O suicídio e a mídia

27 abril, 2017 às 18:08  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*João Luiz da Fonseca Martins

Nas últimas duas semanas a mídia e as redes sociais foram inundadas de artigos e comentários sobre duas situações específicas que têm em comum o suicídio como pano de fundo.

Primeira situação: O desafio da baleia azul.

Jogo originado na Rússia e caracterizado por 50 desafios dados pela internet ou através de mensagens pelo celular. As etapas devem ser cumpridas uma a cada dia. Essas tarefas trazem aumento gradual de complexidade e devem ser executadas principalmente durante a madrugada. Apresentam como desfecho final a indicação para que o desafiado se suicide. As tarefas incluem assistir a filmes de terror, automutilações com gilete desenhando uma baleia no corpo, passar dias sem comer ou dormir, e por fim, suicidar-se.

Segunda situação: Seriado exibido na Netflix chamado “13 reasons why”. Na tradução ao português para “13 porquês”.

Baseado no livro homônimo de Jay Asher, o seriado conta, através de 13 fitas cassetes, os motivos que levam uma adolescente a cometer suicídio. A série tende a culpabilizar ao longo dos episódios os amigos da adolescente e a escola como motivadores para o ato e deixa de lado grande parte do sofrimento vivido pela personagem principal da série.

Adolescentes que buscam sentido para sua vida em vão, que passam por algum sofrimento (tristeza, choro fácil, isolamento social, desinteresse por atividades cotidianas, bullying, ansiedade, insônia, perdas, uso de drogas, etc) e que não têm suporte familiar estão mais suscetíveis a serem enganados e manipulados por estas situações.

Seja pelo desafiante do jogo russo ou a ser instigado pela personagem Hannah Baker da série, o suicídio tende a ser uma fuga do adolescente para seus problemas cotidianos.

A principal orientação atual é voltada para os pais de adolescentes de 13 a 17 anos de vida. Fiscalizem celular, computador e programas que os filhos assistem. Sente e converse sobre o tema. Assistam o seriado juntos. Buscar suporte psicoterápico e/ou medicamentoso é fundamental quando há presença de algum sofrimento psíquico como os descritos acima.

*João Luiz da Fonseca Martins é médico especialista em atendimento psiquiátrico emergencial e hospitalar na clínica psiquiátrica UNIICA – Unidade Intermediária de Crise e Apoio à Vida.

Uma nova concepção de gestão de carreira

25 abril, 2017 às 14:44  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster 

Estamos passando por momentos de discussões sobre mudança na legislação trabalhista e o modelo de previdência. Temos motivos para questionar, aprovar ou reprovar o que está sendo pensado e proposto. Podemos nos sentir injustiçados, prejudicados e temerosos quanto às cenas dos próximos capítulos. Muitas perguntas e inquietações podem tirar o sono daqueles mais ansiosos, ou com tendências a preocupar-se exageradamente com suas vidas. Entretanto, em um sentido mais amplo, o que vemos no mundo de hoje e não somente no Brasil é que mudanças são inevitáveis diante de uma realidade tão inconstante, caótica e desgastante. Refletir sobre gestão de carreira deveria ser uma estratégia para todos aqueles que desejam ter maior autonomia sobre as suas vidas profissionais, sem que as mudanças gerem instabilidade e desconforto ao longo do tempo. Assim, o objetivo deste texto é refletir sobre carreira, independente das regras governamentais, desconsiderando ideologias políticas. O foco é pensar na realização e no potencial verdadeiro daqueles que trabalham.

Do ponto de vista psicossocial, pensar em um ser humano com 60 ou 65 anos que deveria se aposentar é um grande erro. A reinvenção da qualidade de vida permite que pessoas nesta faixa etária estejam mentalmente e fisicamente saudáveis e, inclusive, mais resistentes e experientes para contribuírem nos mais diferentes cenários. O conhecimento tácito, adquirido apenas quando se vive a vida como ela é, oferece um potencial extraordinário para o desenvolvimento de novas ideias, novos processos e estratégias mais sustentáveis. Aliás, apenas a vida como ela é permite entender o significado de sustentabilidade. Entretanto, durante muitos anos, mais fortemente no Ocidente, aprendemos que a partir de determinada idade somos descartáveis. Em outras palavras, é como se tivéssemos prazo de validade. Idosos no Brasil são enquadrados nesta faixa etária e tratados como se não fossem mais capazes de procurar uma vaga para estacionarem, de caminharem um pouco mais caso estacionem mais longe, de ficarem de pé em uma fila de banco ou em uma farmácia. Claro que existem casos e casos, mas no geral, pessoas entre 60 e 65 anos estão muito bem. Em países europeus, onde os idosos estão em grande número, os tratamentos especiais começam em idade bem mais avançada. Do ponto de vista psicológico parece promover efeitos benéficos.

Até há alguns anos, a gestão de carreira limitava-se a pensar na vida profissional de um indivíduo até a sua aposentadoria. Poucos, muito poucos, faziam de suas vidas um algo a mais. Entretanto, verdade seja dita, a depressão e a falta de identidade profissional fizeram de muitos aposentados “jovens” pessoas doentes. Mesmo aqueles com boas condições financeiras, simplesmente pelo fato de não terem mais um significado social, viram-se emocionalmente incapazes de fazer algo com as suas vidas. Tal percepção é tão verdadeira que, no Brasil, o foco de Marketing para a 3a. Idade encontra-se até hoje em campanhas de prevenção de doenças e programas de descontos em farmácias e outros segmentos de lazer pouco relevantes. É a cultura da vitimização, onde é mais cômodo adoecer do que valorizar o potencial deste público. Outra questão relevante é que aos 60/65 anos além da perda do papel profissional, muitos passam pela síndrome do ninho vazio, onde se veem totalmente sós, já que seus filhos foram correr atrás de suas vidas e não mais fazem parte daquele ambiente familiar. Alguns “idosos” voltam a se sentir úteis quando podem dedicar-se aos netos e encontram nova função em suas famílias, no entanto, poucos buscam uma realização em si e para si, como se não fossem mais merecedores de um projeto de vida pessoal e/ou profissional.

Recentemente, falar em gestão de carreira ganhou um novo enfoque, é pensar mais em si mesmo, na sua realização, no seu existir e interagir com empresas e pessoas para que resultados sejam alcançados igualmente para todos os envolvidos. Não há limite de idade, não há a concepção de que parar de trabalhar é algo obrigatório ou que deva acontecer em dado momento. Não é questionar a remuneração ou o cargo que você ocupa, nem tampouco perguntar por que a empresa não se preocupa com você. É simplesmente descobrir o seu próprio valor, significá-lo para si mesmo e buscar um lugar e um espaço onde o seu potencial seja totalmente aproveitado. Esta nova maneira de pensar traz a você mesmo uma necessidade contínua de existir e buscar alternativas relevantes para a sua vida profissional. Reinventar-se diariamente e garantir que resultados sejam alcançados pelo seu próprio esforço, traz o sentimento concreto de que você é capaz de fazer por si mesmo, sem que dependa do desejo de terceiros.

Se você é demitido por uma reestruturação, se você não é promovido onde trabalha ou se não há reconhecimento pelas atividades que realiza, nada disto deveria refletir negativamente na sua gestão de carreira. Você pode estar no lugar errado, desempenhando atividades não compatíveis com seu perfil ou integrando uma equipe que impede você de dar os seus 100%. Quando você mesmo é capaz de perceber que seu potencial não está sendo usado integralmente, automaticamente estimula a si mesmo a criar alternativas e a buscar cenários onde não apenas há um incremento de desempenho, mas também maior condição de saúde mental e melhor remuneração, além de maior sustentabilidade para a sua vida profissional. Este novo olhar desconecta o indivíduo de expectativas externas, quer seja governo ou empresa. A sua aposentadoria formal não o limita, não o significa. A sua demissão não o impede de ser alguém na vida. Simplesmente há uma mudança de percepção onde, descobrindo quem você é, qual o seu diferencial estratégico e como pode ser verdadeiramente reconhecido e valorizado, traz em si um domínio sobre a própria vida.

Esta maneira de pensar, embora necessária, não é muito estimulada, principalmente em países como o Brasil. A cultura da acomodação, da dependência de outros, da doença psicológica favorece e muito o controle social. Toda vez que aprendemos a culpar os outros, entramos em um ciclo onde nossa autoestima e reconhecimento caem a tal ponto que simplesmente desacreditamos.

Então, para que uma nova e atual gestão de carreira possa existir, precisamos seguir alguns passos importantes:

1) Cuidar da nossa saúde física e mental, não parar de querer aprender mais, conhecer o novo e inovar. Usar o passado como fonte de aprendizado e não como arrependimento ou lamentação.

2) Olhar a nossa família e nossos entes queridos como pessoas que fazem parte da nossa vida, mas não como pessoas que devemos depender delas para ter significado por papéis desempenhados. Fizeram parte de nossas escolhas e são relações humanas que podem contribuir para a nossa qualidade de vida, mas cada pessoa deve existir por si.

3) Olhar a empresa onde trabalhamos como parceira temporária e não como casamento eterno e incondicional. Enquanto for bom para ambas as partes, perfeito. A partir do momento que estiver prejudicando uma das partes é hora de mudar.

4) A sua carreira depende apenas de você e de mais ninguém e trata-se de um projeto para a vida inteira. É o melhor presente que você pode dar a si mesmo ao final da sua vida. Um equilíbrio entre vida pessoal e profissional, resultados que obteve pelo seu próprio empenho e esforço, o reconhecimento pela sua realização. De resto, o que vier a mais é lucro, mas não espere nada de ninguém.

5) A sua vida só fará sentido se você trouxer as lutas diárias como parte de seu processo de construção sustentável. Permita-se reerguer, andar com a cabeça erguida, porque lá na frente é isto que proporcionará menos visitas a farmácia e mais possibilidades de aproveitar seu máximo potencial.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Psicopatia ou Sociopatia, porque precisamos falar sobre isso?

18 abril, 2017 às 10:10  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*João Luiz da Fonseca Martins

A notícia da liberdade provisória do ex-goleiro do Flamengo Bruno, quando vinculada na mídia recentemente, acusado de ser o mandante do assassinato de sua ex-namorada, fez com que várias pessoas ficassem revoltadas com a justiça e a possibilidade de convivência em sociedade com uma pessoa que supostamente pode ter um transtorno mental. Entretanto, a relação com pessoas com esse comportamento é mais frequente do que se imagina.

Cada indivíduo é considerado único como pessoa, mas podemos classificá-los dentro de modos comuns de agir frente a situações cotidianas.

Existem 9 principais subdivisões de personalidades na classificação internacional de doenças. Não necessariamente isto requer tratamento e varia de acordo com a intensidade de sintomatologia presente e o dano verificado com o modo de funcionamento do indivíduo.

Muitos desconhecem os significados das palavras acima, porém ambas se referem a mesma doença. Estes termos foram cunhados de um dos nove distúrbios de personalidade, chamado de antissocial ou dissocial.

Ele está presente em 1% da população geral e em 40% da população carcerária. Coloco os dados estatísticos acima, pois as pessoas não têm a percepção do quanto este modo de funcionamento dos indivíduos com esta patologia está próximo a elas.

As principais características das pessoas com esse padrão de funcionamento são um egocentrismo patológico (pensamento centrado no eu e em suas vontades/desejos); falta de empatia (de se colocar no lugar de outra pessoa/falta de consideração pelo sentimento alheio); baixa capacidade de tolerância à frustração; desprezo por regras, leis e obrigações e isto pode frequentemente levá-las à terem problemas de ordem legal. São indivíduos com muito poder de sedução e manipulação e agem de forma cínica em busca de sua satisfação pessoal.

São pessoas que conquistam lugar de destaque na sociedade e ocupam cargos importantes/influentes (advogados, médicos, empresários, engenheiros e principalmente políticos). Portanto são formadores de opinião, de regras e leis.

Cito exemplos frequentes no cotidiano para ilustração.

1- Colega de trabalho que entrega ao chefe/superior na empresa, algum comentário maldoso que outro trabalhador com cargo mais elevado que o seu, proferiu em conversa informal, com intuito de conquistar o lugar deste na empresa, obtendo assim crescimento interno e valorização salarial.

2- Pais separados e um dos genitores constantemente exerce influência negativa sobre os filhos ao falar de forma constante e depreciativa do ex-cônjuge com intuito de afastá-lo do convívio com o menor.

3- Político que se envolve em negociações fraudulentas para ganhos financeiros maiores e sem dor na consciência se isso fará os alunos de escola, por exemplo, ficarem sem merenda.

Ações de mentiras constantes, impulsividade, envolvimento com drogas, crime organizado, roubo, prostituição, maus tratos a animais, ausência de remorso, irresponsabilidade e irritabilidade são muito frequentes no desenvolvimento do indivíduo sociopata até a fase adulta. Lembro que não há necessidade de todos estarem presentes, apenas alguns destes podem ser observados.

Dentre as principais causas são encontrados fatores genéticos e abusos na infância (maus tratos, desprezo de familiares, desamparo, humilhações, estupro,…). Alterações comportamentais são frequentemente identificados através de atitudes agressivas verbais e físicas para com familiares e terceiros, impulsividade e inadequação social.

O tratamento é indispensável, porém ainda pouco utilizado por falta de conhecimento e obrigação. A sociedade tem dificuldade em identificar pessoas com esse padrão de funcionamento e quando ocorre a percepção não vêem como doença e sim como pessoas aproveitadoras ou maldosas.

A lei não impõe o tratamento psiquiátrico a estes indivíduos presos ou em liberdade condicional.

O tratamento deve ser feito com a possibilidade de uso de vários medicamentos visando controle de impulso, aquisição de tolerância, promoção de empatia e adequação às regras legais. A psicoterapia é fundamental para conscientização e promoção do ajuste de conduta com a determinação de limites rígidos. A divulgação destas informações e a procura por atendimento especializado é fundamental.

Não conseguiremos formar uma sociedade melhor se formos influenciados ou regidos por pessoas com este padrão de funcionamento.

Onde estão nossos talentos? Como perdemos o seu potencial nas organizações?

11 abril, 2017 às 15:46  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

Todo processo seletivo envolve um perfil profissional que, muitas vezes, envolve pré-requisitos bem exigentes. É comum a busca por talentos, aqueles que diferenciam-se dos demais porque denotam experiência, maturidade, visão estratégica e até mesmo competências comportamentais relevantes que, muito provavelmente, aumentam a chance de sucesso do indivíduo dentro da organização.

Sabe-se que encontrar este talento não é tarefa fácil. Ele não necessariamente tem mais cursos, mais pós-graduações, mais idiomas ou mais experiência que outros. Mas, ele tem a capacidade de unir teoria e prática, de significar o conhecimento apreendido em prol de solução de problemas e novas ideias. Isto significa que talento não é um executor, mas sim um transformador, um articulador e um criador de soluções e inovações.

Por que é tão difícil encontrar talentos? Eis alguns pontos de reflexão:

  1. Pais que educam seus filhos para serem iguais a maioria, discriminando comportamentos diferentes do padrão aceito e sem envolvimento afetivo com seus filhos;
  2. Professores e educação condicionadora que valoriza o desempenho pelas tradicionais avaliações, sem dar espaço ao poder da criatividade que a criança demonstra desde muito cedo;
  3. Uso da tecnologia como forma de massificação e não de diferenciação;
  4. Uso de redes sociais como forma de alienação e não de network inteligente;
  5. Repetição e reprodução de modelos internacionais sem reflexão crítica de seus significados para a cultura brasileira;
  6. Pouco estímulo à consciência crítica;
  7. Excesso de estímulo ao consumo desenfreado de tudo o que é “moda”, sem personalizar o conceito;
  8. Foco na superficialidade, não significando relacionamentos perenes profissionais ou não;
  9. Foco na aparência, perda da estrutura de valores;
  10. Pouca preocupação com a consistência.

 

Agora, quando encontramos os talentos, por que simplesmente destruímos o seu potencial dentro de uma organização?

 

  1. Quando o foco da gestão está em enquadrar o profissional para que ele execute e não pense suas atividades;
  2. Quando há maior preocupação com o número de horas gastas para o desempenho de uma atividade e não a qualidade da atividade realizada;
  3. Novas iniciativas são negadas direta ou indiretamente;
  4. O cartão ponto ou o controle tem maior relevância do que os diferenciais estratégicos do indivíduo;
  5. A atividade em si não é percebida pelo indivíduo como fazendo parte de um processo, de um todo importante;
  6. Apenas a voz da gestão é ativa;
  7. A Gestão é incapaz de absorver novos modelos para alinhá-los à realidade organizacional, demonstrando incoerências em processos, principalmente os relacionados ao desempenho;
  8. A política predomina a competência;
  9. Não há preocupação com consistência profissional, entregas medíocres no prazo são mais valorizadas que entregas acima da média;
  10. Comportamentos anti-éticos sobrepõe à ética pessoal e profissional.

 

Talvez seja o momento de estimularmos novos talentos e também de valorizarmos aqueles que já existem. Diante de um país como o nosso, em que novas soluções, novas ideias e projetos precisam surgir para que possamos fortalecer nossas organizações e nossa cultura como um todo, há de se despertar para mudanças mais profundas e transformadoras.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Borderline no mundo corporativo

2 março, 2017 às 15:24  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

O mundo corporativo tem lá as suas peculiaridades. Existe uma série de requisitos que são naturalmente exigidos em função do pertencer a uma cultura organizacional que apresenta as suas características próprias. Existem as regras e normas que ditam o certo e o errado, o desejável, o aceitável ou até mesmo o que é mandatório. Entretanto, o foco deste artigo é desvendar idiossincrasias do comportamento humano no mundo do trabalho. Sem generalizar, podemos falar daquilo que é comum, compartilhado por muitos e que geram incômodos e até mesmo conflitos nem sempre revelados, mas podem comprometer a saúde mental daqueles que são pessoas comuns em busca de um equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal.

Para esta abordagem, o foco será alguns personagens caricatos que, por motivos diversos, minimizam seus colegas de trabalho. Pessoas que são incapazes de entender conceitos como respeito, limites, empatia e senso coletivo. Os denominados Egos inflados, que simplesmente acreditam que as suas verdades, suas crenças e valores são absolutos e portanto, os seus desiguais precisam passar por discursos e cursos específicos para enquadrarem-se ao que consideram o perfil desejado. Mas pera lá? Parece haver uma certa falta de coerência nisto tudo. Aonde está a liberdade individual? Não se trata de um contrato de trabalho, mas sim de um pacto imposto por estes Egos soberanos. Os famosos “birrentos” que precisam de seus desejos atendidos, sendo até mesmo mais importantes que a própria organização.

Estes personagens caricatos podem ser facilmente detectados. Os sintomas de que você é vítima de algum destes tipos são os seguintes: sensação de sufocamento, dificuldade de expressar-se com naturalidade, de falar o que pensa, de se comunicar da maneira que acredita, de fazer as suas próprias escolhas, sejam elas pessoais ou profissionais. Você está totalmente alinhado à cultura da sua organização, mas mesmo assim sofre preconceito, não é aceito e, muitas vezes, é ignorado ou rejeitado. Neste sentido entra a denominação do Borderline no Mundo Corporativo. É a luta contínua entre manter o equilíbrio, ser o desejo do outro e esquecer de si mesmo, apenas para ser aceito ou enfrentar estes Egos e enfrentar as consequências. Afinal, quem já não quis reagir, de forma aberta, expondo agressivamente o seu descontentamento. Quem já não quis esbravejar diante da prisão emocional? Quem já não preferiu trocar de emprego, deixar seu trabalho de lado, simplesmente para resgatar seu bem-estar? Quem já não lutou para voltar a existir?

Diante da impossibilidade de negar que tais fatos ocorrem e tais sentimentos surgem, algumas perguntas aparecem. Quem são os culpados? Existem vítimas? Como sair deste sistema, muitas vezes doentio e cíclico? Eis então uma breve consideração sobre cada uma delas.

1.A culpa está na falta de conhecimento e reconhecimento de que inexiste alguém perfeito e verdades absolutas. A complementariedade gera eficiência e resultado. A integração requer diferenças/diversidade. Perceber falhas e limites é sinal de grandeza e certamente gera desenvolvimento autêntico das pessoas. Precisa de muita coragem e maturidade para olhar para si mesmo e para os outros a partir desta lente.

2.Podemos ter vítimas temporárias, aquelas que em um momento inicial questionam a si mesmas, se veem inferiores por serem tratadas com demérito. Entretanto, gradativamente, conforme analisam tudo com maior racionalidade, apreendem o quanto estão se preocupando de forma desnecessária diante de pessoas inseguras que precisam da autoafirmação. Os compadres e comadres de plantão, aqueles que sabem tudo, os “puxa-sacos” ou os “despersonalizados”, todos na essência são incapazes de dizer um “não sei”, ou um “preciso de ajuda” ou um “desculpe, errei”. Preferem delatar colegas, encontrar culpadas que justifiquem seus erros. Estes comportamentos observados rotineiramente, permitem às vítimas temporárias resgate da estima e mudança de atitude.

3.Este sistema é mais comum em ambientes onde há menos profissionalismo e depende mais da política onde prevalece interesses pessoais, troca de favores e o foco, muitas vezes, extrapola a competência. Mas, em qualquer ambiente, mais ou menos vulnerável, cabe a você mesmo escolher não fazer parte de algo que gera apenas ônus a sua vida profissional e pessoal. Buscar novas alternativas de trabalho pode ser saudável, mas o mais importante é fortalecer o seu emocional e ter o domínio sobre o que acontece naquele ambiente onde está inserido. A compreensão racional dos fatos certamente colabora para a sua saúde mental.

Lembre-se, viver pressupõe uma série de experiências e realizações, erros importantes que geram aprendizados para o médio e longo prazo. Deixar de valorizar o que você desenvolveu em toda a sua trajetória, desacreditar de si mesmo diante da discriminação, apenas fortalecerá aqueles que escondem-se por não quererem aprender. Em qualquer relacionamento, somos incapazes de mudar os outros, mas podemos nos tornar pessoas melhores, mais preparadas e fortalecidas todos os dias. Basta manter a consciência ativa.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

O demônio do excesso está entre nós

21 fevereiro, 2017 às 13:34  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

Nas suas Meditações Metafísicas, René Descartes formulou uma hipótese segundo a qual um gênio maligno, “ao mesmo tempo sumamente potente e enganoso” emprega todo o seu talento para nos fazer acreditar em suas ilusões. Segundo o filósofo francês, o demônio da ilusão é um habitante malicioso de nossas mentes e quem não se dá conta dele, acaba vítima de suas armadilhas.

Ora, nunca esse demônio foi tão forte e fraudulento como nos nossos dias. E seu nome é excesso. Não só o excesso de coisas, mas o excesso de experiências, o exagero e a superfluidade das relações que estabelecemos com as coisas e com as pessoas. Como demônio, o excesso vive na fluidez do mundo e se alimenta na demasia e na fartura das ofertas e das possibilidades, na overdose que leva à redundância e ao cansaço. Vivemos o tempo em que tudo parece ter sido dito no tom da imoderação e em que tudo parece ser feito segundo a lógica do descontrole, da intemperança e do descomedimento. Como resultado, somos incapazes de transformar nossas experiências cotidianas em algo significativo, que conte como parte de nossa própria biografia. Não fazemos mais nada como se fosse a última vez, como sugeriu Chico Buarque na sua Construção. Na verdade, o nosso é o tempo da desconstrução e ela é fruto da perda de sentido e da banalização da vida ordinária. E todos sabemos que a desconstrução é o reino dos destroços, da ruína e do lixo, que são detritos do excesso. Quando voltamos para casa, à noite, voltamos esfolados pela “mixórdia de eventos” (para usar uma expressão de Giorgio Agamben) que somos incapazes de transformar em parte de nossa história pessoal, dada a má qualidade dessas vivências e a sua insignificância. Vivemos o tempo da banalidade, do cotidiano fraco, das coisas comuns e, consequentemente, da falta de sentido histórico e da hibernação do senso crítico. Pouca coisa nos afeta profundamente. Nenhum poema nos emociona. As cenas da vida, as pessoas que importam e os prazeres que seduzem se perdem no meio de todos os experimentos. Estamos mesmo amortecidos pelas ilusões do marketing, pelos slogans dos políticos, pelo tom impessoal das reportagens, pelo marasmo dos jornalismos e todas as suas disciplinas de senso comum.

O excesso é um demônio perigoso. Primeiro porque ele induz à busca pelo extraordinário. Como o cotidiano já não nos satisfaz, queremos encher as nossas malas com o que parece prodigioso e admirável. Tal raciocínio nos leva à caça de algo que sempre está além da realidade cotidiana. Enquanto essa é deixada de lado, a gente se estapeia em busca de um ângulo original para a foto, ao tempo em que a paisagem nos escapa. Escapa o amor que está ao nosso lado enquanto esperamos pelo surpreendente de alguém que há de vir. Escapa o abraço do amigo que temos enquanto estalqueamos perfis nas redes sociais em busca do que não temos. Escapa o principal enquanto compramos o supérfluo, enchemos nossas casas com todo tipo de cacareco, nos quais pretendíamos encontrar o maravilhoso e o magnífico, mas onde reside apenas o “normal” e, por isso, o frustrante. Em resumo, nossa relação com as coisas está guiada pela insatisfação porque somos incapazes de aproveitá-las adequadamente como parte de nossa experiência vital. Queremos das coisas o que elas não podem dar simplesmente porque, iludidos pelo demônio do excesso, não vemos o que elas oferecem de fato. Queremos das pessoas virtudes que elas não têm, enquanto fechamos os olhos para aquelas que elas possuem.

O segundo perigo do demônio do excesso é a crueldade. O enfraquecimento das experiências cotidianas e a busca pelo extraordinário levam à imoderação e ao desregramento. Descomedidos, rendemo-nos facilmente não só à falta de senso crítico, mas também à violência, às barbaridades, aos abusos, preconceitos e todas as formas de desumanidade que, infelizmente, medram em meio às nossas brutalidades cotidianas. A atendente do supermercado não retribui o bom-dia. O motorista no trânsito não cede um milímetro do espaço que é seu. O chefe não fala senão para criticar. Mata-se por nada. Rouba-se por tudo. Invade-se, quebra-se, esquarteja-se. Polui-se o rio, não se separa o lixo, não se preocupa com nada. O gênio maligno do excesso nos faz acreditar que nada tem jeito, que não vale a pena, que não tem saída senão pela via da agressão, da ameaça, do grito bárbaro.

O antídoto ao demônio é o exame da consciência, a manutenção do senso crítico, a vigilância e a atenção redobradas. Sendo falíveis, facilmente nos deixamos enganar e, para evitar o pior, precisamos praticar constantemente o exame dos nossos pensamentos e realizar a higiene espiritual capaz de limpar a nossa mente daquilo que nela é o veneno do engano e do erro que podem conduzir à cegueira que abastece a barbárie.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

A importância de viver e experienciar a realidade

14 fevereiro, 2017 às 08:47  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

Somos chamados diariamente a viver no mundo da ilusão. Os artifícios que existem nos dias de hoje são diversos. Maquiagens, corretivos, aplicativos, modas/tendências, ideologias sociais e corporativas, tudo nos leva a buscar uma imagem pessoal, social e profissional que de alguma forma nos permite sermos aceitos, sermos iguais.

A virtualidade nos distancia de apreender o significado do real. Ela, inclusive, nos traz a falsa percepção de que o real faz mal, causa dor e, portanto, deve ser eliminado. A nítida percepção do conceito da derrota ou do fracasso é evitada a todo momento. O esforço e o aprendizado são simplificados e dão lugar a acomodação ou à terceirização das responsabilidades. Precisamos voltar a viver e compartilhar o real.

Educar nos dias de hoje é substancialmente uma tarefa árdua. É confrontar virtual x real. É significar e re-significar. É permitir abrir-se ao novo, mas manter a integridade daquilo que chamamos de experiência de vida. É assumir erros, compartilhar fragilidades, demonstrar fraquezas, tudo como processo de evolução, afinal ser humano significa ter limites, aprender com eles e buscar supera-los.  Lembrando que amadurecer não é uma receita com ingredientes certos, temperatura ideal e tempo definido.

Como pais precisamos rever a necessidade de sermos infalíveis, aqueles que impedem seus filhos de entender o que significa ter um problema, administrar um conflito, fazer as próprias escolhas e errar. A nossa infalibilidade gera jovens dependentes, imaturos e sem comprometimento. Distancia a percepção da realidade. Damos a falsa impressão de que tudo pode ser resolvido sem esforço. Reforçamos a ideologia das redes sociais. Entregamos os jovens à inconsciência.

O mundo é instável, dinâmico, confuso e exigente. A sociedade é complexa, perversa e incoerente. As pessoas são inseguras, buscam a aparência e não a essência. A falta de exposição ou mais claramente falando, a não constatação da vida como ela é, apenas retarda um processo inevitável que é assumir a responsabilidade por si mesmo. É se olhar no espelho, sem máscaras, maquiagens, corretivos ou aplicativos. É olhar a realidade e a sociedade sem filtros e com diferentes lentes. Vamos viver, errar e compartilhar, aprender e compartilhar, acertar e evoluir.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Quando tudo deu errado, é momento de fazer dar certo

31 janeiro, 2017 às 13:50  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

 Você já pode ter colocado vários objetivos na sua vida e ter se frustrado diante da falta dos resultados, por não colocá-los em prática ou pelos resultados serem inferiores aos desejados. E pior que isto, existem algumas metas de vida que parecem impossíveis diante do retorno obtido ser totalmente diferente do imaginado.

Exemplificando na prática, temos as famosas dietas, o inglês que nunca se torna fluente, o desempenho acadêmico ou escolar que não é o adequado, a busca por um emprego melhor, a realização pessoal, o relacionamento amoroso verdadeiro, enfim são inúmeros os casos que geram culpa, arrependimentos diante da simples acomodação de não buscar mudanças internas ou até mesmo externas.

Explico melhor: o ser humano é padronizado. De forma mais ou menos consciente. Desde muito cedo recebemos uma carga de comportamentos que reproduzimos sem questionamentos. Conforme crescemos, em contato com o meio que nos cerca, criticamos ou não nosso modo de ser e gradativamente chegamos a nossa identidade. O que não percebemos é que, muitas vezes, estamos presos ao coletivo e isto nos limita a reproduzir estratégias adotadas pela maioria, estratégias institucionalizadas ou já aprovadas por outros. Esquecemos que nós, muitas vezes, precisamos refletir sobre nossas próprias estratégias.

Traduzindo, se você adota o plano do livro best-seller, a estratégia da sua melhor amiga ou amigo, do seu superior ou par no trabalho, ou do seu professor, mas continua não atingindo o objetivo, não significa que você é um fracasso. Também não é culpa do livro, dos seus amigos, superiores/pares, ou professor que passaram a receita de sucesso pela metade ou de forma incompleta. Está faltando apenas maior atenção e maior senso crítico em relação à sua identidade. Aonde ela se encaixa nestas receitas “infalíveis”.

Conclusão, não tenha medo de errar, mas caso aconteça busque novos erros, amadureça a sua identidade. Busque novos desafios e estratégias mais compatíveis com seu próprio eu. Abra-se a novos aprendizados que gerem mudanças e novas perspectivas. Reveja as suas metas para que elas sejam realistas e permitam que você encontre seu próprio tempo, seu melhor lugar no mundo, quer seja ele pessoal ou profissional. Não tenha medo de ser diferente do senso comum, aí pode estar a chave para seu sucesso.

Agora, o mais importante. Não culpe ninguém pelas suas derrotas ou fracassos. Isto significa que você delegou a sua vida a terceiros e, sinceramente, este é um risco muito grande a médio, longo prazo. Empodere-se e lute as suas próprias batalhas! Ganhando ou perdendo, você sempre conquistará algo impagável: a sua própria evolução.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Vivendo o luto das demissões

20 dezembro, 2016 às 09:27  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

O ano de 2016 termina diferente! Depois de tantas crises e escândalos nos cenários políticos e econômicos, o que ficou foi a sensação de que vivemos sufocados em problemas que contaminam os círculos sociais e profissionais. Certamente a virada de ano nos remete à esperança, mas não podemos simplesmente fechar os olhos à turbulência que nos aflige e nos paralisa diante de um 2017 não muito animador.

Um dos temas que mais assombraram a população brasileira foram as demissões. Até mesmo as organizações mais estáveis sofreram o impacto da crise e repensaram fortemente suas estratégias, o que afetou diretamente a força de trabalho. O que todos esquecem é que, atrás de cada demissão, existe um significado simbólico que é diferente para cada indivíduo. Além disso, existe o reflexo para aqueles que permaneceram na organização, mas nem por isso conseguem conservar seu controle emocional e dificilmente mantêm um clima organizacional saudável.

Vamos então refletir um pouco sobre o significado da demissão. Independente do motivo, o processo de desligamento nunca é confortável para os envolvidos. É uma ruptura de um relacionamento que, invariavelmente, condiciona a vida do indivíduo como um todo. O luto da demissão começa logo no primeiro dia, quando os horários, as atividades e os objetivos tornam-se inexistentes. A pessoa percebe que boa parte da sua existência estava destinada à organização onde estava inserida. Até mesmo sua vida pessoal parece não funcionar mais da mesma forma.

Vivenciar o luto é necessário, imprescindível para continuar. Analisar a si mesmo, principalmente no sentido de reconhecer a sua existência, os seus valores, as suas competências e conhecimentos de tal forma que se torna possível criar novas alternativas. Uma boa reflexão pode inclusive promover cenários profissionais mais saudáveis, atuação profissional mais consciente e percepção de realização pessoal e profissional. O importante é entender que sim, trabalhar é importante, mas muitas vezes não damos o nosso melhor ou não nos realizamos verdadeiramente porque não estamos no lugar certo. Que tal aproveitar este luto para nascer aquele profissional que você sempre quis ser?

Outra dica valiosa, aprendida ao longo de 2016: não espere pelos outros, não espere o mercado melhorar, nem tampouco as oportunidades surgirem, faça você, por você e para você! Demitido ou não, é momento de dar o seu melhor, de demonstrar seu potencial e fazer acontecer.

Um feliz ano novo e boas festas!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Sobre a boa forma de disputar

7 dezembro, 2016 às 08:51  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

No início do seu “poema didático” O trabalho e os dias, uma das obras mais importantes da literatura universal, Hesíodo apresenta duas formas de disputa (ou de guerra) por meio da boa e da má-Éris, a deusa da luta. O contexto da obra é muito claro: Hesíodo dedica os 828 versos desse livro ao seu irmão Perses, com quem mantinha uma querela em relação à distribuição desigual da herança paterna. O pensamento nasce no contexto existencial de uma dor diante da relação com seu irmão.

Hesíodo começa aclamando Zeus como a divindade diante da qual “homens mortais ficam igualmente sem fama e famosos”, já que ele “facilmente fortalece”, mas também “facilmente os fortes esmaga”, diminui arrogantes e pretensiosos, exalta humildes como bem entender (uso aqui a tradução de Alessandro Rolim de Moura; Curitiba, PR: Segesta, 2012, que está disponível na internet). O sentido do verso inicial é claro: humanos, deixem de bobagem, Zeus está acima das vossas vãs disputas! É no terreno humano, contudo, que os dois tipos de Lutas estão situados, com ânimos diversos. Éris, afinal, na sua face dupla, representa os impulsos que são nossos e que estão por aí, em todos os ambientes onde somos… humanos. Uma de suas faces é louvável; a outra merece censura.

A má-Éris promove a guerra maldita e a disputa cruel, que anula a alteridade, que pretende aniquilar o inimigo e que, por isso, espalha terror e infelicidade sobre os terrenos. Dela vem a noite escura, o desarranjo das geografias, as piores depressões humanas, entre as quais está, para o camponês-poeta, a recusa do trabalho: o mau lutador, aquele que se deixa levar pela má-Éris, ao invés de trabalhar para alcançar as benesses do sucesso alheio, prefere o recurso da inveja, da maledicência, da diminuição do outro, da desvalorização do seu esforço. Perses, o irmão de Hesíodo, ao invés de trabalhar passa os dias enciumado e invejoso – Hesíodo o repreende por isso. Perses é aquele que “sente falta de trabalho ao olhar para outro que, rico, apressa-se a arar, plantar e administrar bem sua casa”. Perses passa os dias em litígios e discursos insuficientes, quando poderia, simplesmente, empenhar-se também ele, como “um vizinho procura igualar o outro”. A má-Éris se manifesta nesse agricultor que passa na roça do vizinho, vê as lavouras crescendo, as laranjeiras em flor, as vacas com leite, as crianças alegres no quintal e, por causa disso, sofre, e sofrendo, volta para casa e acende uma vela para que os deuses enviem uma tempestade que arrase plantações, seque úberes e quebre pernas de criancinhas indefesas. No final, o mau-lutador faz mal para a sociedade ao redor, porque seu desejo é sempre uma força negativa de destruição e seu esforço leva ao rebaixamento das forças vitais e ao nivelamento por baixo de todas as iniciativas que poderiam contribuir para o bem do grupo ou da sociedade. Quem trabalha com ele, quem faz divisa com suas cercas, quem se aproxima da sua vizinhança sofre o mau-hálito de sua inveja esnobe que seca tudo ao redor. Perto de gente assim, todos desanimamos, porque o elogio e o reconhecimento são o melhor elixir da vida social. E, sinceramente, eles não custam nada, não é mesmo?

Por isso, Hesíodo evoca uma outra forma de guerrear, pela qual a sociedade se “apressa em alcançar a fartura”: “o oleiro irrita-se com o oleiro, o carpinteiro com o carpinteiro; o mendigo inveja ao mendigo, o poeta ao poeta”. Mas essa irritação e essa inveja, própria de nossos atos (os gregos, em geral, não têm medo de reconhecer o que é próprio do humano), não precisam necessariamente levar ao desejo de aniquilação do outro. Ao contrário, o sucesso alheio deve ser incentivo para o nosso próprio trabalho. Se alguém está se saindo melhor do que eu, se alguém tem alcançado o que eu desejo, se as lavouras de meu vizinho andam mais produtivas do que as minhas, ao invés de desejar pragas e tempestades, talvez fosse mais interessante que eu me perguntasse o que eu deveria fazer para alcançar os mesmos índices. A inveja, nesse caso, pode ser uma boa energia, capaz de alavancar o sucesso não só dos indivíduos, mas de um grupo ou de uma comunidade, porque, no final, todos ganham com a boa-Éris fazendo da força do inimigo não um motivo de desavença, mas um impulso para o próprio êxito. Os gregos, não à toa, inventaram as olimpíadas para dar vazão à boa-Éris.

Nietzsche parece ter entendido muito bem a lição de Hesíodo e aproveitado dela na sua filosofia da amizade. Para o filósofo alemão, para sermos bons amigos precisamos aprender a ser, primeiro, bons inimigos, ou seja, lutar com boa-Éris. “Se se quiser ter um amigo”, escreveu Nietzsche no seu Assim Falou Zaratustra, “é preciso também guerrear por ele; e para guerrear é mister poder ser inimigo”. Porque não aprendemos a guerrear, também não sabemos amar. Com Hesíodo e com Nietzsche, não só entendemos que o amor não é o contrário do ódio, que não há nada de mal em invejar e disputar, mas sobretudo, que precisamos aprender a lidar com esses impulsos, tirando-lhes proveito.

PS: quer ler mais? Meu livro Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche é um mergulho no assunto.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).