O espelho de Narciso

04/07/17 às 00:00 - Atualizado às 20:09 Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

Corrupção envolve geralmente duas partes, a que tem ou pensa ter o controle dos recursos, e a que deseja obtê-los de maneira fraudulenta: sucesso em licitações, contratos vantajosos, aditivos contratuais saborosos, leis lucrativas, pagamento por obras não ou mal realizadas, financiamentos com juros quase negativos, aceitação de mercadorias fora da especificação ou da quantidade contratada, informação e poder, acima de tudo poder.

No já longínquo 1971 um governador indireto foi gravado por um empreiteiro pedindo propina, a divulgação da fita resultou em cassação e término de carreira política. Muitos não puseram as barbas de molho após a desgraça do colega: nas décadas seguintes as gravações de conversas comprometedoras avolumaram-se, como se adultos experientes nos ofidiários da política e dos negócios agissem como crianças ingênuas ao falar sobre suas infames vantagens sem o menor cuidado ou pudor. A explicação para tal comportamento parece estar ligada a um fato simples, os “suspeitos” pensam estar falando com amigos, com pessoas em quem podem confiar, esquecidos de que ética e amizade entre ladrões não existe mais sequer no cinema.

A atitude do corruto quanto à própria corrupção passa geralmente por três etapas: no início é a hipocrisia, esta homenagem que o vício presta à virtude, afirma e talvez acredite que faz o que faz para “continuar lutando pelo bem maior”, que merece as benesses por uma vida de bondades, e até mesmo para custear o tratamento médico de sua avozinha querida; como autoengano tem limite, passa-se ao cinismo, faz o que faz porque quer e gosta de dinheiro e poder fáceis “e os outros tem é inveja, e fariam o mesmo se pudessem”.

A terceira etapa é a mais deletéria, a idade da inocência, quando o cidadão parece se mirar o tempo todo em um espelho mágico que para a sociedade refletiria um vigarista, para o país um dos causadores de seu atraso, para os miseráveis (cujas avozinhas geralmente morrem antes dos quarenta anos por falta de tratamento médico) um dos responsáveis por sua miséria; para o corrupto bem sucedido a imagem é daquilo que sempre afirmam seus áulicos, subordinados e cúmplices: um gênio, alguém acima das pessoas comuns, e além disso bonito e usando uma bela gravata, padece constantemente do que Eça de Queiroz chamava acréscimo de estima por si mesmo. Não surpreende, portanto, que quando algo dá errado e o “gênio” é chamado a prestar contas de seus atos, a reação oscile entre a indignação e a perplexidade; sentimentos mais verdadeiros do que supõe a plateia, ele quase acredita que está sendo vítima da mídia golpista e de um complô.

Nas democracias, corrupção e a violência tem uma dimensão interna, própria da troca corrupta, e ao mesmo tempo uma social, constituída pelo impacto na reprodução da injustiça, desigualdade e ausência de solidariedade. Este aspecto se reflete, como não poderia deixar de ser, nas instituições escolares como um todo, já que a perda da respeitabilidade nas organizações legalmente constituídas implica também na perda da legitimidade de todo sistema educacional.

Quando o sistema político está deteriorado, a relação direta da corrupção com a violência torna-se mais evidente: internamente, na troca “corrupta”, percebida como relação de mútuo benefício e de comum acordo entre corruptor e corrupto, violação do valorizado pela sociedade como “bem público”, e externamente como acréscimo das relações desiguais, baseadas na força, que tem explodido nas escolas em formas de agressão e violências de todas as ordens. Nelas o efeito se torna mais visível, pois deveriam construir-se a partir de um modelo ideal elevado, que reclama a virtude humana para o seu perfeito funcionamento, elemento fundante, mola mestra da democracia.

 

Professora Wanda Camargo é assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil - (UniBrasil)

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