José Roberto Arruda: sob polêmica (foto: Reprodução)
Uma investigação da Polícia Federal (PF), batizada de Operação Caixa de Pandora, flagrou no governo José Roberto Arruda (DEM), do Distrito Federal, um esquema de cobrança de propinas e distribuição do dinheiro pela base aliada, numa espécie de mensalão local que envolve pelo menos quatro secretários e quatro deputados distritais. O próprio governador Arruda aparece nos documentos da PF e no despacho do ministro-relator do caso, Fernando Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), orientando o secretário Durval Barbosa (Relações Institucionais) a "entregar R$ 400 mil a Maciel, para pagamento da base aliada". José Geraldo Maciel é o chefe da Casa Civil de Arruda.
Boa parte do sucesso da Operação Caixa de Pandora deveu-se à colaboração do secretário Durval com as investigações da PF. O despacho do ministro Fernando Gonçalves (STJ), autorizando as buscas e apreensões de ontem, revela que Durval aceitou espionar o governo Arruda, trabalhando com aparelhos de escuta e filmagem presos "às vestimentas", chegando a gravar um encontro com o governador no dia 21 de outubro de 2009. Por ordem de Arruda, "outros R$ 200 mil terão o mesmo destino", isto é, também seriam distribuídos pela "base aliada".
Antes de colaborar com a PF, Durval fez um acordo de delação premiada com o Ministério PF e o Judiciário, livrando-se de inquéritos e tendo penas reduzidas em processos também por corrupção no tempo em que servia ao governo de Joaquim Roriz (2003-2006), antecessor de Arruda no comando do DF. Durval, policial civil aposentado, funcionou para Roriz e para Arruda (2006-2010) como caixa de campanha, cobrador, arrecadador e distribuidor de propinas nos dois governos. Não houve mandados de prisão.
Pedágio 10% - Hoje, ao longo do dia, foram cumpridos 29 mandados de busca e apreensão em 24 endereços de 16 alvos (pessoas físicas e jurídicas), sendo 21 no DF, um em Goiânia e dois em Belo Horizonte. A Polícia mobilizou 150 policiais e recolheu R$ 700 mil, US$ 30 mil e 5 mil euros. Documentos, dezenas de computadores, pen drives e outras mídias eletrônicas com gravação de dados foram apreendidos.
A operação Caixa de Pandora levantou ainda informações envolvendo o secretário de Educação, José Valente. Com ajuda do ex-secretário infiltrado foi apurado que Valente teria recebido R$ 60 mil da empresa Infoeducacional e repassado o dinheiro para o esquema que movimentou, em alguns dias, R$ 600 mil em propinas Também fazem parte do esquema, segundo a PF, Domingos Lamoglia, membro do Tribunal de Contas do Distrito Federal, e o empresário Gilberto Lucena, dono da empresa Linknet Tecnologia e Comunicações Ltda - este, citado diversas vezes.
Uma dessas citações indica que Lucena encaminhara R$ 34 mil a Durval, após ter seu crédito de R$ 34 milhões reconhecido pelo Governo do Distrito Federal. Ou seja, para liberar seu crédito junto ao governo do DF, o empresário pagou 10% a Durval Barbosa. Outro alvo da polícia foi o chefe de gabinete da Governadoria, Fábio Simão, que teve devassados seu gabinete de trabalho no Buriti e a sala despachos que mantinha na residência oficial de Arruda em Águas Claras. O jornalista Omézio Ribeiro pontes, assessor de imprensa de Arruda, também sofreu busca e apreensão na residência no trabalho.
Entre os deputados distritais investigados estão o presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente (DEM), Eurides Britto da Silva (PMDB), Rogério Ulisses Telles de Mello (PSB), Marcos Dias, conhecido como Pedro do Ovo (PRP).
O esquema, conforme as investigações, envolve uma gigantesca rede de corrupção que pratica lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, enriquecimento ilícito e improbidade administrativa que vinha desde o governo Roriz, que tentará novo mandato em 2010 pelo PSC. As denúncias haviam sido apuradas em outro inquérito, da Operação Megabyte, reveladas pelo Estado em junho de 2008. Os dois já perderam seus mandatos de senador do DF por denúncias de envolvimento em irregularidades - Arruda por envolvimento na violação do painel do Senado (2001) e Roriz (2008), pela partilha de um cheque de R$ 2 milhões, do empresário Nenê Constantino, dono da Gol.