Paratletas ensinam o valor prático da motivação

O desempenho memorável dos nossos paratletas nas últimas Paralimpíadas, momento em que receberam holofotes que mereceriam ter sempre, faz perceber o valor da motivação correta para a superação de desafios físicos.

Como terapeuta ocupacional, vejo muitas vezes no consultório a dificuldade de alguns pacientes encontrarem sentido nos exercícios que realizam. A dor é inerente ao treino, sem dúvida – mas se ela traz um ganho objetivo, parece que até diminui um pouco e os ganhos são muito mais velozes.

Um dos métodos que mais trazem esse senso de recompensa é o Perfetti, e ele se baseia muito na motivação do paciente. O objetivo é melhorar a qualidade dos movimentos de forma personalizada, sem foco apenas na retomada, mas pensando em aprimorar cada ação. E, para que a reabilitação seja efetiva, é preciso reeducar o próprio cérebro, ou seja, ativar as áreas cognitivas relacionadas a cada músculo.

Isso ocorre por meio do reaprender – aprender de novo a usar determinadas áreas da mente; pela reorganização de movimentos. Assim, a atividade dirigida permite criar estratégias para que o cérebro grave essa nova informação, de forma ativa e duradoura.

Só assim o retorno será de longo prazo, e ninguém tem mais foco no resultado do que um paratleta – pois a superação é uma necessidade diária, e seu sucesso na carreira esportiva será proporcional ao seu empenho. O mesmo se aplica a outras carreiras, como os músicos: fiquei emocionada ao assistir a um vídeo de uma garota baterista para quem foi desenvolvida uma prótese de braço de forma que pudesse voltar a tocar.

Foi justamente nesse contexto que o italiano Carlo Perfetti desenvolveu, nos anos 1970, o método pelo qual se convida o paciente a ser parte ativa da terapia – ou seja, ele se torna o “dono” do seu tratamento, deixando de ser “paciente” para se tornar um parceiro da terapia. O terapeuta analisa as dificuldades do paciente, trazidas, por exemplo, das recordações dos movimento anteriores à lesão, e assim obtém uma melhor motivação de refiná-los. É muito recompensador verificar o ganho em resultados. Inclusive, meus pacientes têm repetido constantemente que “agora a terapia faz sentido”. Isso me traz grande alegria!

* Syomara Cristina Szmidziuk atua há 31 anos como terapeuta ocupacional, e tem experiência no tratamento e reabilitação dos membros superiores em pacientes neuromotores