Série Entrevistas com Candidatos

Entrevista: primeira candidata ‘trans’, Letícia Lanz quer ‘economia do cuidado’

Letícia Lanz: “opção da prefeitura foi pelos grandes”
Letícia Lanz: “opção da prefeitura foi pelos grandes” (Foto: Franklin de Freitas)

Primeira candidata transgênera à prefeitura de Curitiba, a socióloga e psicanalista Letícia Lanz (PSOL), não considera esse um fator determinante em sua campanha. Primeiro, porque apesar de ter feito a transição de gênero somente aos 50 anos de idade, ela, que hoje tem 69, é casada com a mesma esposa há 43 anos, tem filhos e netos e se descreve como “uma pessoa absolutamente comum”. Sua principal bandeira de campanha é implantar o que chama de “economia do cuidado”, em que a administração pública priorize as pessoas e não “as coisas”. 

Formada em Ciências Econômicas e Ciências Sociais, Lanz critica, em entrevista ao Bem Paraná, a gestão Rafael Greca (DEM) justamente por priorizar “as coisas”, ou seja, as grandes empresas do transporte coletivo, ao invés dos pequenos negócios de bairro, durante a pandemia do Covid-19. E diz que o grande desafio do próximo prefeito é trazer as pessoas de volta para a política, estimulando a população a participar mais da formulação das soluções para seus próprios problemas.
Bem Paraná – O que significa ser a primeira mulher transgênera candidata a prefeitura de Curitiba?
Letícia Lanz - Absolutamente nada. Eu sou uma pessoa absolutamente comum que tem família, três filhos, cinco netos. Estou casada há 43 anos com a mesma mulher. Sou uma ardorosa defensora da família. E eu quando transicionei, não abandonei a família em momento algum. Como não abandonei hora nenhuma da minha vida. Mantendo a ferro e fogo os papéis de marido, pai, avô, embora meus netos já me conhecessem como Letícia. Mais o desejo da sociedade era de que isso não acontecesse. E até hoje pessoas que nem família têm ou que já tiveram 4 ou 5 ou que têm uma só para fachada são capazes de fazer críticas ao meu comportamento. O que pouco me importa.

BP – Com que idade fez essa transição?
Letícia – Eu fiz aos 50 anos. Eu só consegui transicionar aos 50 anos por dois motivos. Primeiro porque foi quando entendi o que estava acontecendo comigo. E hoje eu sou, certamente, neste País, a pessoa que mais entende disso. Eu publiquei um livro, fiz mestrado em Sociologia. Sou psicanalista e mestre em Ciências Sociais. Também sou especialista em gênero e sexualidade pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Aos 50 anos eu finalmente compreendi o que estava acontecendo comigo. Que todo aquele processo que tentava me colocar como pessoa perversa nada mais era do que um discurso social construído em função de necessidades econômicas, e que me colocava uma situação muito incômoda, uma ‘transgessora das normas de enquadramento em gênero’, que eu sofri a vida inteira. E pior ainda, além de ter essa identidade toda com o mundo feminino, eu sempre tive uma orientação sexual voltada para as mulheres. Então eu sou o que se pode chamar de uma pessoa transgênera lésbica. E quando eu apareci, que já era uma ‘aberração’ para a sociedade de um modo geral, dentro do gueto fui tratada da mesma maneira. Porque eles achavam um absurdo que uma pessoa transacionasse e assumisse a condição de mulher, sem gostar de homem, para fazer sexo, evidentemente.

BP – Há quem diga que as pautas identitárias, de gênero, acabaram afastando segmentos populares de perfil mais conservador da esquerda no Brasil. O que acha disso?
Letícia – Não. Acho que não. Porque também as pautas identitárias também não foram, ao longo do tempo, tão agraciadas pela esquerda como deviam. As conquistas que aconteceram até agora beneficiado a população LBGT vieram muito mais de iniciativas de movimentos populares levadas ao Supremo Tribunal Federal do que de uma pauta de esquerda ou de direita. Devemos reconhecer que a esquerda é muito mais aberta a essas pautas. Ela, pelo menos, contempla essas pessoas, e pensa na sua inclusão. Embora não tenha sido uma pauta absolutamente prioritária, é da esquerda que vêm as grandes defesas que a gente tem, inclusive com pessoas absolutamente LGBT, como é o caso do (deputado federal) David (Miranda, do PSOL/RJ), do (ex-deputado) Jean Willys, que são assumidamente gays. Mas o problema maior da direita é que ela não inclui ninguém: pretos, pessoas LGBTs, pobres, gordos, ela é exclusiva. Não é inclusiva. Não inclui ninguém a não ser si própria.

APARTHEID
“O grande problema de Curitiba é a inclusão’

Bem Paraná – O eleitorado de Curitiba é visto como “conservador”. Como uma candidata de esquerda, transgênera, pretende dialogar com esse eleitorado?
Letícia Lanz – O diálogo é a essência da política. Pratico política desde que eu nasci, que eu convivo com a política mineira que sempre foi uma política de diálogo. Minas sempre foi um estado que forneceu grandes interlocutores para esse País. Agora para haver diálogo é preciso haver disposição para conversar. Eu não sei se as pessoas têm disposição para conversar, mas eu adoro conversar. E muitas vezes, quando você começa a conversar você percebe que a pessoa está com aquele rótulo, mas ela não é exatamente aquilo. Curitiba tem esse rótulo terrível de conservadora, o que torna as pessoas, muito mais, na prática, reacionárias do que conservadoras. Porque é uma cidade muito organizada, que tem respeito das outras grandes cidades do País e do mundo. Agora o grande problema de Curitiba é a inclusão, a economia do cuidado. Ela foi posta à margem de tudo. As decisões são tomadas em função de uma estética urbana, dos equipamentos urbanos. Mas a inclusão nunca foi posta como prioridade. E isso ficou muito claro agora com a pandemia quando as pessoas estão desamparadas, dessassistidas, esquecidas. ‘Há mais isso ocorre no País e no mundo’. Sim, mas aqui é uma cidade especial, que se coloca como inovadora. E como o cuidado foi esquecido? Porque nós temos o hábito de votar nas pessoas que nunca cuidaram de ninguém, foram cuidados a vida inteira, especialmente homens brancos. Até as mulheres em posição de poder deixam que pessoas da periferia cuidem delas. As periferias de Curitiba são grandes fornecedoras de mão de obra para cuidar da cidade. Padeiros, jardineiros, empregados domésticos, mas eles não participam da vida da cidade, é como se tivesse um apartheid. Agora na pandemia isso ficou nítido. Especialmente quando você vê a quantidade de pequenos negócios e serviços falindo na periferia. No entando, qual foi a opção da prefeitura? Apoiar os grandes empresários de transporte urbano. Não há uma opção pelo cuidado. O que a cidade precisa e que todas as cidades precisarão agora com a pandemia é a economia do cuidado. Que só pode ser feita basicamente por mulheres. Você tira a base dos países que estão dando conta da pandemia. Todos eles são chefiados por mulheres, começando pela (primeira-ministra Jacinda) Ardern, na Nova Zelândia; passando pela Ângela Merkel (Alemanha). Assim como todos os piores lugares no combate à pandemia são chefiados por homens, começando pelo Trump, pelo nosso (Bolsonaro), pelo da Hungria, das Filipinas. São homens e não estão nem aí, não estão preocupados. Três quartos do trabalho de cuidado no mundo são executados por mulheres, elas são professoras, enfermeiras, cuidadoras.

BP – O que acha da forma como a gestão Greca lidou com a pandemia?
Letícia Lanz – Há a opção pelas coisas e há a opção pelas pessoas. Quando você faz a opção pelas coisas, você está voltado o tempo todo para a eficiência, a remuneração das coisas, a começar pelo capital financeiro e as grandes corporações que hoje regem o mundo. Quando você faz a opção pelas pessoas, o que encabeça a lista é o cuidado. A eficiência no combate à pandemia vem daí. Porque a pandemia está atingindo pessoas, não está atingindo o asfalto da cidade, nem as nossas praças, muito menos as nossas empresas de transporte que são riquíssimas e podem aguentar muito. Atingindo quem? Pessoas, gente. Os boletos não param de chegar, o dinheiro já acabou. E o número de desempregados, que já era enorme, está duplicando a cada trimestre. E o quê a administração municipal faz por eles? A orientação para as coisas é tanta que eles dizem que isso não é competência da administração municipal. Pelo contrário, tem que enxugar a administração. O menos que ela fizer para a população, o mais valorizado será do ponto de vista dessa economia das coisas. E é o contrário, cidade existe em função das pessoas. Nós nascemos para cuidar e ser cuidado. Se você deixa o cuidado em segundo plano ou diz que a administração municipal não é responsável por isso e que cada um cuide de si, eu acho isso um horror. E aqui aconteceu isso. E isso que leva a optar, por exemplo, reabir as escolas. Não faz sentido. Pelo contrário, nós deveríamos pensar como educar nossas crianças usando recursos tecnológicos. Mas não estão nem aí, estão pensando no lucro das escolas privadas, ou no salário dos professores que estão na conta da prefeitura. Não é considerado como uma garantia de funcionamento da cidade, são custos que têm que ser cortados. A cortar custos, vamos cortar em outras áreas. Não naquilo que é necessário para termos uma vida digna.

DESAFIO
‘Temos que trazer as pessoas de volta para a política’

Bem Paraná – Se for eleita, qual será sua primeira medida como prefeita de Curitiba?
Letícia Lanz – Fazer com que as pessoas acreditem que elas devem participar das soluções e que elas podem contribuir muito. Existe um trabalho imenso de trazer as pessoas de volta para dentro da política. Porque as pessoas se consideram fora da política. Você ouve o tempo todo as pessoas: ‘vou me interessar por política para que, não leva a nada, eu quero o meu sossego’. É isso que deixa o governante fazer a opção pelas coisas. Virão todas? Não. Mas é um esforço que não pode ser deixado de lado. O técnico é fundamental, mas ele deve orientar as pessoas, e não decidir o que elas vão fazer. Sempre me perguntam, ‘qual é o seu projeto para o transporte urbano’? Eu quase respondo que é acabar com ele. Criar uma cidade onde as pessoas não precisem se deslocar de manhã para o outro extremo da cidade para voltar à noite para dormir. Porque não desenvolver os locais, os pequenos negócios periféricos que estão quebrando agora? A mercearia, a cabeleleira do bairro. São todos serviços que estão ali. Ao invés de prestigiar esses serviços eu prestigio as grandes corporações que são mais centralizadas. Agora na França uma das vedetes nas últimas eleições foi a chamada cidade de 15 minutos, na qual você gasta no máximo 15 minutos para chegar, à pé ou de bicicleta em qualquer lugar. Mas o pessoal está pensando em grandes projetos de investimentos para transporte urbano. Isso não será mais possível diante de uma crise sem precedentes nos recursos do planeta. A crise ecológica não é mito, é verdade. Nós estamos sem chuva há quase dois anos aqui em um lugar que sempre foi um oásis. De onde vem isso? Da queima da Amazônia e do Pantanal. Não dá resolver um problema pinçando aqui e ali. Se eu optar por pessoas o primeiro passo é mobilizar essas pessoas para que elas trabalhem pelas soluções. Tem um discurso de reduzir a zero os serviços prestados à população pela administração municipal, mas os impostos ninguém está disposto a reduzir. A pensar em um IPTU menor. Então isso é conversa fiada. O projeto do PSOL é antes de mais nada um projeto solidário, socialista. As pessoas têm medo desse nome, socialismo. Elas acham que é comunismo, é tomar os bens que ela tem. O contrário de socialismo é o que está aí, o individualismo. Que o cara só olha para o umbigo dele, o resto ‘que se dane’. Começa de cima, o ‘e daí’?.

BP – Mas não é isso que está prevalecendo? A gente vê que esse ‘salve-se quem puder’ não é só dos políticos, está disseminado na sociedade?
Letícia – Como porta-voz disso, a única coisa que eu posso oferecer é o meu exemplo de vida. Não tenho mais nada. Nem experiência serve para alguma coisa. Porque experiência hoje é um carro com os faróis virados para trás. Só ilumina o que já passou. A única coisa que eu tenho para oferecer como porta-voz é a minha própria vida. Não nasci em berço de ouro. Tudo o que eu fiz foi como trabalhadora. Imagine que quando eu transicionei eu perdi todos os meus clientes, eu tive que reorientar a minha atuação para a área de psicanálise, porque eu perdi tudo. Por preconceito, discriminação, não foi por incompetência. Mas isso, as pessoas não estão olhando. Se elas não tiverem esse olhar, não vai pegar. Se for para pegar na base de propaganda, fake news, é porque não era para pegar. Nas redes sociais, o que as pessoas acham que têm valor, viraliza. Se não for, não posso fazer nada. A força do líder está no olho do liderado.

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