Para que nunca se lembre de hoje

5 janeiro, 2018 às 15:58  |  por Helena Carnieri

jupartika

 

Seguindo com a publicação do texto “O Velho”, de Juliana Partyka, que começou no post anterior. A autora, para quem não conhece, é a atriz na foto acima, em cena de “Perdão”, com direção de Jader Alves.

CENA DOIS: QUANDO VOCÊ PRECISA DIZER QUE ESQUECEU É PORQUE,

DE FATO, ISSO NUNCA ACONTECEU.

MARIANA: Ele poderia morrer igual, não poderia?
GIO: Que?
MARIANA: O Velho.
GIO: Cruzes.
TEREZA: Eu acho.
GIO: Chega!
TEREZA: Eu poderia dançar em cima do caixão dele. Com certeza eu poderia.
GIO: Mas não vai. Ouvi dizer que ele tá doente. Meio podre. Então.
TEREZA: Tomara que morra. Tomara que morra. Tomara que morra!
GIO: Chega!
MARIANA: Tá defendendo é? Pega pra você.
GIO: Ele anda igual um cachorro de rua… Ouvi dizer. Cabeça baixa, sarna pelo
corpo inteiro, magro, parece que vive com fome e sede. Nunca ergue os olhos.
TEREZA: Comparação idiota. Coitado do cachorro.
Coitado do cachorro.
Eu trocaria os dois de lugar. Meteria o Velho embaixo da terra, e traria o Cão
de volta.
GIO: Depois não reclame.
MARIANA: Tá defendendo o Velho! Quem diria!
TEREZA: A única coisa que me veio na cabeça naquele momento foi chamá-lo
de maldito. Maldito. Maldito. Maldito! Que os deuses te carreguem pra beira do
inferno, canalha, egoísta, filho do próprio demônio vindo pra terra!
Os olhos dele, na hora eu vi, azuis como se pintados à mão. Escuros,
escondidos. O sorriso maldito que ele nem sorria, mas eu via. Eu tenho certeza
que aquele homem é filho do próprio demônio!
Tive vontade de bater na cara dele. Bem rápido. Muitas vezes. Imaginei minhas
mãos doloridas, as juntas e as veias saltadas, de tanto que eu bateria nele.
Não saberia distinguir meu próprio sangue, do sangue maldito que escorria
daquela cara de cobra peçonhenta.
Um dia eu te mato! Eu disse. Minha alma me olhou nos olhos. Fogo! Eu queria
tirar o fogo que ardia nos meus olhos e tacar em cima dele. Morre, maldito!
Queime! Pague os teus pecados! Eu sou deus, agora! Eu te condeno a rastejar
até o resto dos teus dias, maldito. Maldito!
(Longa pausa)
GIO: Mas você não fez, não é?! Não queimou o Velho vivo, não fez quando
teve vontade. Agora não adianta, te falta coragem.
TEREZA: Quem disse? Tá me provocando?
GIO: Não. Estou dizendo que se você não faz quando tá com raiva, depois
você faz do mesmo jeito, sabendo que é o certo, mas se sente culpada. Não
quero que sinta culpada. Não por isso.
TEREZA: Pelo que então?
GIO: Come!
TEREZA: Culpada pelo que? Eu não tenho culpa de nada, tá ouvindo? Se o
Velho morrer, melhor. Danço em cima do caixão dele. Estou falando! Escreve
isso que estou te dizendo!
MARIANA: Queria fumar um cigarro.
GIO: Aqui dentro não.
MARIANA: Então eu vou lá fora. Aproveito e tomo um banho de chuva pra tirar
esse ranço de simpatia que você tem pelo Velho. Ó! Tá grudado na minha
roupa! Que nojo!

CENA TRÊS: TUDO QUE VOCÊ PRECISA É SE SEGURAR NAS COISAS
QUE TE FIZERAM FELIZ.
GIO: Você já me deixou na chuva. Eu lembro.
TEREZA: Nunca.
GIO: A gente era bem criança.
TEREZA: Lembra nada.
GIO: Tua mãe te fazia limpar a casa, e você era tão babaca que deixava a
gente pra fora, só pra não sujar o chão.
TEREZA: Eu era detalhista.
GIO: Uma babaca.
TEREZA: Mas você morreu? Não.
GIO: E quando a gente entrava, você mandava a gente ajoelhar e limpar o
carpete. COM A MÃO. Igual um cachorro comendo os farelos. Lambendo.
Cisquinho, por cisquinho. Eu lembro.
TEREZA: Por que você tá lembrando disso agora? Te ensinei a ser zelosa.
GIO: Por que tá chovendo, e quando chove eu lembro.
TEREZA: Ele não gostava de chuva. Quando ele saía pra fazer xixi, voltava se
esfregando nas minhas cobertas. Igual quando tomava água. Limpava a boca
nas cobertas. Um cão muito higiênico.
GIO: Eu acho que só tenho uma memória boa.
TEREZA: Do cão?
GIO: Daquele tempo…
TEREZA: Ingratidão…Você é inteira movida na ingratidão.
GIO: É sério. Eu vou gargalhar. Mas é muito sério. Muito grave. Não me olhe
assim. Preciso contar sem te olhar. Meu Deus a minha barriga chega a doer.
Você fez a Mariana comer cocô!
TEREZA: E daí?
GIO: Ela cagou no cobertor amarelo. Você tinha lavado a droga do cobertor
amarelo, e ela cagou em cima dele!
TEREZA: Vadia.
GIO: Muito bom! Ela chorava, e cada vez que ela puxava a baba pra suspirar,
ia um pedaço de bosta dentro da boca dela! Que genial!
TEREZA: Aprendeu, não aprendeu?
GIO: Tem prisão de ventre até hoje, coitada.
(Tempo)
MARIANA: Quem?
TEREZA: O que?
MARIANA: Quem tem prisão de ventre?
GIO: Você tá fedendo cigarro.
MARIANA: Deu uma afundada lá atrás.
TEREZA: …
GIO: Não adianta agora, tem que esperar o tempo melhorar.
TEREZA: Desculpa cão. Desculpa te tratar pior que gente.
MARIANA: Você devia ter feito uma caixa de madeira, pelo menos não
afundava.
TEREZA: Nem pensei. Deus nos tira o privilégio do preparo. Ele é um egoísta
babaca.
Eu vou tirar ele de lá.
GIO: E vai fazer o que?
TEREZA: Um funeral.
MARIANA: Deus do céu, eu não acredito que vou fazer isso.
TEREZA: Vai ou não?
MARIANA: Tá.

CENA QUATRO: OS PROCEDIMENTOS DE ESQUECER PARA QUE
NUNCA SE LEMBRE DE HOJE.

GIO: Então eu vou parar tudo. Congelar. Meu braço sem querer vai esbarrar
num copo e fazer ele se espatifar no chão.
Eu vou respirar bem fundo, como se quisesse criar coragem de olhar pra ele.
Para os pedaços dele. Para o meu reflexo igual. Todo quebrado. Todo partido.
Todo sem partes.
E eu vou olhar pra ele. Firme. Vou mostrar que não tenho medo. Nem de
colocar minha mão naquilo. Nem do machucado que pode fazer. Eu vou
apertar meu indicador no pedaço mais fino. Vou grudar um pedaço daquilo no
meu indicador. Depois de três segundos eu vou abrir meus olhos e perceber
que eu não morri. Eu. Não. Morri.
Aí eu vou mudar. Aí eu vou saber que a porra do caco de vidro não me matou.
Nem vai. O meu sentimento será de raiva.
Vou olhar pra ele com muita raiva. Não só raiva. Vitória. Rancores. Vou colocar
meu dedo com aquele caco de vidro grudado nele bem na altura da minha
cintura. Então vou olhar de cima.
Olho pro meu dedo. Olho pra quem quer que esteja na minha frente. E vou
dizer que gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. Eu vou arrepiar de ódio,
e alguém vai dizer. Credo.
E vou imaginar ele morto. Alguém dança em cima do caixão dele. E ri. Ri
descontroladamente. E eu vou lembrar que ele tá enterrado no meu quintal. E
eu vou sentir pena do cachorro e começar a chorar por que isso é tudo que eu
sei fazer.
E quando eu perceber o caco de vidro, ele estará cortando meu dedo, e a
ponta dele estará toda vermelha. Por que eu consigo me livrar do caco, mas eu
nunca consigo não deixar sangrar. Nunca dói. Mas escorre no meu corpo.
Então. Então eu vou sorrir triste. Eu vou lembrar do cachorro enterrado no meu
quintal num dia de chuva. E eu vou pensar que Deus é egoísta demais. E vou
gritar bem alto para quem quer que seja: por que Deus nunca leva as coisas
certas?
E alguém vai dizer: não importa. Não há nada que possa ser feito agora.
Então eu vou olhar pra Tereza. Vou olhar bem no fundo do olho dela, e vou
desejar que ela nunca estivesse comigo.
A dor dela me toca. O cachorro me toca. O Velho não. Já tocou. Não mais.
E ela vai perguntar do cachecol. Ela não vai lembrar, ela nunca lembra que
sempre dá suas próprias coisas para os bichos de rua. Os bichos de todo tipo.
Os com quatro patas, com duas. Até os que pedem um cigarro no café. Ela
nunca lembra.
Eu vou dizer que sinto uma agonia no meu peito. Que eu devia fazer exercício
para as pernas, para a circulação de sangue. E vou olhar de novo para o
sangue na ponta do meu dedo.
Eu já não estarei com raiva. E eu não vou pensar que ela é triste, por que eu
mesma sou muito mais triste e nem é por causa do falecido cachorro. Que se
dane a dor dela.
Eu vou lembrar de Deus. De Jesus Cristo fazendo Lázaro ressuscitar. E vou
querer ressuscitar aquele o Velho, só pra poder mata-lo de novo.

(TEREZA E MARIANA VOLTAM COM UMA CAIXA SUJA E MOLHADA, E
COLOCAM EM CIMA DA MESA DA COZINHA)

GIO: (se passando as mesmas ações da cena anterior) Eu gostaria de matar o
meu pai. Gostaria muito.
MARIANA: Credo.
GIO: Por que Deus nunca leva as coisas certas?
MARIANA: Não importa.
TEREZA: Você viu meu cachecol?
GIO: Sinto uma agonia no meu peito. Acho que preciso fazer algum exercício
pra circular o sangue nas pernas.
(Silencio)
Jesus ressuscitava pessoas.
(Silencio)
MARIANA: Não tá fedendo.
TEREZA: Odeio chuva.
GIO: Você comia cocô.
TEREZA: Tá espumando.
MARIANA: Leva na igreja.
GIO: Tá louca?
MARIANA: Então reza você. Ele não parece muito tranquilo, quem sabe
precise de um alívio pra alma.
TEREZA: Ela!
GIO: Você disse que cachorro não tem alma.
MARIANA: Eu disse que não sabia se tinha, por que não sabia nem se gente
tem alma.
TEREZA: E tem?
MARIANA: Não sei. O velho não tem.
GIO: De novo isso?
MARIANA: Ela. Tá bem.
TEREZA: Quê que tem?
MARIANA: Se fosse ele você estaria triste?
TEREZA: Quê?
MARIANA: O gênero.
TEREZA: Lógico.
GIO: Mentira!
TEREZA: Lógico!
GIO: Ele te lembraria do Velho. Já vai começar a feder.
TEREZA: Você fede!
MARIANA: Jesus poderia trazer ele de volta, não poderia?
TEREZA: Você nem gostava do bicho. Não se dignava olhar pra ele.
MARIANA: E daí?
TEREZA: Por que é uma puta idiota que não pensa em nada além do próprio
rabo.
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Você é uma puta egoísta, sempre foi. Eu comi cocô por que você é
uma doente compulsiva por limpeza, e agora este bicho tá em cima da mesa
cheio de barro, de pulga, de pus saindo dos olhos, de xixi escorrendo, e tudo
isso tá sujando a droga da mesa da doente por limpeza. Tá feliz?
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Meu cu.
GIO: Tá se mexendo. Olhem. A orelha piscou. Rapidinho.
TEREZA: Não tá não.
GIO: Tô falando serio. Tá gelado, mas deve ser frio.
TEREZA: (ouvindo o coração) Coração tá quieto.
MARIANA: Tá morto.
GIO: Vai tomar no teu cu. Apaga esse cigarro.
MARIANA: Tá morto. Muito morto. Cem por cento por morto. E quer saber? Tô
nem aí. Mesmo.
Longo silêncio. Elas observam a caixa de papelão em cima da mesa.
GIO: Acho que tá morto mesmo.
MARIANA: Tá chovendo.
TEREZA: Que peso. Esse ar. Às vezes parece que o teto da casa tá fazendo
pressão na minha cabeça.
GIO: (Acende uma vela) Jesus ressuscita os mortos. Fez isso com Lázaro.
MARIANA: Mas Deus não quer isso. Por que ele-é- muito-egoísta.

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