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Eleições na UE testam vitalidade do bloco

PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - É a eleição de todos os perigos para o projeto europeu pós-guerra de paz, cooperação e gradativa integração.

Quando cerca de 200 milhões de pessoas forem às urnas nos 28 países-membros da União Europeia (UE) nos próximos dias, não estarão em jogo apenas as 751 cadeiras da legislatura que inicia seus trabalhos no Parlamento continental em julho, entre Bruxelas e Estrasburgo.

No fundo, os participantes do segundo maior pleito do mundo (só perdendo para o da Índia) vão mesmo se pronunciar sobre a vitalidade (ou o anacronismo) da cartilha de valores que há décadas pauta o bloco.

A quantas andam a defesa da democracia e dos direitos humanos, a promoção da justiça social e o engajamento pelo desenvolvimento sustentável?

A consulta coincide com o acirramento da animosidade entre duas alas de líderes: a que se pretende progressista e pan-europeia, liderada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e pela chanceler alemã, Angela Merkel; e a nacional-populista, encarnada pela trinca Viktor Orbán (Hungria), Matteo Salvini (Itália) e Marine Le Pen (França).

Impulsionado por bons desempenhos de siglas ultraconservadoras em toda a Europa, o segundo grupo busca ganhar peso para pôr fim à placidez reinante no Parlamento, onde o Partido Popular Europeu (PPE; centro-direita, 217 assentos) e uma aliança de legendas social-democratas (centro-esquerda, 186), as duas principais forças, dão as cartas.

"Vai ser um plebiscito sobre concepções de vida política", diz o cientista político Olivier Costa, professor do Collège d'Europe, em Bruges. "O que está em questão é se o homem providencial, o chefe cheio de músculos e de amigos nas finanças e na mídia pode se sair melhor do que um presidente democraticamente eleito e sustentado por uma maioria parlamentar."

Para o pesquisador, a novidade em relação à eleição passada, em 2014, é o grau de articulação dos radicais. "Existe uma Internacional Populista com um projeto claro: atacar a integração europeia e a democracia liberal, contrapondo a elas noções tradicionalistas como família, pátria, ordem e cristandade."

Não se trata mais de pôr abaixo a UE mas, antes, de enfraquecê-la (ou desvirtuá-la) por dentro. A ordem é se apoderar de suas instituições.

"Nunca na história da construção europeia tivemos uma configuração tão hostil à UE", sustenta Costa. "Sempre houve eurocéticos, mas hoje se somam a eles violações ao Estado de Direito em países como Hungria e Polônia. Vivemos uma regressão democrática."

Apesar do alerta do professor, o que pesquisas de intenção de voto mostram é que os radicais deverão ter cacife para se fazer ouvir, mas não para assumir as rédeas do Parlamento e impor sua agenda.

Ainda assim, insiste o analista, é forçoso notar a erosão do binômio hegemônico de PPE e social-democracia, que tinha 70% da preferência três eleições atrás e agora periga não passar dos 50%.

E os estragos que a maré populista pode fazer em nível nacional, mesmo se tratando de um pleito europeu, tampouco são negligenciáveis.

Macron, por exemplo, sofreria um duro golpe se sua República em Marcha chegasse atrás da Reunião Nacional de Le Pen, como indicam as últimas sondagens.

No Reino Unido, o Partido Conservador (governo) surge em quinto lugar, o que, se confirmado no dia 23, certamente irá precipitar a queda da primeira-ministra, Theresa May, já às voltas com o impasse sobre o formato do brexit, a retirada britânica da UE.

O adeus de Londres, aliás, é uma nuvem que paira sobre essa eleição. Quase três anos depois do plebiscito em que escolheram se desligar do bloco, os britânicos são convocados às urnas para apontar representantes... europeus. Depois de dois adiamentos, a nova data-limite para o divórcio é 31 de outubro.

"O brexit desempenha papel ambivalente", avalia Costa. "Por um lado, apaziguou ardores de eurocéticos, que descobriram que deixar a UE não era simples. Por outro, criou desconfiança em relação à futura bancada britânica, cuja única tarefa talvez vá ser sabotar o Parlamento [enquanto o Reino Unido não sai]."

A economia é outro foco de angústia na Europa, ainda que não apareça na linha de frente do debate eleitoral "“o vice-premiê italiano Salvini, por exemplo, prefere praguejar contra imigrantes a tentar sanar as contas públicas de seu país.

O PIB da zona do euro (19 dos 28 países) deverá crescer apenas 1,2% neste ano, contra 2,4% em 2017 e 1,9% em 2018. A Alemanha, locomotiva do bloco, só deve avançar 0,8% em 2019, segundo o FMI.

A mesa está posta para discursos messiânicos e salvadores da pátria.

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