Perigo

Após explosão, polícia aumenta fiscalização sobre empresas que impermeabilizam sofás

No último sábado (29), um apartamento do Edifício Residencial Hannover, no bairro Água Verde, acabou explodindo, em episódio que deixou um menino de 11 anos morto e outras três pessoas gravemente feridas. Desde então, um inquérito foi instaurado pela Polícia Civil, através da Delegacia de Explosivos, Armas e Munições (Deam). No momento da explosão, era feito a impermeabilização de um sofá no apartamento, levantando as suspeitas de que isso pode ter colaborado para a ocorrência.

E embora as investigações ainda estejam em seu início, a polícia já promete reforçar a fiscalização em cima das empresas que atuam no ramo. Segundo o delegado Adriano Chohsi, titular da Deam e responsável pelas investigações sobre a explosão, essa atuação se faz necessária pelo fato de a Delegacia já ter identificado empresas que atuam com impermeabilização de sofás e estão em situação irregular.

“Todo produto controlado precisa de liberação do órgão competente, seja o Exército, a Polícia Federal, o Corpo de Bombeiros ou a própria Deam. Estamos analisando e algumas empresas já identificamos que não possuem autorização, o alvará não está sendo encontrado. Vamos notificar para que venham aqui e regularizem essa situação”, explica o delegado, afirmando ainda que “sem dúvida vamos ter que intensificar isso aí”, referindo-se à fiscalização sobre o setor.

Duas empresas tradicionais que atuam no ramo conversaram com a reportagem, inclusive, e reclamaram da forma desordenada como o setor tem crescido nos últimos anos, com grande aumento no número de empresas em situação irregular (sem os alvarás e autorizações necessárias para funcionamento) e com uma crescente de profissionais sem qualificação realizando o processo de impermeabilização.

“Vemos pessoas fazendo o serviço sem saber o procedimento correto, qual o protocolo de segurança, os cuidados que precisa ter para fazer um serviço desses”, comenta Josiane Menegusso, proprietária da empresa Cleanfor, que há 10 anos está no mercado. “São muitos amadores entrando num ramo para o qual eles não tem o mínimo de conhecimento”, reclama ainda outro empresário do ramo, que pediu para não ser identificado.

Duas possíveis causas são investigadas
Retornando às investigações sobre o caso do Água Verde, o delegado Adriano Chohsi comenta que, por ora, o que se sabe de concreto é que havia uma pessoa no apartamento impermeabilizando um sofá com um produto químico, tóxico, e que durante esse trabalho houve a explosão.

Seriam, então, duas as linhas investigadas: a de que o GLP (gás de cozinha) teria entrado em contato com esse produto químico que estava sendo usado no sofá, maximizando os seus efeitos e causando a explosão; ou então que o próprio produto utilizado na impermeabilização, por si só, teria de alguma forma provocado a tragédia. Neste momento, a segunda hipótese é a mais provável, segundo a fala do delegado.

“Hoje a perícia foi no local novamente, levamos o pessoal especialista em segurança do GLP e foi constatado que não tinha vazamento nenhum naquele prédio. A causa mais provável, então, seria o produto utilizado na impermeabilização. Aí vem a questão: houve a aplicação correta? Foram tomadas as devidas cautelas? O sistema de ventilação do apartamento era suficiente e seguro? O aplicador estava com equipamentos de segurança? A empresa tinha alvará para isso? São vários itens que estão sendo analisados”, comenta o delegado.

Ainda segundo o Deam, não há um prazo para que os resultados da perícia feita no apartamento sejam divulgados, mas foi dada prioridade ao caso, a fim de se obter uma resposta o mais rápido possível. Enquanto isso, os policiais seguem colhendo depoimentos de testemunhas. A esposa de Caio Santos, técnico que realizava o serviço de impermeabilização no local, já foi ouvida. “Ainda vamos ouvir os vizinhos e também os proprietários da empresa (de impermeabilização). É a peça chave da investigação”.

Uma questão de segurança nas residências
Proprietária da Cleanfor, empresa que há 10 anos atua no mercado curitibano, Josiane Menegusso explica que a aplicação do produto para impermeabilizar tecidos é bem simples e demora menos de 10 minutos. “Mas os cuidados que temos de ter demoram um pouco mais e precisamos passar isso para os clientes”, explica.

O primeiro trabalho é verificar se há mais pessoas na casa além daquela que está atendendo o aplicador e pedir para que sejam abertas todas as janelas de todos os cômodos da casa. “Quando estamos aplicando, paira um gás sobre a gente, as nossas cabeças, e esse gás tenta encontrar lugarespara sair. Se está num lugar fechado, ele vai se acumulando. Se estiver aberto, em 15 minutos o gás sai, vai embora, e a família pode retomar a rotina”, diz Josiane.

O segundo trabalho, então, é não usar nada que cause chama ou faísca, como fogão, micro-ondas, forno, vela, incenso, cigarro ou mesmo o interruptor de luz “É um serviço seguro, mas precisam ser tomados os devidos cuidados e o morador deve colaborar com o aplicador”, explica.

Produto inflamável é mais usado por ser mais barato
Ainda segundo Josiane, atualmente existem vários tipos de impermeabilizadores no mercado, alguns feito com solvente inflamável ou à base de água (sem risco de pegar fogo) e ainda outros feitos com solventes não inflamáveis. Acontece, porém, que esses produtos não inflamáveis custam mais caro, o que acaba levando a maioria das pessoas a optarem pelo solvente inflamável.

“Geralmente as pessoas pegam o produto mais acessível, procuram pelo mais barato. Um sofá de três lugares,por exemplo, saí uns R$ 250 para fazer a impermeabilização com solvente inflamável. Com um produto a base de água chega a quase R$ 700 e com um solvente não inflamável, sai por uns R$ 400 pelo mesmo sofá”, diz a empresária, que recomenda ainda que se procure mais informações sobre a empresa prestadora.