• DUAS FACES DA MESMA MOEDA

    Sociedades secretas apoiam mulheres que buscam aborto em Curitiba

    Sociedades secretas apoiam mulheres que buscam aborto em Curitiba
    (Foto: Reprodução )

    Narley Resende

    Uma entidade que afirma não ter fins lucrativos e ser conveniada a parceiros de diversas cidades do País se oferece para prestar auxílio a mulheres que engravidaram e querem abortar. O trabalho, em um primeiro momento, atrai a mulher com a gravidez indesejada por meio de oferta de “apoio”, o que para algumas sugere a possibilidade de orientação a um procedimento “seguro” de aborto. Mas é apenas uma isca. A intenção, segundo integrantes da entidade, é salvar vidas.

    Em um dos casos, a primeira das “iscas” para atrair mulheres que pensam em abortar está na identificação de um site. A descrição é utilizada para direcionar pesquisas no Google, por exemplo, com os termos “Cytotec” (remédio indicado para o tratamento de úlcera, mas utilizado para abortos); “como abortar”; e “clínica de aborto”. Com isso, quando a pessoa pesquisa pelos termos no Google é mais provável que seja direcionada ao site. A plataforma, chamada “Gravidez Indesejada”, parece ser a mais estruturada entre outros sites que existem no Brasil. Diz pertencer a uma associação que declara ter “20 anos de experiência em ajudar as mulheres com uma gravidez indesejada”. Em Curitiba, o grupo conveniado trabalha há sete anos, segundo as integrantes. O site nacional promete atendimento “personalizado, sigiloso e gratuito” para que as mulheres grávidas possam “resolver rapidamente e de forma segura os seus problemas”.

    Em uma de suas seções, o portal responde dúvidas comuns sobre o uso do misoprostol (Cytotec é o nome comercial disponível hoje, da substância que é utilizada em hospitais brasileiros para realização do aborto legal – e que também é usada para abortos ilegais).

    Em um campo, então, o site oferece um chat de contato para que sejam tiradas dúvidas. No chat, uma pessoa pede dados pessoais da interlocutora e diz que alguém de sua cidade ou região entrará em contato por meio do aplicativo Whatsapp.

    Outro meio utilizado para atrair mulheres que querem abortar é o “boca-a-boca”. “Quando uma amiga sua pergunta se você sabe de alguém para indicar, você passa o nosso contato. Ela (a mulher) pensa que se trata de um esquema de aborto e nos encontra”, detalhou à reportagem uma “agente da vida”, com se autointitula a integrante do grupo, que se apresenta como “Maria”.

    Até chegar a ela, a reportagem precisou recorrer a meios não-convencionais. Questionada através de um número de Whatsapp disponível na capa do site, a pessoa que responde diz ser responsável pela “Associação Mulher” afirmou que “não participa de reportagens”.

    Após a negativa oficial, a reportagem, então, se passou por uma grávida no chat disponível no site. Após um cadastro, o repórter recebeu mensagens de uma pessoa que se identificou como “Jhonatan”. O jornalista se passou pela personagem Bianca, de 25 anos, grávida de 8 semanas.

    Veja transcrição de parte das conversas

    Jhonatan: Você deseja abortar?
    Bianca: Sim. É de graça?
    Jhonatan: Não trabalhamos com remédios, pois no Brasil eles são falsos e não funcionam. Golpistas se aproveitam do desespero das gestantes e vendem. Às vezes nem chegam a entregar e, quando entregam, é de farinha.
    Bianca: Vocês fazem a curetagem?
    Jhonatan: Somos uma ONG e eu lhe encaminharei para uma clínica.
    Jhonatan: Mas não trabalhamos com remédios.
    Bianca: Tem médicos?
    Jhonatan: Creio eu que sim.
    Bianca: Na clínica eles fazem todo o aborto? Sabe se precisa internar?
    Jhonatan: Geralmente nos processos de aborto sai no mesmo dia, mas eles vão lhe explicar melhor pessoalmente.
    Bianca: A pessoa vai me ligar?
    Jhonatan: Sim, ou ligar, ou chamar pelo Whatsapp.
    Bianca: Já vai ser a pessoa da clínica?
    Jhonatan: Sim, sim. 
    Bianca: Sabe se eu posso levar alguém comigo?
    Jhonatan: Claro, deve.

    No mesmo dia, uma pessoa de um número já com prefixo de Curitiba entra em contato.

    Maria: Boa noite. Vc está com gestação indesejada?
    Bianca: Sim. Eu quero fazer um aborto. Quanto é?
    Maria: Não tratamos disso por aqui.

    Encontro marcado com voluntárias de suposta ONG

    Um encontro é marcado entre “Maria”, da suposta ONG, e “Bianca”, o jornalista disfarçado, às 11 horas, em frente a uma farmácia de um shopping de Curitiba, “para explanação dos métodos”. Antes, Maria sugere que Bianca “não tome nenhum remédio”. Ela se diz “profissional da saúde”, diz que vai passar a utilizar outro número de telefone, também com prefixo de Curitiba, e então marca um exame de ecografia para “Bianca”, numa clínica da Capital, às 15h30 de uma terça-feira. “Na recepção diga que tem uma cortesia com o doutor (...)”, diz Maria.

    O repórter faltou ao exame, mas foi ao encontro de Maria no shopping. Lá, ele se identifica como “Neto”, namorado de Bianca. Maria é uma mulher de aproximadamente 45 anos e está acompanhada de outra mulher. Elas lamentam a ausência de Bianca.

    Em seguida passa a explicar métodos abortivos, um a um, de “sucção” a “envenenamento”, até sacar de uma bolsa uma pasta com folhas plastificadas que mostram imagens horrorosas do resultado de abortos, tópicos com supostas consequências e outras informações aparentemente extraídas da internet. No decorrer da conversa, mais à vontade, vem a revelação: “Olha, na verdade, nós somos pessoas boas, vocês também são, mas o que nós fazemos é mostrar para vocês tudo que isso (aborto) pode causar”, diz.

    Em seguida, a proposta: “se vocês realmente não mudarem de ideia, nós damos todo o apoio durante a gravidez, temos um local para atendimentos diários, se precisar, com psicólogos, terapeutas e outras pessoas na mesma situação e, se ainda assim vocês não quiserem o bebê, nós damos toda a assessoria para a adoção legal”, explica.

    Maria adianta, que “é raro” uma mãe concluir o processo de adoção depois que vence o período de gravidez. “A maioria desiste. Já participei de uma audiência, em que eu estava na sala com a juíza, esperando a mãe, e seis minutos antes a mãe desistiu de tudo e quis ficar com a criança”, conta. Há, segundo Maria, porém, aquelas que entregam o bebê. “De cada dez (mães), uma, que a gente atende, entregam (o filho recém-nascido) para adoção. Mas são os casos de muita miserabilidade”, aponta.

    Ainda convencida de que Neto é o namorado de uma grávida, Maria finaliza dizendo que “recém-nascidos são adotados com muita facilidade”. “Mas eu digo que se vocês decidirem fazer a coisa certa, quem faz o bem, colhe o bem, e posso te dizer isso com toda certeza, pois tenho muita experiência”, diz. Ao fim da conversa, Maria conta que em sete anos de atuação em Curitiba, o grupo salvou “cerca de 600 crianças”, além de mães que escaparam dos riscos, descritos por elas em detalhes, do aborto clandestino. A conversa ficou por ai.

    Desde o primeiro contato com o site até o encontro pessoal foram quase duas semanas. Durante esse tempo foram várias conversas por telefone e outros meios em redes sociais. Todos os questionamentos da “grávida” eram sempre respondidos.

    Em uma apuração avançada, realizada pelo site A Pública, que trabalhou de maneira semelhante, mas com uma repórter grávida, a conclusão foi de que a partir do mesmo site, mas com ramificação de outro Estado, a equipe do site atrai as mulheres grávidas para uma sede da organização. Lá, elas são dissuadidas de interromper a gravidez por psicólogos ligados a igrejas católicas, Ortodoxa ou Opus Dei, e assistem a slides sobre as consequências negativas do aborto na vida da mulher.

    O site da Agência Pública publicou no ano passado a reportagem investigativa que teve origem em um e-mail recebido por um dos repórteres da agência. Além da reportagem, o e-mail resultou também em uma checagem do Truco – projeto de checagem de fatos da Pública. O Truco verificou a veracidade de quatro alegações do site sobre os riscos do misoprostol como método abortivo. A apuração concluiu que três das frases são falsas, portanto, há informações equivocadas no campo que se propõe informativo. Embora seja embasado em uma política anti-abortiva, sem dúvida bem intencionada, o site acaba apelando à desinformação.

    Nas sombras

    Outro lado: grupo orienta para um procedimento ‘seguro’

    Voluntárias ‘secretas’ atuam em Curitiba para orientar a grávida sobre o aborto. Grupo tem inspiração em movimento na Argentina, conhecido como Socorristas em Rede

    Um grupo de mulheres que dá apoio e instrução para mulheres que de fato fazem abortos também foi identificado em Curitiba. Não há, nesse outro grupo, qualquer atividade econômica, pagamento ou arrecadação. As integrantes apenas passam instruções sobre como abortar da maneira mais segura possível. Ainda mais cuidadoso, o grupo de voluntárias, algumas delas mulheres que passaram por processos traumáticos de aborto, são conhecidas apenas por meio de indicação.

    “Alguém que conhece alguém que nos indica. Em geral, sempre tentamos evitar o aborto e conseguimos. Mas algumas pessoas são irredutíveis. Então, indicamos o mais seguro possível, o que é baseado em pesquisa, em muita leitura do que é científico mesmo. E tiramos o time de campo. O Estado deveria fornecer essa segurança. Tem gente que vive um desespero muito grande, que fica à mercê do mercado negro, das carnificinas mais inimagináveis”, conta uma das integrantes de uma “sociedade secreta” que pediu para não ser identificada. Ela defende a legalização do aborto como medida de saúde pública. “Entenda: elas vão fazer, de um jeito ou de outro”, pontua.

    Na Argentina, a atividade é praticamente institucionalizada. Quando as argentinas tomaram as ruas de seu país para exigir a legalização do aborto no ano passado, a procura pelo serviço voluntário aumentou. De acordo com reportagem do site The Intercept Brasil, uma militante do grupo, Camila Zurbriggen, de 25 anos, e outras mulheres formam a Socorristas en Red (Socorristas em Rede), um grupo de voluntárias de várias áreas espalhado por toda a Argentina. Elas têm a missão de ajudar mulheres a abortar com segurança em um país em que a interrupção voluntária da gravidez ainda dá cadeia. As orientações, com o descritas no site oficial do grupo, são baseadas nos protocolos da OMS.

    Encontrar um site que oriente para uma clínica de aborto em qualquer lugar do País não chega a ser uma missão complicada. Apesar de tudo correr sob sigilo e distante dos olhos da sociedade, não é difícil encontrar canais para este fim, bastando buscas simples na própria internet ou com a indicação de algum conhecido. Tanto que em dez anos, cerca de 2,1 milhões de brasileiras foram atendidas em unidades de saúde por complicações pós aborto.

    Matéria foi informada para a polícia

    Em Curitiba, a reportagem relatou passos da investigação sobre o site “Gravidez Indesejada” ao Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos (Nuciber) e ao Núcleo de Combate a Crimes de Saúde (Nucrisa). O método utilizado na atração de mulheres com gravidezes indesejadas poderia ser utilizado, por exemplo, para sustentar uma rede de exploração de abortos, não como das chamadas “aborteiras”, em uma prática avessa, diferente de grupos organizados que orientam mulheres em práticas consideradas mais seguras de se por fim a uma gravidez, mesmo que ilegalmente, para evitar riscos ainda maiores às mulheres.

    Pela forma como as abordagens são realizadas, a única maneira de se descobrir eventual esquema seria a atuação direta de uma mulher grávida na investigação em longo prazo, ou por métodos policiais. Outra suspeita seria a de um sistema de adoção ilegal. Mulheres que insistem em não assumir a gravidez seriam instigadas a aguardar o nascimento para então doar a criança a integrantes dessas instituições. Nada disso, no entanto, foi comprovado.

    A Polícia Civil informou que não há denúncia nesse sentido ou investigação em andamento. Mesmo assim, o delegado Demetrius Gonzaga, do Nuciber, pediu para ser informado sobre qualquer indídcio de crime.

    O delegado afirmou que a polícia identificaria facilmente a origem dos sites enviados pela reportagem, por meio da identificação do IP (Internet Protocol), que é a identificação dos computadores.

  • Família Gamer

    Games não são só para jovens; seis em cada dez adultos jogam

    Games não são só para jovens; seis em cada dez adultos jogam
    (Foto: Franklin Freitas)

    Narley Resende

    A 6ª edição da Pesquisa Game Brasil (PGS) revelou que 66,3% dos brasileiros jogam jogos eletrônicos. A maioria (83%) joga por meio do celular, seguido por videogame (48,5%) e notebooks, 42,6%. Mesmo na faixa entre 25 e 54 anos, o número de “gamers” é considerado elevado (61,9%), contrariando o senso comum de que os gamers são adolescentes.

    Para o presidente da Blend New Research, Lucas Pestalozzi, a geração de adultos acompanhou a evolução da indústria e comércio nacional de jogos digitais desde o início dos anos 1980. “Em outras palavras, as crianças e adolescentes da época, que cresceram num ambiente povoado por jogos digitais e tiveram em suas memórias e hábitos de consumo registros destas experiências lúdicas, estão hoje nessa faixa etária.”, afirma.

    A curitibana Fernanda Naomi é um exemplo. Aos 38 anos, ela joga ao lado do marido, 27 (que conheceu em evento de games em São Paulo) e do filho, de 19 anos. Juntos eles formam uma “família gamer”. “A gente joga no mesmo lugar, mas joga diferente. Fizemos uma sala de games. Meu filho gosta de um jogo de tiro, eu gosto de RPG e meu marido gosta de outro”, conta.

    Na pesquisa Game Brasil, Fernanda e sua família se enquadrariam como “Hardcore Gamer”, que são pessoas que jogam mais de 3 vezes por semana, com partidas que duram por volta de 3 horas (ou mais), sendo comum este público comprar mais de 10 jogos ao longo do ano. “Jogo todos os dias, quatro horas por dia. Dei uma diminuída agora para trabalhar, mas antes era das seis horas da tarde à meia-noite todos os dias”, conta.

    Além do Hardcore, o outro perfil é o do “Casual Gamers”. Os hardcore gamers são na maioria homens (58,9%) entre 25 e 34 anos (41,3%). No público casual gamer, as mulheres representam a maioria com 58,8% entre 25 e 34 anos (35,9%). Para Fernanda, sua condição de mulher interefere pouco em seu gosto e desempenho, embora reconheça que há diferenças e preconceito. “Na verdade eu jogo mais do que muitos homens que eu conheço”, diz.

    Quando seu filho era pequeno, por exemplo, Fernanda afirma que, “obviamente”, tinha mais limitações. “Eu jogava, mas bem menos porque eu também trabalhava bem mais quando ele era menor”, afirma. Segundo ela, o tempo que usa para jogar é o mesmo que outras pessoas em outras atividades. “Minha irmã gosta de assistir novela e Big Brother. Eu prefiro jogar. Eu prefiro muitas vezes jogar do que ir para balada”, compara.

    Ainda que a preferência por jogos de ação, aventura e estratégia seja alta nos dois perfis, os jogadores hardcore gamers preferem jogos de tiro (70,2%), enquanto os casuais gostam mais de jogos de esportes (59,2%). Na família de Fernanda, a tendência pela preferência se confirma.

    “Eu jogo RPG, Destiny, mas também Black Ops (Call of Duty: Black Ops III), que eu jogo mais o Zombie, mas eles (marido e filho) preferem outras (modalidades do jogo). Também Border Lends e zerei o God of War - esse eu platinei (chegou ao fim com sucesso), ‘zerei’, é muito, muito bom. Meu marido é bem eclético. Ele joga de tudo até ‘platinar’, ele é mais viciado que eu”, entrega.

    “Cada um tem um console, cada um tem um Play 3 e um Play 4. Até o ar condicionado da casa fica na sala de jogos, porque já pensou três ‘Play’ ligados ao mesmo tempo? Esquenta muito”, conta. 

    Jogos não influenciam os filhos

    A pesquisa notou que os pais são divididos em relação à violência nos games, mas que a maioria não acredita que os jogos digitais levam ao comportamento agressivo; 41,3% dos pais discordam (totalmente ou parcialmente) que os jogos digitais sejam capazes de promover esse comportamento, enquanto os pais jogadores hardcore tendem a se opor mais à essa afirmação, com 48,5% de discordância. “Muitas pesquisas científicas entendem que os jogos digitais influenciam seus jogadores, mas que a responsabilidade sobre um fenômeno comportamental não pode recair sobre uma única fonte de influência”, afirma Matheus Marangoni, professor da ESPM.

    Outro assunto que deixam pais divididos, sejam eles jogadores hardcore ou não, é a influência que os jogos digitais possuem na aprendizagem de seus filhos. Mesmo entre os pais gamers, a opinião é dicotômica: 37,6% discordam (parcialmente ou totalmente) que os jogos possam atrapalhar, enquanto 41,6% concordam (total ou parcialmente). Mas é importante observar sempre os filhos, e observar se os jogos não mascaram outros problemas.

    E-Sports podem misturar gêneros 
    Apesar do seu crescimento, os eSports ainda podem ser considerados como novidade, já que muitos jogadores brasileiros desconhecem a atividade. Isso leva também a alguns choques entre práticas antigas e as novas exigências das práticas dos esportes digitais. “Os esportes tradicionais são separados por gênero, por supostas diferenças biológicas entre os participantes para fins de balanceamento competitivo das modalidades, apesar da comunidade científica não ter consenso em relação à essa razão”, explica o professor Mauro Berimbau, coordenador do Gamelab na ESPM . “Nos eSports, não há exigência física na sua prática que justifique essa diferença. A razão para isto parece ser afinidade temática com o jogo” complementa o profissional.

    Em relação aos espaços de consumo, existe um claro domínio hoje do YouTube, com 60,6% do público hardcoreacompanhando partidas por este canal, seguido do Facebook (38,4%), TV Paga (34,0%) e Twitch (21,2%). Para jogar, o smartphone lidera a preferência por causa da sua mobilidade: dá para jogar onde estiver.

  • Criatividade

    Games: cresce a demanda por profissionais da área. Veja como buscar seu espaço

    Games: cresce a demanda por profissionais da área. Veja como buscar seu espaço
    Dungeon Crowley, game feito em Curitiba, acaba de ser lançado (Foto: Reprodução / Animvs )

    Narley Resende

    Em ascensão no mercado nacional e internacional, o profissional de Jogos Digitais tem um leque de opções de atuação. A profissão se divide em até dezenas de funções. Pode atuar com desenvolvimento de programas, com a parte artística ou ainda explorar a comunicação da área, com produção de vídeos, peças publicitárias, streamings, entre outras. Os jogos em si podem ser educativos, de aventura, ação, simulação 2D e 3D, entre outros diversos gêneros. A criação de jogos digitais é apenas um dos segmentos, sendo que há etapas complexas no desenvolvimento, gestão de projetos de sistemas, análise de mercado no mundo digital interativo, em rede ou isoladamente. Há dentro de uma plataforma a função exercida por desenvolvedores e outras essencialmente artísticas.

    Dono da Animvs, empresa desenvolvedora de jogos em Curitiba, o programador Andrei Daldegan aponta que o segredo está no desejo por atualização. “Antes de mais nada a pessoa tem que estar disposta a se atualizar. A tecnologia muda muito rápido. A tecnologia que a gente usava há três anos já mudou completamente; é um esforço contínuo manter-se atualizado com a tecnologia de high-end (de ponta). Tem que ter um espírito de aprendizado contínuo. E é essencialmente criativo. É importante ter uma mensagem para passar”, resume. A Animvs acaba de lançar o jogo Dungeon Crowley e trabalha na obra-prima da empresa, o IX - The Pilgrim’s Path

    Recentemente Daldegan apresentou seu trabalho aos alunos da Game Escola, que ensina programação e criação de jogos. O programador aponta que o primeiro passo para os aspirantes é montar um portfólio.

    “Os profissionais tem que se qualificar bem tecnicamente. O mercado não absorve muito os profissionais. Temos muita gente se graduando. A primeira opção é criar o próprio jogo, em vez de ser aproveitado pelo mercado. Tem público para tudo, mas muita gente não está preocupado com jogo ‘AAA (Triple A). A entrada do mercado se inicia na confecção do seu próprio portfólio. Essa é uma área não regulamentada e não precisa ter um diploma necessariamente. É necessário criar pequenos protótipos no decorrer de seu aprendizado, isso é o primeiro passo. Se o cara é artista ele vai ter uma ‘ArtStation’. Se o cara é programador ele vai ter código no ‘GitHub’. Eu recebo currículos aqui e a minha preocupação não é a graduação, e sim o portfólio que vale mais que qualquer coisa na minha opinião. É uma área bem prática. Isso que as empresas procuram”, orienta.

    Nesse ramo é possível diversificar. “Essa área é a de desenvolvimento de software. Existem pormenores nos jogos que tornam ele peculiar, um pouco mais complexo, mas essencialmente é um software. Uma das coisas que tem acontecido no mercado de games brasileiros é a atuação em diversas áreas por parte do profissional. Tem que ser bom em solução de problemas, gestão de projetos, é completamente o que a gente vê em engenharia de software. Um profissional de criação de jogos consegue atuar em outras áreas, como desenvolvimento de sites, aplicativos. Os artistas conseguem trabalhar na produção de propaganda, marketing geral e identidade visual.”, diz.

    Daldegan confirma que a demanda por profissionais dos jogos digitais está em ascensão no Brasil. “Existe uma demanda, mas para isso ainda precisa que as empresas se estabeleçam e no geral nos últimos quatro anos aumentou em 300% o número de empresas de jogos no Brasil. O gargalo de contratação da área é a situação do País (por causa da crise econômica). Todo mundo se organizando ainda”, pondera.

    Embora muitas das profissões que envolvam o desenvolvimento de jogos não seja regulamentada, já há em Curitiba um curso de graduação em jogos digitais. “O mercado de jogos é muito maior do que a gente imagina. Existe desde o espaço dos jogadores, existe todo um mercado envolvido em práticas de gamers, seja em relação à produção audiovisual, atrelada ou mesmo à concepção de jogos em diferentes modalidades”, explica a coordenadora do curso de graduação em Jogos Digitais da UniCuritiba, Luciana Reitenbach Viana.

    O professor Bruno Mendonça, da disciplina de Projetos, afirma que o curso de graduação na área organiza cada segmento e prepara para um mercado profissional. “Isso para todas as plataformas, para console, aplicativo, tanto para aplicação na web. Existem hoje grandes campeonatos de jogos que envolvem desde o dinheiro da premiação, até a cobertura jornalística, cobertura com licenciamento de TV para transmitir tudo isso. Então a gente percebe expansão bem grande desse mercado. Isso se torna interessante para a gente formar profissionais que tenham essa visão”, afirma.

    Em outra ponta da formação de profissionais dos games em Curitiba está a escola Octopus, que também conta com uma unidade em São José dos Pinhais. Como uma introdução que antecede o curso acadêmico, a escola técnica em atividade há oito anos tenta colocar os alunos em prática com foco no segmento artístico dos jogos digitais e dá ao estudante oportunidade de criar seu portfólio.

    “Dentro desse segmento (jogos) é a parte artística (a especialidade da escola). Tem o cara da programação, que é mais matemática, algoritmo, etc. E nós aqui oferecemos para o ‘cara da cor, do cenário, da história’. Aquele que olha para um jogo e pensa no melhor personagem. Isso aqui é uma escola artística. Trabalhamos com jovens que são aproveitados pelo mercado. Eles chegam aqui com mil ideias e organizam aqui. A faculdade oferece o processo teórico, nós oferecemos a prática”, explica o diretor comercial da Octopus, Nilo Fernandes. A Octopus aceita alunos até com 6 anos de idade. “Em games até de 12 anos em diante. Desenho tem até com 6 anos. Mas no geral, em Games, o mínimo é que seja 14 anos. Tentamos direcionar de acordo com o perfil. Tem meninos que estão na idade de olhar o computador como diversão e tem quem já entenda de outra forma. O curso de Animação 3D, que é o de Games, todos os cursos, têm começo, meio e fim”, pontua.

  • Recomeço

    Basquete de rua renasce em Curitiba

    Basquete de rua renasce em Curitiba
    FiftySeven Streetball é o time de rua mais antigo de Curitiba (Foto: Franklin Freitas )

    Narley Resende

    Em alta em Curitiba e outras cidades do Brasil na década de 1990, o basquete de rua ressurgiu neste ano na cena esportiva da capital paranaense e tem demonstrado força ascendente. Entre os praticantes, há consenso de que uma soma de fatores é responsável pelo recomeço, embora ainda distante de uma consolidação. O basquete de rua está mais forte após a retomada na TV aberta das transmissões de jogos da NBA, a liga americana de basquete, passando também pela reforma de quadras em praças públicas e pela organização de grupos de praticantes.

    Essa organização, porém, é apenas por lazer, já que os prêmios máximos dos torneios não passam de kits com uniformes, medalhas e troféus. “É o nosso lazer organizado”, resume o almoxarife Luiz Passos, de 40 anos, que é técnico do time FiftySeven Streetball. A equipe de rua tem 15 anos e é a mais antiga da cidade em atividade na liga independente.

    Impulsionada pela chamada Liga Interpraças, um torneio surgido em 2016, uma conexão de jogadores é formanda hoje pelo evento extraoficial que rivaliza em números de adeptos com qualquer outro oficial na região. Sem ligação com federação ou confederação, o evento reúne 192 jogadores em 16 times inscritos para o torneio deste ano.

    “Hoje o Interpraças tem primeira e segunda divisão (Ouro e Prata). O campeonato surgiu nos últimos anos com o pessoal que jogava se reunindo em times”, conta Luiz Passos. No entanto, ressalta o técnico do FiftySeven, outros fatores coincidiram para alavancar o basquete de rua. “As partidas da NBA estarem passando na TV aberta ajudou bastante. Antes passava em TV a cabo, então não era tão popular. Antigamente passava na TV aberta e também era isso que ajudava”, compara.

    Além dos jogos em TV aberta, o terceiro principal fator é o de qualidade das quadras de rua. “A praça central em Curitiba no basquete sempre foi a Oswaldo Cruz. Ela ficou fechada por três anos para reforma e quando reabriu ficou muito melhor”, conta. A revitalização da praça começou em 2015 e terminou em 2018. Com isso, segundo Passos, o número de praticantes e de projetos envolvendo o centro esportivo público aumento.

    Outra demonstração de que faltava apenas incentivo para que o esporte se impusesse foi um evento patrocinado por marca de cerveja realizado em maio. No projeto publicitário, a marca também escolheu cinco quadras em grandes cidades do Brasil (Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte) para serem reformadas. Os locais foram pintados e receberam tabelas e aros novos. Para marcar a reinauguração das quadras, a marca de cerveja promoveu um evento gratuito com muitas atrações que envolvem o lifestyle do esporte, batalhas, shows e outras atrações. Praticamente um dia dedicado a tudo que envolve a cultura do basquete. “Encheu muito, foi muita gente mesmo. Como evento de basquete surpreendeu”, contra Luiz Passos.

    Três eventos formam a liga independente

    O Interpraças está na quarta edição. O evento é organizado pela BSS Sports e forma uma liga independente. Outros dois torneios do basquete amador contemplam a liga, o Taça Curitiba masculino e feminino, que tem apoio da Prefeitura, e o Torneio Interamericano, considerado o mais sofisticado. O responsável pela BSS Sports é Bruno Sartório, de 39 anos. Ele conta que há dois anos foi decidido dividir os Interpraças em divisões. “Em 2017, os 12 melhores colocados foram para a Ouro e os que foram entrando ficaram na Prata. É todos contra todos. Os oito melhores permanecem e quatro caem”, explica.

    Sartório afirma que a evolução das esquipes passa pelo incentivo por parte de Prefeituras. “Não é como eram as duas primeiras edições, que eram só praças. São equipes que treinam, não necessariamente clubes, mas tem de prefeituras, como é o caso de Quatro Barras e Campo Largo. Tem equipe de São José dos Pinhais. Muirtos atletas de clubes também acabam participando.

    A partir da segunda metade de julho, o calendário de competições do basquete de rua de Curitiba terá eventos todos os fins de semana. “Quem for assistir aos jogos da Taça Curitiba a gente vai sortear para fazer arremesso do meio da quadra e a pessoa que acertar vai ganhar prêmio em dinheiro”, convida Sartório.

    Embora se admita que há estímulos, o principal, segundo os envolvidos, é a “cultura urbana” que se mantém viva mesmo sem qualquer patrocínio. O próprio basquete de rua surgiu nos bairros pobres das cidades estadunidenses em resposta à exclusão social, ao racismo e à crise econômica que os Estados Unidos atravessaram com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Desde o final da década de 1970, ela passou a se confundir com o movimento Hip Hop, cujo estilo se reflete nas letras dos rappers, na dança de rua (o break), nas gírias, na arte do grafite e na moda – não por acaso, inspirada no basquete americano.

    O Hip Hop chegou ao Brasil no início de década de 1980 por intermédio de equipes de som, das revistas, dos discos, filmes, vídeo clipes e programas de TV. Junto com o estilo, o basquete veio de carona, assim como a indústria de produtos esportivos dos EUA que inundou lojas e o comportamento da juventude.

    O gerente da Decathlon Barigui, uma das maiores lojas de esportes de Curitiba, Renan França afirma que o aumento na demanda pelo basquete é evidente, embora ainda não tenha reflexo no mercado. “A gente consegue identificar que tem, sim, um crescimento no último ano. Todo últmo sábado do mês a gente organiza jogos de basquete 3x3. Tem atá 15 times e movimenta bastante gente. Tem um pessoal que participa que vem de São José, de Araucária. Tem quatro times femininos jogando. Com relaçao às vendas tem outras variações, quanto ao momento (econômico) que estamos vivendo, mas pelos eventos que a gente percebe que a procura aumentou tanto pelo basquete de rua, quanto pelo de quadra”, confirma. No caso da loja, o engajamento é de uma das funcionárias, Angela Laschewitz, que é jogadora e organiza os eventos.

    Envolvimento
    As iniciativas dos próprios grupos de moradores também se destaca. Na Praça Brigadeiro Eppinghaus, no Juvevê, por exemplo, quem reformou a quadra e mantém conservada são os próprios frequentadores, na maioria jovens que moram na região. “A praça já foi citada até na ESPN”, conta Passos. Neste ano, a Liga Interpraças ocorre em ginásios fechados espalhados por diversas regiões da cidade. “Na semana que vem a rodada será no Parque dos Peladeiros. Alguns jogos tem até muito público, só que é difícil porque um lugar fica longe do outro, então ainda falta uma divulgação.

  • Vespersaurus paranaensis

    Nova espécie de dinossauro carnívoro é descoberta no Paraná

    Nova espécie de dinossauro carnívoro é descoberta no Paraná
    Reconstrução em vida de Vespersaurus paranensis, que viveu no período cretáceo, há 90 milhões de anos atrás; fóssil da espécie, da mesma linagem do tiranossauro e do velociraptor, foi encontrado no município de Cruzeiro do Oeste, região noroeste do Paraná (Foto: Foto: Rodolfo Nogueira)

    Narley Resende

    Estudo publicado nesta quarta-feira (26) no periódico científico Scientific Reports, do grupo Nature, apresenta uma nova espécie de dinossauro, que viveu no período Cretáceo, há cerca de 90 milhões de anos. O fóssil foi encontrado no município de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, e estudado por paleontólogos da USP, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Museo Argentino de Ciências Naturales e Museu de Paleontologia de Cruzeiro do Oeste. A nova espécie foi nomeada Vespersaurus paranaensis, a partir da palavra vesper (oeste ou entardecer em latim), em referência ao nome da cidade onde foi descoberta, e por representar o primeiro dinossauro do Estado do Paraná.

    Os fósseis da nova espécie revelam um animal pequeno, com pouco mais de 1,5 metro (m) de comprimento, que faria parte da linhagem dos terópodos, grupo de dinossauros carnívoros bípedes que também inclui o tiranossauro e o velociraptor. Dentre os terópodos, o Vespersaurus paranaensis pertence ao subgrupo denominado Noasaurinae, que inclui dinossauros de pequeno porte até então conhecidos apenas na Argentina e em Madagascar, com possíveis registros também na Índia, indicando que essas terras estiveram unidas durante o Cretáceo, com provável conexão através da Antártica. 

    O Vespersaurus paranaensis é a oitava espécie de dinossauro descrita a partir de material brasileiro que pode ser seguramente atribuída aos terópodos. Com quase metade do esqueleto conhecido, mesmo que com muito pouco do crânio, ele corresponde ao terópodo preservado de forma mais completa no país, sendo os demais conhecidos com base em crânios parciais, esqueletos mais incompletos ou mesmo poucos ossos isolados.

    O novo dinossauro possuía vértebras escavadas por divertículos do sistema respiratório, que conferiam leveza ao seu esqueleto (como nas aves viventes), e um braço muito reduzido (com menos da metade do comprimento da perna), mas sua característica anatômica mais peculiar está nos pés. Seu peso era praticamente todo suportado por um único dedo central, sendo o animal funcionalmente monodáctilo, de forma semelhante aos cavalos atuais. Já os dedos que flanqueavam esse dígito central possuíam grandes garras em forma de lâmina, que serviriam para cortar e raspar.

    “De forma análoga ao Velociraptor, com o qual o Verpersaurus não é aparentado, ele provavelmente usaria as garras do pé na captura e dilaceração de presas, que poderiam incluir os lagartos e pterossauros que sabemos também terem habitado a região” afirma o paleontólogo Max Langer, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) e líder do estudo. As rochas do noroeste paranaense em que o Vespersaurus foi preservado se formaram em ambientes desérticos, indicando que o animal era adaptado a esse tipo de clima.

    Na década de 70, nessas mesmas rochas, o paleontólogo Giuseppe Leonardi havia descoberto um estranho conjunto de pegadas fósseis. Elas pareciam ter sido feitas por um pequeno dinossauro bípede e monodáctilo, mas à época não se conhecia nenhum animal com tais características ao qual elas pudessem ser atribuídas. “É incrível que, quase 50 anos depois, parece que descobrimos qual tipo de dinossauro teria produzido aquelas enigmáticas pegadas” comenta o geólogo Paulo Manzig, primeiro pesquisador a investigar os fósseis de Cruzeiro do Oeste e coautor do estudo.

    O Vespersaurus paranaensis não foi a primeira espécie da “era dos dinossauros” encontrada no noroeste do Paraná. No mesmo sítio fossilífero em Cruzeiro do Oeste foram descobertos o lagarto Gueragama sulamericana e inúmeros indivíduos do pterossauro Caiuajara dobruskii. Para Neurides Martins, diretora do Museu de Paleontologia da cidade, o achado deve catapultar as pesquisas paleontológicas na região, que possui comprovado potencial para coleta de fósseis. “É uma área riquíssima, mas ainda pouco explorada, que seguramente irá aportar grandes novidades ao mundo da paleontologia”, diz a pesquisadora. A descoberta foi apresentada à imprensa no dia 26 de junho, na UEM.

    Representação tridimensional do esqueleto de Vespersaurus paranensis indicando (em dourado) os ossos que foram encontrados – Foto: Rodolfo Nogueira

    Reconstrução tridimensional dos ossos do pé de Vespersaurus paranensis e da pegada deixada pelo mesmo e, à direita, reconstrução em vida do pé – Foto: Rodolfo Nogueira

  • Responsabilidade

    Animais abandonados preocupam, enquanto onda ‘pet friendly’ se impõe em Curitiba

    Animais abandonados preocupam, enquanto onda ‘pet friendly’ se impõe em Curitiba
    (Foto: Divulgação )

    Narley Resende

    Adotada nos últimos anos nas grandes cidades do Brasil, a onda “pet friendly” (amigável aos animais de estimação), que descreve locais ou eventos que aceitam a presença dos pets, está cada vez mais popular em Curitiba. O conceito pegou carona na ascensão de status de cães e gatos na escala familiar. Os animais são praticamente parentes, muito vezes tratados como filhos. De olho na tendência, estabelecimentos comerciais adotaram uma prática comum em cidades da Europa e passaram a considerar que seus clientes ficam acompanhados de animais com frequência considerável.

    Em Curitiba, depois de bares e restaurantes, que passaram a adaptar os locais para receber os animais, há agora estabelecimentos que já surgem diretamente ligados ao conceito, como, por exemplo, o Boteco Pet, aberto em abril, que é descrito pelo proprietário como “human friendly”, invertendo a lógica para mostrar que os animais são até “mais bem-vindos” que os próprios humanos. O bar tem um espaço de 2,8 mil metros quadrados, no Bairro Tarumã. 

    Se os animais são mais que bem vindos para comer e beber junto com seus tutores, com cardápio próprio e espaço exclusivo, eles também podem ir ao cinema. O Cinesystem do Shopping Curitiba promove uma sessão especial uma vez por mês para que as pessoas possam levar animais. Em cartaz, claro, filmes sobre pets. A ideia é semelhante a de outros cinemas que dedicam sessões a mães e pais acompanhados de bebês (obviamente não estão interessados no filme). A lógica seria diferente, já que os pais procuram as sessões para poder ir ao cinema, uma vez que as crianças não podem ficar sozinhas. Os cães e gatos podem, certo? Para algumas pessoas, “errado”. Os pets são inseparáveis até mesmo na hora de ir ao cinema, mesmo que dentro de um shopping.

    Se hoje a maioria dos shoppings de Curitiba aceita a presença de cães, um em Londrina foi além. Não é a falta de gramadão que impediu o Catuaí Shopping de atrair os cães e gatos para suas dependências. Estabelecimento instalou uma “roda-gigante pet friendly” que ficará em atividade até o dia 28 de julho. A atração custa R$ 15 por pessoa, e está localizada em frente à entrada principal. São 15 gôndolas com capacidade para 62 pessoas (acompanhadas de seus pets).

    Bares pedem bom senso dos donos

    O presidente do Sindicato das Empresas de Gastronomia, Entretenimento e Similares de Curitiba (Sindiabrabar), Fábio Aguayo, afirma que alguns estabelecimentos estão tendo que se adaptar na marra. O que se cobra, no entanto, é bom senso dos donos. “Tem dono de cachorro que quer o animal dentro de lugar que não dá. Falta bom senso para alguns clientes. Restaurante têm restrições mais claras. Os bares tem sido mais propícios para isso”, compara. O ano de 2018 foi até agora o auge da onda petfriendly em Curitiba. “Ficou mais forte dos últimos ano para cá. Em 2018 foi um bum, foi um fenômeno natural, que cresceu a partir de 2016 quando muita gente se elegeu, inclusive, nas eleições municipais com a bandeira da proteção dos animais. Só que a parte comercial, do pet friendly, veio forte em 2018”, afirma.

    Com isso, segmentos comerciais que até então eram totalmente diferentes acabaram convergindo. Empresas de ração estão procurando bares e outros locais de entretenimento e grande circulação de pessoas para colocar ração e produtos pet à venda. “Estão vindo pedir relação de bares e restaurantes que poderiam comprar ração. Nós ainda estamos tratando alguns casos com cautela porque temos que consultar a vigilância sanitária e respeitar uma série de normas”, pondera Aguayo.

    Representante de uma grande marca de produtos veterinários, o médico veterinário Cesar Souza acredita que algumas marcas até podem explorar o ramo dos locais pet friendly, mas que ainda não representa uma fatia importante do mercado. “Por exemplo, as principais marcas de ração no mercado, como Royal Canin, Hill’s, Premier, só operam em canais especializados. Quem vende um saco de ração de alta qualidade, de 200 quilos, não vai vender em um bar. Precisa de um profissional que saiba explicar o que é aquela ração. Produto de prescrição não vai ter (em um bar). Precisa de pessoa capacitada para fazer a indicação”, explica.

    Mas, segundo o especilista, a publicidade e os produtos de maior valor agregado certamente têm entrada garantida no mercado pet friendly. “Para propaganda da marca, marketing e investimento na marca, acho válido, mas para o cliente buscar na loja. Claro que no caso do petisco, cerveja para cachorros e o vinho para cachorros, por exemplo, são produtos adequados, o dono acaba gastando, indo ao local por ter esse diferencial. E petisco, por exemplo, tem valor agregado muito maior que a ração. Por quilo é mais rentável para quem vende. É o produto que tem saída”, afirma.

    Além de centros comerciais, bares, restaurantes, cinema e hotéis, os espaços públicos de maneira geral também estão se adaptando. Um dos gramados atrás do Museu Oscar Niemeyer (MON), no Centro Cívico, há anos já foi dominado pelos pets nos fins de semana. O fenômeno ocorreu naturalmente, obrigando a prefeitura a praticamente dedicar o local aos eventos relacionados no agora chamado ParCão, que virou nome oficial do espaço. Tanto sucesso orgânico que nos dias 28, 29 e 30 de junho uma nova edição da “Parada Pet” será realizada no local. Algumas atrações confirmadas são Alexandre Rossi, o “Doutor Pet”, que vem acompanhado de sua cachorrinha pinscher, a “Estopinha”. O evento também vai promover atividades em conjunto entre os donos e os animais, espaços gastronômicos, desfiles e concursos para os pets e também lançamentos de itens do segmento. Esse é um exemplo de evento que tenta conciliar a moda com a ação social.

    Animais abandonados e clandestinidade preocupam ONGs e autoridades

    É inegável que os pets têm tido mais espaço na sociedade, principalmente nos grandes centros. Apesar disso, o abandono e as ocorrências sistemáticas de maus tratos também são evidentes. A Polícia Civil e a Prefeitura de Curitiba estão fazendo, desde o início do ano, ações conjuntas para a verificação de denúncias de maus-tratos, posse ilegal, comércio ilegal e tráfico de animais silvestres e domésticos. O balanço dessas ações revela que a criação de cães de raça para atender a demanda por pets degenerou em uma situação de maus-tratos. Já chega a 378 o número de cães de raça resgatados em canis irregulares, em Curitiba, este ano. Eles estavam em criadouros pequenos, em que os animais ficam amontoados em baias apertadas e sujas, sem alimento ou água suficiente, além de receberem medicamentos vencidos. O último resgate ocorreu no dia 31 de abril, no bairro Xaxim, depois de uma denúncia feita à prefeitura pela Central 156. Os responsáveis pelo canil foram multados em R$ 18 mil por comércio ilegal e os cães foram encaminhados para ONGs e depois de receberem cuidados, serão doados.

    Segundo a médica veterinária Maristela Fonseca, que trabalha com essas ONGs que fazem o resgate de cães, a criação desses animais tem sido explorada como uma forma fácil e barata de ganhar dinheiro por pessoas que não são criadores habilitados. “Eles compram ou até furtam dois ou mais cães e passam a fazer o cruzamento descontrolado, inclusive entre parentes muito próximos. O cruzamento consanguíneo é a principal causa de problemas genéticos que vão aparecer quando o cão se tornar adulto”, aponta. Ela recomenda que, quem quiser um cachorro, adote o animal ou, se fizer questão que seja de uma determinada raça, pelo menos vá conhecer o canil. Atualmente, “há muita criação irregular de yorkshires e llasa apso, ambas raças pequenas”.

    Outro problema são os abandonos de animais adultos e mesmo filhotes de cães e gatos que nascem nas ruas ou em residências de pessoas que não querem se responsabilizar por uma ninhada. Os animais abrigados em ONGs ou por ativistas individuais à espera de adoção sofrem com carência de doações ou incentivo do poder público.

    Foto: Franklin Freitas

    Foto: Franklin Freitas

    Ativista fala sobre resgates e dificuldades

    A ativista Sueli Nunes, que cuida 70 cães e 10 gatos resgatados afirma que o trabalho dela é totalmente independente. “Infelizmente, eu não acho que o município dá importância para o nosso trabalho. Nós merecemos, todas as pessoas que se dedicam a esse trabalho merecem, o mínimo de auxílio. Tenho alvará, responsável técnico, licença da vigilância sanitária e ocupo 100% desse espaço, da chácara, para cuidar dos animais. Pago IPTU como se fosse um imóvel normal e não um que serve a um serviço social”, reclama. Com a chuva da semana passada outros problemas imprevistos apareceram. “Tivemos toldos estragados, tendas perdidas, temos um pouco de declinio a chuva carregou muita lama para os canis. Nós conseguimos acomodar os resgatados, mas teve gente (outros ativistas e ONGs) que ficou em situação muito mais delicada que a gente”, lamenta.

    O trabalho é diário, que com pouca ajuta tem uma prioridade de cada vez. Se a onda pet friendly tem seu lado fútil e comercial, também serve como ajuda. “Nesse sábado vamos estar em um estande de adoção da Bastards, uma cervejaria. O que ele revertem em vendas fazem em doações para a gente. Recebemos 10 sacos de ração na semana passada que em dias como esses foi um alento”, comemora.

    Sueli também tem um hotel para cães que acaba sendo seu ganha pão ao mesmo tempo em que ajuda a manter o resgate de animais abandonados. A ativista critica a comercialização clandestina. “A clandestinidade nos fere muito, incomoda bastante. Ontem mesmo nós resgatamos um cão de raça, um poodle, machucado, abandonado e cheio de ferida. Me incomoda bastante a comercialização. Para gente a vida deles não é um negócio”, pontua.

    Na última semana, a Rede de Proteção Animal da Prefeitura de Curitiba lançou uma série de ações para incentivar a adoção de pets e a guarda-responsável de animais. Entre as ações estão uma campanha de comunicação e a criação do Banco de Ração, instrumento que vai possibilitar à Prefeitura receber doação de ração para ser encaminhada a ONGs e protetores independentes. Para ajudar basta acessar o site protecaoanimal.curitiba.pr.gov.br ou ligar para a Central 156.

    Foto: Franklin Freitas 

  • Entrevista

    Intercept analisou apenas 1% das mensagens de Moro e procuradores, diz jornalista

    Intercept analisou apenas 1% das mensagens de Moro e procuradores, diz jornalista
    (Foto: Reprodução / The Intercept Brasil )

    Narley Resende

    O início de uma série de reportagens publicada pelo site The Intercept Brasil revelou conversas mantidas entre integrantes da Força Tarefa Lava Jato e o então juiz federal Sergio Moro. Em entrevista hoje ao jornal TNews, da Rádio T no Paraná, em parceria com o jornal Bem Paraná, o jornalista Rafael Moro Martins, um dos que participaram da produção da série para o Intercept, revelou que o grupo analisou “apenas 1% do material” enviado ao veículo de comunicação por uma fonte.

    O MPF (Ministério Público Federal) afirmou que as conversas foram obtidas por meio do aplicativo Telegram, que teriam sido acessadas “de forma criminosa por um hacker”. Segundo o Intercept, esse material foi fornecido por uma fonte, sem que o portal tivesse qualquer participação na invasão de aparelhos celulares de procuradores. As mensagens mostram que o então juiz Sergio Moro deu orientações ao procurador da República Deltan Dallagnol sobre procedimentos da Operação Lava Jato, da qual Moro era juiz e Dallagnol, coordenador. Esse tipo de comunicação é ilegal segundo a Constituição Brasileira. 

    TNews - Como foi que esse material chegou até o Intercept, foi um hacker? E no que consiste; veio em código compactado? São textos, áudios e vídeos, de qual período? 

    Rafael Moro Martins – O material chegou até nós, como a gente já disse naquela espécie de editorial, que na verdade é mais uma nota de editores, que a gente publicou junto com as reportagens, por uma fonte que entrou em contato conosco e que disse que tinha um material para nos entregar. Isso é tudo que a gente fala sobre isso, porque, inclusive, é uma previsão constitucional no Brasil, ou seja, isso está na Constituição: jornalistas não são obrigados a revelar quem são suas fontes de informação. Isso quer dizer que a divulgação desse material é totalmente legal, amparado na lei, não tem nada de ilegal ou criminoso no que nós estamos fazendo, ao contrário do que o Ministério Público tem alegado na defesa que tem feito nessas últimas horas. 

    TN - Existem, possivelmente, conversas de cunho pessoal entre os envolvidos. Quem tem teve acesso a isso e como o Intercept tem agido para separar esses conteúdos, como foi a decisão de publicar um material de origem ilegal? Ou seja, quais os critérios para definir o que tem e ou não relevância social?

    Rafael - O critério é muito simples. Interesse público. Inclusive a gente parte exatamente da mesma premissa que o então juiz Sergio Moro adotou quando optou por vazar – vazar não é o termo adequado, mas dar publicidade àquelas conversas entre a então presidente Dilma e o ex-presidente Lula que tratava da indicação de Lula para um ministério. Isso foi meses antes do impeachment de Dilma. Esse critério é que conversas entre autoridades e pessoas poderosas do Estado e do governo devem ser de conhecimento da sociedade em uma democracia. É exatamente isso que a gente acha. O ex-juiz Moro já era uma figura muito poderosa quando era um magistrado, quando comandava – quando julgava, na verdade, mas a gente mostrou que ele também comandava – quando julgava os processos da Lava Jato e a própria Lava Jato se tornou um ator político relevante no País. Veja o impacto que as investigações tiveram nas últimas eleições, por exemplo, antes ainda, com a prisão de muita gente importante, com ações que foram desde o começo questionadas por partes. O ex-juiz Moro hoje em dia tem, inclusive, uma carreira política. Ele deixou a magistratura para assumir uma carreira política. Ele é um ministro de estado, ministros são políticos por excelência. Então, isso mostra que eles, da Lava Jato, e o ex-juiz Moro são pessoas que devem ser investigadas por jornalistas. A função da imprensa é jogar luz sobre gente poderosa como ele.

    A gente não vai divulgar nada cujo conteúdo seja estritamente privado. A gente está pautando a divulgação pelo interesse público, ou seja, uma conversa que mostre um comportamento que a gente ache que é inadequado ou que excede o que deveria ter sido o comportamento ou ação dos procuradores, de outras pessoas envolvidas na Lava Jato, eventualmente de investigados, a gente vai divulgar, do contrário, não.

    TN - As conversas seguem uma linha temporal clara? Por exemplo, é possível identificar a reação de procuradores aos fatos que ocorreram ao longo da Lava Jato? Há uma reação, por exemplo, dos integrantes da Lava Jato quando o desembargador Rogério Favreto concedeu habeas corpus ao ex-presidente Lula

    Rafael - Sim, essas conversas, pelo que a gente pôde perceber até agora, é um material muito vasto. A gente tem dito em uma estimativa meio empírica é que a gente conseguiu ler 1% de todo esse material. E foi com base nessas leituras que a gente produziu essas três primeiras matérias. Isso dá uma ideia do volume do material que a gente tem. Elas (as conversas) começam em 2015. A gente até imagina que elas tenham começado quando houve aquele primeiro grande bloqueio no WhatsApp no Brasil, por uma decisão judicial, e muita gente passou a usar o Telegram. E elas vão até 2018 e algumas até um pouco além disso. Então, assim, sim, é possível traçar perfeitamente essa linha temporal. Inclusive, a forma como essas conversas estão montadas permite perfeitamente que a gente trace isso. A gente tirou esses trechos que a gente publicou de arquivos que permitem essa conexão temporal. A gente ainda não encontrou, mas certamente é possível que existam conversas daquele dia em que houve uma série de decisões sobre soltar e manter preso o ex-presidente Lula, foi em julho de 2018.

    TN - Essa fonte monitorou os procuradores durante anos ou conseguiu uma forma de resgatar até mesmo mensagens antigas, até mesmo apagadas? Como o Intercept certificou que as mensagens eram reais, já que os envolvidos não foram procurados antes da publicação das matérias?

    Rafael - A gente não faz comentários até para preservar a segurança dessa pessoa que nos entregou esse material e é um material no qual a gente viu relevância, nos pareceu bastante verdadeiro logo de cara. Eu estou trabalhando nisso há semanas, não sozinho, mas com outros jornalistas do Intercept. A gente percorreu vários diálogos. Eu conheço a operação, cobri a Operação Lava Jato em Curitiba, é um arquivo muito vasto para que possa ser falsificado. Datas-chave batem, as conversas batem. Nós mostramos algumas conversas a pessoas que conversaram com eles. Enfim, tem as conversas, as pessoas reconheceram as conversas. Vozes conferem com as conversas originais. Então, a gente tem certeza de que se trata de um material verdadeiro. Quanto à maneira como a fonte agiu, a gente não comenta isso por questões de segurança da fonte.

    TN - Quantas reportagens ainda devem ser publicadas com base em novos fatos dessas mensagens?

    Rafael - É impossível dizer quantas vão ser publicadas, mas como a gente frisou isso se trata dos primeiros frutos de um trabalho que está começando. Então, certamente, na medida em que a gente vá lendo e vá investigando e vá checando, verificando outras conversas, porque ao contrário do que os procuradores sugeriram a gente trabalhou bastante para colocar todas as coisas no devido contexto, inclusive, lendo conversas paralelas, comparando isso com movimentos processuais, com entrevistas deles à época, então, é um trabalho que leva algum tempo, um trabalho com extremo rigor jornalístico. Mas, certamente vai haver mais matérias.

    TN - O Intercept optou por publicar as reportagens antes de ouvir as pessoas citadas, antes de ouvir os procuradores e o ex-juiz Sergio Moro, ministro da Justiça. Uma das reclamações do ministro, publicada em nota por meio do site Antagonista, criticando a “postura do site que não entrou em contato antes da publicação, contrariando regra básica do jornalismo”. Por que os jornalistas optaram por publicar antes de ouvir as pessoas citadas?

    Rafael - Porque a gente considerou, a gente debateu muito isso entre nós e considerou que havia uma chance muito grande de que se eles soubessem que nós estávamos trabalhando para publicar isso que eles fossem à Justiça e conseguissem barrar a publicação. A gente tem inúmeros casos de censura prévia a jornalistas no Brasil (o jornal) O Estado de São Paulo foi proibido de falar do ex-presidente José Sarney. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal proibiu que a Revista CruzoÉ, que é ligada ao site Antagonista, publicasse uma matéria sobre o presidente do Supremo Dias Toffoli. Então, são inúmeros casos. O Brasil é um país onde a liberdade de imprensa não é um bem sagrado. Então, a gente optou fazer dessa forma. Assim que a gente colocou as matérias no ar entrou em contato com os procuradores e o ministro Moro dizendo que a gente colocaria imediatamente no ar as posições deles.

    TN - Como está sendo a repercussão para os jornalistas nesse momento? Alguém já entrou com alguma medida judicial para impedir que mais conversas sejam publicadas?

    Rafael - Não que seja do nosso conhecimento e nem de nossos advogados. A repercussão tem sido muito boa. Eu diria até surpreendente. Eu imaginava, obviamente, nós todos imaginávamos, que dado o impacto desse conteúdo que a repercussão seria grande. Eu diria que ela tem sido maior e mais ampla do que se imaginava. Teve muito destaque no exterior, nos Estados Unidos e Europa, aqui na América Latina também. O Estadão publicou hoje um material bastante contundente à respeito. Enfim, a gente tem certeza de que fez a coisa certa que era divulgar conversas com atitudes incorretas que mostram fatos graves cometidos dentro da Operação Lava Jato. Parece que isso (as reportagens) tem de fato chocado as pessoas. 

    Ouça a íntegra da entrevista:

  • Saúde na Hora

    Programa de postos de saúde com horário ampliado não vai dar certo, diz secretário da RMC

    Programa de postos de saúde com horário ampliado não vai dar certo, diz secretário da RMC
    (Foto: Reprodução / Google Maps)

    Narley Resende

    Municípios da Região Metropolitana de Curitiba ainda precisam resolver o problema da falta de médicos antes de aderir ao programa do governo federal que pretende pagar para que unidades de saúde da família (unidades básicas) tenham horário estendido. De acordo com o Conselho Regional de Secretários de Saúde da Região Metropolitana (Cresems), hoje é impossível oferecer o serviço. “O problema maior que estamos enfrentando nas unidades em toda região metropolitana é a falta de médico. Ninguém está conseguindo, de todos os municípios, atender no mínimo. Como nós já estamos tendo dificuldades de atender no mínimo teremos ainda mais para atender no máximo (com horário estendido”, afirma o presidente do Cresems e secretário municipal de Saúde de São José dos Pinhais, Giovani de Souza.

    O Paraná tem 40 municípios com unidades de Saúde da Família aptas a participar do Programa Saúde Na Hora, do governo federal. Os municípios juntos têm 130 unidades adequadas ao programa, de acordo com o Ministério da Saúde. As cidades com maior número de unidades são Curitiba, com 43; Maringá e Colombo, com 12 cada; e São José dos Pinhais, com oito unidades. Os demais municípios têm entre uma e três. A partir desta semana, municípios podem ampliar o horário de atendimento nas Unidades de Saúde da Família para solicitar recursos extras do governo federal.

    O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, assinou a portaria que regulamenta o programa na última quinta-feira (16). De acordo com o ministério, a estimativa é que mais de 2 mil Unidades de Saúde da Família (USF) já estejam aptas a participar do Programa Saúde Na Hora. O objetivo é ampliar acesso aos serviços da Atenção Primária à Saúde e desafogar as emergências.

    O secretário de São José dos Pinhais, no entanto, explica que o tema é mais complexo. “O ministério abriu em conjunto outras medidas que é o médico de 20 horas (semanais), que teria que então ter um concurso com médico de 20 horas. Isso tudo envolve uma série de implicações com legislações locais de cada município. Alguns municípios tem gestão plena, outros não. Nós, por exemplo, (em São José) eu já tenho médico de 20 horas na rede que trabalha em urgência e emergência. Um médico do município de São José dos Pinhais tem um valor no salário dele para atender 20 horas em regime de plantão. Se eu chamar o médico de 20 horas para atender na atenção primária ele não vem pelo mesmo valor que temos para regime de plantão”, aponta.

    Segundo o secretário, um médico de 20 horas para São José teria que receber R$ 8 mil. “Um médico para vir aqui e atender em horário estendido ele teria que ganhar R$ 8 mil. Só que o médico que trabalha em regime de plantão por 20 horas aqui no município ele ganha R$ 5 mil (R$ 4,6 mil). Se eu der um salário de R$ 8 mil para saúde da família de 20 horas em horário estendido, vai dar equivalência. Hoje eu tenho aproximadamente 300 médicos. Só o impacto de elevar de R$ 4,6 mil para R$ 8 mil seria de mais de R$ 10 milhões por ano. Impossível”, pontua.

    “Nós já chamamos mais de 260 médicos de concurso com salário médio de R$ 14 mil. Só vieram 40 médicos. Temos uma carência ainda de chamar vinte. Nós temos um problema anterior ainda do que estender horário. Em Tijucas do Sul, por exemplo, há unidades de saúde que não tem médico há mais de um ano. E o salário do médico lá é o mesmo do prefeito. Como o salário de nenhum servidor lá pode ser maior que o do prefeito os médicos não tem interesse de trabalhar em Tijucas do Sul. E é óbvio, né? Se tenho vagas em São José dos Pinhais por R$ 14 mil e ele não tem que andar mais 50 quilômetros para chegar em Tijucas, claro que ele não vai para lá”, compara.

    O problema ultrapassa a solução oferecida pelo governo Jair Bolsonaro. “O tema é complexo. Não é só o dinheiro. Neste momento eu tenho dinheiro em caixa para contratar e pagar os médicos e não tenho médico. ‘Ah, mas vem mais dinheiro do Ministério da Saúde’. Nosso problema não é só dinheiro. Nosso problema é que não tem médico. Tanto que não tinha médico que eles fizeram aquele programa Mais Médicos trazendo de Cuba. Tem que se resolver nas duas esferas. Primeiro: cadê os médicos?; depois se pensar na extensão de horário”, diz.

    Programa paga que para unidades atendam por mais tempo, garante Ministério

    Os municípios que ampliarem o horário de atendimento à população nas Unidades de Saúde da Família (USF) passam a receber mais recursos do governo federal. Segundo o governo, os repasses podem chegar a dobrar de valor, dependendo da disponibilidade de equipes de Saúde da Família e Bucal e do horário de funcionamento das unidades, que pode variar entre 60 horas e 75 horas semanais. Para receber o recurso, as unidades precisam estar de portas abertas no horário de almoço e à noite, podendo também abrir aos finais de semana.

    Os municípios que pedirem e forem aprovados vão receber um repassa de incentivo no momento de início do horário estendido: R$ 22,8 mil para a Unidade de Saúde da Família que optar pela carga de 60 horas sem atendimento odontológico e R$ 31,7 mil para a que conta com equipes de saúde bucal. Para as que optarem pelo turno de 75 horas semanais, serão repassados cerca de R$ 60 mil de incentivo. Esses recursos devem ser usados para preparar as unidades que vão funcionar no novo formato.

    No final do primeiro mês de funcionamento no novo horário, as unidades já passam a receber mais recursos para custeio das equipes. As unidades que recebiam R$ 21,3 mil para custeio de até três equipes de Saúde da Família receberão cerca de R$ 44,2 mil e, caso optem pela carga horária de 60h semanais, receberão um incremento de 106,7% ao incentivo de custeio. Caso a unidade possua atendimento em saúde bucal, o aumento pode chegar a 122%, passando de R$ 25,8 mil para R$ 57,6 mil. Já as unidades que recebem atualmente cerca de R$ 49,4 mil para custeio de seis equipes de Saúde da Família e três de Saúde Bucal e optarem pelo turno de 75h, receberão R$ 109,3 mil se aderirem à nova estratégia – um aumento de 121% no custeio mensal.

  • PREVIDÊNCIA

    Reforma de Bolsonaro acaba com abono para baixa renda no Paraná

    Reforma de Bolsonaro acaba com abono para baixa renda no Paraná
    Gustavo Fruet (PDT) diz que vai lutar contra ponto (Foto: Franklin Freitas )

    Narley Resende

    A reforma da Previdência do presidente Jair Bolsonaro (PSL) acaba com o pagamento do abono salarial no Paraná. Esse benefício é destinado a trabalhadores de baixa renda e funciona como um 14º salário, pago pelo governo. A proposta do governo é liminar o pagamento do abono a quem recebe um salário mínimo nacional, que ligeiramente inferior ao mínimo do Paraná. Com isso, mesmo que um paranaense receba apenas um salário não recebera mais o abono. A medida afeta outros quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

    Hoje, quem tem carteira assinada e recebe até dois salários mínimos (R$ 1,9 mil) por mês tem direito ao abono, cujo valor é de um salário mínimo nacional (R$ 998). Mas, pela proposta, o critério da renda mensal será alterado para um salário mínimo nacional. A medida restringe bastante o grupo de trabalhadores que podem sacar o benefício.

    No Paraná e outros quatro estados vigora um piso mais alto do que o nacional. É vedado um patrão contratar um empregado no Paraná por menos de R$ 1,3 mil mensais. No Estado, esse é o mínimo para uma empregada doméstica, por exemplo. Dependendo da categoria, esse mínimo chega a R$ 1,5 mil. Segundo o Ministério da Economia, a reforma da Previdência prevê que o parâmetro para ter direito ao abono é o piso nacional (R$ 998). A regra atual -renda mensal de até dois salários mínimos- garante que trabalhadores desses cinco estados tenham acesso ao benefício. Com a mudança de critério defendida pelo governo, o abono salarial seria cortado nos cinco estados.

    O deputado paranaense Gustavo Fruet (PDT) afirma que esse é um dos pontos questionados pela bancada do partido como um todo na reforma. “Esse é um dos pontos questionados pela bancada do PDT na reforma e que já chegou ao Relator (Samuel Moreira, do PSDB-SP). Sou contra essa mudança, lembrando que o salário maior foi destaque dos governos Beto Richa (PSDB) e Ratinho Junior (PSD) sem oposição”, lembra o pedetista. Fruet afirma que ainda não há consenso na bancada do Paraná.

    O deputado Toninho Wandscheer (PROS), que já apoiou publicamente a reforma, afirma que tem novo posicionamento contra pontos específicos, como por exemplo sobre o Benefício de Prestação Continuada (BPC) que hoje é pago no valor de um salário mínimo (R$ 998) mensalmente às pessoas com deficiência e aos idosos com 65 anos ou mais que comprovem não possuir meios de se sustentar, e nem de ter auxílio da família. O governo quer pagar R$ 400, mas reduzir a idade para 60 anos. Wandscheer também diz que é contra a mudança na aposentadoria rural, em que o trabalhador rural não poderá mais se aposentar por idade, sem nunca ter contribuído. “Esse é um debate que a gente vai ter que fazer no PROS. O que a gente já se colocou contrário é a questão do BPC e aposentadoria rural. Outra questão é que quando a mulher ou homem ficam com pensão, hoje fica 100%, e estamos sugerindo que não baixe de um salário mínimo”, afirma.

    O deputado Luizão Goularte (PRB) disse que ouviu os argumentos do governo e que pode votar pelo fim do aborno. “A reforma não fala de abono regional, mas fala sobre quem recebe até dois salários mínimos e recebe o abono. A reforma está limitando (o benefício) a um salário mínimo (nacional e não mais regional). Já ouvi argumentos dos dois lados (governo e oposição). O argumento do governo é que quando foi criado esse 14º salário, para as empresas o salário mínimo era equivalente a 100 dólares. Com a política de valorização do salário mínimo, talvez não haja mais necessidade (de pagar o abono). No governo Dilma Roussef foi feita uma alteração, que os trabalhadores que trabalharam menos que um ano completo já recebem proporcional aos meses trabalhados”, compara. Luizão afirma que o partido ainda vai analisar se irá propor mudanças. “O PRB não consolidou posição com relação a isso”, afirma.

    Governo Ratinho Jr não deve interferir
    Na Assembleia Legislativa, o deputado estadual Tadeu Veneri (PT) afirma que dificilmente os parlamentares paranaenses façam um levante contra mudanças que atingem especificamente o Paraná. Segundo ele, o apoio do governador Ratinho Junior (PSD) à reforma e ao governo Bolsonaro comprometem politicamente sua base de apoio. “Cai como mais um problema para quem depende das aposentadorias. Retira a obrigação do Estado, deixa o Estado como menos recursos ainda. Não acho que vá haver uma reação por parte da bancada paranaense, até porque Ratinho apoia a reforma da previdência e apoia o governo Bolsonaro. Dois deputados que eram do PT e poderiam ter uma postura diferente, Luizão e Toninho Wandscheer, por exemplo, apoiam a reforma da previdência. Não vejo uma frente paranaense de combate a isso. Isso tem que partir da sociedade”, lamenta.

    Nos outros estados afetados, no Sul e Sudeste, deputados preparam emendas na tentativa de evitar mudanças nos parâmetros e garantir o abono. Para isso, alguns articulam a derrubada da parte da reforma da Previdência que afetaria as regras do abono salarial. É o caso da bancada do Solidariedade, partido cujo presidente é o deputado Paulinho da Força (SP). “O governo diz que a reforma é para tirar privilégios. Isso não é tirar privilégio, é prejudicar o mais pobre”, disse o deputado ao jornal Folha de S. Paulo. Uma alternativa em gestação no Congresso é a de que o critério para o benefício leve em consideração o piso estadual, e não o nacional.

  • ÁREAS DE ATUAÇÃO

    Onda de 'coach' entra na mira do Conselho Federal de Psicologia

    Onda de 'coach' entra na mira do Conselho Federal de Psicologia
    Dono da maior escola de coach do Brasil e uma das maiores do mundo, a Febracis, o master coach Paulo Vieira defende a metodologia (Foto: Febracis/Divulgação)

    Narley Resende

    Acompanhamento psicológico e psicoterapia para ajudar pessoas a superar traumas profundos como depressão e episódios de violência, por exemplo, são serviços exclusivos de psicólogos, graduados e com registro no Conselho Federal de Psicologia (CFP). É isso o que defendem acadêmicos e representantes do setor. Recentemente, o conselho passou a fazer alertas contra o aumento do número de cursos e serviços de “coaching”, que é uma metodologia de “desenvolvimento e maximização de performance humana”. A prática não é regulamentada, não está presente em universidades e, tecnicamente, não é uma profissão. Há, nos últimos anos, no entanto, uma onda de cursos e instituições especializadas na metodologia.

    Em razão da falta de regulamentação, há diferentes interpretações sobre o que é ser coach, inclusive, com divergências internas sobre o limite de atuação dos profissionais. A International Coach Federation (ICF) e a Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) têm códigos de ética que versam sobre princípios e normas a serem cumpridos. No entanto, nenhum deles esclarece quais os limites de atuação em relação a outros campos, como psicologia ou psiquiatria. É comum ver coach atuando em temas específicos, como emagrecimento, relacionamento, vendas, entre outros, cujas abordagens seriam restritas a profissionais de outras carreiras.

    Praticamente qualquer área poderia contar com um coach. Há coach para sexualidade, sensualidade e conquista. Uma modalidade que causa apreensão entre profissionais é o “coach oncológico”, alguns especializados em crianças, que atuariam na recuperação de pessoas com câncer. “Curso presencial para ser coach de crianças, não tem pré-requisitos, dura quatro dias, e quem faz sai pronto para atender”, diz um anúncio que circula na internet.

    Um caso que ganhou repercussão nos últimos dias demonstrou o que seria um dos riscos na utilização da metodologia para situações que ultrapassam limites profissionais. Um diálogo reproduzido na página “Dicas Anti-Coach” no Facebook aponta um “coach”, de 18 anos de idade, que teria feito apenas um curso rápido, oferecendo atendimento a uma criança com sintomas de esquizofrenia. O cliente, contudo, era falso. A página afirma que um de seus seguidores teria visto o anúncio do coach e resolveu inventar uma situação fictício para testar o atendimento. O coach, mesmo diante de um caso descrito como o de uma criança psicótica, se prontificou a dar sequência ao trabalho. “Descreveu sintomas de esquizofrenia infantil e o coach aceitou atender, cobrou R$ 4,7 mil pelo procedimento online”, descreveu a página no post ilustrado com o diálogo. Embora o exemplo visto na página tenha causado apreensão, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) não tem registro de casos em que pacientes tenham sido prejudicados por coach de alguma forma.

    Descrito pela página como seu “caçador de coachs”, o psicólogo clínico Bruno Faria conta que fez cursos na área, mas que hoje se dedica a “desmascarar” maus profissionais. “Fiz formações em coach (sistêmico, master coach, etc). Desde que terminei percebi logo de cara que não eram coisas boas. Mas de uns três anos pra cá, os absurdos começaram a aparecer”, disse.

    Faria afirma que trabalha em uma pesquisa sobre casos que considera fraudulentos. “Eu percebi que todas essas técnicas vinham da Psicologia e que o coach utilizava de uma forma empobrecida, mas eu não via como 100% ruim. As coisas ficam complicadas quando pessoas que não têm nenhuma formação anterior, fazem a formação em coach e começam a acreditar que estão habilitadas..

    O “caçador de coaches” afirma que de 2015 para 2016 começaram a aparecer coach que rivalizaram com a Psicologia e com a Medicina. “Pessoas que saíram realizando ‘ofertas de trabalho’ dizendo ‘se cure da sua depressão’, ‘seu transtorno de ansiedade na verdade é uma crença limitante’ e ‘o coach tem ferramentas para superar isso’. Achávamos que isso era um sensacionalismo barato, dos que existem em todas as áreas. Só que isso cresceu”, denuncia.

    “Não vendemos solução para depressão”, diz master coach referência no Brasil

    Dono da maior escola de coach do Brasil e uma das maiores do mundo, a Febracis, o master coach Paulo Vieira defende a metodologia, mas deixa claro: não pode ultrapassar a área de atuação. “Coach não é psicologo, não é psiquiatra. Cada área deve ser respeitada. Nós orientamos todos os nossos alunos. Nós narramos o que é psicologia, psiquiatria, mentoria e separamos as coisas. Nós não vendemos solução para depressão, não vendemos solução para ansiedade. Isso não é um produto nosso. Não era para haver essa discussão”, lamenta.

    Vieira explica, no entanto, que existem muitos casos de pessoas que se “curam” por meio das práticas de coaching. “Tenho muitos amigos médicos que se formaram em coach para seu desenvolvimento pessoal. E que têm vários casos de gente que chegou com sintomas de depressão e que quando o nutrólogo, o médico, refez a orientação nutricional a pessoa saiu de uma depressão de três anos”, compara.

    Outro caso, segundo ele, é de uma pessoa desempregada por quase um ano que conseguiu um emprego. “Os sintomas de depressão e pânico foram embora. A empresa não é psicóloga”, exemplifica.

    De acordo com a Sociedade Latino Americana de Coaching (SLAC), o papel do coach é “apoiar o cliente (coachee) durante o processo de coaching para que possa alcançar as metas determinadas por ele, desde o início do projeto”. A metodologia, segundo o grupo, considera que “tudo aquilo que envolve o passado não pode e nem deve ser considerado. O processo de coaching avalia o estado atual do indivíduo para que ele chegue ao estado desejado”.

    “O primeiro foco é performance. O segundo é reestruturação da inteligência, conforme Daniel Golemann, o terceiro, reprodução de crenças, de modelos mentais. O quarto é estilo de vida, estilo de vida saudável. A pessoa vem fazer coaching comigo porque quer melhorar sua performance. Só que nós vamos trabalhar tudo e quando estamos re-empoderando ele em seu estilo de vida, o que acontece com os sintomas depressivos é que eles vão embora. Nós não trabalhamos a cura da depressão, mas quando nos trabalhamos o reequilíbrio muitas vezes a depressão vai embora”, justifica.

    O dono da Febracis admite que existem maus profissionais. “Como em todas as categorias, temos instituições e instituições. Temos escolas de coach que são muito boas e tem escolas que não são boas. Nenhuma escola vai garantir a fala de seu aluno”, diz.

    Segundo ele, os cursos sérios são exigentes em sua formação. “É boato (que exista curso de quatro dias). Não são quatro dias. Nosso curso tem 98 horas presencial, mais pelo menos mais 60 horas e depois temos toda a grade que envolve treinamento, que chega, dependendo da especialidade, a 600 horas. E temos o TCC também. Tem que entregar e comprovar a experiencia dele. Temos uma plataforma ultracomplexa que vai do registro fotográfico a cada um dos exercícios em que tudo fica registrado. São cinco engenheiros trabalhando nisso”, garante.

    Sobre as várias áreas, Vieira afirma que há uma confusão. “O coach, na tradução literal, é técnico. Você pode dizer que coach de qualquer coisa, como diz é ‘técnico’ de qualquer coisa. Eu sou um coach de relações amorosos, é um técnico de relações amorosa. Ou outro siginificado é a profissão. Aí temos o profissional coach, mas são coisas diferentes que se confundem, por ignorância. Eu sou coach de Lyoto Machida e Wesley Safadão. Ambos têm outros vários coach, que são os técnicos de cada área. O Lyoto tem o coach de caratê, de boxe, de musculação, que são os técnicos, da tradução, são coach treinadores”, compara.

    Conselho orienta que psicólogos separem as coisas
    Recentemente, o Conselho Federal de Psicologia publicou uma nota com orientação aos profissionais psicólogos sobre condutas relacionadas à atuação como coach. A conselhereira Iara Lais Raittz Baratiele Omar, do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), fez parte do grupo do CFP que elaborou a nota. “A nota do conselho federal é principalmente aos psicólogos que optam por atuar com coach. O conselho não tem a possibilidade de opinar sobre a atuação do coach, porque não é uma profissão da psicologia”, afirma. A conselheira afirma o alerta foi necessário devido ao grande número de psicólogos que aderiu à metodologia. Em razão de coach não ser uma profissão regulamentada, a psicóloga afirma que não há comparação entre os limites da Psicologia com a Psiquiatria, que principalmente nos anos 1990 também foi discutida. “É uma visão particular e peculiar (não tem comparação). Coach não é uma profissão. Psicologia é regulamentada como profissão da área da saúde. Um psiquiatra pode indicar psicoterapia e um psicólogo está ciente de suas restrições por se tratar de uma atuação regulamentada”, esclarece.Uma das características da atuação de coach é a divulgação do trabalho. “Há um apelo midiático que não pode ocorrer na Psicologia. O psicólogo tem uma serie de restrições. Está no artigo 20 do código de ética que é não fazer divulgação”, lembra.

  • Estratégia

    Cúpula da UFPR busca apoio político contra cortes de custeio

    Cúpula da UFPR busca apoio político contra cortes de custeio
    (Foto: Reprodução / Facebook / Oriovisto Guimarães)

    Narley Resende

    Em uma das piores crises de seus 106 anos de existência, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) decidiu usar o que tem de melhor para combater os cortes impostos pelo governo Jair Bolsonaro: o conhecimento de seus integrantes. Docentes, chefes de setor, coordenadores de cursos, pró-reitores e reitor traçaram uma estratégia que deve passar por articulação política em busca de resolução do impasse. A instituição, segundo a reitoria, pode parar em agosto se não houver forma de reverter o corte de 30% nas verbas de orçamento de custeio da universidade adotado na semana pelo Ministério da Educação (MEC). Definido em reunião da cúpula na sexta-feira, o primeiro passo será a procura de parlamentares paranaenses que possam pressionar o governo.

    O primeiro deputado federal a se manifestar foi Gustavo Fruet (PDT), cujo partido moveu na sexta-feira uma Arguição de Descumprimento de Preceitos Fundamentais (ADPF) no Supremo Tribunal Federal (STF) contra os cortes. O partido do deputado Aliel Machado, o PSB, ambém acionou o STF. Integrante da Comissão de Educação na Câmara, Aliel tomou a frente parlamentar de combate aos cortes. “Cobrarei pessoalmente o ministro durante sua ida a nossa Comissão”, disse Machado. Entre os demais deputados paranaenses que se pronunciaram em redes sociais, são contra os cortes Enio Verri, Zeca Dirceu e Gleisi Hoffmann, ambos do PT. “Eu e o deputado Paulo Pimenta já protocolamos requerimento pedindo informações do Ministério da Educação a respeito desses cortes”, disse a deputada. O deputado Boca Aberta (PROS) também se posicionou contra. “É uma aberração, uma vergonha. Sou totalmente contrário a qualquer tipo de corte na Educação. Nós vamos ‘sentar o pau’ sem dó”, disse o deputado.

    Entre os favoráveis ao corte, apenas Filipe Barros (PSL-PR) se posicionou. “Quando Dilma cortou bilhões da Educação, a esquerda ficou quietinha. Agora que Bolsonaro vai remanejar verba das Universidades Federais para a Educação Básica, eles estão ‘revoltados’”, publicou em sua página do Facebook. A Câmara Federal ficou praticamente vazia na semana passada em razão do feriado do Dia do Trabalho, que caiu na quarta-feira, e os demais deputados não se pronunciaram.

    Entre os três senadores do Paraná, Oriovisto Guimarães (PODE-PR), fundador de uma das maiores universidades privadas do País, e do cursinho pré-vestibular do Grupo Positivo, se posicionou a favor das universidades públicas. Oriovisto disse ao Bem Paraná por telefone que fará o possível para ajudar o reitor Ricardo Marcelo Fonseca, da UFPR, que busca apoio político contra a medida. “Tenho o maior amor pela Educação. Qualquer corte que seja feito de verba para a universidade, eu sou contra. Quando eu for procurado terei o maior prazer em ajudar o reitor”, disse o senador.

    No sábado, o senador Flavio Arns (REDE-PR), que é professor licenciado do setor de Educação da UFPR, afirmou que a decisão do MEC de bloquear 30% das verbas de custeio “deve ser imediatamente revista”. “Temos que ter o discernimento necessário para não deixar que visões ideológicas divergentes contaminem um debate que deve ser do Brasil. O senador Alvaro Dias (PODE-PR) ainda não se manifestou.

    O ministro da Educação, Abraham Weintraub, participará nesta terça-feira (7), às 11h, de audiência pública na Comissão de Educação do Senado. Ele será instigado a dar explicações sobre o recente corte de verba de universidades federais que, segundo ele, “promovem balbúrdia” e “eventos ridículos”. No próximo dia 15, uma audiência com o ministro está marcada para ocorrer na Câmara Federal.

    O reitor da UFPR também deve procurar pelas lideranças paranaenses do Poder Executivo. Fonseca tem uma reunião agendada como governador Ratinho Junior (PSD) para o dia 20 de maio. Procurado pela reportagem, Ratinho Junior não quis se manifestar sobre o assunto. O prefeito de Curitiba Rafael Greca (DEM) também deve ser procurado pelo reitor.

    ‘É oportunidade para fortalecer instituições’, diz professor

    A busca por apoio político também deve servir como uma forma de aproximar a comunidade externa da universidade. Professor do curso de pós-graduação em Ciência Política da UFPR, Emerson Urizzi Cervi afirma que o sucateamento das universidades causaria impacto direto nas comunidades, o que poderia ser atribuido os políticos locais. Cervi chegou a publicar mapas que indicam a relação das Federais com a atuação política regional. Um deles indica os “municípios com unidade da rede federal de ensino - ou seja, municípios que serão atingidos pela medida”.

    “Quatro mapas ao redor mostram as distribuições das maiores votações, em 2018, por município, para deputado federal dos principais partidos que compõem o centrão e de quem o governo depende para aprovar suas propostas no Congresso. Cada um dos partidos da base - ainda que se definam como independentes - ocupa pelo menos uma área com grande número de instituições federais. Agora, desconsidere as capitais, você é capaz de imaginar o impacto econômico que uma IFE (Instituições Federais de Ensino) têm em um município de porte médio do interior do País? Consegue imaginar o impacto negativo para o deputado eleito com base nesses municípios? E o prefeito e vereadores que se recandidatam daqui 18 meses?”, aponta Cervi.

    Para o professor, a crise é uma oportunidade para a comunidade acadêmica deixar claro ao País sua importância em diversas esferas. “Se os gestores souberem aproveitar o momento, promoverem uma aproximação dos representantes com base eleitoral nos municípios de influência dos campi universitários, essa será uma ótima oportunidade para fortalecer as instituições. Digo, fortalecer a partir de laços com a comunidade. Com as forças econômicas e políticas locais. Agora, se a comunidade universitária atrapalhar, dando microfone e espaço para sindicalista reclamar de chapas concorrentes e de resultado de eleições classistas, na boa, seremos decepados sem dó”, alerta.

    Emerson Cervi afirma ainda que o momento também pede a compreensão de empresários. “A UFPR contrata mais de 180 postos de trabalho terceirizados para limpeza e segurança patrimonial só em Curitiba e litoral do Estados. Alguns postos, por exemplo, segurança 24 horas, incluem mais de um trabalhador. Isso significa que são mais de duas centenas de famílias de zeladores a guardas noturnos que trabalham e vivem diretamente do orçamento da universidade, mesmo sem serem alunos, professores ou funcionários concursados. Não há, na capital do Estado, uma empresa privada que, individualmente, contrate mais funcionários de empresas de terceirização desses serviços que a UFPR. Que tal se os empresários do setor deixassem de lado suas militâncias ideológicas, passassem a pensar um pouco mais com a razão e se posicionassem contra o ataque do ministério da Educação às universidades?”, questiona.

  • 'Balbúrdia'

    UFPR pode parar após corte de R$ 48,3 milhões do governo Bolsonaro

     UFPR pode parar após corte de R$ 48,3 milhões do governo Bolsonaro
    (Foto: SMCS)

    Narley Resende

    O corte de 30% nos orçamentos de todas as universidades federais do Brasil anunciado pelo Ministério da Educação (MEC) nesta semana representa R$ 48.357.000,64 (48,3 milhões de reais) a menos para a Universidade Federal do Paraná (UFPR). O bloqueio corta dinheiro que estava programado e, portanto, pode interromper atividades em andamento. A universidade informou que percebeu ontem o corte. De acordo com a instituição, as atividades podem simplesmente parar por falta de dinheiro para pagamento de luz, água, telefone, combustível, vigilância, passagens, contratos de terceirizadas responsáveis por limpeza, entre centenas de outros serviços essenciais.

    “Se esta medida não for revertida, as consequências serão graves para o desempenho das atividades da UFPR no segundo semestre de 2019”, diz a UFPR em nota. Mais antiga universidade em funcionamento no País, com 106 anos, a UFPR atende uma comunidade com 33 mil alunos, em 164 cursos de graduação e 89 programas de pós-graduação com 89 mestrados e 61 doutorados, além de 45 cursos de especialização e inserção na comunidade em 392 projetos e programas de extensão.
    A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) também foi afetada. Segundo o reitor da instituição, professor Luiz Alberto Pilatti, o contingenciamento das verbas de custeio foi de R$ 43,8 milhões. “Mas há um erro na planilha, então acredito que contingenciamento real chegue a R$ 37 milhões”, disse ao jornal Plural.
    A crise dos cortes começou após entrevista do ministro da Educação, Abraham Weintraub, ao jornal O Estado de S. Paulo, na última segunda-feira. “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”, disse o ministro.

    A declaração veio após a pasta ser alvo de críticas por ter reduzido verbas destinadas à Universidade de Brasília (UnB), à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Federal da Bahia (UFBA). Weintraub justificou que as reduções no orçamento da UnB, da UFF e da UFBA foram definidos porque as três instituições estariam com “sobra de dinheiro” para “fazer bagunça e evento ridículo”. No dia seguinte, o secretário de Educação Superior do MEC, Arnaldo Barbosa de Lima Junior, disse à TV Globo que o corte seria linear a todas as universidades. Trata-se de um bloqueio, de “forma preventiva” e que ocorrerá “sobre o segundo semestre”, disse. O corte linear teria sido uma forma de evitar um processo por improbidade administrativa em razão da seletividade evidente no discurso do ministro. Com isso, o corte agora vale para todas as 63 universidades federais do País. Apesar de ter dito que o bloqueio foi feito "de forma isonômica", Lima afirmou que está "estudando alguns parâmetros" para definir quais delas seriam "premiadas" com uma "redução menor do que as outras" ao longo do ano.

    Em reação, deputados de diversos partidos se manifestaram contra a medida. O deputado federal Gustavo Fruet (PDT) disse que a legenda já tomou iniciativa no processo legislativo. “Fere autonomia, um princípio constitucional. Na Câmara existe a possibilidade de um decreto legislativo de pedido de informação”, explica. Para Fruet, o corte foi uma retaliação infantil. “Retalização de quinta categoria que nem a Ditadura fez. Primeira o corte das três universidades como reação a críticas. Como a reação foi negativa, em vez de recuar, o governo faz isso em todas as universidades, e faz em todas justamente durante a execução do orçamento. Vamos supor que governo estivesse em uma crise no orçamento e fizesse um corte em todas as áreas. Não, fez só nas universidades”, pontua. “Parece que está virando virtude ser a favor da ignorancia e ir contra o conhecimento e os fatos”, conclui Fruet, que é formado, mestre e doutor pela UFPR.

    O PSB já ajuizou nesta quinta-feira no Supremo Tribunal Federal (STF) uma Arguição de Descumprimento de Preceitos Fundamentais (ADPF) contra a medida do ministro e solicitando liberação de recursos bloqueados. “O ataque às universidades revela a intenção do governo Bolsonaro de aniquilar a liberdade de pensamento, ferindo a autonomia universitária garantida no artigo 207 da Constituição”, destacou o deputado líder da oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ).

    A deputada Tabata Amaral (PDT-SP), vista como uma das responsáveis pela queda do ministro que antecedeu Weintraub, Ricardo Vélez Rodríguez, com menos de três meses de atuação, assinou um requerimento de informação para que o novo ministro preste esclarecimentos. “Ele terá de explicar o que quis dizer com ‘balbúrdia’, que não é um termo usado na administração pública. Ele terá de dizer que critérios está usando para fazer os cortes, pois é obrigado a seguir a Constituição”, afirmou a parlamentar. Em nota enviada ao jornal Correio Braziliense, o ministério destacou que “estuda os bloqueios de forma que nenhum programa seja prejudicado e que os recursos sejam utilizados da forma mais eficaz. O Programa de Assistência Estudantil não sofreu impacto em seu orçamento”. Além de estar sem reajuste da inflação desde 2016, a Federal em 2017 já sofreu um corte no custeio que levou a Reitoria a pedir que todos os setores fizessem economia.

    “É como se acordasse de manhã e tomasse um susto”

    De acordo com o reitor Ricardo Marcelo Fonseca, da UFPR, não houve um comunicado oficial prévio do corte de recursos. “É como se acordasse de manhã e tomasse um susto com 48 milhões de reais a menos. Vimos isso quando consultamos a conta única da UFPR”, conta.

    O dinheiro faz parte do orçamento descentralizado fechado de 2019 que era de R$ 160 milhões para todo o ano. “Importante dizer que não são 30% do que resta do ano. São 30% do ano todo.

    Esse corte, nesta altura, vai inviabilizar a atividade da universidade. Mesmo com uma ação radical da nossa parte, e estamos tentando, por mais que façamos uma racionalização profunda, é praticamente impossível chegarmos com o que resta de recursos até o final do ano. Temos muitas aulas de campo, somos uma universidade inter campi, sem isso nós não temos como pagar a conta”, afirma.

    “Esse recurso é para pagar luz, vigilância, limpeza, manutenção, motoristas que são os contratos caros. Tem uma série de outros contratos. Estamos tendo problemas severos de segurança, que não é da universidade, mas da sociedade e de segurança pública. Como garantir luz no estacionamento se não pode”, lamenta.

    O reitor ressalta que a universidade não pode ser vista como “inimigo interno do Estado”. “Tem que ser restabelecida uma premissa de que as universidades não são inimigas do Estado. Somos parte do Estado, não somos o outro em relação ao governo. Fazemos parte e temos que fazer parte de políticas do Estado a favor do Estado”, reforça.

    Fonseca afirma que não compreendeu o alvo do ministro com a medida. “Eu confesso que não tenho ideia do que o ministro se refere quando fala de 'balburdia', nudez e bagunça na universidade. Embora seja um espaço de juventude, e é bom que seja assim, aqui é um espaço de seriedade acadêmica. O que vemos nas salas de aula, nos laboratórios e nos campi é muito trabalho e seriedade. Não é um lugar de digressão, de diversão, é um lugar único de formação e de desenvolvimento. Ao contrário do que circula (na internet) – que eu considero uma patologia, uma doença - a universidade é, no Brasil, um lugar único para produção da ciência, tecnologia e inovação. No Brasil, 95% da produção de ciência, tecnologia e inovação vem das universidades públicas. Sem elas não temos nem soberania, nem formação de qualidade, não temos ponte para o futuro e nem desenvolvimento econômico. Vejo que isso (desenvolvimento econômico) tem sido dito como prioridade, mas a indústria, o agronegócio, não avançam sem tecnologia. O País não vai avançar sem as universidades públicas. Em outros países o conhecimento até pode estar fora das universidades publicas, na privadas, nas empresas, mas não há opinião que possa mudar essa realidade (de 95% partir das públicas no Brasil)”, desabafa o reitor.

    Segundo o reitor, embora tenha-se conhecimento da declaração do secretário do Ministério, o governo não ofereceu qualquer “contrapartida” que a universidade pudesse oferecer para ter o valor cortado restituído. “Depois do anúncio, o ministério teve uma mudança na retórica e disse que cortaria de todas. A razão está na economia e não há contrapartida”, pontua.

    A UFPR é a oitava instituição que mais produz conhecimento no Brasil segundo ranking da Clarivate Analytics – entre as universidades federais, a UFPR fica na quinta posição. O levantamento foi feito a partir de publicações científicas da base de dados Web of Science nos últimos cinco anos. A UFPR é responsável por 3,8% da produção científica no Brasil, com 8.156 trabalhos publicados de 2014 a 2018. Segundo o Ranking Universitário Folha (RUF) 2018, divulgado em outubro, a UFPR é a 7ª colocada no ranking geral; tem melhor nota entre as universidades do Paraná (92.82); é 2ª colocada no ranking de inovação; 9ª colocada no ranking de ensino; 11ª colocada no ranking de pesquisa; e 13ª colocada no ranking de mercado. No ranking de universidades estão classificadas as 196 universidades brasileiras, públicas e privadas, a partir de cinco indicadores: pesquisa, internacionalização, inovação, ensino e mercado.

  • Mais Médicos

    Municípios da Grande Curitiba sofrem para contratar médicos

    Municípios da Grande Curitiba sofrem para contratar médicos
    Mais Médicos preenchia necessidade paliativamente, mas resolvia parte do problema (Foto: Ministério da Saúde)

    Narley Resende

    Pela quarta vez em três anos anos, a prefeitura de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, tenta sem sucesso preencher vagas para médicos. Entre 2018 e 2019, dois processos emergenciais de seleção foram lançados para temporários e, mesmo assim, a demanda não foi suprida. A situação se agravou depois que o município perdeu 16 médicos do Programa Mais Médicos. O déficit é semelhante em outras prefeituras da Grande Curitiba. Elas alegam que a mudança fez com que os cofres municipais fossem demandados para arcar com o pagamento de médicos próprios, enquanto os profissionais do programa eram pagos pelo governo federal.

    Além dos cubanos que foram embora após desacordo entre o governo Jair Bolsonaro e governo de Cuba, os outros, na maioria brasileiros, deixaram o programa para tentar vagas consideradas melhores que estavam previstas nos editais extraordinários do Mais Médicos lançado no fim do ano passado e início deste ano. Com isso, as 11 unidades básicas de saúde de Piraquara ficaram desfalcadas. No último processo seletivo, segundo a prefeitura de Piraquara, os cinco médicos aprovados que chegaram a tomar posse pediram exoneração em menos de seis meses.

    O novo processo emergencial lançado neste mês por meio de Processo Seletivo Simplificado (PSS) oferece vagas para atuação nas unidades básicas de saúde do município com remuneração de R$ 10.920,74, mais adicionais. A jornada é de 40 horas semanais. As inscrições gratuitas devem ser feitas até o dia 18 de abril. No comunicado de divulgação, a prefeitura destaca que tem “dificuldade na contratação de médicos” e que, “para suprir a demanda, desde 2016 a prefeitura de Piraquara realizou três concursos públicos e dois PSS, porém a adesão dos profissionais sempre foi pequena e poucos assumiram o cargo. Em razão da urgência, um novo PSS foi aberto agora”.

    “É uma dificuldade que vários municípios estão passando. Nós convocamos um grande número de médicos, mas poucos assumiram o cargo e muitos dos que foram admitidos pediram exoneração meses depois”, explicou a Secretária de Saúde, Maristela Zanella.

    O Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR) não recomenda contratação de médicos temporários, mas o município argumenta que precisou apelar à modalidade emergencial em razão de os médicos aprovados em concursos convencionais, estatutários, terem abandonado os cargos em curto espaço de tempo. O atual processo emergencial oferece três vagas.

    Piraquara tem hoje 29 vagas para médicos de 40 horas, generalistas, para saúde da família. Dessas, 16 vagas são do Mais Médicos. O déficit atual é de 18 vagas. Oito são do mais médicos e dez do próprio município. “Desde janeiro de 2018 temos vagas em aberto. A situação se agravou com a impossibilidade de renovação de contratação do Mais Médicos. Não temos perspectiva de repor essas oito vagas”, aponta a secretária.

    Falta de atenção básica aumenta emergenciais

    Maristela Zanella aponta que o município investe 18,5% do orçamento em Saúde, 3% a mais que os 15% exigidos por mês. Ela afirma que o município não pode, neste momento, abrir mais que as três vagas oferecidas no PSS, em razão da Lei de Responsabilidade Fiscal. Piraquara está com orçamento comprometido e muito próximo do limite prudencial previsto na lei, que é de 50% de gastos com pessoal. “A estrategia da saúde da família está descoberta. Isso causa dois problemas. O serviço é prejudicada em si e também pode haver diminuição de repasses do governo federal”, alerta.

    A redução na atenção básica deve afetar índices de mortalidade. “Prejuízo ao atendimento da população com doenças crônicas, hipertensão, diabetes a gente pode observar um aumento de mortalidade por esse tipo de causa. Aumenta também a mortalidade infantil. Tem mais um agravante. Com a crise econômica, muitas pessoas que tinham plano de saúde migraram para o SUS (Sistema Único de Saúde). Em Piraquara, 85% da população depende do SUS. Apenas 15% tem plano de saúde”, aponta., “O nosso maior problema é a atenção primária. Se está bem estruturada, com equipe completa, a gente consegue resolver os problemas. Estima-se que 85% dos problemas de saúde da população possam ser resolvidos na atenção primária”, aponta a secretária. A redução de profissionais do Mais Médicos é apontada pela secretária como uma das principais causas da falta de profissionais. “Saíram os cubanos e está um caos. Estamos do lado de Curitiba. Imagina nos municípios mais afastados. Tínhamos três cubanos que foram substituídos por brasileiros que já saíram. O mais recente passou em outro concurso”, afirma. Cada médico de atenção básica atende em média 30 consultas por dia. Nas 16 vagas do Mais Médicos, cada um custa aproximadamente R$ 14 mil. Por mês seriam R$ 225 mil, vezes 12 meses, seriam R$ 3 milhões que agora precisam ser absorvidos pelo município.

    Secretarias cobram política nacional

    Giovani de Souza, que também é presidente do Conselho Regional dos Secretários da Saúde da Região Metropolitana (Cresems), que congrega 29 municípios, incluindo Curitiba, afirma que não dá tempo de substituir médicos que desistem das vagas após tomarem posse. “Outra coisa que atrapalha muito é quando médico não quer mais trabalhar conosco – e nós perdemos uns 15 que foram embora, que se inscreveram, entraram no concurso e já saíram – ele sai em 30 dias com o aviso que ele deu. Para retornar e nós termos um novo médico, o processo burocrático administrativo fica entre 60 e 90 dias. É uma estrutura extremamente difícil de organizar”, lamenta. “Eu tenho o recurso financeiro, eu tenho as vagas disponíveis, se 20 médicos se apresentassem em São José dos Pinhais para trabalhar conosco eu conseguiria colocá-los de imediato nas nossas unidades. Como o processo demora de 60 a 90 dias, quando eu chamo dez, já saíram três (médicos). Quando eu chamo 15, três saíram de licença”, explica.

    O presidente do Cresems afirma que outros municípios estão situação pior. “Nós estamos enfrentando dificuldades, mas tem cidades que enfrentam ainda maior. Em Tijucas do Sul, por exemplo, tem duas unidades que o prefeito não consegue médico há mais de ano. Ele tem uma dificuldade ainda maior porque o piso do prefeito é R$ 14 mil e o salário de médico não pode (por lei) passar o do prefeito”, conta. Problema semelhante ocorre em Pinhais, onde um médico não pode ganhar mais que o prefeito em razão de lei municipal. Mesmo com crescimento previso em plano de carreira, o salário do médico esbarra no teto do município.

    Para o secretário, um dos motivos da falta de profissionais é a falta de cursos de medicina e o alto custo da graduação. “A Prefeitura de Curitiba, para ter 80 médicos, já tinha chamado 350 concursados. É um problema que enfrentamos que não é a pauta do médico, eu entendo que o problema que temos no Brasil, no Paraná e aqui, é que tem poucas universidades com o curso de medicina. Em (Grande) Curitiba, que tem 5 milhões de habitantes, quase 50% do Estado, tem uma universidade federal de medicina. Os outros cursos são todos privados. Um enfermeiro paga mil reais por mês para fazer a graduação, depois ele ganha cinco mil. O fisioterapeuta paga mil e ganha cinco. Um médico, a faculdade dele custa entre R$ 7 mil e R$ 10 mil. Um profissional, que é médico, que paga isso por mês, mais três anos de residência, mais especialização, não quer trabalhar por R$ 14 mil. O salário para um médico deveria ser de R$ 20 mil, mas é incompatível no Brasil”, estima.

    A solução, segundo o presidente do Cosems, não será encontrada sem passar por uma política nacional. “Estamos estudando isso, procurando uma metodologia para resolver. Mas uma coisa é certa: alguma coisa vai ter que acontecer. Não só da gente aumentar o salário do médico, mas também o Brasil vai ter que investir em universidades públicas para o valores gastos diminuam e para que tenha mais profissionais no mercado”, diz.

    Secretarias cobram política nacional

    Giovani de Souza, que também é presidente do Conselho Regional dos Secretários da Saúde da Região Metropolitana (Cresems), que congrega 29 municípios, incluindo Curitiba, afirma que não dá tempo de substituir médicos que desistem das vagas após tomarem posse. “Outra coisa que atrapalha muito é quando médico não quer mais trabalhar conosco – e nós perdemos uns 15 que foram embora, que se inscreveram, entraram no concurso e já saíram – ele sai em 30 dias com o aviso que ele deu. Para retornar e nós termos um novo médico, o processo burocrático administrativo fica entre 60 e 90 dias. É uma estrutura extremamente difícil de organizar”, lamenta. “Eu tenho o recurso financeiro, eu tenho as vagas disponíveis, se 20 médicos se apresentassem em São José dos Pinhais para trabalhar conosco eu conseguiria colocá-los de imediato nas nossas unidades. Como o processo demora de 60 a 90 dias, quando eu chamo dez, já saíram três (médicos). Quando eu chamo 15, três saíram de licença”, explica.

    O presidente do Cresems afirma que outros municípios estão situação pior. “Nós estamos enfrentando dificuldades, mas tem cidades que enfrentam ainda maior. Em Tijucas do Sul, por exemplo, tem duas unidades que o prefeito não consegue médico há mais de ano. Ele tem uma dificuldade ainda maior porque o piso do prefeito é R$ 14 mil e o salário de médico não pode (por lei) passar o do prefeito”, conta. Problema semelhante ocorre em Pinhais, onde um médico não pode ganhar mais que o prefeito em razão de lei municipal. Mesmo com crescimento previso em plano de carreira, o salário do médico esbarra no teto do município.
    Para o secretário, um dos motivos da falta de profissionais é a falta de cursos de medicina e o alto custo da graduação. “A Prefeitura de Curitiba, para ter 80 médicos, já tinha chamado 350 concursados. É um problema que enfrentamos que não é a pauta do médico, eu entendo que o problema que temos no Brasil, no Paraná e aqui, é que tem poucas universidades com o curso de medicina. Em (Grande) Curitiba, que tem 5 milhões de habitantes, quase 50% do Estado, tem uma universidade federal de medicina. Os outros cursos são todos privados. Um enfermeiro paga mil reais por mês para fazer a graduação, depois ele ganha cinco mil. O fisioterapeuta paga mil e ganha cinco. Um médico, a faculdade dele custa entre R$ 7 mil e R$ 10 mil. Um profissional, que é médico, que paga isso por mês, mais três anos de residência, mais especialização, não quer trabalhar por R$ 14 mil. O salário para um médico deveria ser de R$ 20 mil, mas é incompatível no Brasil”, estima.

    A solução, segundo o presidente do Cosems, não será encontrada sem passar por uma política nacional. “Estamos estudando isso, procurando uma metodologia para resolver. Mas uma coisa é certa: alguma coisa vai ter que acontecer. Não só da gente aumentar o salário do médico, mas também o Brasil vai ter que investir em universidades públicas para o valores gastos diminuam e para que tenha mais profissionais no mercado”, diz.

  • ‘COPROCESSAMENTO’

    Projeto de Greca para incinerar lixo enfrenta resistência

    Projeto de Greca para incinerar lixo enfrenta resistência
    Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (dir.) (Foto: Cesar Brustolin/SMCS)

    Narley Resende

    Passou despercebido em razão das diversas pautas envolvendo a visita do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a Curitiba, mas a prefeitura anunciou na terça-feira (30) um projeto para incinerar rejeitos de resíduos recicláveis. O projeto chamou atenção depois que catadores fizeram um protesto na Boca Maldita, no Centro da Capital, contra a medida.

    Em resposta ao protesto, o prefeito Rafael Greca (DEM) disse que o governo federal dará o aval necessário para a política de incineração. “O mais importante da visita do ministro é que ele me dá a condição de aproveitar os rejeitos do processo seletivo do lixo como combustível derivado de resíduos inservíveis. A oposição começou com uma história que nós íamos ‘tirar os recicláveis das mãos dos catadores’. É pura asneira e má-fé. A ideia é exatamente só aquilo que não se aproveita seja usado para geração de energia”, garante o prefeito.

    Ao anunciar o lançamento do programa nacional Lixo Zero, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) também menciona a incineração do lixo como alternativa. “Problema recorrente e presenciado fisicamente pelo Ministro do Meio Ambiente, junto a prefeituras de todo país, nos levou a ter prioridade na Agenda Ambiental Urbana, com ações de reciclagem, coleta seletiva, incineração, logística reversa etc no que for possível”, escreveu no Twitter.

    Junto com técnicos da prefeitura, Greca levou o ministro Ricardo Salles a uma visita à fábrica da Votorantim Cimentos, em Rio Branco do Sul, na região metropolitana, para que ele visse os testes do chamado “coprocessamento” nos fornos para produção de cimento.

    Segundo a prefeitura, o lixo incinerado na usina é menos poluente que o agente energético usado atualmente - o coque de petróleo - o CDR (Combustível Derivado de Resíduo). A medida também tratada como uma das opções da capital para reduzir o uso do aterro sanitário.

    De acordo com Greca, a medida já é utilizada em países como a Suécia, Dinamarca, Alemanha e Holanda. “Nós ganhamos um presente com a possibilidade definitiva de correção ambiental com uso dos combustível de derivados de resíduos inservíveis”, disse o prefeito.

    Segundo o prefeito, a alternativa proposta é queimar apenas resíduos inservíveis. “Deixar de gastar R$ 3 milhões por mês para um aterro sanitário metropolitano que já está quase se esgotando. Nós já estragamos o chão na Lamenha Pequena, estragamos na Cidade Industrial, estragamos na Fazenda Rio Grande e estávamos nos mudando para estragar em Mandirituba. Não quero mais. Quero diminuir isso. Vamos queimar. Fazer combustível derivado de resíduos inservíveis”, afirma.

    Os catadores reclamam que a nova técnica de incineração atropela a ordem de prioridades prevista no Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que passa primeiro por não geração de lixo, depois por redução da produção, seguindo com reutilização e reciclagem e, só depois, com o tratamento dos resíduos sólidos. Um dos temores também é de que grandes empresas geradoras, como a Pepsico, sejam desestimuladas a investir na logística reversa, que consiste em investir em políticas e tecnologias para dar conta do lixo gerado por elas mesmas. A logística reversa também está prevista no PNRS.

    A coordenadora do Instituto Lixo e Cidadania, Rejane Paredes, que presta apoio às associações de catadores, afirma que o PNRS está sendo deixado de lado, tanto pela prefeitura quanto pelo governo federal. “Dentro da política nacional tem uma ordem de alternativas prioritárias. O que a gente pede é uma política que atenda essa ordem. Hoje não existe uma politica para as primeiras (não geração, redução, reutilização e reciclagem) e eles já estão fazendo da última parte (tratamento). Curitiba, segundo um estudo da PUC, recicla apenas 5,7% dos materiais. Não recicla nem 10% do lixo. As associações materiais recicláveis recebem caminhão com 200 quilos de materiais, enquanto ele tem capacidade para 3 toneladas. Nas 40 cooperativas (do programa Ecocidadão) já falta material”, afirma.

    Projetos pretendem proibir incineração
    Além da deputada estadual Luciana Rafagnin (PT), que já teria dez assinaturas de deputados para reapresentar na Assembleia Legislativa seu projeto contra a incineração de lixo no Estado, duas vereadoras de Curitiba, Maria Letícia Fagundes (PV) e Professora Josete (PT), também devem reapresentar na Câmara Municipal um projeto que pretende proibir a prática na capital. A ideia é que o govenro e a prefeitura invistam em tecnologias que aumentem o aproveitamento dos recicláveis.

    “O que não aproveita? O que não tem venda. O pacotinho laminado de salgadinho, por exemplo. Isso não tem venda hoje. Isso é rejeito. Só que já existe tecnologia (para deixar de ser rejeito), mas os catadores não têm acesso. É um BOPP (bi-axially oriented polypropylene) de alta qualidade para reciclagem e tem preço (para venda). Só que não temos tecnologia a disposição para reciclar, por causa da tinta que é difícil de remover. Em vez de investir em tecnologia, eles preferem queimar. Poderiam cobrar de empresas como Pepsico que a responsável pela geração”, cobra Paredes.

    A licitação que devem contratar serviços de tratamento e destinação de resíduos para 22 municípios, incluindo Curitiba, está suspensa. “O edital prevê quatro grandes centrais, que terão grandes equipamentos, que vão separar. O material reciclável será transformado lá dentro e o catador não vai fazer parte disso. Isso ainda vai facilitar que o reciclável vá direto para a incineração.

  • Refis

    No Paraná, empresários ganham desconto de 8% e prazo maior para pagar dívidas

    No Paraná, empresários ganham desconto de 8% e prazo maior para pagar dívidas
    Deputado Tiago Amaral, vice-líder do governo Ratinho Junior na Assembleia (Foto: Orlando Kissner)

    Narley Resende

    O fim dos honorários pagos a procuradores do Estado nas ações de cobrança de débitos tributários de empresas no Paraná deve dar um desconto de 8% nas dívidas dos empresários. A medida, que pretende aumentar a adesão ao Refis, está prevista em uma emenda a um projeto do governo Ratinho Junior (PSD) que aumentou o prazo para empresários aderirem ao programa de refinanciamento de débitos com o Estado. Com a aprovação da emenda, um decreto promulgado na Assembleia prorrogou o prazo para adesão ao Refis por mais 60 dias. O prazo se encerraria nesta quarta-feira (24). O programa atual, aberto em janeiro, prevê parcelamento de dívidas em 180 vezes. A nova data final para o refinanciamento é dia 24 de junho.

    Na justificativa da emenda, os deputados alegam que o fim dos honorários estimula os empresários a aderirem ao programa. “O contribuinte que adere ao Refis não o faz por gosto, e sim pelo fato de estar enfrentando uma situação econômica delicada e, ainda assim, desejar estar em dia com suas obrigações tributárias”, diz a justificativa.

    Anteriormente, o valor dos honorários dos procuradores que atuavam em acordos para o pagamento de dívidas de empresas com o Estado era de 10% da dívida total das empresas. A parcela seria distribuída entre os 250 procuradores do Paraná. O governo do Paraná encaminhou uma proposta de redução para 5% e os deputados redigiram uma emenda que alterou para 2% o porcentual a ser pago pelas empresas em honorários. Na prática, a medida reduz o valor final da dívida.

    Na proposta feita em plenário e aprovada pela CCJ, os 2% de honorários que restaram ainda devem ser divididos, com 1% destinado a um fundo de manutenção da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e a outra metade a ser paga aos 250 procuradores.

    O relator da emenda, deputado Tiago Amaral (PSB), vice-líder do governo na Assembleia, argumenta que corre no Superior Tribunal de Justiça (STJ) uma ação da Procuradoria-Geral da República (PGR) que questiona a legalidade do pagamento de honorários para advogados públicos (procuradores municipais, estaduais e advogados da União) e que não há direito adquirido por parte destes servidores públicos.

    “Como o procurador já recebe salário, ele portanto é servidor do Estado, não há que se falar no recebimento de uma verba a mais para ele trabalhar em prol do interesse publico", afirmou Amaral

    Quem pagou poderá pedir ressarcimento

    Além de por fim no pagamento dos honorários, a emenda ainda concede o direito aos empresários de cobrar por valores pagos anteriormente de janeiro até agora, durante o período deste Refis em vigor. “Os que já aderiram a esse Refis, já pagaram ou assumiram o compromisso de pagar, devem ter um ressarcimento. Os que pagaram, foi uma ou duas parcelas. Estamos discutindo exatamente isso. Uma coisa é quem aderiu a esse atual Refis, que iniciou em janeiro, e pagou 10%, será provavelmente ressarcido. Deve ser apresentada uma solução pelo Executivo. A expectativa é priorizar esse ponto”, diz o deputado.

    Como as regras para os programas anteriores - de 2015, 2012 e outros - eram diferentes, com 1% e 5% de honorários, os empresários não poderão pedir ressarcimento do que já foi pago. “Ele (Refis) praticamente encerra a vigência quando encerra o prazo da adesão. Ele nasce e morre”, explica Amaral. Outra situação é a de empresários que aderiram a programa anterior, pagaram parte do financiamento, ficaram novamente inadimplentes, e agora aderiram ao novo programa. “O que tem na emenda é uma previsão de fim da cobrança. Quem devia um milhão e pagou 500 mil. Tem um dispositivo que trata de Refis anterior. Era de 180 meses, já pagou metade, e falta 500 mil. Ele migra para esse novo, não vai poder pagar nenhum valor novo”, explica.

    Em razão de o Refis atual ter iniciado em início de gestão, com incertezas sobre mudanças ou não nas regras, entre outros motivos, a adesão ao programa foi a menor até hoje. Os valores chegariam a “apenas” R$ 400 milhões, bem abaixo do potencial esperado pelo governo anterior que era de até R$ 5,5 bilhões. “Existia uma espera enquanto se discutia isso para que houvesse a adesão. Tem empresa que tem condições de liquidar o débito, sobre a divida atual, e não sobre o que era negociado. Eu conheço uma empresa no Sudoeste que devia R$ 3 milhões. Com os descontos da negociação chegava a R$ 700 mil. Só que teria que pagar R$ 300 mil de honorários. Não teria cabimento. Acho que houve um bom senso do governador e também dos procuradores”, afirma o empresário Edson Campagnolo, presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).

    Tiago Amaral afirma que a adesão ao Refis deve se multiplicar nos próximos 60 dias. “Vai, com certeza, aumentar e muito a adesão, mas não posso quantificar ainda. Até aqui, foi o Refis com o menor número de adesão de todos. Os indicativos ainda estão sendo fechados, mas já se sabe que foi o menor numero de adesões por causa das indefinições e pelos honorários”, afirma Tiago Amaral.

    Os deputados não acreditam que os procuradores vão judicializar a questão para tentar recuperar o pagamento. Por outro lado, havia o temor de que parte dos 250 procuradores fizesse uma “operação padrão”, já que eles são responsáveis pela análise e autorização da adesão de empresas ao programa. Durante a votação da proposta, cerca de 30 procuradores estiveram na Assembleia para pressionar pela recusa da medida, o que não ocorreu.

    “Cria um certo desconforto pessoal (ao procurador que teria perdido entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês), mas temos um governador que optou por melhorar o ambiente para o setor produtivo. Não podemos olhar pelo lado pessoal. Mas acho que houve bom senso do governo e, por que não, até o bom senso dos procuradores, que cabe a eles aprovar a adesão”, comentou Campagnolo.

    A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) proposta pela procuradora-geral da República Rachel Dodge, que tramita em Brasília, questiona a cobrança de honorários em duas frentes. A feita por advogados públicos por via judicial e a por via extra-judicial, na esfera administrativa, em casos de acordos, como é o caso do Refis. A lei que regulamenta o refinanciamento de dívidas de empresas com a União já não prevê o pagamento de honorários. Cada Estado, contudo, tem suas próprias regras.

    Refis poderia chegar a R$ 5,5 bilhões, segundo gestão anterior; cada procurador perde “R$ 6 mil por mês”

    De acordo com informações fornecidas pela Receita Estadual para a Assembleia Legislativa em novembro de 2018, quando da tramitação do projeto de lei que autorizou o programa, o estoque da Dívida Ativa que poderia ser beneficiado pelo projeto é de aproximadamente R$ 28,2 bilhões. No entanto, o governo, na ocasião, informou que trabalhava com um potencial de adesão de R$ 5,5 bilhões. Se fosse confirmada essa previsão e os honorários tivessem sido mantidos, os procuradores receberiam R$ 6 mil por mês cada um durante os 180 meses do Refis. Outros R$ 6 mil iriam ao fundo de manutenção da PGE.

    O Refis foi definido depois de negociações entre o setor produtivo e o Poder Público, que duraram pelo menos dois anos e passaram por três governos diferentes (Beto Richa, Cida Borghetti e Ratinho Junior), com regulamentação estabelecida pela Secretaria de Estado da Fazenda, em decreto publicado em 21 de janeiro. O governo ainda instituiu um programa especial de parcelamento de débitos não tributários, como os decorrentes de autos de infração. E outras novidades, como as possibilidades de incluir no acordo impostos que não chegaram a ser declarados anteriormente pelas empresas, bem como o pagamento das dívidas com precatórios.

  • Reajuste

    Gasto com pessoal é o menor em 10 anos, alegam sindicatos

    Gasto com pessoal é o menor em 10 anos, alegam sindicatos
    Audiência pública na Assembleia Legislativa aconteceu ontem (Foto: Valquir Aureliano )

    Narley Resende

    Sindicatos de servidores públicos do Paraná reuniram representantes nesta terça-feira (23) na Assembleia Legislativa, em audiência pública, para expor dados que consideram importantes no debate que cobra reajuste salarial às categorias. Com os salários congelados desde 2016, os servidores cobram pagamento da defasagem que chega a 16%. O movimento foi desencadeado após declarações do governador, Ratinho Junior (PSD), reiteradas por integrantes do governo, sinalizando a intenção de não pagar nenhum reajuste no dia 1o de maio, data-base dos servidores.

    Entre os argumentos apresentados para exigir o reajuste está o porcentual representado pela folha de pagamento do funcionalismo no orçamento do Estado. A administração estadual alega dificuldade financeira e os sindicatos rebatem com o argumento de que a atual administração recebeu a gestão com o menor percentual de gasto com pessoal dos últimos 10 anos.

    De acordo com o economista Cid Cordeiro Silva, a folha de pagamento dos servidores encerrou 2018 com índice de 44,56% em relação a receita corrente líquida. Em 2009 o índice seria de 45,11%, chegando a 48,77% em 2013 e, desde então, vem caindo sucessivamente. As informações, segundo os sindicatos, têm como base relatório fiscal da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefa).

    O secretário chefe da Casa Civil do Paraná, Guto Silva, reforçou ontem em entrevista ao jornal TNews Estadual, da Rádio T, que um reajuste para este ano está descartado pelo governo. “Nós temos uma lei do ano passado, aprovada, do orçamento, que não previa aumento para este ano. Estamos debruçados justamente é na possibilidade de aumento para o próximo ano. É importante colocar que a cada 1% de aumento nós temos impacto no trabalho orçamentário do Estado de aproximadamente R$ 200 milhões”, estima o secretário.

    Guto Silva nega, no entanto, que o governo não esteja disposto a negociar. “As contas do Estado estão equilibradas, mas no sinal amarelo, não dá para fazer loucura, mas por outro lado o governador quer, sim, valorizar os servidores, buscar uma alternativa. Nós estaremos na mesa de negociação para buscar uma solução junto com os servidores para deixar o Estado de pé, e o mais importante, deixar o Estado saneado para poder fazer investimentos”, disse.

    O secretário reforçou que estão em andamento estudos que podem propor o fim das licenças-prêmio como contrapartida para a concessão de um reajuste. “Não, não entrou nenhuma agenda de negociação com os servidores, há estudos sobre a licença-prêmio, mas todas essas questões vinculadas aos servidores vamos trabalhar conjuntamente, conversando, dialogando. É preciso arrecadar mais do que gastar”, pontuou.

    Oposição diz que arrecadação cresce
    O deputado Professor Lemos (PT) disse na sessão desta terça-feira (23)  na Assembleia que o Estado arrecadou mais e que oculta os dados para negar o reajuste. A previsão inicial da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefa) na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2018 era de que o Paraná arrecadaria R$ 35 bilhões. No final do ano a arrecadação foi de 37,2 bilhões, conforme previsão feita pelo Fórum das Entidades Sindicais (FES). “O orçamento aprovado aqui para 2018 teve aumento 2,4 bilhões na receita. E a governadora na época (Cida Borghetti) negou o reajuste. Os servidores mostraram que houve um superávit”, argumenta.

    Segundo o deputado, o gasto com pessoal está em queda. “Está em ascensão a arrecadação do Estado. Não existe motivo para deixar o servidores mais um ano sem o pagamento da dívida prevista na Constituição Brasileira. Todo trabalhador do Brasil deve ter pelo menos uma vez por ano, na data-base, a reposição, pelo menos, da inflação”, aponta.

    Lemos destaca que o congelamento dos salários afeta a economia do Estado. “É um número que ultrapassa 200 mil servidores (sem reajuste, incluindo aposentados). Se incluir os familiares é mais de um milhão de pessoas. Estão há quatro anos (incluindo 2019) sem reposição da inflação. Isso significa salário de dois meses. Significa que os servidores do Paraná está recebendo por 10 meses por ano. O poder de compra caiu, eles foram empobrecidos. Impacta na vida de cada um e também na economia do Estado”, calcula.

    O presidente da APP-Sindicato, professor Hermes Leão, defende que os estudos econômicos mostram que o Estado tem condições legais e financeiras para pagar a reposição. “Essa atitude do governador, de falar sobre a data-base sem antes debater com os servidores é um desrespeito e uma contradição à valorização e o respeito que ele mesmo prometeu”, disse.

    O principal ato público do dia de paralisação no dia 29 de abril será em Curitiba. Caravanas com servidores de todo o Estado devem se reunir às 9h na Praça Santos Andrade. De lá, seguirão em caminhada pelas ruas da capital até o Palácio Iguaçu, sede do Executivo. Além do reajuste, o movimento lembra o dia 29 de abril de 2015, quando 200 pessoas ficaram feridas pela polícia com bombas de gás e balas de borrachas durante ato contra mudanças na previdência do funcionalismo.

  • Entrevista

    Copel Telecom vale 'em torno de R$ 1,5 bilhão', diz presidente

    Copel Telecom vale 'em torno de R$ 1,5 bilhão', diz presidente
    Wendell Oliveira (Foto: Divulgação )

    Narley Resende

    A Copel confirmou que já está em andamento o trabalho de organização para privatizar a Copel Telecom. A direção da empresa estima que o valor da venda gire em torno de R$ 1,5 bilhão. Por lei, o processo de venda da estatal ainda deverá passar por avaliação dos deputados da Assembleia Legislativa (Alep) para que seja aprovado. Um grupo trabalho foi formado na Copel para a montagem do projeto inicial de privatização, que deve ser entregue na primeira semana de maio. No estudo, a Copel Telecom analisa valores de venda e o que deve ser feito em relação aos 450 funcionários da empresa. Além disso, o pacote deve, principalmente, organizar o que será feito do papel social da estatal.

    A empresa subsidiária da Copel é responsável pelo pelo acesso à internet e redes de comunicação de dados de diversos municípios e escolas estaduais, além de milhares de clientes privados. São 2.205 escolas estaduais conectadas com a internet da Copel Telecom. A empresa atende necessidades de telecomunicações da própria Copel, da Sanepar e do governo do Paraná, com 3.352 acessos de banda larga de alta velocidade aos órgãos do Executivo.

    O governador Ratinho Junior (PSD) disse nesta semana que a manutenção dos serviços sociais pode ser incluída como condição no processo. “Como uma moeda de troca. A ideia é a ideia no sentido de a gente fazer a concessão, só que com o governo, além do valor que a empresa que ganhar tem que pagar, tenha que manter os pontos (de internet nas escolas). Isso (de manter serviços da Copel Telecom) vai dar para resolver sem problema nenhum”, adiantou o governador.
    A Copel Telecom foi a operadora de banda larga melhor avaliada no Brasil, em uma pesquisa da Anatel com 100 mil usuários, realizada em 2018. No ano passado, a empresa teve um faturamento de R$ 500 milhões.

    Assembléia
    Deputados chamam presidente da Copel para explicar privatização
    Líder da oposição na Assembleia Legislativa, o deputado Tadeu Veneri cobrou em sessão plenária que o atual diretor-presidente da Copel Telecom, Wendell de Oliveira, seja convidado para dar esclarecimentos aos parlamentares sobre a situação financeira e organizacional da empresa. 
    O vice-presidente do Sindicato dos Engenheiros do Paraná, Leandro Grassmann, questionou, em artigo publicado no jornal Plural, os motivos alegados para venda da estatal. “A Copel investiu R$ 2,569 bilhões em 2018. Destes, somente R$ 309,4 milhões foram para a Copel Telecom (cerca de 12% do t otal). Ademais, as empresas do Grupo Copel tem apresentado lucros crescentes, números de fazer inveja em muitas empresas privadas”, pontua.

    ENTREVISTA

    Bem Paraná - Existe um grupo de trabalho para privatização, quando ele foi montado e quem compõe?
    Wendell Oliveira - Foi criado há um mês um grupo para fazer estudos de ativos da Copel Telecom e separar esses ativos da Copel. Esse grupo deve apresentar um dado na primeira semana de maio para a gente ter ideia de como funcionaria a separação da Copel. É importante ressaltar que é um grupo de estudo. São três coordenadores, eu, o presidente da Geração e Transmissão e superintendentes e gerentes de todas as três unidades e mais a holding.

    BP - Qual o motivo oficial para vender a empresa?
    Wendell - “Não existe um motivo oficial. Só existe um motivo. A Copel Telecom é uma empresa de tecnologia inserida num cenário competindo com grandes multinacionais que têm capacidade de investimento brutal. Nós, com as amarras que temos por ser uma empresa pública, é difícil competir. Funcionou bem até agora, mas era um universo não tão competitivo assim. Só a Copel atuava no mercado de fibras. Isso mudou. As empresas de tecnologia exigem investimentos constantes, fizemos esses investimentos, tem uma belíssima infraestrutura, mas não fomos capazes de compor caixa para investimentos. O nosso principal concorrente (Vivo) investe R$ 8 bilhões (no Brasil, mas grande parte fica no Sudoeste). Nós investimos R$ 250 milhões (No Paraná). Me parece mais óbvio focar os investimentos na nossa área que é energia, e precisamos de investimentos. Foi anunciado investimento de 8 bilhões (da Klabin no Paraná) e precisamos levar energia para essa empresa.

    BP - Quanto vale a Copel Telecom?
    Wendell - Solicitamos um valuation (cálculo de valor da empresa) para especializadas. É muito prematuro dizer um valor. Mas é um ativo valioso, o mercado valoriza, e o timing de vender é agora. Procrastinar faz com que se perca esse ativo. Ativo que tem potencial de ser valorizado por vários segmentos, seja um fundo, de vários players. Pode valer algo em torno de R$ 1,5 bilhão. Temos uma divida de R$ 500 mi ou R$ 600 mi. Pode entrar (com a venda) algo em torno de R$ 900 milhões ou R$ 1 bilhão. Ainda com impostos e dependendo de uma série de confirmações.

    BP - Como a Copel faria para manter os serviços e programas sociais? (internet nas escolas e equipamentos públicos)
    Wendell - É um tema que tem gerado uma certa polêmica. As escolas do Paraná são um cliente da Copel Telecom. É o que qualquer um que assumir vai querer manter. Nós não temos nenhum subsídio e nem podemos fazer. Somos uma empresa de economia mista e concorremos como qualquer outra empresa. As escolas fazem parte da Secretaria da Educação. O governo não compra a internet sem uma licitação. A Copel vai participar de uma nova licitação. Não vai acontecer nada com as escolas, provavelmente terão um serviço melhor e mais barato. A Copel, tanto como os equipamentos do governo, são grandes clientes da Copel Telecom e vão sempre buscar o melhor serviço.

    BP - O senhor vai à Assembleia?
    Wendell - Não recebi ainda o convite, mas terei enorme prazer. A sociedade que está nesse processo e tem seus representantes nos deputados. Então terei prazer em sentar com os deputados, com a sociedade. As pessoas perguntam ‘por que uma empresa que foi eleita a melhor do Brasil está à venda’. Mas quando entramos nos detalhes as pessoas começam a entender.

    BP - Já tem interessados em comprar? A TIM, por exemplo, que teria manifestado interesse no ano passado. As empresas já estão atrás das informações, estão em contato com a Copel?
    Wendell - Temos uma percepção. O processo não começou, estamos na fase de estudos. Temos uma sensação de conversar com o mercado de que existe uma percepção do mercado positiva. E não tenho a menor dúvida de que muitas empresas estão interessadas.

    BP - Há previsão de PDV (Programa de Demissão Voluntária) para funcionários?
    Wendell - São 450 funcionários e eles estão na nossa pauta de prioridades. Temos preocupação de no processo de privatização fazer o mais transparente possível, inclusive com leilão em bolsa de valores, o B3. Todos os atores têm que sair satisfeitos com isso - Lembrando que a Copel Telecom é a última empresa de telecomunicação a ser privatizada no Brasil – e os atores são os acionistas, fornecedores, sociedade, mas perincipalmente os funcionários. Não tem como fazermos um processo com funcionários desguarnecidos, desestimulados. Não estamos medindo esforços e nós levaremos (aos funcionários) com uma proposta inovadora, que é a melhor, em que todos os funcionários sairão satisfeitos, eu não tenho nenhuma dúvida. O PDV pode ser uma das alternativas. Só que o PDV é apenas parte do pacote.

    BP - A empresa não dá prejuízo, por que vender?
    Wendell - Não é uma empresa que dá prejuízo, mas não esta dando caixa. A geração de caixa é de R$ 160 milhões, que é negativo, e não está conseguindo gerar caixa para gerar seus investimentos.

    BP - Há quem diga que a Copel investiu nesses anos passados para depois entregar a multinacionais e enriquecer acionistas. O que o senhor diz sobre isso?
    Wendell - Não tenho como falar pelas outras gestões. O que temos é um ativo muito valioso. Está presente em todas as cidades do Paraná em rede corporativa e 85 cidades em rede de varejo. Para continuar usando essa malha temos que fazer muitos investimentos. O momento é agora.

  • Data-base

    Ratinho Jr diz que não haverá reajuste no salário dos servidores neste ano

    Ratinho Jr diz que não haverá reajuste no salário dos servidores neste ano
    (Foto: Valquir Aureliano)

    Narley Resende

    A 15 dias da data-base dos servidores públicos do Paraná, o governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) sinaliza que não haverá reajuste nos salários do funcionalismo estadual que estão congelados há três anos. A defasagem em relação à inflação chega a 16%.

    “É muito difícil ter. Nós já estamos no limite prudencial (da Lei de Responsabilidade Fiscal). Isso já vem de 2018, do governo passado, a Secretaria do Tesouro Nacional também já emitiu um alerta ao Estado do Paraná. Se passarmos do limite a gente perde os repasses do governo federal e a possibilidade de fazer empréstimos”, afirmou.

    “Eu posso querer fazer uma média política com os servidores, mas no ano que vem não teria dinheiro para a folha. A ideia é a gente construir ao longo dos três anos um reajuste para os servidores”, avalia.

    O governador reuniu nesta segunda (15) a imprensa para um balanço dos primeiros 100 dias gestão. O governador disse que um equilíbrio fiscal é prioridade.

    “Nós estamos esperando também a (reforma da) previdência. Se passar é um Brasil, se não passar (no Congresso) é outro Brasil. Vamos afundar se a previdência não passar. Não podemos só contar com isso. O nosso compromisso é manter com mão de ferro o equilíbrio fiscal”, afirma. 

    No ano passado, no entanto, quando Ratinho Jr era deputado estadual, assinou um requerimento que cobrava a concessão de 6,5% de reajuste aos servidores. “O que mudou é que falaram que tinha R$ 4 bilhões em caixa. Não tem esse dinheiro. Como é que faz? Pelo contrário. Eu entrei com R$ 240 milhões em caixa. Não falaram para a população que tinham R$ 2 bilhões em precatório, que tinha a folha de janeiro, que era pagamento do décimo terceiro. Sobrou R$ 240 milhões”, garante.

    O governo considera que economizou no primeiro trimestre do ano R$ 45 milhões mantendo os salários do funcionalismo congelados, incluindo também mudanças na hora trabalhada por pedagogos e extinção de cargos comissionados prevista na primeira (de três) fase da Reforma Administrativa. O porcentual que cada parcela representa não foi apresentado, mas é certo que a maior parte do valor é relacionada ao congelamento. Até o fim do ano, sem reajuste, a “economia” seria de R$ 120 milhões.

    A presidente do Fórum das Entidades Sindicais (FES), Marlei Fernandes, afirma que uma greve não está descartada. "Não tem acordo sobre isso. Não tem que ser pelas redes sociais que tem que fazer esse debate. Isso tem que ser para uma mesa de negociação. Os servidores não aceitam isso. Queremos debater o reajuste para este ano. No dia 29 teremos paralisação. Se a proposta for fechada assim, nós vamos debater com os servidores a possibilidade de uma greve", garante

    Licenças-prêmio - Ratinho Junior não confirmou se pretende acabar com as licenças-prêmio dos servidores em troca de algum reajuste neste ano. “Tudo é estudo. Não queremos, neste momento, tirar direito, nada disso. Estamos buscando soluções para engordar o caixa do governo e consertar qualquer tipo de distorção que possa haver entre o público e o privado”, disse.

    Uma auditoria deve ser realizada na folha de pagamento na tentativa de encontrar sobras. “Na auditoria da folha de servidores pode ser que haja uma economia, tanto na parte da previdência, quanto dos ativos. Como estamos falando de uma folha gigantesca, de mais de cem mil pessoas, a ideia é que possa pegar algum tipo de erro, de alguém que ganhou uma promoção sem ter tido direito, alguém que já morreu e está recebendo ainda, tem casos disso que acontece no Brasil. Se eu consigo uma economia de 1% em qualquer tipo de erro é R$ 300 milhões no ano”, estima.

    Os servidores públicos paranaenses estão sem reposição da inflação desde 2016, quando o governo Beto Richa (PSDB) descumpriu a promessa de repor a inflação, que havia até sido transformada em lei. A previsão é de que a inflação dos últimos 12 meses, até maio, quando completa o ciclo salarial do funcionalismo, fique em torno de 4,5%. Os sindicatos exigem pelo menos a reposição desse índice. Ratinho Jr, na campanha, se propôs a fazer uma política de quatro anos que repusesse as perdas.

    Novas contratações - De acordo com o governador Ratinho Junior, outro desafio, é a contratação de pessoal. “Se eu dou aumento, não consigo fazer contratação. Nós herdamos o Estado com 30% do efetivo na Polícia Científica, no IAP faz 30 anos que não tem concurso público, nós vamos ter que fazer porque não tem mais gente para licenciar mais nada no Paraná. É um horror hoje a demora por falta inclusive de pessoal. Nós temos que fazer um planejamento para contratar 2 mil policiais. Com essa discussão de previdência, está aposentando muito mais do que é o normal. Neste ano nós tivemos que colocar do tesouro no caixa da previdência R$ 13 milhões a mais do que o normal porque está aposentando muita gente. Um por cento de aumento é R$ 300 milhões na folha, 2% é R$ 600 milhões”, aponta. Entre as prioridades para contratação, segundo Ratinho Jr, estão servidores para a Polícia Científica, Instituto Ambiental do Paraná (IAP), policiais militares e civis. “Agentes penitenciários a gente vai precisar fazer PSS (Processo Seletivo Simplificado) em um primeiro momento para depois fazer concurso público, conforme forem ficando prontas as cadeias, os presídios”, disse.

    Governo economizou R$ 80,3 milhões em 100 dias

    O governo do Paraná economizou R$ 80,3 milhões em gastos com pessoal e com a renegociação e cancelamento de contratos. No total, a estimativa do Executivo é que a economia alcance no mínimo R$ 237,3 milhões em todo o ano, valor que poderá chegar a R$ 260 milhões se forem implementadas ainda em 2019 todas as três etapas da reforma administrativa. Segundo Ratinho Junior, a economia é essencial, mas a reestruturação do Estado é tão importante quanto a redução de gastos.
    “Nosso foco nunca foi apenas economizar, mas aumentar a eficiência do governo”, disse Ratinho Junior. A primeira parte da reforma do Estado está em tramitação na Assembleia Legislativa e reduz o número de secretarias de 28 para 15, além de extinguir 339 cargos comissionados e funções gratificadas, resultando em uma economia de R$ 10,6 milhões anuais aos cofres públicos. As outras duas etapas tratarão da junção de autarquias e da redução da estrutura física do Estado.

    Ratinho Jr quer melhorar estradas estaduais para incluir em pacote de pedágio em 2021

    O governo do Paraná quer manter a gestão das rodovias federais já concedidas no Anel da Integração para a iniciativa privada e ainda incluir cinco novos lotes, de estradas estaduais, em um pacote único para aumentar em cerca de mil quilômetros os trechos pedagiados no Estado. O chamado pacote de Infraestrutura inclui as rodovias PR-466, entre Guarapuava e Campo Mourão, além das PRs 280 (Sudoeste), 323 (Noroeste), 092 (Norte Pioneiro) e a PR-445 entre as estradas que o Paraná poderia incluir em uma licitação para conceder a empresas de pedágio. As três primeiras já estiveram em um projeto semelhante em 2012. Com isso, além dos seis lotes de rodovias do Anel da Integração, que somam 2.493 km, cujos contratos expiram em 2021, com os novos quatro, chegaria a cerca de 3,5 mil km de rodovias pedagiadas no novo traçado.

    Ratinho Junior (PSD) disse que o governo pretende investir nas quatro novas rodovias do pacote para torná-las mais atrativas na licitação que deve ocorrer ao fim dos contratos do Anel da Integração. Somente a escolha das empresas de engenharia que farão os projetos custariam um total de R$ 50 milhões.

    “Queremos fazer um Pacote de Projetos Executivos, um baú de projetos. Conforme a gente tiver caixa no governo ou empréstimos. Enquanto não faz a licitação, que vai demorar ainda dois anos, nós vamos fazendo alguns investimentos para melhorar essas rodovias que são importantes”, disse.O governo ainda agora negocia com a União como seria a inclusão de mais mil quilômetros de rodovias estaduais nos lotes que serão concedidos a partir de 2021. Hoje as federais do Anel da Integração são delegadas ao estado que fez a privatização no governo Jaime Lerner. Ratinho Jr quer incluir as estaduais na licitação federal. A redução nas tarifas, segundo o governador, deve ficar entre 40% e 60%. “Isso quem vai dizer é a licitação. Se a gente coloca uma taxação no preço limita o ganhador (da licitação) de fazer os investimentos necessários. Cada rodovia tem um perfil. Algumas tem que fazer mais obras, e outras implicam em menos obras, mais manutenção”, pondera.

  • Imigração

    Polícia Federal aperta o cerco contra estrangeiros ilegais em Curitiba

    Polícia Federal aperta o cerco contra estrangeiros ilegais em Curitiba
    (Foto: Narley Resende)

    Narley Resende

    Pelo menos 20 pessoas foram presas em flagrante na sede da Polícia Federal (PF) em Curitiba, nos últimos seis meses, suspeitas de forjar casamentos ou uniões estáveis entre imigrantes e brasileiros para tentar regularizar situação de estrangeiros no Brasil. Além das prisões, todos os casos de autorizações de residência emitidas pelo Núcleo de Registro Migratório (NRM) em Curitiba antes de setembro do ano passado estão sendo revistos. Mais de 300 processos já foram cancelados até agora e mais de cem outros procedimentos de cassação de residência foram abertos. Ao fim da revisão, a PF espera cancelar até 400 autorizações. A ação, que parte de Curitiba, mas envolve todo o Paraná, é inédita.

    O “pente-fino”, segundo a PF, é resultado de uma reestruturação realizada a partir de setembro. O trabalho é encabeçado pelo agente federal Wladimir Caciano de Oliveira, que também é professor de Direito Constitucional e Direitos Humanos, e assumiu recentemente o comando do núcleo. “Havia necessidade de atender uma demanda. Com a melhora do núcleo, contratação de mais pessoas, foi algo que aconteceu naturalmente. É fruto de trabalho, também da delegada Silvia (Sílvia Cenzollo Peloi) e da direção da PF em Curitiba. Não foi com esse objetivos especifico (de aumentar o rigor)”, afirma Oliveira. A reestruturação, segundo o chefe do núcleo, inclui acréscimo de funcionários e equipamentos, e implantação de um novo sistema, o Sismigra, criado para a Divisão de Registro Migratório (DRM) da PF, que digitalizou os processos.

    “Passamos de 35 para 75 agendamentos por dia, fora os atendimentos de refugiados e casos de naturalização. Também são atendidas 140 pessoas por dia que pedem informações e vêm para retirar documentos. Estamos pegando todas as fraudes que ‘passaram’ (antes da reestruturação). É um trabalho demorado e custoso. Estamos revisando todos os processos”, afirma.

    A maioria das suspeitas de irregularidades encontradas nas revisões de autorização de residência para estrangeiros ocorreram por falsos casamentos ou uniões estáveis e comprovação falsa de dependência econômica. “Conseguimos fazer mais diligências”, afirma.

    A prisão em flagrante mais recente ocorreu ontem, em que quatro haitianos foram detidos em flagrante por supostamente apresentarem falsas Certidões Consulares do Haiti para regularizarem sua situação imigratória no Brasil. A Embaixada do Haiti teria confirmado a falsidade dos documentos.

    No dia 28 de março foi um homem marroquino e uma mulher brasileira que teriam tentado simular um casamento para regularizar a situação do estrangeiro no País. Antes disso, no dia 21 de março, a PF deteve duas pessoas, uma cubana e um brasileiro, também em flagrante.

    De acordo com o policial federal, a frente de trabalho possibilitou a descoberta de quadrilhas especializadas em fornecer conjuntos de documentos falsos para imigrantes. Essas quadrilhas, segundo a PF, reúnem profissionais como advogados e despachantes, além de indivíduos que se sujeitam a “emprestar” sua cidadania para compor falsos casamentos. As quadrilhas cobram em média R$ 10 mil por procedimento, segundo a PF.

    Os brasileiros que se casam com estrangeiros no esquema são geralmente pessoas em situação de vulnerabilidade. Há casos que envolvem garotas de programa que recebem para se casar . Oliveira explica, entretanto, que a maioria dos falsos cônjuges brasileiros é aliciada pelas quadrilhas. “Existem as duas situações. Tanto aliciamento pelas quadrilhas, que são 90% dos casos, como o caso mais recente, do marroquino, que eram pessoas que trabalham juntos (sem envolvimento com quadrilhas)”, aponta.

    PF nega perseguição e influência política
    O agente federal Wladimir Oliveira garante que não há perseguição a imigrantes e que todos os direitos são respeitados. “O que a gente não pode admitir como polícia é o crime. Nós vamos sempre acolher o imigrante que esteja em situação de vulnerabilidade, mas vamos reprimir com veemência a imigração fraudulenta. Existem vários caminhos legais para a imigração”, justifica.

    Segundo o agente, há inclusive iniciativa de comunicar organizações de assistência social. “(No caso das revisões de processo), há investigação, inquérito e a pessoa vai responder à Justiça num processo judicial. Nas prisões, comunica-se ao consulado, à ação social e todas as ONGs têm acesso. Criamos até um grupo de Whatsapp para a ONGs. Essas prisões são sempre comunicadas e a gente nunca impede assistência”, garante.

    Casos de deportação são raros e não há informação de pessoas que tenham permanecido presas. Geralmente, segundo a PF, os estrageiros são notificados e têm 60 dias para deixar o País, mas a maioria permanece, pois não há ações de busca, a não ser que algum crime seja cometido pelo imigrante. Os presos em flagrante passam por audiência de custódia em seguida, é arbitrada a fiança e a pessoa pode responder em liberdade. O policial também afirma que não há qualquer influência política nem ideológica na mudança de conduta dos casos.

    Conforme registros apurados pela reportagem, a maioria dos estrangeiros que tentam regularizar a situação com falsos casamentos é chinesa. Em alguns casos, são estrangeiros que trabalham de forma irregular em lanchonetes e se casam com colegas de trabalho na tentativa de poder formalizar a situação após obtenção da residência.

    Sequência de casos levantou suspeitas 
    Os presos nesses casos em Curitiba têm respondido pelos crimes de estelionato, falsidade ideológica em documento público e em documento particular e uso de documentos falsificados. Os crimes somam penas que chegam a 15 anos de prisão. Todos os detidos em flagrante de que se tem registro até agora em Curitiba, segundo a Defensoria Pública da União (DPU), foram liberados no dia seguinte ou a alguns dias da prisão. Os suspeitos respondem em liberdade e ainda não há informação de deportações.

    Um dos casos ocorreu em 30 de janeiro. Uma brasileira, moradora de Passo Fundo (RS), e um senegalês foram presos em Curitiba por supostamente simular uma união estável. A PF suspeita que a brasileira tenha recebido dinheiro para simular a situação. Um dia antes, no dia 29 de janeiro, também na PF em Curitiba, três pessoas foram presas em flagrante. O trio, que inclui uma pessoa suspeita de aliciar os envolvidos, teria tentado simular união estável entre uma brasileira e um chinês. A suspeita é de que o estrangeiro tenha pagado as duas mulheres para tentar forjar documentos.

    Outros dois casos, que teriam dado origem à série de prisões consecutivas, ocorreram em 19 e 22 de outubro de 2018. No primeiro, quatro pessoas foram presas em uma sexta-feira. O caso envolve a permanência de uma chinesa que teria tentado comprovar união estável com um brasileiro morador de Curitiba. Um homem que declarou por meio de procuração que o casal morava em um apartamento dele, junto com ele, também foi detido nessa situação. Três dias depois, uma despachante, de nacionalidade paquistanesa, já residente regulamentada, foi presa suspeita de orientar uma suposta simulação de união estável de uma brasileira com um moçambicano indocumentado.

  • 'Tudo Dois'

    Guerra de facções criminosas volta com força nas cadeias do Paraná

    Guerra de facções criminosas volta com força nas cadeias do Paraná
    (Foto: Reprodução )

    Narley Resende

    A intenção da Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária (Sesp) de amenizar a superlotação de determinadas unidades prisionais, atender decisões da Justiça e remanejar grupos faccionados reacendeu uma disputa entre facções criminosos no Paraná. As medidas, que segundo o Departamento Penitenciário (Depen) não passam de “estudos”, causaram choque de presos rivais. O temor causou a consolidação de uma nova coligação de facções. Os integrantes têm chamado de “É Tudo Dois”. São faccionados da Máfia Paranaense - da chamada oposição ao Primeiro Comando da Capital (PCC) - com o Primeiro Grupamento Catarinense (PGC) e alguns poucos integrantes do Comando Vermelho, quase extinto no Estado. O Bem Paraná ouviu agentes penitenciários que, sob a condição de anonimato, relataram o que têm visto nas prisões.

    “Tudo Dois”, que na origem é um gíria e que virou um título, é a forma que os presos da oposição encontraram para sobreviver ao PCC, que tem pelo menos 600 membros apenas na Penitenciária Estadual de Piraquara I (PEP I), na região metropolitana de Curitiba, e domina a maioria dos presídios do Paraná. Ainda que reúna facções diversas, a coligação não consegue contrapor a gigante paulista que surgiu no Paraná em meados da década de 1980.

    O foco da crise atual estaria na superlotação de unidades e na possibilidade de transferência de integrantes da chamada Máfia Paranaense, que surgiu após presos do “seguro”, que são jurados de morte, se unirem para contrapor ao predomínio do PCC a partir de 2014. O governo também tenta conter a proliferação da “nova facção”.

    A transferência de integrantes da máfia, que surgiu em Curitiba, para outras unidades criou novos focos do bando. O fenômeno é semelhante ao que ocorreu com o PCC, que de São Paulo se espalhou por todo o País após transferências.

    Presos do Paraná estão enviando “recados” ao governo para evitar que as facções rivais sejam reunidas. A Casa de Custódia de São José dos Pinhais (CCSJP), na região metropolitana, que tem predomínio de integrantes do PCC, pode receber detentos vindos da Penitenciária Estadual de Ponta Grossa (PEPG). Esses presos são na maioria da Máfia Paranaense. O governo chegou a cogitar levá-los de volta para a Casa de Custódia de Curitiba (CCC), na Cidade Industrial, onde a Máfia surgiu. O problema é que a CCC agora está ocupada e superlotada por presos do “Seguro” que cumprem pena por crimes sexuais, contra crianças ou feminicídio, além de presos famosos, como Edison Brittes, réu que confessou ter matado o jogador Daniel Correa Freitas.

    A vinda para Curitiba de faccionados, sejam eles do PCC, máfia ou qualquer outra, na situação em que a unidade se encontra (com presos demais e funcionários de menos) poderia causar uma “carnificina”.

    Um agente penitenciário, que pediu para não ser identificado, remonta a crise atual ao surgimento da nova facção. “A política do Depen mudou desde o ano passado. A CCC, que tem estrutura, foi projetada para aguentar todo tipo de preso, está com ‘presos menos graves’. (Em 2014) colocaram lá presos do ‘seguro’ e que por ingerência do Estado se juntaram e criaram a Máfia Paranaense. Só tinha lá (a máfia). Eles (máfia) querem demonstrar poder para a mídia, como ocorreu naquela rebelião (em julho de 2018 na CCC) em que eles ficaram segurando um tempo (cinco dias) só para demonstrar força para o PCC”, explica.

    Após a rebelião, com a ida de presos da “máfia” para Ponta Grossa, advogados entraram com pedidos para que os detentos voltem para região de Curitiba onde moram suas famílias. Além disso, autoridades da cidade dos Campos Gerais teriam se movimentando para “se livrar” dos faccionados. “O problema é que esses caras da Máfia Paranaense foram para a PEPG, ficaram lá um tempo, uns oito meses, e agora querem que eles voltem. A CCC não quer receber para não misturar com presos do seguro. Se mandar para São José só tem PCC. É pior”, avalia.

    As transferências estariam marcadas para começar na última terça-feira (2), mas o Depen recuou após o alerta de segurança. Como a CCC está superlotada, o Depen teria cogitado levar parte dos detentos por crimes sexuais para São José para abrir espaço aos integrantes da ‘máfia’. Foi então, que na última segunda-feira, o Conselho da Comunidade, órgão de direitos humanos previsto na Lei de Execução Penal, emitiu seu alerta por considerar que a transferência de presos para São José, na cadeia dominada pelo PCC, poderia causar uma rebelião na unidade. Além disso, a hipótese ventilada pelo governo de transferi-los gerou uma série de outras reações.

    A cadeia de Curitiba tem capacidade para 492 presos, mas na última semana, abrigava 740 detentos. “Familiares têm procurado o conselho para relatar o medo que tomou conta dos presos (do seguro, crimes sexuais e da oposição) na CCC. Eles temem ser mortos se forem para São José. Muitos alegam que estão jurados de morte pelo PCC. A transferência pode provocar rebeliões nas duas unidades”, afirma a advogada Isabel Kugler Mendes, presidente do conselho.

    A CCSJP também não tem margem para novos presos. Hoje abriga 1050 detentos e tem capacidade para 850, segundo agentes penitenciários.

    Em meio à crise das transferências, a direção da CCSJP foi trocada, assim como a vice-direção e a chefia de segurança da CCC. As mudanças teriam partido do secretário de Segurança, General Luiz Felipe Kraemer Carbonell. “O que ele quer é deixar só preso do seguro na CCC. Não vai dar certo. Isso (rebelião do PCC contra Tudo Dois) é iminente. Questão de tempo. O diretor (da SCJP) não aceitou a imposição do general e saiu da direção. Ele (secretário) quer deixar o Brittes na CCC, preso de crime contra mulher, criança e idosa”, critica outro agente.

    “Ninguém quer esses caras da Máfia Paranaense e nem da oposição. É “Tudo Dois”, que foi uma coligação que levantaram, que também tem o PGC. São 25 homens do PGC hoje entre Ponta Grossa e nos shelters da CCC. Foram em 69 (Máfia Paranaense) para Ponta Grossa em agosto. Na rebelião tinha 140, mas 69 assinaram dizendo que eram da facção. O juiz de Ponto Grossa começou a determinar que voltassem para Curitiba. Depois de construiram os shelters (seis) na CCC mandaram uns 30 para lá. Monstrinho, Moretti (foi lider PCC e está em Ponta Grossa), Balzeki (Tudo Dois) estão na CCC. Cada shelter tem capacidade para 12, mas tem 15. No total tem 72. Estão até furando os shelter. Quem sobra dorme no chão, que eles chamam ‘dormir na praia’”, diz.

    Ingerência teria criado e ampliado facção. Agora ‘É Tudo Dois’
    Para agentes penitenciários que testemunharam o surgimento da facção criminosa Máfia Paranaense, o Estado do Paraná tem responsabilidade por ter criado ambiente ao fenômeno. Agora, o novo movimento do governo, mesmo que involuntariamente, estaria para impulsionar a coligação de facções. “Poderiam ter evitado, primeiro, garantindo segurança. Os presos só fizeram isso para sobreviver contra o PCC. Agora é a mesma coisa. E é uma praga. Quando o governo transfere presos por não ter estrutura em um lugar, ele cria um foco novo em outra cadeia. Agora, querem tirar de Ponta Grossa, mas não adianta. Sai um, outro toma o lugar. A facção continua, só que com um foco a mais”, analisa outro agente, que trabalhou na CCC e viu de perto o surgimento das novas facções.

    A máfia teria surgido a partir de 2014, quando houve uma sequência de rebeliões na Penitenciária Estadual de Piraquara II (PEP2). “Teve três rebeliões. Surgiu um grupo lá, que eram “Os Corintianos, ou “Bando de Loko”, de oposição ao PCC, que estendeu uma faixa lá com esses nomes. Eles estavam em três blocos, eram 323 presos mais ou menos. O PCC estava em dois blocos, mas queria avançar contra os corinthianos. Uma ação do Depen resolveu mandar os líderes dos Corinthianos para a Casa de Custódia de Curitiba. Até então a CCC era só para crime contra mulher, criança, crime sexual. Levaram os presos sexuais para Piraquara e levaram 200 presos mais ou menos para a CCC”, remonta.

    Os dissidentes dos corintianos, então, resolveram fundar uma facção, que conta com estatuto, mensalidade e institucionalização do crime. Assim nasceu a Máfia Paranaense, na Casa de Custódia de Curitiba.

    “(Os líderes) eram Fortunato, Bill, que foi morto um pouco antes da rebelião (de 2018), Billy, o Sem Terra e o Captiva. Eles formaram a Máfia. Eram uns 60 presos só. A ‘caixinha’ (mensalidade) era 60 reais, que depositam em uma conta (banco informal). (Na cadeia) eles alugam cubículos, fazem o tráfico de drogas, controlam a caiçara (tabaco) que é moeda na cadeia. Um pacote de caiçara na cadeia vale 500 reais”, conta.

    Se juntou à Máfia Paranaense o Primeiro Comando do Paraná (PCP), que foi fundado em 2000, por um dissidente do PCC apelidado de “Fortunato”, mas que está praticamente extinto. Na Casa de Custódia de Curitiba estariam hoje, entre 700 presos, cerca de 200 presos “Tudo Dois”. “A oposição são duzentos presos que não são de crime sexual, mas são dissidentes do PCC e estão lá tidos como oposição porque foram excluídos do PCC por conta, dívida e outras coisas”, afirma.

    Contrapor a hegemonia do PCC, no entanto, ainda parece longe de ser viável. “O PCC quer acabar com a oposição. Os cara são maioria. Eles têm poder aquisitivo, agem do lado de fora, no Brasil. Têm liderança e têm estrutura. O MP (máfia) eram uns caras que fumavam pedra e são fracos. A máfia cobra 60 reais de mensalidade. O PCC cobra 260 reais e tem muito mais gente. Fazem rifa de carro. Vendem drogas, itens, sabonete e essas coisas de cadeia. Agora tem o problema do LCD, que é o adesivo. Custa 50 reais. A cocaína está 50 reais a buchinha. E estão usando o ‘Gatorade’ para matar os inimigos. É água e cocaína que mandam o cara tomar. Aí ele tem um AVC, morre e não parece que foi assassinado. Esses dias fizeram o Gatorade com cocaína vencida e não matou. O cara só passou mal, mas não morreu. Esse dias fizeram um arremesso e jogaram cinco celulares e até um computador lá para fazer um wi-fi”, diz.

    O agente concorda que as transferências é uma das causas da proliferação de facções. “O PCC veio em 86 quando o Paraná mandou ‘uns ladrão de bicicleta’ para lá (São Paulo) e veio os 90 presos do PCC para cá. Em 89 fizeram a primeira rebelião, com dez mortos. Mandaram ‘uns ladrão de galinha pra lá’ e trouxeram os ‘cara cabuloso’ pra cá. Hoje somos em 36 (agentes penitenciários) ou 40 juntos na PCE, com 1,7 mil presos, maioria do PCC. Já pensou? Ninguém segura uma rebelião”, teme.

    Os focos da Máfia Paranaense ainda seriam pequenos e a união a outras facções uma forma de sobreviver. “A máfia tá meio quebrada, porque muitos não estão contribuindo. Em Cascavel tem 12 (integrantes); Em Foz, na PEF 2 uns 10; na PCE tem uns 12 na cadeia que tem 1,7 mil presos. Na PEP 1, o PCC tem 660 pessoas. Nem todos são PCC mesmo, mas chamam de ‘companheiros’. São 460 PCC e 200 companheiros. Hoje o preso ou entra para a facção ou vai para a igreja”, conclui.

    Depen afirma que estudo para transferências ocorre em todo o Paraná
    Por meio de nota, o Depen afirma que as transferências não estão decididas. De acordo com a assessoria, “as informações disponibilizadas pelo Conselho da Comunidade não procedem” e não são oficiais. O órgão, no entanto, confirma que a possibilidade é cogitada. “Existe um estudo no Depen, em andamento, para analisar a possibilidade de retirada de presos considerados ‘seguro’ do interior da Casa de Custódia de Curitiba, tendo em vista que essa unidade foi projetada para abrigar presos que cometeram crimes sexuais”. O Depen afirma que esse estudo analisa o perfil de cada preso e acontece em todo o Paraná. “Ainda não está definido o local de destino desses presos, tendo em vista que se trata de um estudo”, afirma o Depen.

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