilidades de funding. Então, nós procuramos essas instituições financeiras outras, outros fundos que possam nos possibilitar e também colocamos a nós um desafio: 'olha, o que pode ser aplicado em recursos nossos aqui'. Já lançamos no passado o 'Desenvolve Sul', um programa de R$ 215 milhões dos três Estados e agora nós conseguimos, até por algumas integralizações que ocorreram no passado, a gente equacionou isso, e achou R$ 900 milhões de dinheiro próprio do BRDE que será aplicado no mercado.

    BP - Essa política conservadora foi responsável por garantir uma taxa de inadimplência bem baixa até agora. O que garante que essa taxa vai continuar?

    Bley - Não é esse cenário conservador que faz com que nós tenhamos uma carteira com baixa inadimplência. O que tem são medidas bem efetivas de encarteirar aquilo que seja razoável que a gente sabe que vai trazer, além dos dividendos de tributos, impostos, mas também aquilo que a gente sabe que vai dar sucesso e que vão poder retornar o recurso. Isso mostra maturidade da nossa carteira. Fora isso, também o desempenho da nossa diretoria de recuperação de crédito que com grande empenho já licitou uma primeira vez e vai licitar uma segunda vez a nossa carteira de créditos que estão perdidos ao longo do tempo, mas também mostra muito a atuação delas, assim, de não ter inadimplência, de ter ações que possam mitigar essa inadimplência. Mostra uma governança bastante adequada.

    BP - Sobre esses critérios, havia um edital do BRDE para financiar uma produção de vídeo para a EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), para a TV Brasil, e o presidente da República, pouco tempo antes se manifestou dizendo que 'o governo não ia mais financiar produções LGBT'. Que tipo de interferência os governos federal e estaduais têm no banco? Eles podem direcionar dessa forma a atuação do BRDE?

    Bley - Nesse caso, nós somos quem opera o FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) da Ancine (Agência Nacional do Cinema). Nós fazemos as operações, operacionalizamos a entrega do crédito. Quem é dono do dinheiro é o fundo, quem lança o edital é a Ancine pelos seus critérios. Uma vez eleito por eles é que nós podemos fazer as operações.

    BP - Então não é uma interferência aqui, no BRDE, é uma interferência antes de chegar aqui?

    Bley - Antes de chegar aqui. Nós tivemos alguns editais e neste ano foram suspensos todos os editais, mas mesmo assim nós estamos tendo rendimentos da nossa operacionalização. É prestação de serviço pura. O FSA ainda tem desembolso, ainda tem contratos de editais anteriores que estamos fazendo por aqui. Nós não temos interferência nenhuma. Sempre coloco isso, porque geralmente as pessoas olham para aquele crédito que nos dão nesses documentários e acham que aquilo é uma ação do banco ou patrocínio do banco. Muitas pessoas me procuram dizendo 'eu também quero ser patrocinado'. Eu falo 'não, nós somos um prestador de serviços para a Ancine'. Inclusive, o FSA vai financiar algumas ações e temos o maior interesse em operacionalizar isso.

    BP - A política que eles utilizaram não interessa ao banco?

    Bley - A política é deles. Nós vamos operacionalizar isso aqui. Isso é uma receita adicional que também nós não tínhamos. A nossa receita sempre vinha da entrega do recurso, só spread (diferença entre a remuneração que o banco paga ao aplicador para captar um recurso e o quanto esse banco cobra para emprestar o mesmo dinheiro) que a gente ganha na entrega dos empréstimos. Prestar serviço é algo que está nos motivando. Tanto que oferecemos ao Estado do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a possibilidades de nós estruturarmos PPPs (Parcerias Público Privadas), servir como o BNDES fez. O BNDES no Rio Grande do Sul fez iluminação pública, fez a estruturação da PPP da iluminação pública. Nós oferecemos também e já há algumas sinalizações de a gente ter isso nesse sentido aqui.

    BP - Mas o que difere, por exemplo, para uma empreiteira. Antes ela fazia a obra e vendia para o governo a obra pronta. Agora ela vai fazer a obra via PPP com recurso próprio e do BRDE e vai cobrar lá um pedágio ou um aluguel para pagar esse crédito do BRDE?

    Bley - Para o banco, primeiro tem que servir a sua função social. O banco é de fomento e precisa estar atrelado à política que o Estado se direciona. Nós não somos uma ilha. Nós somos pertencentes aos Estados, no caso o Paraná, esse atrelamento é ainda maior por causa da relação que temos com o governador. Nós queremos auxiliar esse processo porque é uma tendência natural, as concessões, as PPPs e assim por diante. Claro que nos alimenta também uma vontade maior porque eu posso na estruturação, que eu já faço um serviço de análise muito criteriosa, econômica e financeira, quando eu vou emprestar o dinheiro quando eu vou emprestar o dinheiro para o empreiteiro, ou para o parceiro público, lá no final. Então, por que não fazer nesse início? A gente estrutura, entrega isso ao Estado, o Estado lança isso ao mercado. Na hora que tiver um parceiro privado e precisar de recursos a serem financiados o banco já sabe de toda essa estrutura, quais serão os resultados. Talvez a gente trabalhe em saber quais são as melhores garantias.

    BP - Pela lógica da Parceria Público Privada, o interesse do Estado é justamente o dinheiro que a empresa tem para investir. Se ela pegar o dinheiro emprestado do Estado, a parceria passa a fazer menos sentido.

    Bley - Exato. Às vezes dentro de um fluxo maior ou uma antecipação de investimento, que é o alinhamento que está sendo colocado. Isso é uma possibilidade, é algo que está dentro do campo das ideias. Me facilitaria a vida se tivesse esse apetite do parceiro privado que eu já fiz toda uma reflexão anterior de quais seriam os resultados, de quanto é o retorno. Eu poderia apostar dando crédito e esperar o retorno dentro dos prazos.

    BP - A política que o governo tem ventilado com relação ao BNDES é bom ou ruim para o BRDE, categoricamente?

    Bley - Ainda não entendemos qual é o reflexo de tudo isso. O que a gente tem é uma projeção de diminuir a dependência, mas não porque o BNDES tem um redirecionamento. Ele pode ter, isso é uma questão de governança, não posso apostar em um único cliente para ser tomador de crédito. O que a gente sabe do BNDES é o que a imprensa tem noticiado. Vamos ter uma reunião no dia 11 (de setembro) com o presidente do BNDES. Traz preocupação? Eu, como gestor, penso 'claro que traz', com algumas sinalizações que a imprensa deu.

    BP - O governo do Estado e o BRDE vão pressionar o governo federal e o BNDES para que se mantenham algumas políticas que hoje beneficiam o BRDE?

    Bley - Levamos essa reivindicação ao ministro (Paulo Guedes, da Economia) na semana passada. Eu e o governador estivemos lá conversando com ele. O redirecionamento ser contemporâneo é revisitar tudo aquilo que está sendo colocado e ver se aquilo é adequado ou não. Acho que é isso que o Montezano (Gustavo Montezano, presidente do BNDES). A reivindicação que nós levamos é que um banco de fomento é necessário existir, não podemos depender exclusivamente do mercado. Bancos de fomento que possam oferecer linhas com longo prazo é o que vai fazer com que possamos ter uma economia maior, que traga resultados. Viver só do mercado talvez ainda não tenhamos a maturidade para isso. Na reunião também fomos demonstrar toda a importância que o BRDE tem aqui no Sul. Todo esse investimento se traduz em emprego e renda. Isso é essencial para a economia se movimentar.

    BP - Se o governo quiser impor algum tipo de limitação ideológica, por exemplo, 'no Paraná tem uma cooperativa de um assentamento que tenha origem no MST', que tenha credibilidade e atenda às exigências do banco, o BRDE não discriminar a origem da cooperativa?

    Bley - De forma alguma. Inclusive, o governador deve lançar nesta semana um programa de apoio às micro e pequenas cooperativas. Nós estamos alinhados a essa estratégia. Estamos conversando com a secretaria de Agricultura, com o secretário Norberto Ortigara, somos parceiros, tanto nós quanto a Fomento Paraná, e se eventualmente não tiver crédito do BNDES os outros funding ou até com nosso recurso próprio pode atender esse tipo de demanda.

    BP - A capilaridade do crédito, para tomadores menores, em grande escala representaria parcela significativa da carta do BRDE?

    Bley - Em volume de crédito, não. Mas eu ter meu objetivo social atendido, sim. Se eu lançasse hoje um cartão para o agricultor? Um cartão quase pré-pago. O agricultor dentro da entressafra ou em eventual problema mais urgente ele teria esse apoio nosso para poder resolver com condições muito mais razoáveis. É algo que está planejado. Hoje o nosso modelo é muito tradicional, vem aqui e tem toda uma discussão. Claro que a gente não pode perder a essência nossa, que a gente não vende linha de crédito, a gente vende soluções de crédito. Quando você tem um projeto e vem aqui a gente iria estressar enormemente o seu projeto para saber qual a melhor linha e quem sabe uma mudança nele seja algo mais razoável. Esses dias veio aqui um senhor empresário e ele queria capital de giro, ele estava em uma situação um pouco complicada. A gente entendeu todo o core do negócio dele e entendeu que todo o custo que ele tinha era da energia. Ele gastava 250, 300 mil reais por mês de energia. O que ele queria não tinha, que era o BRDE dar dinheiro, até porque se ele não revisitasse isso e fizesse uma revisão, ali na frente ele teria os mesmos problemas. Ele saiu daqui com uma usina fotovoltaica. Conseguiu recurso no Finep em um custo extremamente baixo e com a carência que ele tem vai conseguir se recapitalizar.  

  • Sobraram poucas

    Com crise e Lava Jato, empreiteiras que restam não dão conta das obras

    Com crise e Lava Jato, empreiteiras que restam não dão conta das obras
    Obra parada na Linha Verde Norte (Foto: Franklin Freitas )

    Narley Resende

    Operação Lava Jato, burocracia, crise econômica, atrasos em pagamentos e falta de capital de giro das empresas que restam entre interessadas em obras públicas são os motivos para uma escassez de prestadoras de serviços capacitadas para tocar grandes empreitadas. Um exemplo recente foi a desqualificação alegada pela prefeitura de Curitiba a respeito da empresa Terpasul para concluir trechos de obras na Linha Verde Norte. O rompimento unilateral do contrato pela prefeitura com a empreiteira deixou sem prazo para conclusão pelo menos três lotes de obras já paralisadas desde o ano passado. Mas o fenômeno não ocorre apenas em Curitiba e nem sempre pelos mesmos motivos. Somente relacionadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Dilma Rousseff, cerca de 4,7 mil obras estão paradas no País, o que equivale a R$ 135 bilhões de investimentos.

    A ausência do chamado “Clube das Empreiteiras” (Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e UTC Engenharia e outras), as gigantes multinacionais brasileiras flagradas em escândalos de corrupção da Operação Lava Jato, causou evidente mudança no mercado brasileiro nos últimos cinco anos, paralelamente à crise econômica vivida pelo País. “As médias viraram grandes e as pequenas viraram médias”, avalia Carlos Cade, vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná (Sinduscom-PR).

    Quando o prefeito Rafael Greca (DEM) anunciou a tentativa de rescisão de contrato com a empresa executora da última etapa das obras da Linha Verde, no trecho entre os bairros Tarumã e Atuba, disse que ela não tinha capital de giro para manter a obra. “Colocaremos ali outras empresas com capacidade financeira para executar as obras. Os valores exigem que as empresas tenham capital de giro relevante”, destacou o prefeito. Antes da decisão, a prefeitura emitiu 144 notificações por descumprimento de prazos. Do conjunto, o trecho mais defasado é o que contempla a elevação do viaduto. As obras iniciadas em novembro de 2015 deveriam ser concluídas em um ano, mas após oito pedidos de prorrogação, foram atrasadas para 7 de novembro de 2019. Para as novas licitações, todos os lotes terão de passar por uma auditoria – trabalho que vai definir, além de um novo cronograma, o quanto as obras serão encarecidas .

    Ao paralisar as obras, a justificativa empresa é de que houve erros nos projetos, licitados em 2009, que chegaram a ser apontados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2017, mas que teriam sido ignorados pela Secretaria de Obras. No relatório, o órgão federal descreveu ter encontrado um “projeto executivo deficiente e desatualizado para a execução da complementação da Linha Verde Norte em função da incompatibilidade dos quantitativos orçados com os verificados em projeto e da necessidade de diversas revisões e atualizações (...)”.

    Para o vice-presidente do Sinduscom, empresas como a Odebrecht, por exemplo, estariam melhor preparadas para problemas como os relatados pela Terpasul. “Essas (grandes) se protegem. A Odebrecht se precavia de todas as formas de tudo isso. Tem empresa que ainda não recebeu até hoje (obras de 10 anos atrás). O Maracanã não pagou até hoje, tinha que desapropriar uma área para um shopping, tinha a Casa do Índio que não deixaram demolir, então havia uma quebra de contrato. Mas será que ela (empresa) não sabia e não se preparou contra isso?. Quanto maior a empresa, mais ela vai cobrar. Mais fácil enrolar um pequeno (empresário) que um grande”, ironiza.

    As obras estão subfaturadas, coloca. “Hoje tem empresa pegando obra com 40% de desconto. Claro que vai entregar um produto de má qualidade. Capital de giro, quando vai fazer uma obra tem que ter os recursos, mais que o contábil, mas precisa outro recurso. (O poder público) fica três meses sem pagar, quatro meses sem pagar, aí precisa de grandes empresas (como a Odebrecht). Se vai ganhar uma obra e sabe que o órgão vai pagar, entra (na licitação) ‘com 100’ (de preço). Se sei que o órgão á mau pagador, vou cobrar ‘120’, porque é o risco que ela (empresa) assume”, explica.

    O fenômeno também é observado em âmbito federal. Empreiteiras de tamanho médio e companhias de capital estrangeiro aumentaram a participação nas licitações de obras públicas, ocupando o espaço aberto pelas grandes companhias. Em janeiro deste ano o Portal da Transparência mostrava uma mudança no perfil do ranking de contratações. Saíram os contratos robustos dominados por grandes conglomerados brasileiros da construção e entraram projetos com valores menores, num sinal de maior pulverização dos recursos entre empreiteiras médias, sobretudo aquelas focadas na área de construção e manutenção de rodovias. São as empresas desse nicho que mais avançaram no ranking de contratações este ano.

    Em 2014, quando a Lava-Jato estava no começo, a lista era dominada por gigantes conhecidas do setor, como Odebrecht, Andrade Gutierrez, UTC, Mendes Junior e outras. Agora, figuram nos primeiros lugares empreiteiras como a paulista Ferreira Guedes, a mineira LCM Construção e a paranaense Neovia.

    Tímida, a gigante tenta voltar com fôlego

    Em 2012, antes do início da operação Lava-Jato, destacou o Jornal O Globo, a Odebrecht recebeu R$ 1 bilhão em pagamentos do governo federal. Em 2019, a empreiteira ganhou R$ 368 milhões, referentes apenas a um contrato — de construção e manutenção de cinco submarinos para a Marinha. Em 2018, a Odebrecht não fechou nenhum novo acordo com a União. As empreiteiras envolvidas na Lava-Jato lidam com a impossibilidade de serem contratadas pelo Poder Público antes de firmarem acordos de leniência com órgãos de controle.

    No Paraná, mesmo reduzida e tímida em comparação à sua atuação no passado, a Odebrecht, com outro nome (OEC), reage ao protagonizar ao menos uma “grande obra”. A duplicação da Rodovia dos Minérios (PR-092), que liga Curitiba a Rio Branco do Sul, na região metropolitana, devem começar no fim de setembro, segundo o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER). No último dia 12 de agosto, a Odebrecht foi homologada vencedora da licitação iniciada em 2017 para a realização do trabalho, pelo valor de R$ 90,6 milhões. O edital da concorrência vencida pela empresa prevê a duplicação e ampliação da capacidade de tráfego de um trecho de 4,74 km da PR-092, no trecho entre a ponte sobre o Rio Barigui, em Curitiba, e Almirante Tamandaré.

    E o processo licitatório também enfrentou entraves. A disputa teve como vencedor, em princípio, o Consórcio Triunfo-TCE, em resultado homologado em abril de 2018. Uma decisão judicial do fim de julho de 2019, no entanto, mudou o resultado do processo por considerar que a vencedora deveria ser inabilitada por ter descumprido item do edital. Nessa obra, por exemplo, essa licitação foi apenas um capítulo de uma novela ainda mais antiga. Em 2013, a duplicação de 28,7 quilômetros da Rodovia dos Minérios chegou a ser anunciada pelo governo, que previa o início da obra para 2014. A empresa Votorantim, que tem uma fábrica de cimento na região, faria a obra em troca de benefícios fiscais, com pavimento em cimento. Mas a empresa acabou desistindo do projeto.

    No último dia 24 de agosto, um grupo de moradores fechou um trecho da Rodovia dos Minérios próximo a Almirante Tamandaré para chamar a atenção para acidentes e mortes constantes que ocorrem na região. A estimativa é que 300 pessoas tenham participado do ato. Foi depois disso que o governo do estado anunciou uma nova data de início para a obra, que será tocada então pela Odebrecht.

    Envolvida no esquema investigado pela Lava Jato, a Odebrecht, que já empregou diretamente com carteira assinada mais de 185 mil pessoas, retomou o direito a participar de licitações e contratos com o poder público em 2017, após fechar acordo de leniência com o Ministério Público Federal (MPF), segundo entendimento do Tribunal de Contas da União (TCU). Mesmo assim sua atuação nem se compara aos “anos dourados”, período em que confessou ilícitos, mas que empregava centenas de milhares de pessoas direta e indiretamente.

    Quem tem dinheiro não quer contrato público

    Carlos Cade admite que grandes investidores estão abandonando o mercado de obras públicas. “O ambiente jurídico ainda não é bom. Tem muita gente que sim (desistiu de obras públicas). Tem pouco investimento hoje. A pouca obra que aparece é lei da oferta e da procura, disputam quantas empresas? Tem licitação de asfalto e estão dando 40% de desconto. Alguma coisa vai acontecer, o produto vai ser entregue de má qualidade. Quem tem uma boa empresa, de investimento, foge, sai do mercado e vai para o mercado imobiliário, vão fazer prédios. As empresas que têm condições não vão se aventurar e saem mesmo”, analisa.

    Por outro lado, Cade defende que há ainda muitas empresas qualificadas. “Não faria nunca essa afirmação (que faltam empresas). Não falta, categoricamente, empresas para fazer obras públicas no Brasil. Não precisa necessariamente que elas sejam grandes, só que ambas as partes cumpram o contrato”, pontua.

    Para além da crise, da Lava Jato e da burocracia, Carlos Cade avalia que também um problema de comportamento entre poder público e empresas no Brasil compromete a qualidade das obras. “Período muito curto para fazer os projetos. No mundo desenvolvido isso não é assim. Nós temos o costume no Brasil de gastar pouco tempo em projetar e planejar - problema das incorporadoras e do poder público - para depois executar. Na prefeitura também ocorre isso. A gente tem que entender que [e uma verba que está lá e que se não pegar ela vai embora. (A solução é) mudança de postura, de cultura. É cultural. Tem que gastar tempo em ter uma turma para fiscalizar obras, mas tem que ter uma do mesmo tamanho para analisar e produzir os projeto, um bom projeto tem muito pouco aditivo”, recomenda.

    Quando a concorrência também passa por uma “euforia”, a qualidade das obras tende a cair. “Pegam preços muito baixos, entrega de má qualidade, com projetos ruins, demora muito na execução. A legislação fala que só pode executar aditivos depois de assinado”, lembra.

    Embora reconheça a existência de um divisor de águas, Carlos Cade não “culpa” a Lava Jato. “Nosso sindicato chamou (ex-juiz Sergio) Moro para uma palestra e deu uma medalha para ele apoiando e defendendo a legalidade, fizemos diversos cursos de compliance e de ética. Fizemos debates com Tribunal de Contas da União, levamos presidente do Tribunal de Justiça do Paraná e defendemos que o que é correto”, conta. “Eu acho que foi muito bom, porque tudo que se faz transparente é melhor. Quando as coisas e as regras que ninguém entende eram como eram a gente sabe que não é o certo. Foi benéfica (a Lava Jato).

    Questionado se as obras investigadas na Lava Jato teria saído do papel se não fossem superfaturadas, Cade responde que sim, e mais baratas. “Era outro período. Teriam (saído do papel) e teriam gastado 30% menos. Se trabalhar dentro da lei. É ruim para o mercado uma empresa ser envolvida com isso (corrupção). A imagem fica ruim”, diz. Sobre o retorno da Odebrecht, Cade diz que bom para o mercado. “O empresário não pode defender ser único no negócio. Desde que as regras sejam iguais para todos. E que o compliance não fique só no papel”, pontua.

    ‘Solução é dividir grandes projetos e em parceirias público-privadas’

    Carlos Cade enumera ao menos duas alternativas para o período de crise e pós-Lava Jato: dividir grandes obras entre diversas empresas e tambám Parcerias Público Privadas. “O Paraná tem empresas com condições financeiras. Quando se tem uma estrada de 100 quilômetros pode fazer ela com uma empresa ou com 10 empresas, ou com 20 empresas. Mas eu quero construir um aeroporto (grande) como o Afonso Pena, aí é difícil, mas pode fazer por etapas e com concorrência internacional. Mas o tamanho da obra pode ser partido”, sugere.

    A outra solução, “que tem acontecimento muito” são as PPPs. “Essa é uma forma de inserir a iniciativa privada para arrumar dinheiro. Os grandes ou um grande somatório de médios a colocarem o dinheiro, para infraestrutura. Faz um programa, por exemplo, em uma estrada, investe um dinheiro e ganha com pedágio para recuperar esse dinheiro. Iluminação pública numa cidade e cobrar de quem esta usando para compensar o investimento. Presídios, fazemos uma PPP e tem toda uma regra, aberta para mais gente disputar, construímos, fazemos a gestão e cobramos do governo o valor por preso, mas quem pôs o dinheiro foi quem ganhou a PPP. É uma forma de alavancar o País. O governo não tem dinheiro. Quando vai ter dinheiro para fazer estrada, hospital, presidio? Então o governo paga aluguel”, diz.

  • Mudança

    Vale a pena sair da cidade para morar em chácaras? Veja histórias dos curitibanos que fizeram isso

    Vale a pena sair da cidade para morar em chácaras? Veja histórias dos curitibanos que fizeram isso
    A professora Andréia Carneiro Lobo no seu paraíso (Foto: Franklin de Freitas)

    O sonho de morar fora da cidade, mas com garantia de acesso à civilização, é realidade para muitos curitibanos, que encontram na região metropolitana cenário para colocar em prática projetos de vida nesse sentido. Entre os 29 municípios da Grande Curitiba, e incluindo alguns refúgios da própria capital, é possível encontrar chácaras adequadas para morar em condições de isolamento, pelo menos por enquanto. As preocupações comuns entre os que optaram pela alternativa, ao mesmo tempo em que mantêm acesso a um grande centro, giram em torno de segurança, principalmente, em relação ao avanço das cidades que não param de crescer.

    “Não queremos que as pessoas saibam como é bom aqui”, diz a design de interiores Bela Pagliosa, que desde 2013 se livrou do barulho, da insegurança e da agitação da cidade. Junto com o marido, que trabalha com direção de vídeos publicitários, ela comprou um terreno em um condomínio de chácaras na Região metropolitana, onde construiu uma casa e se mudou no ano seguinte. Bela conta que entre os fatores que ajudaram na decisão está o custo benefício. “A gente morava na cidade, procurava um imóvel para comprar e decidiu procurar na região metropolitana. A gente chegou nesta chácara. Pensamos ‘por que não morar melhor, pagar menos e mudar?’. Nós dois trabalhamos em home office, o que facilita. Eu sou designer de interiores e paisagista e ele é publicitário e trabalha na direção de filmes”, afirma.

    O projeto precisou sair do zero. “A gente comprou um terreno vazio, virgem, sem iluminação, sem água. A gente fez todo o processo elétrico e fizemos um poço artesiano. Inclusive a gente tem fibra óptica da Copel. Até sobrevivemos um tempo com (internet) 3G, mas graças a Deus a Copel veio para a nossa região”, comemora. A solidão do afastamento, porém, não é realidade aos fins de semana. “Fazemos (confraternizações) constantemente. Nossa casa vira um ponto turístico e muitos amigos vêm para passar fim de semana, acampar. Temos uma fluxo muito grande de amigos passando por aqui. (Gostamos de fogueira) muito, adoramos fazer uma fogueira”, afirma.

    Durante a semana, ela admite que há um planejamento diferenciado para sair de casa. “Essa questão da solidão é bem interessante porque a gente se torna um pouco ermitão, porque a distância é de 40 quilômetros. Hoje, eu e meu marido, a gente sempre tem que decidir se sai com dois carros ou com um só”, diz. A paisagista conta que seu terreno é amplo o suficiente para que o casal possa manter animais livres, incluindo dois cachorros.

    Com relação à segurança, o fato de “ser em um condomínio ajuda”, diz. “Temos felinos e cães, são quatro gatos e dois cachorros. O terreno tem cinco mil metros. Temos vizinhos, porque é um condomínio de chácaras, a gente tem visibilidade de vizinhos, porque é uma área que não é de mata fechada. Temos bastante área para fazer uma pequena horta, temos espaço grande de quintal e pomar”, conta.

    O condomínio, segundo ela, tem cerca de 60 moradores, em 80 residências, distribuídas em 300 lotes. “É uma área bem preservada, de mata virgem e para não receber pessoas (novos condôminos) indesejadas a gente deixa um pouco mais na surdina”, pondera. Bela afirma que a violência da cidade ainda não chegou à região, embora já tenha ouvido relatos de ocorrências. “Tem uma portaria, tem um segurança, a gente ainda não teve nenhum problema. O que teve foi ladrão de galinha, nada sério de assalto ou risco à vida. Não tenho medo, mas, claro, a gente tem todos os aparatos em mãos, com telefone, lanterna, contatos. A gente não fica pensando nisso porque, se pensa, atrai”, diz.

    O avanço da cidade é um dos incômodos. “A gente se preocupa porque a região está crescendo bastante. Aqui é considerado uma cidade violenta, mas a gente não viu nada sério por perto, mas sabe. O crescimento da cidade preocupa porque pode trazer essas coisas ruins, a gente se preocupa que se a coisa crescer a gente quer morar em um lugar mais afastado ainda”, prevê. Por enquanto, o local escolhido por Bela ainda mantém seu isolamento. “Para o meu condomínio até o centro tem cinco quilômetros, então não tem ponto de ônibus, não tem padaria. Se precisa comprar um pão leva 40 minutos”, calcula. O acesso à internet ajuda. “A gente ficou dois anos sem TV e a agora a gente caiu na Netflix, mas não tem TV aberta e a gente não tem TV paga. Por satélite, tem vizinhos que tem Sky, Net”, conta.

    “Não precisa esperar aposentar”

    Professora de História em um curso universitário de Direito, Andréia Carneiro Lobo optou criar o filho em uma chácara que herdou da família. Ela recomenda que as pessoas que gostam do estilo de vida que não adiem o projeto. “As pessoas costumam dizer: ‘Quando me aposentar vou viver no campo’. Não precisa esperar até lá. É possível morar no campo e trabalhar na cidade. Não precisa esperar a velhice. Aqui não tem cheiro de esgoto, à noite é silenciosa e escura. Dá para ver estrelas numa noite de inverno e vagalumes nas noites de verão”, aponta.

    Andreia afirma que a vida em relativo isolamento faz com que seja possível aproveitar e vida com mais calma. “Aqui podemos abraçar as árvores sem parecermos malucos, ter bichos livres - meus gatos andam pra lá e pra cá - sem temer que eles sejam mortos”. Temos vaquinhas também, que são mansas”, conta. “Onde eu moro são terras que eram do meu avô, estão na família há décadas. Ele deixou terras para os filhos, sete que estão vivos, e seis decidiram morar nessas terras. Esses filhos decidiram morar na zona rural”, diz.

    A opção de Andreia tem influência em sua experiência já na adolescência, quando morou com a mãe na chácara. Depois, ela mudou para a cidade, mas conta que não se adaptou. “Minha mãe voltou para essas terras quando eu tinha 16 anos. E eu morei na cidade, comprei uma casa na cidade, mas não me adaptei. É o fato de abrir a janela e ter para onde olhar. Eu gosto de abrir a janela e olhar para o campo, poder ficar em silêncio, olhar para a natureza, ter um portão que não tenha cadeado, não me preocupar com alarme”, observa. Alguns avanços da cidade são até bem recebidos, mesmo por quem valoriza o isolamento. “Moramos em uma comunidade tradicional. De alguns anos para cá se estabeleceram algumas indústrias, mas alterou pouco. A única coisa são os ônibus, que a circulação aumentou. Mas há uma convivência harmônica.Uma delas fez um projeto de arborização, a gente acha melhor, por exemplo, que se tivessem loteado”, conta.

    Mesmo não sendo o centro da atenção, a segurança, conta Andreia, não pode ser negligenciada. “A gente se preocupa, lógico. Mas os meus vizinhos são ou familiares ou conhecidos de décadas. A gente cuida um do outro, temos grupos de Whatsapp. Já assaltaram mercadinho, mas eu nunca fui assaltada aqui. O pouco tempo que morei na cidade eu fui assaltada”, compara.

    Curiosamente, ambas as entrevistadas pediram espontaneamente que os endereços de suas casas fossem mantidos em sigilo.

    “Roubaram a nossa paz”

    A bancária Ana Luiza Smolka não teve a mesma sorte que Andreia e Bela. Em 2013, depois passar quase 20 anos preparando sua chácara para o momento em que se mudaria de vez e apenas dois anos após a mudança, uma violação de seu lar fez o sonho de Ana ruir. Ela já havia enfrentado a resistência da família que reclamava da distância e dos gastos da chácara. Insistiu e conseguiu realizar seu sonho. Até que então um evento mudou sua realidade e o rumo que ela havia planejado para sua vida. “Sofri um assalto brutal, à mão armada, e com isso nos sentimos extremamente inseguros, para sempre”, pontua.

    Em março de 2013, quatro homens armados a esperavam já dentro de sua casa quando ela chegou em uma sexta-feira, por volta das 18h30. Ela e o filho ficaram amarrados em um quarto por quatro horas enquanto os bandidos “faziam a limpa” na casa. “Eles não roubaram só bens materiais. Levaram a nossa paz. E eu vendi (a casa), muito rapidamente, acredito que muito bem, em um bom negócio. Demorou entre cinco e seis meses”, lembra.

    Antes disso, Ana conta que foi feliz, mas ressalta que chácaras dão trabalho. “Comprei porque o preço era acessível na minha situação daquele momento. Eu não queria um endividamento, queria usar o fundo de garantia, então optei por comprar um imóvel que eu pudesse comprar quitado. Também me atraiu a possibilidade de ter água, lá tinha fonte de água, terra e um espaço bom que eu nunca teria na cidade. Fiz uma série de transformações lá, investi bastante, a gente gasta muito”, pondera.

    “Tem que ter saúde”

    As lembranças, no entanto, fizeram compensar, conta Ana Luiza. “Era uma área mais rural, realmente, apesar de ter asfalto. Eu gastei muito com grama, calçamento, a casa em si, porque construí uma casa lá. Com o tempo se tornou um lugar muito agradável de ficar, um verdadeiro paraíso. A gente criava peixes, tínhamos as árvores que vimos crescer. Foram 21 anos de investimento. Eu era muito feliz lá. O barulho do vento e poder fazer fogo no quintal e na lareira. Tinha uma área para fazer fogo, a gente tinha um barco, dois tanques, patos, marrecos, tentamos alguns outros bichinhos, coelhos, galo, galinha. As criações não deram muito certo porque a gente era muito urbano e acabou desistindo. Mas foram tempos muito felizes. Entre prós e contras, como a distância, eu não pagava aluguel nem condomínio, então me deixava financeiramente estável”, calcula.

    Os amigos que moravam na cidade também aproveitaram. “Recebemos muitos amigos nos fins de semana, muitos carros estacionados, muitos churrascos, muita confraternização, todas as pessoas fugiam da cidade para ir para a nossa chácara”, conta.

    Ela recomenda que a “aventura” seja ainda enquanto as pessoas têm saúde. “Fiz isso com vitalidade. Ao envelhecer as pessoas pensam ‘vou comprar uma chácara para a aposentadoria’. Eu não acredito que seja bom. A gente precisa de vitalidade e chácaras consomem muita energia. Precisa muita paciência para ver as árvores crescendo, algumas frutas não dão certo, tem muita mão de obra, a gente mesmo põe a mão na massa, então tem que ter saúde e juventude para isso. Acho que fiz na hora certa. Se esperasse a velhice, não faria”, analisa.

    Neto e filho de Ana Smolka, em Campina Grande do Sul. Foto: arquivo pessoal.

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