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'Vaza Jato'

Lava Jato 'fingiu' investigar FHC e foi repreendida por Moro, diz Intercept

Moro e Dallagnol (atrás à direita): ex-juiz teria criticado denúncia contra tucano por ele ser "alguém cujo apoio é importante"
Moro e Dallagnol (atrás à direita): ex-juiz teria criticado denúncia contra tucano por ele ser "alguém cujo apoio é importante" (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Novas conversas entre o ministro da Justiça, Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol reveladas hoje pelo site Intercept Brasil apontam que a força-tarefa da operação Lava Jato teria “fingido” investigar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para passar uma imagem pública de “imparcialidade”, e foi repreendida pelo então juiz federal. De acordo com o diálogo do chat privado reproduzido pelo site, Moro criticou a ação dos procuradores contra o tucano, porque não queria “melindrar alguém cujo apoio é importante”. De acordo com a reportagem do Intercepti, o diálogo entre Moro e Dallagnol teria ocorrido em 13 de abril de 2017, um dia depois do Jornal Nacional ter veiculado uma reportagem a respeito de suspeitas contra o ex-presidente.

Segundo o site, nesse dia Moro chamou Dallagnol no chat privado do aplicativo de mensagens Telegram para saber se as suspeitas contra o ex-presidente eram “sérias”. O procurador teria respondido que a força-tarefa não considerou a prescrição do caso de FHC propositadamente e o enviou a denúncia ao Ministério Público Federal de São Paulo, segundo ele, “talvez para (o MPF) passar recado de imparcialidade”.

Na época, aponta a reportagem, a Lava Jato vinha sofrendo ataques do PT e outros setores da esquerda, que acusavam a operação se ser seletiva e poupar políticos do PSDB. A discussão teria se intensificado após aparição de Moro em evento público ao lado do ex-senador e hoje deputado federal Aécio Neves (PSDB) e do então presidente Michel Temer (MDB).

Veja abaixo o trecho da conversa entre Moro e Dallagnol:

“Moro – 09:07:39 – Tem alguma coisa mesmo seria do FHC? O que vi na TV pareceu muito fraco?

Moro – 09:08:18 – Caixa 2 de 96?

Dallagnol – 10:50:42 – Em pp sim, o que tem é mto fraco

Moro – 11:35:19 – Não estaria mais do que prescrito?

Dallagnol – 13:26:42 – Foi enviado pra SP sem se analisar prescrição

Dallagnol – 13:27:27 – Suponho que de propósito. Talvez para passar recado de imparcialidade

Moro – 13:52:51 – Ah, não sei. Acho questionável pois melindra alguém cujo apoio é importante”

Dallagnol teria encaminhado a questão a um chat em grupo chamado Conexão Bsb-CWB, no qual estavam procuradores de Curitiba e Brasília. O caso de FHC tramitava na Capital federal.

“Dallagnol – 11:42:54 – Caros o fato do FHC é só caixa 2 de 96? Não tá prescrito? Teve inquérito?

Sérgio Bruno Cabral Fernandes – 11:51:25 – Mandado pra SP

Sérgio Bruno Cabral Fernandes –11:51:44 – Não analisamos prescrição”

Segundo o Intercept, o Ministério Público já tinha conhecimento da denúncia contra FHC desde o final de 2016 em virtude de delação do empreiteiro Emílio Odebrecht, que relatou ter dado “ajuda de campanha” ao tucano nas eleições de 1994 e 98. O depoimento teria permanecido em segredo de justiça até abril de 2017, quando foi enviado para ser investigado pela Procuradoria da República de São Paulo e virou notícia. De acordo com o site, os fatos estavam prescritos, e a investigação não poderia originar uma denúncia formal, tanto que foi arquivada pela Justiça três meses depois.

Autenticidade
Ministro nega acusações e vê ‘sensacionalismo’
Em nota divulgada ontem sobre as novas revelações do The Intercept Brasil, o ministro da Justiça, Sergio Moro, voltou a afirmar que “não reconhece a autenticidade de supostas mensagens obtidas por meios criminosos, que podem ter sido editadas e manipuladas, e que teriam sido transmitidas há dois ou três anos”. Também garantiu que “nunca houve interferência no suposto caso envolvendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que foi remetido diretamente pelo Supremo Tribunal Federa a outro Juízo, tendo este reconhecido a prescrição”. Moro alega que sua atuação como juiz federal “sempre se pautou pela aplicação correta da lei a casos de corrupção e lavagem de dinheiro”, e que “as conclusões da matéria veiculada pelo site Intercept sequer são autorizadas pelo próprio texto das supostas mensagens, sendo mero sensacionalismo”

Argumento
Dallagnol queria aparentar ‘imparcialidade’
Segundo o The Intercept Brasil, procuradores da operação Lava Jato já comentavam entre si sobre a importância de incluir políticos do PSDB na lista de investigados antes da troca de conversas entre o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. A questão aparece em uma conversa de 17 de novembro de 2015, em que o procurador Roberson Pozzobon encaminhou uma sugestão ao grupo “FT MPF Curitiba 2” do telegram.
De acordo com o site, ele sugere “investigar, num mesmo procedimento, pagamentos da Odebrecht aos institutos de Lula e FHC”. E afirma que “assim ninguém poderia indevidamente criticar nossa atuação como se tivesse vies partidário”.
Delações - De acordo com a reportagem, um ano e meio depois da conversa, o fim do sigilo da delação de Marcelo Odebrecht, filho de Emílio Odebrecht, revelaria que o esquema de remessa de dinheiro aos institutos de FHC e de Lula tinha o mesmo procedimento. Segundo o Intercept, em 2016, quando Fernando Henrique apareceu em outras três delações, uma delas do operador do MDB Fernando Baiano, que teria apontado o suposto beneficiamento da empresa de um filho do ex-presidente, Paulo Henrique Cardoso, em contratos com a Petrobrás.
O caso teria sido mencionado em um grupo dos procuradores do Ministério Público Federal no telegram. “Viram do filho do FHC?”, teria perguntado Dallagnol, que compartilhou em seguida link de uma reportagem sobre o caso. “Creio que vale apurar com o argumento de que pode ter recebido benefícios mais recentemente, inclusive com outros contratos … Dará mais argumentos pela imparcialidade”, alegou o coordenador da Lava Jato.

Aliado
Tucano defendeu operação
Segundo o Intercept Brasil, o Ministério Público Federal já tinha conhecimento da denúncia contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) desde o final de 2016 em virtude de delação do empreiteiro Emílio Odebrecht, que relatou ter dado “ajuda de campanha” ao tucano nas eleições de 1994 e 98. O depoimento teria permanecido em segredo de justiça até abril de 2017, quando foi enviado para ser investigado pela Procuradoria da República de São Paulo e virou notícia. De acordo com o site, os fatos estavam prescritos, e a investigação não poderia originar uma denúncia formal, tanto que foi arquivada pela Justiça três meses depois.
Desde que o Intercept iniciou a publicação das conversas entre o ex-juiz e ministro Sergio Moro e o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol e outros integrantes da Lava Jato, Fernando Henrique tem defendido a operação. O ex-presidente chegou a afirmar que a repercussão das revelações seria uma “tempestade em copo d´água”. “O vazamento de mensagens entre juiz e promotor da Lava-Jato mais parece tempestade em copo d’água. A menos que haja novos vazamentos mais comprometedores...”, disse o tucano na ocasião.
Compra de votos - Questionado pelo site sobre as novas revelações, Fernando Henrique afirmou, através de sua assessoria, que não teve que não teve conhecimento de nenhum inquérito ou denúncia relacionados à delação do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró. Também alegou desconhecer as menções sobre seu filho e a compra de votos nas eleições – por isso, “não sabe se teriam resultado em investigação ou denúncia”. A única confirmada pelo ex-presidente foi a investigação que terminou arquivada.

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