A retórica e a estética…

12 julho, 2017 às 19:16  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Frequentemente, em debates sobre psicanálise, recebo argumentações de que a mesma funcionaria como um “exercício meramente estético” ou “apenas uma práxis retórica”. Bem, discordo que seja um “meramente” ou um “apenas” e contra-argumento quanto a isso articulando a psicanálise como propriamente uma experiência de linguagem de um sujeito de pulsões em relação ao seu desejo e as leis que o interditam. Mas em alguns casos, pontualmente questiono o que se entende por estética ou retórica. A estética pode ser entendida por uma categoria de percepção filosófica que nos fornece uma das formas possíveis para lidar justamente com o vazio, a angústia e o sintoma. A retórica, por sua vez, também poderia ser vista como uma articulação narrativa em defesa de uma verdade e de busca de sentido com a capacidade eloquente para defender e articular os argumentos para o estabelecimento de uma rede de significados A produção estética e retórica também podem ser reconhecidas como formas importantes de sublimação.

A doença e a instituição…

20 junho, 2017 às 17:05  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Mais do que um problema de natureza patológica, precisamos pensar o crack e outros fenômenos ditos marginais como um sintoma social. É uma questão de saúde pública, de políticas e não de polícias.

Como podemos pensar a questão da doença? Como um conjunto de sintomas que ganham nome próprio… Podemos debater, mas tendo a ver o sintoma como uma resposta problemática a um problema concreto, como já citou Vladimir Safatle. Uma resposta, uma reação a algo que nos causa.

Como seria possível também pensar a loucura como uma espécie de resposta (mais ética e espontânea) a uma questão concreta que pode ser vista da ordem de uma estrutura ou de uma patologia. Resposta essa que busca ser suprimida, castrada, moralizada pela instituição. Onde não se dá voz ao sintoma, o sintoma torna-se tirano e absoluto.

A loucura do louco é mais ética que a loucura do são …. Às vezes a loucura mesmo é ter aquela cega convicção de sua própria “normalidade”.

A naturalização e determinismo de uma doença dessubjetiviza o indivíduo, o emudece, cala a sua história.
O indivíduo busca reagir, tenta não ser tragado pelo estado, pela instituição que o vê como um objeto.

Desde Basaglia, podemos afirmar que a operação que torna o doente um objeto é a mesma que o desistoriza. E quem não mantém a sua história aceita mais facilmente a institucionalização. A institucionalização é a forma mais cômoda de lidar com aquilo que não queremos lidar.
A institucionalização representa, por fim, a própria aniquilação do sujeito.

https://www.facebook.com/patrizia.corsetto.9/videos/vb.100001150648055/1416577425057265/?type=2&theater

Desamparo e a civilização

20 junho, 2017 às 17:03  |  por Willian Mac-Cormick Maron
Desde o texto freudiano “Totem e Tabu” (1913), podemos pensar a morte (simbólica) do pai e a consequente instituição de regras e renúncias pulsionais exigindo, mesmo que minimamente, substituição do ato pela palavra. É um fator originário da civilização, como da neurose.
Enquanto o pai vive, como aquele que tudo pode e nada renúncia, creio eu legitimar que, igualmente, tudo posso. Serve tanto para a neurose como para política.
Que possamos e superemos nossos antecessores…
Constituir-se em identidades coletivas tem função de amenizar nossa posição frente ao desamparo. Cada um se consola da forma que pode.
A afirmação do desamparo (sem um grande pai, líder ou messias) como estrutural, possibilita uma maior e plural produção de sentido.
Enquanto isso não acontece, esperamos uma providência divina, uma solução que caia do céu.

Identificação e o ódio…

29 maio, 2017 às 16:54  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Pouca coisa gera tanta identificação quanto inimigos ou dores em comum. O ódio mantém laços tanto quanto o amor.
O ódio, não como um antônimo do amor, mas como uma outra polaridade, dotada de uma intenso investimento libidinal. São faces de uma mesma moeda.
Não se odeia qualquer um, como não se ama qualquer um.

Nosso objeto de ódio diz muito mais sobre nós, do que sobre o próprio objeto.
Assim como a legitimação de um tipo de liderança diz muito mais sobre a coletividade do que sobre o próprio líder.

A identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto. A identificação em Freud se dá em relação e em posição a um outro como um modelo, um objeto, um auxiliar ou um oponente.
Mas quem és tu? “Eu sou” … “Sou o que sou”, já diziam os escritos bíblicos reforçados pela lógica cartesiana A é A.

Mas, para ser o que sou, preciso ser o que todos os outros não o são, é o que defende Lacan em seu nono seminário, ser pura diferença. A lógica da identificação pressupõe, invariavelmente, uma relação de diferença, de exclusão que é originária da formação das identidades. Só posso me identificar com o que não é idêntico a mim. Assim o Eu torna-se resposta radical ao Tu.
É a lógica da identificação que nos permite criar vínculos sociais, legitimar lideranças e mergulhar em relações amorosas.

“A função do líder e das coletividades face ao desamparo”.

29 maio, 2017 às 16:48  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Já em mãos.

“Filosofia, Religião e Psicanálise” dos organizadores Allan Martins Mohr e Fabiano Mello com meu capítulo intitulado “A função do líder e das coletividades face ao desamparo”.

“O objetivo deste trabalho é revisitar o trajeto de Sigmund Freud sobre o líder para destacar a importância do líder para o processo de iden cações coletivas, assim como pensar a formação das coletividades como possíveis a par r de renúncias pulsionais , identificações coletivas e respostas ao desamparo259. Neste processo o líder se encontra no cerne destas questões sociais e políticas como um lugar de identificação e exclusão. Portanto podemos pensar que em Freud, as identificações coletivas e estruturas sociais se dariam em torno de um afeto principal e em relação à uma figura onipotente e de destaque: o Pai da horda em Freud denotaria nitidamente uma teoria teológica para sustentar as formações coletivas, estruturas sociais e figuras de liderança. ”

 

apresentação livro

A palavra

4 abril, 2017 às 09:40  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Nem toda palavra é digna de entendimento.
Nem sempre a palavra consegue elaborar uma experiência.
Nem sempre a palavra dá conta de um sentir. O sentir é absolutista.

A palavra é falha
é falo

Às vezes a palavra diz sem um querer dizer aquilo que quer dizer quando não o diz.

Sobre a relação homem e trabalho…

20 março, 2017 às 13:08  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“Não é possível, dentro dos limites de um levantamento sucinto, examinar adequadamente a significação do trabalho para a economia da libido. Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o individuo tão firmemente à realidade quanto à ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam eles narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira algum está em segundo plano quanto ao de que goza como algo indispensável à preservação e justificação da existência em sociedade. A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial se for livremente escolhida, isto é, se por meio de sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de impulsos instintivos persistentes ou constitucionalmente reforçados. No entanto, como caminho para a felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sob a pressão da necessidade, e essa natural aversão humana ao trabalho suscita problemas sociais extremamente difíceis.”

Este é um trecho de Sigmund Freud escrito em seu texto “Mal-estar na Cultura” sobre esta relação homem e trabalho. Ele refere-se ao trabalho como um “lugar seguro”.

“Mas na sociedade que vivemos hoje o homem se apropria de outros lugares que possibilitam o deslocamento dos componentes libidinais descritos. O que me faz pensar que houve um esvaziamento deste lugar”, um amigo sabiamente me questiona.

Não é o mesmo, concordo, mas será que houve um esvaziamento completo? Não estou convencido disso. Se eu te pergunto “quem é você?” Sua tendência é sempre recorrer a este tal local “seguro” para tentar me responder, ou seja, ainda é parte importante de nosso imaginário ainda. Esta relação vem para responder uma questão social (que também é individual ) do “quem é você”? A maioria das pessoas começarão a responder com o trabalho, ofício ou formação … Mesmo não se não atue ou se aproprie do lugar. É mais uma questão identitária ao meu ver. Eu sou a partir do que eu faço, ou seja, eu sou a partir desta relação imaginaria com este “lugar seguro”. Mas este lugar seguro deixou de ser seguro e passou a ser uma questão de angustia.

Sobre meninos e organizações.

17 março, 2017 às 06:30  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A história de como minha experiência com meninos de rua me ajudou a entender muito mais as organizações e seus atores que qualquer outro guru de BUSINESS.”

 Era meu primeiro dia de estágio em uma instituição que abrigava menores em de rua ou em sitação de risco na região metropolitana de Curitiba. Era meu último ano de formação no curso de psicologia e estaria alí uma, duas vezes por semana o ano todo. Era um local afastado da capital, uma boa viagem para ir e para voltar. Mal sabia eu que aquele local mudaria vida e minha forma de ver as coletividades.

Ao chegar, estava confiante, já me sentia um “psicólogo” e fizera planos para as atividades com os meninos. Eram meninos entre 08 e 13 anos e eu um estudante empolgado com um novo desafio.

Pensava eu que, ao chegar, os colocaria em uma “roda de conversa”, me apresentaria, diria o que estaria fazendo por lá e assim poderia os ajudar. Era o que eu acreditava.

Ao começar a falar, reparei que estavam dispersos, um questionou o outro, que o xingou, levantou e deu um soco no rosto do primeiro. Bem, eu estava a 10 minutos no local e já havia perdido todo o controle da situação (se é que em algum momento eu o tive). Em suma iniciei o dia conversando com 16 crianças e terminei com 09 (que não brigaram ou cometeram algum tipo de indisciplina).

Erro delas? De forma alguma. Meu trabalho começou totalmente equivocado. Minha pretensão de salvá-las era quase que patética, meu desafio real era abrir um ambiente de escuta, de projeção em forma de escrita, de desenhos, e deixa-las produzir alí seus conteúdos para tomarem posse. Nas semanas seguintes chamei uma a uma, separadamente e o desenvolvimento foi visível e fantástico. Em um ambiente seguro, o que elas desenvolveram e que tipos de sentimentos e afetos circularam era extraordinário.

De forma alguma as salvei, era muito pouco o que eu fazia alí, talvez o inverso tenha verdadeiramente acontecido. Elas, me ajudaram muito mais. Descobri algo que parece óbvio agora mas precisei sentir na pele para entender que isoladamente eram crianças que tinham medos, anseios, desejos, mágoas, carinhos como qualquer outra criança, mas que quando voltavam ao grupo voltavam a se portar como meninos de rua, agressivos, tentando não serem tragados pela instituição, pois esta era a única forma de reação que conheciam ou a única que funcianava em relação aos ambientes e situações hostis que bem conheciam.

Franco Basaglia publicou em 1985 o livro “A instituição negada” na qual relatava casos de pacientes em hospitais psiquiátricos que pode muito bem ser descolada para outros tipos de instituições. Ele diria que estas reações em grupo de agressividade e o que parece um sintoma poderia ser forma de resistir à mortificação, último recurso de produção de si mesmo. Este menino é já unicamente um corpo institucionalizado, que vive como um objeto e que, às vezes, tenta – quando ainda não está completamente domado – reconquistar mediante estas reações, aparentemente incompreensíveis, os caracteres de um corpo pessoal, de um corpo vivido, recusando identificar-se com a instituição, que lhe é negada – de forma concreta e explícita – a possibilidade de reconstruir um corpo próprio que consiga dialetizar o mundo.

Em minhas andanças depois pelas empresas e organizações hierárquicas não vi coisas muito diferentes disso, até porque se falamos de um adulto, executivo, empresário, também falamos com a criança que ele foi. “Raspem o adulto e encontrarão a criança”, diria Sandór Ferenczi, um dos mais íntimos colaboradores da psicanálise.

Ambientes hostis, até repressivos das organizações geram, de formas similares, reações, agressividades e outros comportamentos que não seriam aparentes individualmente. Falamos de um mercado que só exalta os fortes, onde não se pode ter medo, dúvida, angustia ou insegurança. Ou seja, não se pode ser humano.

O teatro das coletividades sempre nos faz reagir de forma melhor aceita ou adaptável ao grupo que estamos naquele momento e expõe nossas facetas do ego que já citei no post “O lado B”. Nunca eu sou 100% da mesma forma e em todos os ambientes, seria impraticável. O que para mim mostra a ineficácia das dinâmicas de grupo aplicadas em empresas ou instituições. Sempre agimos conforme acreditamos que o outro espera que reajamos ou apenas reagimos para não sermos fundidos com o grupo.

Twitter: @wmaccormick

Normalidade…

29 novembro, 2016 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”. (Lacan)

A normalidade como um ideal é uma adaptação patológica e sintomática à uma cultura que exige um perfil médio, medíocre.
A normalidade também necessita de tratamento… por isso se faz necessário falar.
Falar para tentar elaborar…
Falar para tentar tomar posse de algo já teu.
Mas que em ti, esse algo causa.

Só o são é capaz de enlouquecer e, por vezes, são até necessárias pequenas loucuras para viver “são”.

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura.” (Nise da Silveira)

Às vezes a loucura mesmo é ter aquela cega convicção de sua própria “normalidade”.