O cachorro de Schopenhauer e a defesa dos animais

27 abril, 2016 às 18:02  |  por Fabiana Ferreira

O Papo Pet conta nesta semana com um texto especialmente produzido para o Blog pelo filósofo Jelson Oliveira, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR, autor do Coleção Sabedoria Prática e co-autor do livro Diálogo sobre o Tempo.  

Para Schopenhauer, o caráter de um ser humano se conhece pela sua capacidade de ser bom com os animais – e o contrário também seria verdadeiro: quem maltrata um animal não pode ser uma pessoa bondosa e de bom caráter.

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Não foram poucos os filósofos que se dedicaram à questão do animal. No geral, os interesses são de dois tipos: um mais teórico e outro mais prático. Na primeira perspectiva, aparecem questões como a diferença entre humanos e animais e o terrível paradoxo da impossibilidade de conhecermos o animal por ele mesmo, como se animalidade fosse um círculo impenetrável. Na segunda, despontam questões de cunho político e ético que dizem respeito ao que hoje chamamos de direitos dos animais.

Poucos pensadores articularam as duas questões de forma tão convincente quanto o alemão Arthur Schopenhauer. Para ele, a vida de todos os seres é marcada pelo sofrimento derivado de um egoísmo natural que o filósofo chama de Vontade. Essa força cega e insaciável seria, para ele, o fundo de toda realidade e estaria presente também em todos os animais na forma de desejo e carência. A Vontade crava as unhas na própria carne e faz de nossas vidas capítulos infindáveis de dores e sofrimentos. Schopenhauer nos conduz a um terreno de puro pessimismo: a Vontade é uma espécie de pêndulo entre a dor e o tédio e ela faz do sofrimento, o núcleo mais íntimo de todos os seres.

Porque a dor transpassa tudo o que vive, ela se torna o elo de ligação entre nós e os animais. Mas também é ela que nos torna capazes de entender o apelo dos animais e dirigir a eles a nossa compaixão. Para Schopenhauer o animal não está preso em um círculo fechado e inacessível. Ao contrário, porque sua dor é a mesma sentida por todos os seres humanos, estes estamos obrigados a proteger e garantir que os animais não sofram – porque o homem sabe o quão terrível e indesejável é sofrer. Compadecer-se é adentrar no círculo existencial do outro através da partilha da dor e, uma vez aí, ser capaz de suspender os próprios interesses (talvez até relativizar a própria dor) em função da dor do outro, colocando-se em gesto de ajuda. A compaixão nasce da certeza de que “sofremos COM ele [o animal], portanto EM sua pessoa”.

O que fazemos, contudo? Schopenhauer acredita que o homem é o ser mais maldoso entre os animais, porque ele é o único capaz de incutir dor de forma proposital e de maltratar por maltratar. E porque é assim, o homem precisa da moral e da lei, capazes de orientar as suas ações para a compaixão, que se torna o princípio central de sua proposta ética. Para Schopenhauer, o caráter de um ser humano se conhece pela sua capacidade de ser bom com os animais – e o contrário também seria verdadeiro: quem maltrata um animal não pode ser uma pessoa bondosa e de bom caráter.

Com suas ideias, Schopenhauer se fez um precursor da ética animal. Essas “almas flageladas” que rondam pelo mundo, aprisionados em estreitas celas para alimentação humana ou estendidas em mesas de vivissecção para o bem da ciência, emitem um apelo para o qual os seres humanos não podem ficar indiferentes.

Na prática, Schopenhauer teve forte interesse pelas sociedades protetoras dos animais que acabavam de surgir no seu tempo (o século XIX), a partir da Inglaterra. Teria se alegrado com notícias relativas à punição dos agressores de cães e de cavalos, sob a vergonha pública da nova lei inglesa. Mais de um século depois, o flagelo dos animais continua comprovando que, de fato, o ser humano pode ser o mais cruel entre os bichos. Chamado por Nietzsche de “o cavaleiro solitário”, consta que Schopenhauer vivia na companhia de um cão, cujo sugestivo nome era Atma (alma do mundo). Ele e seu cachorro lançaram, desde seu tempo e seu lugar, um desafio que ainda é nosso e que mobiliza cada vez mais gente ao redor do mundo.

 * Confira outros textos do filósofo em seu blog com J e no Bem Paraná em suas participações no blog  Maluco Beleza  

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